O realizador chinês mais corajoso de sempre: Parte I

Chama-se Wang Bing e poucos o conhecem.

Muitos dos realizadores de documentários começaram como fotógrafos, Wang não é excepção. Diplomado pelo Departamento de Fotografia da Academia de Belas Artes Lu Xun, trabalhou para produções televisivas até 1999, altura em que filmou o seu primeiro documentário Tiexi Qu, West of the Tracks.

Tiexi é um imenso complexo industrial situado no Nordeste da China, na província de Shenyang. Construído durante a ocupação japonesa, foi restaurado com o apoio dos soviéticos após a 2ª`Guerra. Era o maior centro de manufactura do país. O período entre o pós-guerra e os anos 80 foi florescente, as fábricas no seu conjunto empregavam mais de um milhão de trabalhadores, mas, à semelhança de outras indústrias geridas pelo Estado, começou a colapsar a partir do início dos anos 90.

O documentário de Wang Bing mostra-nos a inevitável morte lenta do obsoleto sistema de manufactura. Bing filmou detalhadamente, entre 1999 e 2001, as vidas dos últimos operários, uma classe a quem foi prometida a glória durante a revolução chinesa. Esmagados pelas mudanças económicas, estes operários surgem como heróis comoventes neste épico moderno, que tem a duração total de 551 minutos, mais de 9 horas!

Reconhecido como “um dos melhores documentários chineses de sempre”, o filme é um retrato hipnotizante de uma sociedade chinesa em transição. Levou três anos para ser filmado.  Devido à sua longa duração, está dividido em três partes.

Parte 1 Ferrugem (244 minutos)

A câmara capta os derradeiros trabalhadores da fundição que laboram no único forno que resta, durante as suas actividades diárias. A falência parece ser inevitável e, desde o interior da fábrica até aos espaços de convívio, Wang Bing traça um retrato fascinante destas vidas moribundas.

Parte 2 Os Remanescentes (178 minutos)

Rainbow Row é uma favela construída em 1930, para albergar os trabalhadores do distrito de Tie Xi. Esta área era conhecida como a Cova das Criadas. Actualmente os seus residentes enfrentam o desemprego e salários em atraso.

A câmara acompanha o dia a dia de algumas pessoas; um jovem que após uma extração da Lotaria, procura bilhetes eventualmente premiados que possam ter caído ao chão; lixo e neve empilhados nas ruas geladas; jovens no mercado Cisne Feliz a pensar em esquemas para arranjar dinheiro e namoradas; crianças a recolher latas enquanto uma idosa assa tofu; jogadores de mah-jong que no Verão se reúnem no exterior das suas casas … Entretanto ficamos a saber que o bairro vai ser demolido para dar lugar a um condomínio privado. Toda a gente vai ter de sair dentro de um mês. Gradualmente o bairro esvazia-se, à medida que a neve o vai cobrindo.

Parte 3 Os Carris (132 minutos)

Um sistema de carris proporciona a circulação de vagões que transportam matérias primas e bens de consumo de, e para, Shenyang. A neve que não pára de cair e o fumo eterno criam uma atmosfera opressiva. Os sinais de vida são escassos à medida que o comboio avança através deste labirinto de fábricas praticamente abandonadas. Os trabalhadores cumprem as suas funções de forma mecânica, matando o tempo com mexericos, cartas e cigarros. Uma das suas maiores preocupações é armazenar carvão para poderem aquecer as salas geladas. Toda a gente teme o futuro, embora a Primavera tenha trazido algum alívio depois do penoso Inverno. O Outono sucede ao Verão. Em breve estamos na noite de Fim do Ano. Um pequeno fogo preso é ateado junto à casa e, lá dentro, os amigos bebem e conversam sobre amor e casamento. E toda a gente ajuda a fazer uma tachada de dumplings.

West of the Tracks deu início a uma nova era, a de um cinema lento e intimista. Quatro anos mais tarde, em 2005, Wang Bing filmou o documentário He Fengming. Mas esse fica para a próxima, ou seja, a Parte II desta crónica.

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