Desenhos e matemática

1.

Médico ginecologista judeu alemão.
Estudou aviação e astronomia.
Morreu em 1968.
As temperaturas mais baixas atacam partes do corpo desprevenidas.
Os infográficos de Fritz Kahn que no século XX explicavam a gripe, a estrutura do corpo, a linguagem e o desejo. Explicavam tudo.
No século XXI, o gráfico tenta explicar, mas tropeça nas linhas e fica a balbuciar, meio mudo.

2.
Tudo o que pode ser desenhado pode ser verdadeiro.
Podemos desenhar algo e o seu contrário. Daí o perigo.

3.
Dias e noites e dias.
Miguel Cardoso lembra que Zeus trata bem aquele “que dispõe a casa/ e sabe o caminho da cama à cozinha/ o nome do vizinho, o tempo oportuno”. E que Zeus trata bem aquele que conhece ainda “os utensílios necessários, os trilhos que conduzem/ de volta à sala depois do campo vasto.”
Um trilho que vem do campo vasto e nos amarrota na cadeira – mas pouca gente vem hoje do campo vasto.
Diminuiu de tamanho o mundo, e tudo que é vasto se vê de longe.

4.
A nossa carta ser secreta, a carta dos outros ser acessível facilmente, eis a questão, mas colocada a grande escala; à Escala dos Estados e da guerra. Guerra micro e macro entre dois desejos: quero perceber o essencial do outro, quero esconder o essencial do outro.
Pensar nos grandes códigos secretos em tempo de guerra.

5.
Turing e uma carta que escreveu à própria mãe falando da sua investigação matemática e da possível aplicação em máquinas com um sistema “quase impossível de descodificar e muito rápido de codificar”.
No final da carta, pergunta à mãe: “tenho dúvidas sobre a moralidade de semelhante coisa? Qual é a tua opinião?”.
O matemático e a mãe.

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10 Jul 2020

“Strata Cabinet”, de Rui Rasquinho, inaugurada na galeria Passevite em Lisboa 

Foi inaugurada este sábado, na galeria Passevite, em Lisboa, a exposição “Strata Cabinet”, do artista plástico Rui Rasquinho, radicado em Macau. Os desenhos expostos, todos feitos em blocos de notas que se dispõem sobre a galeria, são o resultado de uma prática “diária e insistente” a que o próprio artista se obriga.

“Ando sempre com um bloco de notas atrás, mas em geral isto é feito em casa, e é uma prática diária, de estar sempre a desenhar. Os desenhos hesitam entre a abstração e a figuração, há sempre ali uma tentativa de encontrar um meio termo mas sem um objectivo, o que interessa é a experiência dessa tentativa.”

Para Rui Rasquinho, o que está desenhado nos blocos não tem propriamente uma finalidade enquanto objecto artístico, mas revela um exercício de fuga ao quotidiano. “Já se transformou num hábito (desenhar diariamente) e faz parte. Também é uma espécie de fuga em relação a outros trabalhos mais contextualizados que tenho. Aqui há uma liberdade total e é um processo. São esboços que não têm função nenhuma.”

“A ideia é não intelectualizar muito, no sentido em que não estou a fazer estudos para um desenho final. Mas é esse processo de experimentação que interessa. Não pensar muito sobre a coisa e deixar, através do tempo, da insistência e de uma certa obsessão, deixar que o desenho tome o seu próprio caminho. Claro que há algum controlo”, acrescentou o artista plástico.

Fora do tradicional

A forte presença do bloco de notas na exposição é também representativa dessa liberdade de criar sem regras. “O bloco de notas é um veículo. Tem a ver com o formato, em vez de teres uma obra cristalizada tens um bloco de estudos em que todos os desenhos são equiparáveis e tens uma coisa serial.”

Depois de ter participado em algumas mostras em Macau, Rui Rasquinho expõe em Lisboa, algo que não acontecia há algum tempo. Em relação à galeria Passevite, o também ilustrador destaca o facto de ser um projecto também ele livre no que diz respeito às mostras que organiza.

“Não é uma galeria tradicional, é outro tipo de projecto, menos académico. Expõem tudo, de ilustração à fotografia. É um projecto mais aberto. São um grupo de amigos que fazem isto por puro gosto, porque não ganham muito dinheiro com isto.”

Rui Rasquinho vive e trabalha entre Lisboa e Macau. Estudou Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Cinema de Animação na Fundação Calouste Gulbenkian. Publica regularmente ilustração em livros, revistas e jornais, desenvolve e expõe também trabalhos em desenho, pintura e vídeo.

