David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesO caso do Tio Ho Em 2024, o caso do “Tio Ho e da Srª. Ho (‘Hippo’ alcunha dada pelos internautas)” desencadeou em Hong Kong um alargado debate. O incidente envolveu conflitos a propósito de uma herança e dos direitos da família na sequência de um segundo casamento efectuado quando o noivo já era idoso. O casamento aconteceu depois de um romance relâmpago entre o Sr. Ho de 76 anos e uma mulher da China continental de 46 anos, que ele tinha conhecido num mercado. A boda foi realizada dois ou três meses depois. O Sr. Ho e a filha mais nova tinham numa conta conjunta de cerca de 4,5 milhões de HK dólares. Quando ele pretendeu retirar 1 milhão para financiar o negócio da mulher, a filha antecipou-se e retirou o dinheiro todo porque suspeitava que o pai tinha sido defraudado. Então o sr. Ho procurou ajuda junto da comunicação social, acusando a filha de deslealdade e exigindo a devolução dos fundos. No entanto, a opinião pública apoiou-a esmagadoramente porque diziam que ela estava a defender o direito à sua herança. À medida que as hipóteses de recuperar os activos diminuíam, começaram a surgir relatos de discórdias entre o casal. Este incidente reflecte claramente várias questões sociais, como os casamentos em idade avançada, a protecção dos bens dos idosos e os conflitos entre membros da família em torno do direito à herança. De uma perspectiva jurídica, de acordo com o Capítulo 73 da Legislação de Hong Kong, Portaria dos Direitos Sucessórios dos Intestados(無遺囑者遺產條例), se o falecido não deixou testamento, os seus bens serão divididos entre a esposa e os descendentes directos. Assumindo que o casamento do sr. e da srª. Ho é legalmente válido, os 4,5 milhões são reconhecidos como património pessoal do marido. Na ausência de testamento, a esposa receberia primeiro o montante de 500.000 HKD, seguido de metade do património remanescente, ou seja, 2 milhões de HKD: ($4,500,000 – $500,000) / 2 = $2,000,000 A outra metade seria dividida entre os cinco filhos, recebendo cada um a quantia 400.000 HKD. No entanto, se o casamento fosse declarado inválido, os cinco filhos dividiriam os 4,5 milhões em partes iguais, recebendo cada um 900.000 HKD. O que acima foi exposto é muito claro. Ao abrigo da legislação de Hong Kong, um cônjuge pode também ter direitos de herança sobre outros bens em determinadas condições. No entanto, para efeitos da análise, não consideraremos situações complexas. A drástica queda dos 900.000 HKD, que cada filho receberia, para 400.00 HKD, foi naturalmente o que esteve na origem do conflito entre os filhos e a esposa actual. Quando pessoas idosas celebram segundos casamentos, enfrentam conflitos entre os direitos legais da nova esposa à herança e as expectativas dos filhos do primeiro casamento. A forma ideal de resolver estes conflitos é fazer testamento enquanto se está lúcido e comunicar as condições estipuladas aos membros da família. Contudo, devido ao conceito tradicional da sociedade chinesa que diz que “o chefe da casa gere as finanças” e ao tabu que impede conversas sobre morte e heranças, muitos idosos não planeiam a distribuição dos seus bens com antecedência, muito menos fazem testamento, o que leva a um aumento dos riscos e das disputas familiares. Em discussões recentes nas redes sociais, algumas pessoas propuseram o modelo de “parceiros não casados” ou de “estar juntos, mas viver separados” para resolver este tipo de conflitos. Estas propostas apontam para um relacionamento a dois sem casamento, que pode proporcionar uma relação amorosa duradoura. Nenhum deles ambiciona a um estatuto formal, não interfere na vida do outro e não exige um futuro comum. Reservam um lugar para o outro nos seus corações, sorriem quando de vez em quando pensam no companheiro e sentem-se em paz. Oferecem apoio emocional quando necessário, preenchendo o vazio nos seus corações. A ausência de casamento não é lamentada, provoca sim outro tipo de realização. Em casais de meia-idade ou em casais idosos que não se casaram, cada um ocupa um lugar no coração do parceiro. Sentem-se bem juntos, mas não precisam da certidão de casamento. Apenas garantem apoio