Taipa Pequena | Problemas com passeios, autocarros e lixo

O deputado Nick Lei alerta para as dificuldades da zona e pede melhorias na Estrada Lou Lim Ieok e na Estrada de Sete Tanques que servem uma população de cerca de 1.600 residentes. O legislador aponta ainda o perigo da falta de passeios em algumas áreas

 

O deputado Nick Lei defende a criação de passeios na Estrada Lou Lim Ieok e na Estrada de Sete Tanques, na Taipa Pequena, para evitar que os cidadãos tenham de andar na estrada quando se deslocam. Além disso, o legislador ligado à comunidade de Fujian alerta também para a necessidade de mais carreiras de autocarros e de substituir os contentores do lixo.

Em relação à falta de passeios, o deputado avisa o Governo que “os residentes são obrigados a andar nas faixas de rodagem”, o que “causa muita insegurança à população”. Além disso, Lei indica que “quando passa um veículo a situação torna-se perigosa e ameaça a segurança dos peões”. Por isso, o membro da Assembleia Legislativa questiona: “De que planos concretos dispõe o Governo para melhorar o ambiente pedonal daquela zona, incluindo a criação de passeios para peões, passadeiras e outras instalações, com vista a salvaguardar a segurança dos residentes?”.

Não só a falta de passeios para garantir a segurança dos residentes é criticada, a interpelação revela também incompreensão com o facto de aquela zona apenas ser servida por um único autocarro. “Quanto aos transportes públicos, neste momento, só a carreira n.º 35 passa pela Estrada Lou Lim Ieok, e não passa nenhuma carreira na Estrada de Sete Tanques, para além disso, aquela carreira só circula nas Ilhas, ou seja, não chega à Península de Macau, causando grandes inconveniências para os residentes que querem deslocar-se para o exterior”, foi descrito. “Os residentes que queiram deslocar-se para a Península de Macau têm de fazer o transbordo nas paragens periféricas e ainda têm de percorrer uma certa distância a pé para chegarem a uma outra paragem de autocarro”, acrescentou.

Nick indica que este cenário é incompreensível, uma vez que nestas estradas existem “várias residências privadas, com uma população de cerca de 1600 pessoas”.

Acumulação de lixo

Na interpelação, o deputado aponta também que o ambiente da zona é afectado pela capacidade dos caixotes do lixo, tida como insuficiente. “No que respeita às instalações de recolha de lixo, veja-se o exemplo do Edifício ‘Jardins de Lisboa’, aqui só há um contentor de lixo com tampa, cuja capacidade é limitada e fica cheio facilmente, originando problemas de higiene ambiental, tais como a acumulação de lixo e a dissipação de odores”, descreveu. “Os residentes esperam que sejam instalados, o mais rápido possível, contentores de lixo de compressão, com vista a resolver os problemas de higiene, tais como, de lixo a céu aberto, mau cheiro e águas residuais, e, ao mesmo tempo, reduzir o tempo de recolha e transporte do lixo, optimizando, deste modo, a higiene dos bairros comunitários”, apontou. “Com vista a melhorar a higiene ambiental e a qualidade de vida dos residentes daquela zona e optimizar as instalações de recolha de lixo do complexo habitacional dos “Jardins de Lisboa”, quando é que o Governo vai substituir os antigos contentores de lixo por contentores de compressão?”, perguntou.

10 Mar 2026

Tecnologia | Defendida criação de leis para robôs humanóides

O conselheiro Zeng Zengwei defendeu a criação de legislação para regular a circulação de robôs humanóides em Macau, depois da aparição na RAEM, na semana passada, de um vídeo que se tornou viral nas redes sociais de uma mulher a ralhar com um robô

O membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Norte, Zeng Zengwei, defendeu a necessidade de criar legislação para regular o desenvolvimento dos robôs humanóides. A posição foi tomada numa reunião do conselho na quarta-feira, depois de um primeiro aparecimento de um robô humanóide nas ruas, mas antes do episódio mais recente, quando uma mulher foi filmada a dar um sermão a um robô.

Na intervenção da reunião, Zeng Zengwei alertou para os perigos que os robôs podem constituir, principalmente quando circulam junto de escolas e outros equipamentos sociais, em zonas com maior densidade populacional. “Recentemente um robô humanóide foi visto a circular nas ruas, como forma de promoção de uma empresa. O robô humanóide apareceu nas proximidades das escolas e de paragens de autocarros, locais densamente povoados”, descreveu o conselheiro. “No entanto, durante a caminhada, o robô teve vários encontrões pequenos, mas frequentes, com transeuntes. Eu testemunhei um desses encontrões com um estudante, quando este aguardava pelo autocarro”, revelou.

