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Àmedida que vamos ficando crescidinhos, tenho a sensação que em vez de percebermos mais vamos percebendo cada vez menos. Não sei se sente o mesmo mas comigo é o que se passa. Não vislumbro se é fruto de alguma condição somática ainda não diagnosticada o que, claro, me preocupa, por isso resolvi desabafar esperando que talvez você que agora lê esta minha confissão me possa dizer se estou, ou não, a perder o juízo. Ficam aqui um resumo das (muitas) coisas que não compreendo. Neste mundo e nos outros.

Não compreendo porque o Chefe do Executivo da RAEM ainda vai pensar num plano para a diversificação económica de Macau quando isso já foi pedido por Wen Jiabao e por Hu Jintao.
Não compreendo como se pode incrementar a diversificação económica em Macau e cortar os orçamentos dos departamentos do governo que, como se sabe, é o principal motor da economia local.
Não compreendo o que o Governo de Macau entende por diversificação económica.
Não compreendo como o governo de Macau só depois do anúncio das milhas marítimas vai pensar num plano para as águas territoriais. Terá sido uma genuína surpresa de Natal?
Não compreendo a draconiana lei do fumo na cidade do lazer quando, ainda por cima, aparecem cada vez mais opções alternativas (e melhores) nos países vizinhos sem proibições cabotinas como esta.
Não compreendo como a mesma cidade do lazer em vez de fechar ruas ao trânsito e de criar alternativas de transporte não poluente prefere aumentar os impostos sobre veículos, cavando mais divisão social e mantendo um mau ambiente.
Não compreendo como Macau ainda não tem autocarros amigos do ambiente.
Não compreendo porque há tantos autocarros parados com o motor ligado apenas para manter o motorista fresco à custa dos cidadãos que têm de levar com mais diesel pelas narinas acima.
Não compreendo porque a cidade do lazer não tem equipas para investigar os veículos poluentes e os motoristas encalorados como tem para fiscalizar os bandidos dos fumadores.
Não compreendo porque a zona nobre de Macau é dedicada ao estacionamento de autocarros.
Não compreendo porque o plano pecuniário de Macau é atribuído de forma igualitária e não ponderada.
Não compreenderei se o governo não disser o que vai fazer em termos de desenvolvimento económico e social com os 223 milhões que sobraram do apoio pecuniário.
Não compreendo como Macau continua a fazer planos dia a dia e ainda não conseguiu imaginar uma cidade para o futuro.
Não compreendo como o Chefe do Executivo da RAEM pode nomear para a AL indivíduos como Fong Chi Keong e não responder politicamente pelas barbaridades do sujeito.
Não compreendo a plataforma Macaense para a China e os países de língua Portuguesa.
Não compreendo como foi possível o canídromo ver a licença renovada.
Não compreendo porque é a marijuana considerada medicamento nuns países e droga proibida noutros.
Não compreendo a guerra contra a droga.
Não compreendo a relação entre os escândalos bancários em Portugal e o número de arguidos.
Não compreendo o acordo ortográfico.
Não compreendo a presença de um futebolista num panteão.
Não compreendo para que serve um Panteão.
Não compreendo a quantidade de inglesismos utilizados no português de Portugal quando existem palavras no léxico luso para os substituir.
Não compreendo o enorme “tempo de antena” que os média portugueses dão à política quando, no limite, isso faz com que as pessoas se enjoem da política.
Não compreendo como Portugal tem telejornais a abrirem com notícias de futebol.
Não compreendo porque os políticos portugueses mandam tantos bitaites sobre a bola mas quando devem intervir, como no caso dos direitos televisivos, ficam calados que nem ratos.
Não compreendo para que servem as conferências de imprensa da bola se a conversa é sempre a mesma jogo após jogo, ano após ano.
Não compreendo como se gasta tempo num telejornal em Portugal com a conferência de imprensa do bipolar presidente do Real Madrid a falar de treinadores de futebol.
Não compreendo os benfiquistas. Mesmo.
Não compreendo o número avassalador de medalhas que Cavaco já entregou.
Não compreendo como ninguém se apercebe das incongruências do Marcelo Rebelo de Sousa e já todos lhe estendem a carpete para Belém.
Não compreendo a paixão insensata pelo turismo em Portugal.
Não compreendo como antes o nosso dinheiro tinha correspondência directa com ouro e agora não. Nem de longe.
Não compreendo como a NATO ainda não puxou as orelhas à Turquia. No mínimo.
