Restaurante Harmonia

(por ocasião do Ano Novo Lunar)

Enquanto em Portugal se desenrolam vários dramas, por Macau caminha-se com pachorra p’ró Ano Novo Lunar. De nenúfar em nenúfar, no pequeno país teme-se pela pancada; no pequeno enclave é que não se teme nada: tudo aqui é passível de uma marcha regular, sem tragédias, nem lamentos: isto é bom de governar.
Com a bênção lá do Céu e as riquezas da Terra, aqui não medram tormentos. Nesta nova utopia, à sombra da grande árvore da pataca, regurgitamos e rimos: não sabemos, não vemos e não ouvimos. Mas, por enquanto, comemos. Eis o menu:

Primeiro prato: o leitão.
Ornado de luzes com um alegre piscar. Iguaria para os olhos, jovens de uniforme rosa não param de desfilar. Seguram sobre as cabeças o bicho sacrificado, a cada um distribuem elegantes um bocado. Depois, é sublime o momento em que os dentes se cravam na crocante pele enquanto, em simultâneo perfeito, afluem às narinas odores de um aipo santo. Uma respiga de picante vermelho conclui o incidente.

Segundo prato: Garoupa ao vapor.
Lascas que se elevam brancas, oferecidas, em cama de ervas claras, de coentros da ribeira, da escura soja a pontilhar. Delírio de suavidade no palato, inflamado pela sombra de gengibre. Rodou o peixe e, quando aqui chegou, restava uma ternura de óleo sobre o arroz alvíssimo. Cheirava a fresco, que delícia…

Terceiro prato: Galinha assada.
Apresente-se a condenada! Tostadinha, crepitante, de cabeça ainda agarrada. Reparta-se agora a ave p’los ilustres comensais: para ali, o peito gordo, a perna, o ovo; as peles para os demais. Não gostais? Mas a pele é nutritiva, tem gordura e bom sabor. Há quem diga que é mesmo a melhor parte, ainda que a rejeite quem parte.

Quarto prato: Sopa de tubarão.

Que delícia de odor se evola daquela panela, onde ossos e barbatanas partilham da mesma cama, do calor, da cozedura. É cálido o caldo fino, desliza pela colher e sinaliza a fartura. Aí vem a minha vez, levo ao lábios a loucura. E, quando, com prudência, engulo a carne do frango, ainda creio na língua fiapos de tubarão, que certamente nadou numa outra direcção.

Quinto prato: Camarões à Sichuão.
Polvilhados de picante, do que faz adormecer, são camarões singulares que fartamente se dão a todos os populares. Fazem beber, é certo, mas a vida não se faz a metro: é à unidade e camarões de Sichuão para todos são, não queremos excepção. Afinal, há que dar comida ao povo e o picante dormente é um achado brilhante. Saia mais uma travessa para aquela mesa do canto até que barriga cante.

Sexto prato: Bacalhau à brava.
Adaptação local do lusitano à Brás. Igual na confusão, na mistura e na falta de rigor, da caótica acepção do ovo com a batata, da cebola que todo o prato engraça, da salsa com a chalaça. À origem, acrescente-se-lhe o “vale tudo”, condimento a ser usado com toda a impunidade, sem pejo e sem poejo. Mexa-se bem, evite-se o sal, pimenta ainda vale, mas deixe de fora o mistério, público ou privado: um prato para comer como se fosse a sério.

Sétimo prato: Arroz frito, massa e sobremesa.
Para quem ainda tiver fome, eis o truque definitivo, a tranca da refeição. Que ninguém diga: ai que fome, meu Senhor! Aqui tem, senhor doutor, o complemento da casa: arroz ali de Cantão, massa e doce de feijão. É comer até fartar. De barriga bem fornida, são suaves os desgostos desta e da outra vida. Tendes queixas da comida? Não digais que estava má. Deve ser da digestão. Recomendamos um chá…

Convém uma explicação. A refeição apresentada foge ao tradicional banquete de catorze pratos. A razão é a contenção necessária em época de crise internacional, para não despertar escusadas invejas em vizinhos e parentes.
Por aqui tudo desliza, com vigor e alegria, à medida do menu do Restaurante Harmonia. Kung Hei Fat Chói!

11 Fev 2021

A perfeita harmonia

Cansados desta adrenalina viral que tanto desfalece como se põe a gritar bem alto aos nossos ouvidos, quase nos esquecemos que Maio é uma zona de entendimento farto e fértil, levantámos a cabeça e lá estava ele, o tempo das açucenas, dos frutos e das flores, das coitas de amor, das bailias e do chão a cheirar a vida como um útero perfumado. Tudo aqui apetece! – Apetece a dança, apetece a vida, apetece ter-te, apetece ver-te, e apetece olhar a longa virtude da modificação que fez tudo tão bonito.- As cerejeiras em flor – as flores da cerejeira – antes do fruto cair como botão em nossas bocas tão ávidas, tão rubras, tão felizes por saberem da redondeza dos frutos nascidos. Mesmo na Lua-Nova, Maio fica de noite clara e cheiros brancos como linho lavado, fica uma zona de voluptuoso enlace que não esquecemos , e brindamos nele uma alegria sempre tão renovada! Contemplamos os livros antigos e lá estão as marcas de amores eternos como os «Poemas Celtas» que dá título a este artigo. Repleto de seiva da antiga tradição, nós estamos muitas vezes em contacto com Deus e agradecemos cada instante, saem então de nós as lianas da prisão imposta, dos sacrifícios, dos abandonos, e tudo fica preenchido ao ponto de se saber que todo o mal se esquece perante os momentos em que o belo se impõe. O mês emblemático do bravo povo não o é menos nos mais pacíficos, e a unanimidade que gera encaminha-nos para uma zona de epifania que nunca nos deve deixar indiferentes.

