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Horta Seca, Lisboa, 31 Julho

Acontece com estranha frequência que uns dias se fazem buraco negro e sorvem o à volta. Julho baralhou-me os dias, os calendários, as agendas. De que servirá um diário, se os passos da escrita andarem à volta dos mesmos dias? Jeanne Moreau morreu, mas continuará a flâner, a deambular entre carros, no avesso das montras, à chuva, na pista de dança, de novo em cidade outra, nas teias de aranha do desejo, no cabaret fantasmagórico. Jeanne será mais da luz, doravante. Arrume-se isso no óbvio, aceitemos a graça de viver em tempos de fluxos ininterruptos e acessíveis. Revisitaremos as imagens sempre que houver necessidade de dar de beber à melancolia. Avancemos oceano dentro, o da voz. Jeanne dizia poesia, de Vinicius e de Genet. Jeanne cantava Duras e Norge, poeta du pays plat, que fará link inesperado a entrada mais adiante. E que bem cantava e dizia a morte, le vrai scandale. Os buracos negros absorvem de nós maturidades e deixam-nos na seca adolescência, indecisos apenas com vontade de ir, escusado será dizer que sem para onde ou por quê. Vai daí gravei cortante cassette com a playlist para riscos de ponta e mola no mapa.

Acerte-se princípios, desde que difusos, com Le Blues Indolent, de Cyrus Bassiak, aqui sem o grão da voz, mas oferecendo sensualidades de allumeuse. «Je suis indolente, mes yeux sont vagues, vagues, vagues/ Et je balance mes hanches vaguement/ Mes lèvres remuent, fardées de mots si vagues, vagues/ Les passants hésitent en me croissant/ Le temps maudit toujours les presses/ Le vent si lent pour celle qui attend/ Le temps me berce de paresse/ Alors je chante sans fin ce vague chant». Os passeantes cruzam-na, apesar da hesitação. O tempo amaldiçoa os apressados. Para onde seguir se nos perdemos já, se somos sem paisagem ou amor. Sigamos imóveis com India Song, de Marguerite Duras, hino dos sem rumo. «Chanson,/ Toi qui ne veux rien dire/ Toi qui me parles d’elle/ Et toi qui me dis tout/ Ô, toi,/ Que nous dansions ensemble/ Toi qui me parlais d’elle/ D’elle qui te chantait/ Toi qui me parlais/ d’elle/ De son nom oublié/ De son corps, de mon corps/ De cet amour là/ De cet amour mort.» A canção que nada quer dizer diz afinal tudo e na voz habitam já as profundezas. Anda por aqui desejo e morte. Hesito. Devia talvez ter saltado antes para a Chanson a tuer, de Norge, onde noto alegria infantil no jogo das facas que desemboca em frieza de estátua, aspirando a homicídios perfeitos. «Plante ce couteau, minette/ Mais droit au coeur s’il te plaît/ La besogne à moitié faite/ Et les meurtres incomplets/ Font horreur à l’âme honnête/ Qui n’aspire qu’au parfait/ Qui n’aspire qu’au parfait/ Parfait, parfait, parfait». A lâmina procura um coração ao ritmo de chansonnette o mesmo com a noite esquecerá o crime. É chegada a hora de Genet, em tom esgaçado e pesado, sem perder a clareza da folha da navalha: «Rocher de granit noir sur le tapis de laine/ Une main sur sa hanche, écoute-le marcher/ Marche vers le soleil de son corps sans péché/ Et t’allonge tranquille/ Au bord de sa Fontaine». Granito sobre lã, amor que fere. Espelho desse outro, que Jeanne sussurra em francês sincopado, e aqui espraio no original de Vinicius: «Oh, minha amada/ Que os olhos teus//  São cais noturnos/ Cheios de adeus/ São docas mansas/ Trilhando luzes/ Que brilham longe/ Longe nos breus// Oh, minha amada/ Que olhos os teus// Quanto mistério/ Nos olhos teus/ Quantos saveiros/ Quantos navios/ Quantos naufrágios/ Nos olhos teus». Vai longa a caminhada, por décadas e sítios de nunca ficar. Não precisamos de final, sendo a vida cabaré, outro número se fará súbito. Chamemos Oscar Wilde, mestre de conclusões, para anunciar o essencial em colorido arrastado e espesso, uma prece, um apelo. Uma pergunta ecoa (a imagem é de Querelle, o filme de Rainer Werner Fassbinder): onde vais? «Yet each man kills the thing he loves,/ By each let this be heard,/ Some do it with a bitter look,/ Some with a flattering word,/ The coward does it with a kiss,/ The brave man with a sword!/ Some kill their love when they are young,/ And some when they are old;/ Some strangle with the hands of Lust,/ Some with the hands of Gold:/ The kindest use a knife, because/ The dead so soon grow cold./ Some love too little, some too long,/ Some sell, and others buy;/ Some do the deed with many tears,/ And some without a sigh:/ For each man kills the thing he loves,/ Yet each man does not die.»