emocional quando necessário, não interferindo na relação com os filhos nem com o seu direito à herança dos progenitores. Este modelo de relação evita que os membros da família tenham conhecimento da existência de um novo parceiro na vida dos pais e evita totalmente as disputas em torno dos seus direitos à herança. No entanto, esta idealização de companheirismo acaba na verdade por ignorar as necessidades físicas e psicológicas dos idosos. As pessoas quando se reformam perdem grande parte dos seus contactos e enfrentam uma solidão crescente; o “companheirismo” que procuram é basicamente uma interacção diária, não uma relação que “só existe quando necessário.” Além disso, com o declínio do corpo e o aumento dos riscos de doenças, os idosos ficam extremamente dependentes de quem os cuida. É pouco provável que uma relação puramente espiritual venha a proporcionar cuidados estáveis. Este modelo poderá não ser o que os idosos verdadeiramente desejam. Em resumo, nem o modelo dos parceiros que não se casam nem o das pessoas que estão juntas, mas vivem separadas, pode resolver as contradições que surgem nos segundos casamentos em idade avançada. Os conflitos entre os direitos dos idosos e a distribuição da herança têm de ser resolvidos através de um planeamento legal da distribuição de bens. O “caso do Tio Ho” dá-nos um aviso claro: só com um testamento onde a distribuição dos bens é declarada se pode garantir a dignidade e a protecção das relações próximas e evitar eficazmente as disputas familiares. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo
Hoje Macau SociedadeHerança | Mulher e cúmplices detidos por falsa declaração Uma mulher de 70 anos, residente, preencheu uma falsa declaração sobre os bens do irmão falecido para se tornar na única herdeira, tendo sido detida juntamente com mais três cúmplices. Segundo o jornal Ou Mun, o irmão da detida morreu em 2016, altura em que esta tratou das burocracias inerentes ao funeral na casa dele, tendo descoberto o cartão de um dos cúmplices da falsificação, de apelido Lok. A mulher contactou Lok para dar apoio aos assuntos relacionados com o falecido, tendo sido informada de que este detinha em Macau três imóveis, tendo proposto o pagamento de um milhão de patacas a Lok para a ajudar a preencher uma falsa declaração. Lok arranjou então mais três cúmplices para que, juntos, assinassem um documento no cartório que confirmava a mulher como única herdeira. O falecido tinha, contudo, um sobrinho que era o herdeiro legal, que só descobriu a existência de uma herança no ano passado. Suspeitando estar a ser prejudicado, o homem denunciou a situação às autoridades. O caso já foi encaminhado para o Ministério Público, sendo a mulher e os restantes cúmplices suspeitos da prática de crime de burla com valor elevado e falsificação de documentos. A PJ está ainda em busca de um suspeito em fuga, o terceiro cúmplice que se juntou a Lok.
Hoje Macau Política“Os Resistentes – Retratos de Macau” #5 “Os Resistentes – Retratos de Macau” de António Caetano Faria • Locanda Films • 2014 Realizador e Editor: António Caetano Faria Produtores: Tracy Choy e Eliz L. Ilum Câmara e Cor: Gonçalo Ferreira Som: Bruno Oliveira Assistente de Câmara: Nuno Cortez-Pinto Editor Assistente: Hélder Alhada Ricardo Sonorização e Mistura de Som: Ellison Keong Música: Orquestra Chinesa de Macau – “Capricho Macau” de Li Binyang
Hoje Macau Política“Os Resistentes – Retratos de Macau” #4 “Os Resistentes – Retratos de Macau” de António Caetano Faria • Locanda Films • 2014 Realizador e Editor: António Caetano Faria Produtores: Tracy Choy e Eliz L. Ilum Câmara e Cor: Gonçalo Ferreira Som: Bruno Oliveira Assistente de Câmara: Nuno Cortez-Pinto Editor Assistente: Hélder Alhada Ricardo Sonorização e Mistura de Som: Ellison Keong Música: Orquestra Chinesa de Macau – “Capricho Macau” de Li Binyang
Hoje Macau Política“Os Resistentes – Retratos de Macau” #3 “Os Resistentes – Retratos de Macau” de António Caetano Faria • Locanda Films • 2014 Realizador e Editor: António Caetano Faria Produtores: Tracy Choy e Eliz L. Ilum Câmara e Cor: Gonçalo Ferreira Som: Bruno Oliveira Assistente de Câmara: Nuno Cortez-Pinto Editor Assistente: Hélder Alhada Ricardo Sonorização e Mistura de Som: Ellison Keong Música: Orquestra Chinesa de Macau – “Capricho Macau” de Li Binyang
