PARTILHAR

Alguém, que antes residia em Hong Kong, dizia-me gostar de vir a Macau desanuviar mas agora, que vive em Singapura, nem tal lhe passa pela cabeça. Também eu me rendo ao paradoxo de agora ir para Hong Kong à procura de sossego quando há não muitos anos sentia precisamente o contrário.
A culpa é do turismo em excesso. Mas podemos fugir dele? Podemos nós evitar ser turistas? A resposta parece-me clara: não. Mas talvez.
A propósito do sofrimento local, que seguramente virará um caso de estudo clássico sobre tudo o que não fazer quando a opção é turismo, mas também pelo discurso recente do vice-primeiro ministro chinês, Wang Yang.
Defendeu ele esta semana numa reunião com a Organização Mundial de Turismo (OMT), a necessidade de promover mais o turismo pelo mundo fora na expectativa de tirar mais gente da pobreza. Aparentemente, ele tem razão porque o turismo faz isso mesmo e não duvido das suas boas intenções. Mas de boas intenções…
Por outro lado, a tendência para trabalharmos menos é clara.
Num futuro não muito longínquo, o previsível desemprego maciço motivado pelo advento da inteligência artificial (IA) vai implicar muito tempo livre.
Para os mais cépticos, a firma norte-americana de advogados Baker & Hostetler anunciou recentemente a aquisição de um sistema AI que vai substituir 50 advogados de uma assentada… mas há mais exemplos.
Por outro lado, em vários países europeus discute-se seriamente a instituição de um rendimento universal garantido para resolver os imbróglios dos sistemas de segurança social. Casos disso, a Suíça, a Finlândia, a Holanda e a França, no Reino Unido há propostas e na Alemanha o assunto tem vindo a ser cada vez mais debatido.
Na óptica dos defensores da ideia, isso permitirá um verdadeiro apoio social aos carenciados proporcionando-lhes meios para questões básicas de sobrevivência como alimentação, vestuário e alimentação e, inclusivamente, a possibilidade de poupança, de eventual geração de novos negócios e, claro, de lazer. Na Suíça, a proposta é de 2,270 euros por mês. Ok, é a Suíça.
Esta é a motivação actual mas a IA só vai confirmar a tendência.
O problema do turismo, ou melhor da adaptação de locais para turismo, como o vice-primeiro ministro chinês pretende fazer nas zonas mais deprimidas do país, é arruinar de uma assentada com modos de vida, culturas e mesmo com a sustentabilidade ecológica dos locais, raramente preparados para as invasões dos exigentes turistas.
O caso da aldeia de Lai Chi Vun, em Coloane.
Nos quesitos dos moradores destaca-se a manutenção da sua forma de vida. Transformar o local num pólo de atracção turística vai satisfazer a sua ambição? Obviamente, não.
Para servir a clientela ávida de “selfies”, o modo de vida da aldeia vai alterar-se drasticamente. Poderão ver os estaleiros recuperados, e até as casas, mas não o modo de vida.
Na sua alocução, Wang Yang também urgia os países a facilitarem os processos de obtenção de vistos. Não lhe consigo tirar a razão. Precisamos de destruir os obstáculos aos trânsito, e isso vai ser cada vez mais premente. Mas o turismo não vai salvar as aldeias com que ele, e bem, se preocupa.
Vai dar-lhes de comer no imediato mas não lhes vai dar futuro.
Não será preferível um rendimento universal garantido, reais possibilidades de escolha, ao presente envenenado do turismo?
O turismo é inevitável, mas a aposta na criação de infra-estruturas para as massas, não só elimina os espaços de fuga como gera impactos nocivos. Resolver uma doença social com uma pílula carregada de contra-indicações não é bom senso.
Além disso, urge educar os turistas a viajar, esses seres exigentes e prepotentes, essas manadas inconscientes e avassaladoras. Progressivamente, a diferença entre turista e viajante é cada vez mais notória.
O visitante tenta não alterar o que visita, não berra por uma cerveja gelada e contenta-se com uma pedra de gelo, nem exige quartos com ar condicionado em bangalôs junto ao mar. O viajante procura a diferença, a partilha, o desfrute das incongruências até, e sujeita-se ao que lhe dão, ao que existe.
O turista vai para fora como se estivesse cá dentro. Quer o destino igual à origem, incapaz de se adaptar, exige as mordomias todas. Altera, subverte, prostitui.
O turismo aniquila a naturalidade das comunidades, não no sentido da manutenção de primitivismos, mas no do fluir da cultura local. Ir a Benidorm ou a Pattaya, a Albufeira ou a Acapulco é cada vez mais a mesma coisa.
Quem conhece Lisboa sabe do que estou a falar, como sabem os que conheceram Macau de há 15 ou 20 anos.
Não se pode acabar com o turismo, mas é crucial entender que não constitui uma solução em si próprio.
O turismo é como a nitroglicerina. Mal manipulado e a coisa explode. Os exemplos estão aí, às catadupas.
Prefiro rendimentos universais garantidos, prefiro ouvir falar em formas criativas de promoção de uma distribuição de riqueza mais eficaz, prefiro todas as soluções que dêem opções às pessoas e não receitas requentadas que, no longo prazo, em nada contribuem para melhoria geral da forma de vida no planeta. Nem para o próprio planeta.
Precisamos de desanuviar, não de ofuscar.
O turismo é como o xarope, deve ser tomado com conta, peso e medida. E se a tosse é crónica, como as zonas deprimidas o são, o turismo, tal como o xarope, não cura. Apenas cria dependência.

Música da Semana

David Bowie (“Life on Mars?” – 1971)

“Sailors fighting in the dance hall
Oh man!
Look at those cavemen go
It’s the freakiest show
Take a look at the Lawman
Beating up the wrong guy
Oh man! Wonder if he’ll ever know
He’s in the best selling show
Is there life on Mars?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here