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O livro Lisbon Blues foi publicado pela primeira vez em 2009, no Brasil, e reeditado em 2015, em Portugal, pela Abysmo, com mais três poemas e ilustrações de Pierre Pratt. O livro está dividido em três partes: “Mapas”, “Derivas” e “Último Cabo”, com um primeiro poema a servir de homenagem “À Memória de Hélder Gonçalves”.

Contrariamente ao último livro que lemos aqui, Manucure, de Rosalina Marshall – em que o título do livro remete para um poema de Mário de Sá-Carneiro e os títulos dos poemas são todos eles versos ou partes de versos desse poema, impondo que a leitura não se afaste desse farol – neste livro de José Luís Tavares a palavra “blues” no título do seu livro não concede de imediato uma evidência ao caminho da nossa leitura. De qualquer modo, e porque o título vem em inglês, “Lisbon Blues”, podemos arriscar que o poeta quer invocar essa música negra norte-americana, tão diferente, nas suas origens, da musica tradicional de Lisboa, o fado. E parece-me estar aqui, nesta diferença entre blues e fado, a chave para a leitura deste livro do poeta de Cabo Verde, radicado em Lisboa. 

Sem dúvida, trata-se também de um livro sobre Lisboa, não apenas pelo título dos poemas – “Rua do Sol ao Rato”, “Madrugada do Chiado”, “Balada do Cais do Sodré”, “Postal do Intendente”, etc. – mas os próprios poemas remetem para um encontro entre alguém que vem de fora, não só de Lisboa, mas também do país, da cultura deste país, e a cidade retratada. A chave do blues, ao invés do fado ou de uma qualquer expressão musical de Cabo Verde (a coladeira ou a morna, por exemplo), torna-se assim ainda mais pertinente, até porque não há em Lisboa qualquer tradição de blues, qualquer tradição no culto dessa expressão popular norte-americana e negra. E a palavra “negra” é aqui a chave. O blues não é apenas uma expressão musical com raízes negras, mas com raízes negras de origem escrava. Independentemente de a música de Cabo Verde vir ou não de escravos, a verdade é que para um europeu ela não é de imediato ligada a esse facto, do mesmo modo que o blues. Além de que, do ponto de vista musical, há muito mais influência europeia na morna ou na coladeira, por exemplo, do que há no blues. José Luís Tavares usa o blues como metonímia de preto, de africano, de alguém que é diferente ou olhado de um modo diferente, pela sua cor, pela sua raça. Escreve ele, logo no primeiro poema do livro (após o poema inicial, à parte, de homenagem), “Pela Mão De Cesário”: “pobre Cesário negro (…)”. Estabelecendo assim, e logo desde o início, uma ligação àquele que cantou a cidade de Lisboa como ninguém – como já Dante o tinha feito em relação ao poeta Vergílio – e também a si mesmo, negro, e por isso mais afastado dos outros que o poeta do “Sentimento dum Ocidental”. Porque a marginalidade mais dura não é aquela que se escolhe, quer seja pelo ópio, quer seja pela aguardente, quer seja pela pedofilia, mas aquela que nos é imposta. A história do blues é a história de marginalidades impostas, pelo menos até finais dos anos 60 do século passado (provavelmente até muito mais tarde). E no início deste novo século, escreve assim Tavares, na última estrofe de “Santa Catarina Outra Vez”:

“Detesto negros e turistas”,

disse o homem debruçado

no varandim da tarde.

Eu vou afundar-me no transumante

abismo dos póstumos abraços.

Por outro lado, a própria poesia de José Luís Tavares traz algo de marginal, não apenas na temática, mas principalmente na retórica, que nos parece a cada esquina uma poética de outros tempos. O verso é cuidado, limado, mesmo quando calca o dedo na nossa ferida, ao terminar o poema “Litania Para Um Domingo De Lisboa”: “o domingo é um tropo esvanecendo-se / num débil rufar de cinzas.” Ou mesmo quando esbofeteia, como é o caso do poema 16, da segunda parte do livro “Deriva”:

Quando é o rosto que recua,

como pode o delírio (tremens) curar-se

com a ginjinha, baixa ciência

que o hábito ergueu em lei?