Horta Seca, Lisboa, 12 Agosto

Vão surgindo reacções, pouco menos que entusiásticas, ao início da publicação das Obras Completas de Fernanda Botelho, que iniciámos com «Esta Noite Sonhei com Brueghel». Ansiávamos por este momento, que circunstâncias várias nos fizeram adiar muito para além do razoável. Isto apesar do apoio incondicional da família, sobretudo da Joana [Botelho], a neta que assumiu a tarefa de avivar memórias, organizar espólio, recuperar a casa da Vermelha, convocar novos leitores, enfim, um infindável número de tarefas que tornam exemplar o tratamento que vai dando à obra. Sabemos bem que as famílias se comportam muitas vezes como se estivessem em contos do Valério [Romão], algures entre a indiferença alarve e a cupidez olímpica. Também a Paula Morão, e o seu Centro de Estudos Comparatistas, se juntou a nós entusiasticamente no afã de trazer à tona uma voz oriunda das profundezas, mas que não precisa de nelas ser enterrada.

Muitas razões justificaram o começo por aqui, pois nada nos obrigava à cronologia habitual. O forte carácter autobiográfico, as correspondências com a imagem, no caso a pintura de Brueghel, a reflexão sobre a escrita, a lúdica complexidade da estrutura, o recorte a navalha dos protagonistas, as cidades (belgas) como personagens, o olhar teatral sobre o estranho mundo dos afectos, a gloriosa potência do desejo, o desenho do feminino, a luxúria da linguagem e um uso raro dos diálogos, enfim, o conjunto serve bem de introdução a uma obra cheia de recantos, tantas vezes obscuros e desafiantes. Retiro mais gozo desta leitura, confesso, por culpa do veneno. A Isabel Lucas, no Público, afinou pelo diapasão da ironia, que não deixa de ser um dos cimentos, mas creio que a Fernanda Botelho afia um pouco mais o olhar e a palavra. Vai um exemplo? «A gente de Brueghel ostenta com desfaçatez a sua vocação primária para o vício incorrupto, tanto quanto para um casto e regozijado amor à terra pródiga — mas que significa isto, afinal? Talvez signifique desperdício, muito simplesmente. Muito simplesmente desperdício! Mas onde viveu esta gente, em que galáxia, em que mundo? Confesso que aquele homem gordo de chapéu à banda, com pernas em forma de presuntos esticados e mangas enfoladas para arejar o suor, confesso que me perturba, a mim, que fossilizei as minhas aventuras mentais em tipos escorridos, apertados em blue-jeans e com barba mal despontada. Detesto aquele homem gordo, mas ele perturba-me. Não sei o que pense dele, certamente nada de lisonjeiro, porém profundamente marcante. Detesto-o (ou assim o julgo), mas ele excita-me, ou talvez seja apenas fascínio o que sinto, declaradamente ao nível mais baixo da minha vileza humana.»

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