Espanhol | Língua ganha peso no ensino em Macau seguindo o rumo político

Em Macau, o espanhol ocupa um lugar secundário no sistema de ensino, sendo a MUST a única universidade com um curso na área. Com o crescente peso do idioma nos discursos políticos, qual deve ser a estratégia face ao português? Carlos André diz que a prevalência do português não invalida a aposta noutras línguas

É recente a presença, no discurso político oficial e agenda governativa, da conexão entre Macau e os países de língua espanhola. Em Abril deste ano o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, deslocou-se a Portugal para a primeira visita oficial do seu mandato, mas também passou por Madrid.

Neste contexto, o HM quis perceber se existe uma estratégia ou política pensada, por parte das autoridades, caso a procura pelo ensino do espanhol seja cada vez mais uma realidade, e de que forma se pode conjugar com a forte presença do português como língua oficial.

Da parte da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), a resposta revela que não há, para já, uma estratégia definida, existindo, sim, um acompanhamento da oferta formativa. “A DSEDJ tem vindo a impulsionar, nas instituições de ensino superior, a formação de quadros qualificados profissionais que respondam às necessidades do País e que potenciem as vantagens próprias de Macau”, começa por dizer a resposta escrita enviada ao HM.

Além disso, a direcção de serviços quer “promover o desenvolvimento da internacionalização do ensino superior de Macau”, recordando que, “além da expansão da cooperação com os países de língua portuguesa, as instituições de ensino superior locais têm desenvolvido um intercâmbio e cooperação com países de língua espanhola, em consonância com o seu próprio desenvolvimento”.

Desta forma, a DSEDJ destaca como a Universidade de Macau (UM), Universidade Politécnica de Macau (UPM), Universidade de Turismo de Macau, Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST na sigla em inglês), a Universidade da Cidade de Macau e a Universidade de São José (USJ) “estabeleceram mecanismos de intercâmbio e cooperação com instituições de ensino superior de países de língua espanhola, tais como Espanha, México, Argentina, Colômbia e Peru”.

Os acordos abrangem “diversas áreas, nomeadamente a formação de quadros qualificados, o intercâmbio de estudantes, programas de intercâmbio de Verão para estudantes, intercâmbio académico e projectos de investigação científica conjunta”.

O facto de o espanhol ser disciplina opcional em muitas destas instituições do ensino superior acaba por “apoiar o Governo da RAEM nas vertentes de cooperação com os países de língua espanhola”. É ainda referido o caso concreto da MUST, onde funciona o único centro de exames DELE [Diploma de Español como Lengua Extranjera, ou Diploma de Espanhol como Língua Estrangeira], em Macau. Tal proporciona, segundo o Governo, “uma plataforma conveniente para os estudantes que aprendem espanhol”.

Ainda segundo a DSEDJ, as restantes opções de ensino do espanhol estão abrangidas por aquilo que é oferecido pelo Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo. Oferece-se, aqui, “cursos de educação contínua de língua espanhola, proporcionando vias de aprendizagem para os residentes que pretendam elevar as suas competências pessoais”.

O HM questionou a DSEDJ quanto à possibilidade de serem criados mais cursos de espanhol e como isso poderia “ser integrado nas actuais políticas relativas à língua portuguesa”, mas não foi dada uma resposta concreta neste sentido.

Espanhol desde 2012

O espanhol é ensinado em Macau em contexto de aprendizagem contínua e também como disciplina opcional no ensino superior. Um dos exemplos é o da USJ, que abre no dia 29 de Junho (com finalização a 11 de Julho deste ano), o nível 1 do “Curso Intensivo de Língua Espanhola”, para a obtenção do nível elementar A1, em que a língua utilizada é o mandarim “complementado com o espanhol”. Segundo a informação disponibilizada no website sobre os cursos de aprendizagem contínua, não é possível utilizar o subsídio do Programa de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento Contínuo da DSEDJ.

O HM consultou o website oficial do programa, relativo à oferta actual de cursos na área de línguas e tradução, não tendo encontrado nenhuma oferta formativa em espanhol: a aposta faz-se em línguas como o coreano, japonês, mandarim, português e inglês.

A MUST é a única universidade a ter licenciatura em espanhol do território, além de também ter cursos opcionais. A instituição de ensino superior “oferece os únicos cursos de licenciatura em espanhol em Hong Kong e Macau, incluindo uma licenciatura lançada em 2012 e um mestrado lançado em 2019, com mais de 200 alunos matriculados”, descreve ao HM.

Além disso, a MUST é a única instituição de Macau que disponibiliza o exame DELE, que nasceu de um acordo assinado em 2018 entre a universidade e o Instituto Cervantes de Pequim. A MUST diz que são realizadas duas sessões de exames DELE por ano, em Abril e Novembro, “com uma média de cerca de 50 a 60 candidatos por ano”.

A MUST acrescenta ter vários “acordos de intercâmbio e cooperação de longo prazo e estáveis com várias universidades em Espanha e na América Latina”, com a realização de cursos de verão e programas de intercâmbio. “Antes de o Governo da RAEM identificar, de forma explícita, a ‘expansão da cooperação com os países de língua espanhola’ como uma direcção de desenvolvimento estratégica, a MUST já tinha estabelecido e desenvolvido o programa de Espanhol e expandido a cooperação com Espanha e países da América Latina falantes de espanhol”, é acrescentado.