Mergulhados numa embriaguez de sons, odores e cores, nós, os que envelhecemos, saboreamos ainda os Cânticos de Salomão, esse Maio, trajando uma noiva eterna chamada Jerusalém, mas é muito mais que esta mulher, ela é a jovem enamorada, a virgem que cria o espaço enaltecido para todos os ardores, e quando em êxtase nos aproximamos desta tempestade tudo em nós se cura e fica em suspensão . Uma ressurreição celular! Os celtas não são nem menos verdes, nem menos poéticos no seu louvor, e a recolha dos seus versos – celto medievais- dão conta dos mesmos ritos enaltecedores que povoam as suas graças até à saga do rei Artur « reverdecer e florir em obras amáveis»: estes povos do frio detestavam o Inverno, e dele pareciam sair com o condão de uma profecia sempre mais verde, e na voz de um poema oral que é de um refinamento que contrasta com as suas armaduras «….depois te levantas da calma das ondas, como jovem príncipe coroado de rosas» pouco alongavam a vista no oceano, Maio é bem mais um instante da terra, não precisa de distância, o paraíso está ao redor de cada um num espaço nunca expansionista, mas abundantemente vivo, em nichos, recantos, coisas que a mão pode percorrer. E é este lado da manifestação simples e boa que nele nos encanta, pois que nem sempre o que é bom, louvado e gratificante, fica na linha do horizonte das coisas a contar, elas, nascem por vezes sob os nossos pés que hoje perderam um pouco da rota dos outroras campos em flor.

A Europa é ainda o vaso das Primaveras, do mito de Maio que inunda toda a bacia do Mediterrânio, o Touro que a rapta está normalmente coroado de flores, não é um Boi agreste, mas um farto ídolo carnal que seduz mulheres e deusas, é um sopro de volúpia ambiental que as transporta nuas em seu dorso e não o raptor indómito que puxa as vítimas pelos cabelos, parecem serenas e protegidas pelas fartas carnes e pelo aroma que lhes vem das hastes deixando claro que o sossego da vítima pode ser um prazer acrescido onde entra ainda a confiança: «melodiosa mais do que harpa, áurea mais do que ouro…» Safo. Os mesmos ramos de giesta estão presentes, e a romana deusa Flora já era enaltecida mais acima entre os celtas, Maia era a flor amarela dos campos perfumados que unia um continente em litanias e festivos cortejos de amor. Ainda hoje existe na Europa uma festa com função falocrática conhecida como o Mastro de Maio, depois de erguido, a dança com fitas multicores e logo os rapazes cobriam de flores as janelas das amadas que desejavam cortejar. Maio nunca nos fala da bênção do amor maduro, é uma festa de jovens enamorados, as Maias que em território português eram jovens raparigas vestidas de branco enfeitadas com grinaldas de flores amarelas, as raparigas que faziam o Maio- Moço e o levavam pelas ruas a cantar… este amor tão novo como tudo em volta é que faz o seu deleite. É o tempo do corpo em flor, fecundo e forte que aqui festejamos, aquela época em que tudo faz sentido, é natural, penetra e cria: nada de estéril se encontra em seu redor e o cortejo da natureza abençoa os amantes. Parece eterno, mas quando o encontramos na roda do tempo, vemos que passou, dele nos vestimos então mais um pouco em louvor à vida, àquela que nos parecia tão forte, tão robusta, tão intensa e única, e com Maio fazemos então as pazes com esse corpo já cansado pelas rotinas, e enquanto ele dura pensamos como foi maravilhoso ter sido algures neste exacto tempo, tão amado.

Um jovem garboso de muitos encantos/ Senhor generoso e amigo leal é o mês de Maio
a erva do vale luzindo…. as noites são leves e os dias não pesam
e é esplendoroso o voo do falcão e o melro negro do mês de Maio.
Poema galês ( século XIV)
Para o país das cerejeiras em flor!

17 Jul 2020

A harmonia

Harmonia é uma das palavras mais ouvidas nos discursos políticos da região. Procurar e atingir harmonia social! Ahhh, refastelem-se nesta chaise-longue conceptual, soa tão bem, como um desígnio celestial, uma aspiração ao divino. Uma forma quase holística de designar paz social. Na humilde opinião deste vosso escriba, a paz e a concórdia são algo que deve nascer de dentro de uma sociedade, tendo o Estado apenas a vocação de a proteger, não deve partir de cima, da supra-estrutura para a sociedade. Harmonia sob ameaça não é harmonia, é sequestro, branqueamento, uma fantasia política que mascara o autoritarismo.

Se quisermos viver nesta aparência, olhemos para a Coreia do Norte. Nunca vi fotografias com tão rasgados sorrisos, esgares de pura felicidade. Nunca ouvi falar numa greve, manifestação, contestação popular. Será que isso faz de Pyongyang uma cidade harmoniosa? Em contrapartida, dou um rebuçado a quem encontrar fotos com carantonhas mais sisudas do que as que retratam cidadãos do norte da Europa, onde prolifera a contestação social.

Tal como o amor, a harmonia não se impõe e importa distinguir harmonia do conceito de ordem de Estado imposta com punho-de-ferro. E não me venham dizer que para ter uma opinião, para abrir a boca, tenho de frequentar 50 licenciaturas e mais três vidas de pesquisa histórica, se não querem bater o recorde do elitismo de polichinelo. Isso não é um argumento, não se aproxima de uma réplica, mas é, apenas, um escapismo infantil que procura o silêncio apaziguador do poder alérgico ao ruído da rua. Uma rua silenciosa é uma rua morta, jamais harmoniosa.

7 Jan 2020