9 Set 2019

O desenho dos dias

Horta Seca, Lisboa, 30 Maio

 

A parceria que se ergueu pavilhão nefelibata na Feira do Livro desenterrou-me nostalgias, como se preciso fosse por estes dias negros e amargos. O Carlos [Morais José] achou por bem fazermos edição especial toda dedicada ao tema fugidio e fascinante, «nuvens», que vogam sempre no plural, já que cada uma por si só muda a cada instante. A saudade que me rasgou não foi tanto a do jornalismo assim vagamente, mas a dos fechos de edição. Acontece magia naquelas horas, pois o caos instalado grita-nos a cada momento «impossível», mas a golpes de vontade as peças vão-se encaixando de modo a fazer luz, isto é, tinta sobre papel. Por vezes, até sentido e beleza se alcança. E fechei revistas e jornais ainda antes do computador simplificar, onde tudo era mais lento. Mas dobrávamos o tempo. Assentámos o essencial nos colaboradores da casa e chamámos Carlos [Fiolhais], o cientista, e o João [Queiroz], o pintor, para conversar. Percebemos por aqui que a água dança nos céus para que a nuvem aconteça, que é colecção de pequenas coisas, ou melhor, que nelas se espelham um sem número de outras coisas.

Ouvimos garantir que a luz pesa, que na pintura o essencial é perceber as fronteiras dos objectos, que as nuvens podem absorver o real. A conversa tombou, às tantas, para um suave combate entre ciência e arte, mas não houve feridos. O Carlos [Fiolhais] teve depois de nos deixar, mas continuámos a três, sendo que essa continuação merecia também gravação. Quem sabe se a memória nos assistirá? Não estávamos sós, percebemos pouco depois. A mymosa tem destas surpresas.

Casa do Juiz, Bencanta, 31 Maio

Saltada a Coimbra, em contexto profissional específico, para ouvir [Álvaro] Laborinho Lúcio discorrer brilhantemente sobre a mais recente e possante recolha de micro-contos do Carlos [Querido], estes todos dedicados a morder os calcanhares da ceifeira. Como de costume, o Sal [Nunkachov] trouxe para a capa um corpo, que não anuncia fins. Além disso, contribuiu com um apêndice de múltiplas interpretações destes ambientes, nem por isso soturnos. A morte está bastante viva, afinal. Pode ser que a palavra nos defenda um pouco, talvez possamos escolher o modo de partir, por exemplo, virando árvore, como em «Tília». «Um dia sonhou-se árvore. Tronco ereto, copa frondosa, folhas perfumadas e caducas. Tília. Enverdeceu. Dum pequeno corte no rosto quase escanhoado brota um líquido pastoso, espesso, escuro. Seiva. É do fígado, desdramatizam os amigos. Diagnóstico precipitado. Eles sabem lá, os amigos. A icterícia é amarela. Não faz os cabelos crescerem verdes, em tufo, espigados, horizontais, a oferecerem aos pés doridos uma sombra circular e refrescante. (…) Por detrás da casa, no fim de um caminho de terra batida, espera-o um bosque com outras tílias. É para lá que se dirige. Escava com os pés até os sentir raízes. Abre os braços em cruz, virado para o nascente onde há-de irromper o sol.

Depois, sobe-os suavemente até que se unam as pontas dos dedos, no desenho quase perfeito de um pentágono que projeta para poente, para o mar, a sombra de uma copa à procura da eternidade a que aspiram todas as árvores.»

Casa da Cultura, Setúbal, 30 Junho

Pouco depois das 00h00, manda a «tradição» de cinco anos, demos por aberta a edição da Festa da Ilustração, em plena rotina. Desta, abriu-se muito espaço para o desenho de humor, não apenas por via do trabalho da convidada contemporânea, a Cristina [Sampaio], mas também pela homenagem a Tignous, um dos mártires do massacre do Charlie Hebdo. O título desta crónica foi também o título de uma exposição da Cristina na Bedeteca de Lisboa, em 2001. Fui reler o que então escrevi e comecei por me surpreender com um rasgado elogio ao jornal, enquanto objecto e lugar de encontro dos tempos todos. Faltou apenas chamar-lhe nuvem… Não me revejo hoje em nenhuma das publicações nacionais, mas para o caso pouco importa. Os desenhos da Cristina perderam fundo, foram-se simplificando, mas o essencial da sua força mantém-se, com forte ligação às narrativas da actualidade, assentando o agudo comentário na dança entre a linha e a transparência, mastigando os corpos. No final, estamos nós. Pessoas e laçadas na corda do tempo.

(Algures na página está a ilustração feita para a Festa). E cito, lá do início do século. «Nós. Ou os bonecos nas mãos de um destino que joga aos dados no bar do cruzamento. Espreitamos com prazer nas transparências que nos espelham. A Cristina Sampaio é uma produtora de ambiguidades. Tem um olhar quase infantil e por isso cheio de perversão. Os seus desenhos, traços leves, mas pesados, surgem-nos claros e imbuídos de texto, sem serem nem caricatura nem cartoon e bastante mais do que meras ilustrações. Dizem, sem querer, que somos acrobatas de borracha, a pedalar sobre um elástico esticado, meros bonecos pintados à mão, a apanhar vento e chuva, às vezes sol, na montra do tempo.»