Uma vez que os robôs são máquinas e que a circulação entre a população pode implicar a causa de danos, em casos de avarias ou circunstâncias inesperadas, Zeng Zengwei indicou que é preciso definir um regime sobre as responsabilidades legais, em caso de acidentes e ferimentos.

Protecção de dados

O conselheiro surgiu assim a elaboração de “leis relacionadas com robôs humanóides, particularmente focados nas ameaçadas à segurança e ordem” durante a utilização dos espaços públicos, assim como a regulação da captação de imagens, para garantir o respeito pela lei da protecção de dados pessoais.

Além disso, foi igualmente defendida a necessidade de fazer um registo sobre os robôs humanóides que utilizam as ruas locais, assim como a criação de um sistema de certificação de segurança.

Apesar das críticas, o conselheiro destacou a importância do desenvolvimento tecnológico e do espírito empreendedor.

A mais recente polémica com robôs humanóides aconteceu na sexta-feira à noite, quando uma das máquinas foi levada por agentes do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), de acordo com as publicações nas redes sociais, sem que se tenha havido qualquer tipo de explicações públicas. O HM questionou as autoridades sobre o episódio, mas até ontem não recebeu qualquer resposta sobre o episódio. Antes da “detenção” do robô, uma mulher foi filmada a ralhar com o humanóide e a chamar-lhe maluco, depois de ter ficado assustada com a presença da máquina. Em reacção o robô levanta os braços, o que levou a mulher a abandonar o local.

10 Mar 2026

Nas ruas

[dropcap]D[/dropcap]esde os movimentos que a partir de 2011 e um pouco por todo o mundo se foram designando como “Occupy”, com as suas variantes regionais e linguísticas, não se via tanta política nas ruas das grandes cidades do planeta. Tinha sido o tempo de ocupar tudo, em nome dos tais 99%, um cálculo eventualmente exagerado mas certamente mobilizador: desde a Bolsa de Nova Iorque a emblemáticas Praças no Médio Oriente, passando pelas várias Europas, mais ricas e mais pobres, uma crise financeira e económica que afetava grande parte do mundo, com níveis de desemprego sem precedentes após a II Guerra Mundial, sobretudo para a juventude, com limitadas opções de entrada em mercados de trabalho cada vez mais desprotegidos e selvagens. Era a época em que empreendedores governantes mandavam esses jovens emigrar, que o tempo não estava para presentes nem futuros. Restava saber para onde, que os horizontes se iam fechando um pouco todo o lado e era por isso que se enchiam as praças, de conversas em assembleia à procura de novas Primaveras, mais ou menos perdidas entretanto, ou neutralizadas por uma parca recuperação económica e algum trabalho vagamente precário.

Agora é o clima, o regresso em máxima força da causa ambiental, graças à evidente ameaça a um planeta à beira do colapso, motivado pela ganância consumista e pelos poderes instalados, dependentes de tóxicos modelos de exploração desenfreada de recursos finitos e à beira do esgotamento para produção massiva de produtos de curta duração, com obsolescência programada à medida da voracidade das modas de consumo acelerado que vão dominando os padrões de vida contemporâneos, sempre em alta velocidade, sempre à procura da inovação, da nova experiência, do novo que envelhece depressa para poder ser rapidamente substituído, de preferência na loja online. Não houve discurso científico suficientemente mobilizador para trazer essa questão para fora das agendas de circunstância da ONU ou de outras plataformas parlamentares de democracia performativa e cada vez menos representativa, mas seriam os estudantes, cada vez mais, cada vez mais acompanhados, cada vez em mais lugares, a impôr a discussão pública do assunto – um passo necessário mas não suficiente para alguma acção consequente. Em todo o caso, nunca mais as sextas feiras foram como dantes: começou com o protesto solitário de uma adolescente sueca e são agora milhões as pessoas que acabam a semana a reivindicar uma agenda imediata para responder ao problema do clima.

Essas não são as únicas pessoas que ocupam com reivindicações políticas as ruas de hoje, no entanto: também há largos milhares – ou milhões – nas ruas de Hong Kong, há já vários meses, com mais ou menos violência sobre os espaços e infraestruturas públicas, mais ou menos repressão das autoridades policiais e mais ou menos clareza nos objetivos e reivindicações. Em todo o caso, nem parece próximo o final do conflito nem parece desenhar-se o esboço de uma solução. Ficam as ruas, a testemunhar o confronto, até agora sem vencedores, vencidos ou novos horizontes. Uma falta de horizontes que também parece pairar sobre a Catalunha, onde a transformação da discussão política sobre uma possível independência numa questão estritamente jurídica faz com que a conversa saísse inevitavelmente das salas dos tribunais para os espaços públicos das ruas: ainda mal começou, esta nova vaga de mobilização independentista, mas está certamente para durar, e em várias frentes: da mobilização pacífica ao boicote, incluindo desta vez confrontos violentos, em várias cidades da Catalunha e do restante estado espanhol, este confronto não deixa a Europa numa posição particularmente elegante no retrato global da democracia contemporânea e da capacidade dos sistemas políticos para gerar soluções consensualizadas a partir de instituições credíveis e com legitimidade reconhecida. Na realidade, talvez o problema esteja mesmo nessa falta de credibilidade e legitimidade: mais gente nas ruas e menos gente a votar são sinais evidentes das fraquezas por resolver nas democracias actuais – e também o terreno fértil por onde proliferam os novos aspirantes a tiranos.

