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Santa Bárbara, Lisboa, 4 Setembro

Não queria acreditar, apesar de todos os sinais: a «nossa» distribuidora anunciou a insolvência, ao fim de meio ano com atrasos nos pagamentos, entre outros disfuncionamentos. Nada de novo, mas uma navalhada nas costas, embora pouco tendo de original na história universal da infâmia, mal a ponta e mola escreve ferida, dói como se fosse a primeira vez. O mundo volta a parar. Assim tem acontecido demasiadas vezes este ano, estes últimos meses. Talvez a vida se resuma a este pára-arranca. Quando putos, o tempo estende-se quando acontece a infância. Agora, explode com a desgraça.

Em minutos, experimentei o arco-íris das sensações básicas e também algumas combinações mais coloridas. Nem sei se comecei pelo desânimo, mas temo que esse ande sempre no bolso. O negócio da edição deixou-se ficar parvo, também no sentido latino. Como em tempos argumentava para me dissuadir esse grande editor e saudoso amigo, José Alexandre [Magro], o editor está entalado entre a ditadura do mercado e a ansiedade extrema do autor. Não dará nunca combate capaz a um nem resposta cabal ao outro.

Habitamos país onde o livro e a leitura valem pouco mais que beatas intenções, as boas livrarias não pagam e as grandes entendem que os livros devem todos ser best-sellers. Os editores, sentados no vetusto sofá do cada-um-por-si, foram entregando as armas cedendo à avassaladora lógica de um fazer negócio que esmaga quem produz para engordar margens insanas de lucro aos que vendem. E continuam tolhidos na forma de articular novas respostas e, sobretudo, maneiras de interrogar as necessidades, talvez mesmo de as criar.

O Estado, apesar de esforços e tentativas por avaliar devidamente, não foi capaz de estimular a leitura, de maneira a enterrar de vez a herança do outro dito Novo. Pior, não assegura a regulação de um mercado esquizofrénico. Depois, ao contrário de qualquer país que estime a sua cultura, deixou de alimentar as belas bibliotecas que semeou com os autores nacionais, de ontem ou de hoje. O governo liberal do Reino Unido compra milhares de exemplares de títulos de autores contemporâneos para os distribuir pelas bibliotecas públicas. França tem um completíssimo programa de apoio à edição. Até os Estados Unidos da América, ao contrário do que se apregoa, investe na sua memória futura. O livro, ainda que objecto de consumo, mantém uma aura que lhe elimina o valor pecuniário.

O livro não custa dinheiro e pode ser oferecido, reclamado mesmo, com inesgotável generosidade e sem ponta de vergonha. Em França, há uns anos, as pequenas editoras deixaram de oferecer os tradicionais exemplares para crítica e explicaram as razões: sobrevivência e pedagogia. Se nem os que precisam do livro como ferramenta os compram… O ofício dos jornais, sobretudo estes por causa dos seus pergaminhos, mas estendamos à galáxia mediática, relegou o debate e a crítica literária para um cantinho do lazer, cada vez mais ocupado com mega-festivais tornados lugares únicos para a experiência do ser e do pertencer. Acabei na raiva, que logo foi domada pelas necessidades práticas.

Nem desmarquei o encontro que tinha para preparar o lançamento de mais um livro de contos do Ricardo [Ben-Oliel]. Nisto me devia concentrar, na leitura do novo romance do Paulo [José Miranda]; em empurrar para a gráfica os três títulos três da nova colecção de poesia, Mão Dita; em finalizar a maqueta do inacreditável Arno Schmidt; em gritar com o Valério [Romão], por causa do atraso no fecho da trilogia; em acertar os detalhes do próximo José Luiz Tavares, a nossa primeira co-edição internacional; em afinar a nossa voz no Festival Silêncio, que animará o Cais Sodré, no final deste mês; em confirmar os momentos abysmo no Folio, de final de Outubro.

Não, vou ter que procurar nova distribuidora; garantir que os títulos, pelo menos os mais recentes, regressam rapidamente às livrarias; retirar o mais depressa possível a minha fortuna do armazém da distribuidora, por via das dúvidas e das manigâncias; ir em busca de apoios concretos; pedir paciência aos credores, começando pelas gráficas, das parceiras mais sacrificadas no estado das coisas; tranquilizar os autores e os colaboradores, explicando com aguda racionalidade que a fuga para a frente nos permitirá atravessar o mar revolto; aguentar as condescendentes pancadinhas nas costas, as piadas acre-doces, os bem-te-disse, as cruezas que desabrocham, perfumadas, como rosas pela manhã, os silêncios de chumbo.

Com a revolta tranquilidade do mar, vão chegar, bem sei, os gestos solidários. Neles assenta a convicção de que este abanão, coincidente com o sexto aniversário, pode bem marcar uma nova fase. As ideias fervilham, apesar do cansaço de bolso. Na minha adolescência militante, a chama nascia sempre da palavra e era comum mergulharmos na etimologia em busca dos sentidos que nos impeliam. O mano António [de Castro Caeiro] está onde eu queria estar pelo que não posso, por ora, provar dos sucos inesperados que sempre consegue retirar da tradição. Arriscarei pensar que a crise surge dos meandros da medicina para dizer dos momentos decisivos, o exacto instante que a vida vencia a morte ou, pelo contrário, a decisão tomada era definitiva. Antes da economia nos encher a vida com ela, derivaram outros caminhos, que chegaram, por exemplo, ao crisol: o cadinho que se leva ao lume para purificar o ouro. Talvez se aplique.

Falando de sinais. O logotipo da abysmo possui grande biodiversidade, mudando consoante a interpretação do ambiente por quem concebe ou ilustra a obra. Para melhor estabelecer relações entre o que se passa naquelas páginas e os olhares de quem lhes toca. E o espírito da editora. Procurei aquele que melhor reflecte o momento. O mano Luís [Afonso], há seis anos, desenhou um homem a atirar-se para o abysmo do ípsilon. O Luís Talklin, que desenhou a colecção de contos, põe uma figurinha a subir o braço do y, letra que, afinal, centro de todas as leituras. Podiam ambos ser, golpe e contragolpe. Só que o Sal Nunkachov levou o jogo mais longe e ilumina o caminho: uma bifurcação pode transfigurar-se em fisga e atirar-nos longe.

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