Não compreendo como a Comunidade Europeia tolera no seu seio governos como o húngaro ou o polaco sem lhes puxar as orelhas. No mínimo.
Não compreendo a incapacidade logística e organizativa da Europa para lidar com a crise de refugiados.
Não compreendo como ninguém debate os mapas desenhados a régua e esquadro pelas potências coloniais quando é claro que grande parte dos problemas de África e do Médio Oriente residem neles.
Não compreendo como o mundo actual produz que chegue e tem condições técnicas e humanas para cuidar de todos e continuamos em guerra e com tantos milhões a passarem fome e sem condições dignas para existirem.
Não compreendo porque os detentores do capital tudo fazem para aumentar a desigualdade social quando, a montante, desigualdade crescente implica problemas de rentabilização do capital.
Não compreendo como existem dirigentes de países que se eternizam no poder e o mundo tolera. Para além do Alberto João.
Não compreendo como o Brasil continua a não ser capaz de conter a destruição da Amazónia e ainda não teve qualquer tipo de sanção, ou ameaça de perder a soberania do território a favor das Nações Unidas (esta figura legal se não existe, não compreendo a sua inexistência).
Não compreendo como ninguém leva a sério os líderes sul-americanos que clamam pela dívida europeia sobre as riquezas roubadas durante a colonização, no mínimo como garantia de perdão das dívidas soberanas.
Não compreendo porque a China pretende mais território.
Não compreendo porque os países asiáticos, de uma forma geral, não atribuem a nacionalidade a estrangeiros nem a nados no próprio país que não sejam da mesma etnia.
Não compreendo porque o mapa-mundi do Mercator continua a ser utilizado como “o mapa” se já toda a gente percebeu que está grosseiramente errado nas proporções.
Não compreendo como se permitem indústrias privadas de armamento sabendo que o fito de qualquer indústria é expandir negócio.
Não compreendo como a guerra pode ser privatizada.
Não compreendo como depois do que os judeus passaram os israelitas façam agora parecido aos palestinianos.
Não compreendo como ainda nos dividimos por religiões e dentro das próprias religiões.
Não compreendo como a Arábia Saudita preside à Comissão dos Direitos Humanos da ONU.
Não compreendo as pessoas que concordam com o Donald Trump.
Não compreendo o que Donald Trump pretende dizer com “Make America Great Again”. Está a falar de que período? Da lei seca? Da Colonização? Da Guerra-civil? Do Apartheid? Do “Macartismo”? Do assassinato de Kennedy? Está a falar do quê, exactamente?
Não compreendo como um país tão grande como os EUA precisa de socorrer-se de herdeiros políticos (Bushes, Clintons, Flinstones…) na corrida à presidência.
Não compreendo como ninguém foi punido pelo escândalo das financeiro dos fundos imobiliários de Wall Street. Antes pelo contrário.
Não compreendo como o Federal Reserve Bank pode imprimir notas como se fossem panfletos de massagens em Macau.
Não compreendo os conservadores.
Não compreendo porque os americanos se referem a “afro-americans”, “native americans”, “italian-americans”, “irish-americans”, “asian-americans” e por aí fora. Fico sem saber quem são os americanos no meio de tudo isso.
Não compreendo os americanos de uma forma geral.
Não compreendo como alguém possa pensar que negócios como a Uber são o futuro se apenas promovem emprego precário e sem qualquer tipo de apoio social.
Não compreendo como os indianos ainda não perceberam que grande parte das violações provêm de uma sociedade sexualmente reprimida.
Não compreendo porque o sexo faz tanta confusão a tanta gente.
Não compreendo como se pode ilegalizar a prostituição.
Não compreendo porque os homens podem andar de tronco nú e as mulheres não.
Não compreendo porque o Paris-Dakar ainda se chama Paris-Dakar.
Não compreendo porque o governo Angolano pratica o nepotismo e tem medo de músicos.
Não compreendo porque existem carros que andam a muito mais de 120 km/h e praticamente em todo o mundo ultrapassar esse limite é ilegal.
Não compreendo porque não existem estradas onde se possa conduzir a mais de 120 km/h.
Não compreendo tanta coisa… Estarei doente? Será da idade?

MÚSICA DA SEMANA

“Shameless” – Groove Armada featuring Bryan Ferry
(…) I can read your lips
I can read your mind,
It’s all I want to hear,
Why am I so blind?

And the way we were
Fatefully entwined
In a shameless world,
Rock ‘n roll desire
(…)

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