A MUST vai lançar um novo programa de doutoramento em “Estudos Latino-Americanos”, descrito como “o primeiro programa orientado para a investigação em Macau focado nos estudos da região latino-americana, abrangendo tanto os países de língua espanhola como os de língua portuguesa da América Latina”.

Desta forma, a universidade “irá apoiar os esforços do Governo da RAEM para actuar como um ‘conector de precisão’, prestando serviços de think tank e cultivando talentos de alto nível”, lê-se na resposta ao HM.

300 alunos em três anos

Do lado da UM, foram assinados, em Abril e no contexto da visita de Sam Hou Fai à Península Ibérica, acordos de cooperação com a Universidade de Barcelona, por exemplo, na área de intercâmbio de estudantes, reforço da “cooperação em disciplinas académicas fundamentais, tais como as ciências da informação e as ciências biomédicas”, descreve um comunicado emitido em Abril.

A UM visitou também a Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), a Universidade Rey Juan Carlos e a Universidade Politécnica de Madrid.

O HM questionou a UM sobre resultados práticos destas parcerias, e se há planos para mais acordos no futuro. “Espera-se que os acordos assinados produzam resultados concretos, incluindo o reforço dos intercâmbios de estudantes, uma colaboração académica mais profunda e uma rede alargada de parcerias de investigação com universidades espanholas”, foi referido.

A UM promete ainda “lançar novas iniciativas de intercâmbio de estudantes”, estando “em curso uma colaboração bem-sucedida de intercâmbio de estudantes com a Universidade de Barcelona”. Assim, prevê-se que “a mobilidade dos estudantes aumente nos próximos anos”.

No universo da UM o espanhol é ensinado no âmbito do Departamento de Português, já que ambas “são línguas intimamente relacionadas que partilham uma longa história”, possuindo “muitas semelhanças linguísticas”.

Nos últimos três anos “mais de 300 estudantes aprenderam espanhol na UM”, sendo que “as decisões relativas à abertura de novos níveis ou turmas, bem como à contratação de mais docentes, dependerão da procura por parte dos estudantes”, aponta a instituição de ensino. Essa é uma intenção expressa: “a UM tem o prazer de reforçar ainda mais a cooperação e expandir a sua oferta de cursos de espanhol em resposta ao crescente interesse”, é referido.

Tendo em conta a crescente presença do universo espanhol na agenda política, a UM afirma que “a expansão da cooperação com os países de língua espanhola é uma prioridade estratégica de desenvolvimento para o Governo da RAEM”. “Nos próximos cinco anos, a UM alinhar-se-á estreitamente com as iniciativas do Governo”, foi indicado, e que “os países de língua espanhola são identificados como uma região prioritária para a cooperação”.

A UPM foi também questionada sobre esta matéria, mas até ao fecho da edição não foi recebida resposta.

No caso da Escola Portuguesa de Macau (EPM), o espanhol foi uma língua disponibilizada como actividade extra-curricular no ano lectivo passado (2024-2025), confirmou ao HM Filipe Regêncio Figueiredo, presidente da Associação de Pais da EPM. Inscreveram-se apenas seis alunos. “A portaria que regula o programa não tem o espanhol, ou outra língua, além do inglês e francês como possibilidade, pelo que, para fazer parte do currículo, o diploma teria de ser alterado “, adiantou.

Uma não invalida outra

Carlos André, professor coordenador honorário da UPM, conhece bem os cantos à casa no que à presença do português em Macau e na China diz respeito. Ao HM, o antigo director do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa salienta a que a ligação histórica e presença da língua portuguesa na RAEM não invalida a aposta noutros idiomas.

Foto: Gonçalo Lobo Pinheiro

“A presença de outras línguas não é e não pode ser uma ameaça. É, isso sim, um enriquecimento”, declara. “Se a realidade se alterar (e todos os dias se altera) temos de aprender a viver com ela como ela é. As autoridades, obviamente, devem ter consciência disso. Não está em causa a construção de muralhas contra línguas que o mercado nos traz. Seria um erro e, além disso, inútil”, acrescentou, falando das “realidades distintas” entre as duas línguas.

“O português é língua oficial e tem em Macau raízes com séculos, alicerçadas num diálogo intercultural que é consensualmente reconhecido e aceite. O espanhol poderá vir a ser em Macau uma língua de negócios, como outras o são igualmente ou podem vir a ser”, disse.

Carlos André recorda que “o espanhol é uma das línguas mais faladas do mundo, muito mais falada que o português, e negar essa realidade seria um disparate”. Porém, assume: “deixemos cada língua no lugar que lhe cabe e não confundamos realidades que não podem ser confundidas”.
Cabe ao mercado e à procura definir a abertura, ou não, de mais cursos e contratações de docentes. “Se o espanhol, no quotidiano do território, do ponto de vista do mercado ou dos mercados, vier a alcançar uma dimensão que justifique a sua presença no ensino superior, é natural que isso aconteça. A universidade não pode fechar os olhos à realidade que a envolve. O mesmo se dirá se isso se passar a outros níveis. Macau, território que tem no seu ADN o interculturalismo, não pode combater uma língua e uma cultura só por serem diferentes”, rematou.

16 Jun 2026