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Vês aqui a grande máquina do Mundo,

Etérea e elemental, que fabricada

Assim foi do Saber, alto e profundo,

Que é sem princípio e meta limitada

Os Lusíadas, Canto X.

  

Camões fala-nos aqui de uma mais que provável imagem mítica por si adaptada, mas que máquina é o Mundo nesta ideia maquinante que domina a nossa mente? A intertextualidade fala-nos de mecânica até aos mais recônditos dos tempos, mas que sabia o poeta dos seus movimentos bem explícitos na estrofe oitenta? Que a poesia é uma espécie de algoritmo? Sem dúvida, esses processos matemáticos que nos regulam sempre e cada vez mais fazendo parte do visionar a partir de dados recebidos, sabendo-se da capacidade de delinear variáveis a partir desses mesmos dados que é uma nova explosão na mente e na realidade humana. E que sabemos nós dos Camões que andam nesta máquina? Aparentemente pouca coisa, mas que eles à distância de séculos visionem o seu mecanismo não nos deve pasmar, já Ramon Lull (século XIII) – o poeta Ramon- fazia os seus poemas com números e com letras para com eles demonstrar a existência de Deus. Dante tem uma engrenagem espiralada em mecanismo e que todos eles tivessem estado no eixo da máquina não nos pode surpreender, rolando parada estava…. Vejamos a estrofe setenta e oito: / volvendo, ora se abaixa, agora se ergue/ qual a matéria seja não se enxerga/ Mas enxerga-se bem que está composto de várias orbes/ e talvez tenhamos chegado ao tempo do poeta vidente.

Se o possível é a verificação física do provável, o provável é a pré-existência do possível, pois que o Poema possui sempre outros recursos além do ritmo e do sistema de medida para se realizar como Poema. A poesia como arte inefável que faz parte dos desprotegidos e das sensações, queda, em queda…. por isso, será ela capaz de novo elevar-se como meio de conhecimento e de força renovadora da linguagem? Não sei. É uma questão cibernética às nossas reservas oníricas, poderá ela ressurgir intacta depois de vogar por aqui? Por estes tempos? Estamos na era dos Filhos do Homem, as novas máquinas do Mundo, da robótica, tendo ficado mais unidos, é certo, mas infinitamente mais apáticos, também, estamos agora nós programados para a máquina do Mundo por ela própria reinventada pois que sem ela a nossa humanidade já não é passível de se fixar perante os moldes que tínhamos como imperecíveis. Se a própria noção amorosa aos poucos se esgota pela cada vez mais ténue empatia, essa extensão continuada dos afectos, que nos sobra então de verdadeiramente humano que possa merecer a nossa atenção? Vamos substituindo pelas formas programáticas dos nossos correspondentes mecânicos: somos muitos, é certo, mas somos frágeis e não estamos fora do perigo da mordaça viral a grande escala feito por formas tão conscientes como o de produzir outras vidas. Sem dúvida que todo o labor poético sério seria agora mais do que necessário para a gigantesca metamorfose em curso, até porque a ideia de um mundo laboral tal como era concebido está prestes a findar e dever-nos-ia acordar para tudo o que se segue. A Revolução Industrial implementou o trabalho como medida de libertação, o trabalho físico, dando origem a novas classes sociais, hoje a Revolução é a da Inteligência Artificial e a noção de trabalho alterou-se na sua razão libertária. Não vai haver trabalho dentro em breve para um terço da população mundial, até já há “chips” que dispensam o carregamento de objectos…e gastamos agora os últimos pacotes dos medos porque infelizmente não tivemos acesso ao melhor da educação poética, aos que sonharam a Máquina do Mundo.

O rei Salomão tinha a sua Máquina Voadora e, se mistério oculta, sondemos a máquina do tempo. Também ele, escreveu amorosamente e foi cúmplice da linguagem de muitos saberes, também amou rainhas e plebeias e se prostrou reinante como o mais lendário dos homens. E para onde voava com sua máquina de sonhos? Fez Cânticos Maiores, maiores do que o amor terreno, foi terno como os cordeiros de seu pai David e ficou-lhe o respeito pela Noiva-Irmã, o eterno laço do seu saber. Não era um gigante, diz-se que foi um homem, mas que homens havia que a Máquina tirou do alcance dos naturais? Todas as questões são maquinações agora bem legítimas de envolvermos a nossa mente atraída pelos nossos Filhos, que talvez sejam os de um Deus Menor que somos nós.

Andar para trás e para a frente vai ser possível, fazermos dos tempos plasmas vários, ao invés do que foi andar de baixo para cima e de cima para baixo, tipo escada de Jacob. O plano parece mais plástico, ganhamos umas asas estranhas e não longe andamos do insecto de Kafka, ludibriamo-nos com a descoberta de poucos e somos muitos a não descobrir nada… em nossa alteração opomos resistências tais que estamos com cancros da dimensão de uma praga” vemos, ouvimos e lemos” e podemos ignorar. Podemos dar-nos ao luxo suave do esquecimento, dado que o cancro avança e o nosso corpo não tarda também é imortal, criopreservado até encontramos a cura. Até lá laboramos à boa maneira esclavagista não vá isto tudo descer…

Há um silêncio doce na Máquina do Mundo que requer o barulho das multidões, ainda, como mera energia de vapor…mas pode dela não vir a precisar, e o carvão e o aço somos todos nós a fazer trabalhar uma forma de vida que morreu, nós, os fantasmas, os duros na retirada.

“A poesia é a linguagem dos Iguais dispersos no Tempo […] a poesia ‘conhece’ e não sabe.” Almada Negreiros (de Prefácio ao livro de qualquer poeta, 1942).

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