Hoje Macau Política“Os Resistentes – Retratos de Macau” #2 “Os Resistentes – Retratos de Macau” de António Caetano Faria • Locanda Films • 2014 Realizador e Editor: António Caetano Faria Produtores: Tracy Choy e Eliz L. Ilum Câmara e Cor: Gonçalo Ferreira Som: Bruno Oliveira Assistente de Câmara: Nuno Cortez-Pinto Editor Assistente: Hélder Alhada Ricardo Sonorização e Mistura de Som: Ellison Keong Música: Orquestra Chinesa de Macau – “Capricho Macau” de Li Binyang
Hoje Macau Manchete“Os Resistentes – Retratos de Macau” #1 Sapataria Wong Lam Kei • 1946 “Os Resistentes – Retratos de Macau” de António Caetano Faria • Locanda Films • 2014 Realizador e Editor: António Caetano Faria Produtores: Tracy Choy e Eliz L. Ilum Câmara e Cor: Gonçalo Ferreira Som: Bruno Oliveira Assistente de Câmara: Nuno Cortez-Pinto Editor Assistente: Hélder Alhada Ricardo Sonorização e Mistura de Som: Ellison Keong Música: Orquestra Chinesa de Macau – “Capricho Macau” de Li Binyang
Carlos Morais José h | Artes, Letras e IdeiasDois pontos [dropcap style=’circle’]1.[/dropcap] Dei umas voltas por várias cidades da Ásia, grandes e pequenas, mais ou menos modernas. Depois voltei a Macau. E, ao olhar à volta, cheguei a uma conclusão: por aqui não existem turistas. As estatísticas bem me podem gritar que entram 15 milhões por ano. Eu não acredito. E não acredito porque sou como São Tomé. E a verdade é que não os vejo. É bem possível que Macau provoque nas pessoas estranhos comportamentos. Até aí ainda vou. Mas que os turistas aqui entrem e não vão a lado nenhum, não passeiem, não estejam nos restaurantes, não saiam à noite, desculpem mas isso não engulo. Quero ver os turistas, quero vê-los nas esplanadas, nas lojas, nos restaurantes e nos bares. Como acontece em todas as cidades do mundo. Logo, quem são os 15 milhões que entram pelas fronteiras? Fácil: alguns são jogadores – a maior parte vem, como sempre veio, de jet foil; outros são uns senhores que têm um comportamento bizarro que consiste em desenvolver uma fixação/paixão por passar fronteiras para lá e para cá. Quem sou eu para julgar as obsessões alheias? Cada um faz o que quer com o seu tempo e se em Macau existe tanta gente a atingir o clímax ao mostrar o passaporte na fronteira, porque não aceitar tão deslocada mas inofensiva mania? A mim só me prejudica na medida em que alonga a fila do lado da China. Mas… nada de grave. Dá para aguentar com um mandarínico sibilar nos lábios. Aliás, o turismo bem que podia fomentar uma daquelas campanhas que dá prémios, mas desta vez à própria população. Quem encontrar um turista fora das hordas e o apresentar na Praça do Senado, tem direito a uma ida à Torre (de Pisa). Enfim. [dropcap style=’circle’]2.[/dropcap] Vi num filme um rapazito que mordiscava uma maçã acabada de arrancar de sua original árvore. Não se tratava de um pomar mas de uma dessas árvores semi-selvagens, que se esforçam por crescer e cujos frutos exalam o olor inexcedível desse trabalho. Pensei então que cada vez menos crianças terão acesso a este deleite, simplesmente porque essas árvores são cada vez mais raras. Basta tentar comprar fruta verdadeira em Macau para compreender esta situação. As maçãs não têm sabor, as peras são aguadas. Quanto a pêssegos, uma verdadeira desgraça. Onde estão aqueles exemplares a desfazerem de sumo e vibrantes odores nas nossas bocas? Algures no mundo, talvez, mas não nos escaparates locais. E o que aqui é verdade repete-se em quase todas as cidades do mundo, mantendo a garotalha na mais perfeita ignorância das coisas boas e simples do mundo. Pensei depois que as gentes de antigamente, as que iam ao mercado e tinham dinheiro para pagar a boa fruta se calhar nem lhe davam valor. Estas coisas são assim. Provavelmente, sou eu e outros que, na falta, gabamos as suas qualidades que qualificamos de excelsas, quando para os antigos não passavam de uma banalidade. Não deixemos, portanto, de apreciar com reverência as nossas actuais banalidades. O seu destino é fazer as delícias dos vindouros. Quando faltarem, sobretudo.