Mais conclusivas – e também mais violentas – foram as mobilizações da população indígena do Equador, com a cidade de Quito massivamente ocupada por gente que se deslocou de todo o país para se enfrentar ao governo e para rejeitar o plano de austeridade e privatização generalizada de recursos públicos que o FMI pretendia impôr a troco de avultado financiamento – pago ele próprio a juros avultados, como é prática corrente na casa. Entre a violência dos confrontos, a paralisação do país, declarações de Estados de emergência e deslocação do governo para fora de Quito, ficou um resultado categórico: o acordo com o FMI foi rejeitado.

Resta saber o que virá a seguir – e como governará um executivo legitimado pelos votos e derrotado pelas protesto. Mais uma vez esteve em evidência a cada vez maior distância entre as práticas e consequências das urnas de voto e as exigências e confrontos das ruas.

18 Out 2019

A arte perdida de andar na rua

[dropcap]P[/dropcap]ara quem vive e escreve de dentro dos dias são sempre as pequenas coisas que contam. São muitas vezes sinais quase prosaicos, tão embrenhados na normalidade do quotidiano que só merecem atenção para o coleccionador de acasos relevantes. Como esta história de que fui testemunha: um dia como os outros, uma estação de metro lisboeta apinhada. Uma vez saída das carruagens a multidão dispersou para os seus destinos e vidas, alheia a tudo o que não lhe dissesse respeito.

À minha frente, um cavalheiro idoso avançava apoiado numa bengala, com o esforço dos anos em cada passo. A cabeça estava inclinada para a frente, o que atribuí à sua idade. Errei: na mão tinha um telemóvel, que parecia naquele momento todo o centro do seu mundo. Subitamente, sou ultrapassado a grande velocidade por uma mulher de meia-idade. A mesma posição cabisbaixa e pela mesma razão. Nem por um segundo terá pensado em erguer o rosto, saber onde estava, para onde ia. O resultado foi inevitável: com alguma violência abalroou o cavalheiro que seguia à sua frente. O homem caiu, mais surpreso do que ferido; a mulher olhou-o de forma quase indignada, à beira de pedir satisfações. Alguns transeuntes ajudaram o homem a levantar-se, a mulher balbuciou algo remotamente parecido com uma desculpa e continuou, cabisbaixa, a sua marcha irreversível.

O que me interessa e choca neste episódio não é a sua originalidade: é a sua banalidade. Todos os dias presenciamos esta gente cabisbaixa que invadiu o nosso mundo, as nossas ruas. Muitas vezes pertencemos-lhes por sermos iguais. Os passeios estão repletos de gente como nós, olhando para algo que não sabe o que é mas que aparentemente tem sempre uma urgência absoluta. Perdemos a capacidade de olhar, de ver o outro através do rosto e não de um ecrã. E perder o olhar para o outro é, quer-me parecer, abdicar um pouco de ser humano.

Exagero? Talvez. Mas experimentem parar, olhar, contemplar, flanar. Vejam o que vos rodeia. Vejam se gostam do que vêem. Não me interpretem mal: não é minha intenção lançar aqui um libelo contra as modernas tecnologias, que muito fazem para nos simplificar a vida. Mas não podemos desistir do olhar, da curiosidade pelo que está à nossa volta. Andar na rua – olhar, perceber, enfrentar, sorrir – começa a ser uma arte perdida, algo a que só estetas nostálgicos e exilados destes tempos parecem dar importância. Num romance de Evelyn Waugh, Put Out More Flags, há um personagem – um dandy decadente chamado Ambrose Silk – que lamenta o mundo em que vive, suspirando pela arte desaparecida da conversação e o “mundo sepultado de Diaghilev”. Daqui a pouco tempo suspeito que alguém irá lamentar a arte perdida de andar na rua. Na verdade já o estou a fazer.

Conseguimos, em séculos de evolução, chegar ao homo erectus. A ideia seria pelo menos conseguir manter esta condição. Porque ao olharmos apenas para um falso espelho arriscamo-nos a deixar a vida passar ao lado. Ou abalroar-nos de surpresa e sem desculpas.

24 Out 2018