Ninguém para contar do longo inverno

corrido sobre a alma, afeiçoado o corpo

ao umbral dos instantes em que um sol

baldio escurece a pele.

De vez em quando o fungar de um bairro

acordava-me para a forca da existência,

mas, perdoai-me, altas musas, eu soçobrei

a destinos mais prosaicos – algum álcool,

rasteiros versos onde tinha por (mau) costume

misturar deus vómito ressaca.

Agora cresceu-me esta pedra sobre o rim,

bebo muita água e pouco gin (é fácil ser-se virtuoso

quando a morte vela a dois haustos de distância);

demasiado tarde, dizem as cartas, nem futuro

ou redenção, tolo rapaz que acreditaste na arte

e agora vês o paraíso escurecer

sobre os teus pobres trinta anos.

Brilha ao longo de todos os poemas de José Luís Tavares um metal de outros tempos, palavras que nos aparecem como se de amigos há muito desaparecidos se tratassem. É, sim, também um livro revivalista. Um livro que usa a palavra como resistência. Mais: que teima em deixar a palavra cair; a palavra que ele pretende precisa, porque, escreve “(…) Não havia / outra palavra para esse naufrágio (…)” (“Castelo de São Jorge”, p. 34).

Há ao longo destes poemas uma nostalgia de um outro tempo, de um tempo ao mesmo tempo nosso e que nunca o foi, o tempo em que a poesia era acima de nós, quando tínhamos que subir as escadas para procurar palavras, para lhes abrir o sentido. O tempo em que o mistério chegava até nós pelo incompreensível de um verso, devido a uma ou mais palavras que nos obstruía o caminho. Este livro de José Luís Tavares, que além de percorrer a cidade de Lisboa, as suas paisagens e os seus personagens, à laia de Cesário – e de se encontrar com outros poetas, Pessoa e os seus heterónimos, Armando da Silva Carvalho, Alberto Pimenta –, encontra-se também com esta encruzilhada de tempos, em que se sente perder tudo aquilo em que mais se acredita “(…) como doeu a crua /  evidência de que a poesia tinha morrido.” (p. 83) E a nostalgia que sente no livro, e que é simultaneamente em relação ao tempo da nossa vida, ao tempo do mundo e ao tempo da poesia, surte efeito precisamente pelo uso quase arcaico da linguagem. É um livro que, em toda a sua extensão, vai, como ele mesmo escreve “do ombro à ventania” (p. 63). Pela palavra, pela métrica, pela nostalgia. Terminemos com a voz do poeta, no poema 19, da segunda parte do livro, “Deriva”:

Dispostos à morte, essa faca que o dia

escurece, embora de canções falássemos

na tarde de mormaço a que ainda hoje

associo o vinil das primeiras lágrimas.

Homem minado de dúvidas (assim perdi deus

amigos sinecuras) como doeu a crua evidência

de que a poesia tinha morrido.

(Disse-me o alberto pimenta que fora nero

o assassino.)

Agora rasuro os mínimos sinais que atestem

que na verdade andei por tardes ofegantes

a encher cadernos com essa obscura mistura

de acaso e cálculo.

E se a vida também não for nada disto

– a creche, os filhos, os juros algozes,

a forca do amor, domingos de manhã

em que bate a ressaca, a sabedoria

que só chega depois do erro?

Eu podia ter perguntado às ciganas do parque;

saber recusar, porém, todo o consolo,

eis o que poderia salvar destes vicariantes dias

em que seitas flibusteiras nos intimam

à felicidade. Mas há demasiadas canções

que nos fazem desastrados aprendizes da ternura.

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