Lapso, Setúbal, 1 Junho

Não tinha voltado ao passado, quando procurei falar do presente, os mais de oitenta participantes que compõem um rosto à Ilustração Portuguesa, desta feita acolhida em novo e arriscado espaço, a Lapso, galeria-livraria na baixa da cidade. (Que seja augúrio de sorte!) Para o melhor ou pior, continua pujante, entre nós, esta disciplina, tanto mais que nem todos aqui estão representados, por uma razão ou outra. Vejo estrelas. «Soubera eu desenhar e desnecessário se tornava este esforço de procurar a metáfora que cosa estes pedaços soltos de nós, de nós aqui nestes dias adversos e confusos, mas também palpitantes de alegrias e possibilidades. Não chegámos ainda à centena de participantes, mas aproximámo-nos como nunca. As imagens, essas, desmultiplicaram-se e são mais que muitas, umas soltas, outras resultando da mesma encomenda, propondo olhar distendido sobre aquele assunto, próximo da actualidade ou inserido em narrativa, resultado de projecto mais pessoal, com fulgor poético ou comentando isto e aquilo. Reúnem-se aqui apenas por coincidirem no ano que passou? Ou algum nexo, um estilo, uma cor as pode reunir? São estrelas solitárias a comporem uma constelação. Mais do que iluminar a noite escura, brilham para nos mostrar de que somos feitos: poeira de luz. Muitas destas imagens fortes continuam a voar sob o radar da atenção. Quantos de nós se deitam de costas a mirar o firmamento? Não perdem, por isso, a capacidade de nos atrair. Pela dança estética das formas, pelo que dizem ou mostram, por parecerem pedaços partidos de espelho. Parte de nós encontra-se aqui, estilhaçada. Vale muito a pena perdermo-nos à nossa procura.”

12 Jun 2019

Exposição de Ung Vai Meng inaugura na próxima quarta-feira no Albergue

Ung Vai Meng está de regresso às exposições individuais. “Vestígios de Linhas”, que abre na próxima quarta-feira, pelas 18h30, no Albergue SCM, surge integrada nas celebrações do 19.º aniversário da RAEM.

No total, são 29 obras organizadas em cinco séries temáticas – “Instantes”, “Santos”, “Anjos”, “Ópera Chinesa” e “Esboços” –, explorando “uma linguagem, onde a pintura tradicional chinesa se cruza com o desenho a carvão”, diz um comunicado divulgado ontem pelo Albergue SCM. A mostra, comissariada pelo arquitecto Carlos Marreiros, vai estar patente ao público até 13 de Fevereiro. Com entrada livre, pode ser visitada de terça a domingo entre as 12h e as 20h.

Nascido em Macau, onde estudou desenho e aguarela, Ung Vai Meng realizou uma vasta gama de exposições individuais em Macau, Hong Kong, na China e na Europa, tendo vencido inúmeros prémios em competições de arte e design em Macau e no exterior. Ung Vai Meng, que foi presidente do Instituto Cultural, é actualmente professor convidado e mentor de doutoramento da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.

7 Dez 2018

Dias ampliados (com os dedos)

Santa Bárbara, Lisboa, 9 Janeiro

Desacerto. Estes são os dias do desacerto. Se nunca me senti muito da vida («o meu filho é um atado»), agora tudo me sabe a deserto, solidão e danação. A paisagem tornou-se bruta e clara, nítida como lâmina, reflexo do sol nos olhos ao sair da noite. Atravesso-a dolorosamente inclinado para diante, quase tocando o chão que piso, só as pernas se mexem avançando contra o vento, a tempestade de areia, cego ao horizonte, a cheiros e gestos. O nevoeiro de chumbo encheu os ares da cidade. A cada esquina, uma pergunta rasga a rua. Que texto nos prepara para isto? Onde mora o sentido? Com que matéria podemos refazer a alegria? Há pedidos que jamais deviam ser atirados, granada de mão.

 

Lisboa, 11 Janeiro

9h45: com ligeiro atraso para o costume, leio o Expresso Diário no metro enquanto levo pancada das mochilas. Às vezes riposto. O tema era o entediante jogo de empurrões entre Santana Lopes e Rui Rio.

9h55: hoje é só um lance de degraus que deixaram de rolar. Faz sentido complicar a vida de quem sobe ao umbigo do mundo.

9h56: ao telefone com a Elisabete acertamos formato, ilustradores possíveis, papel e espírito de um livro à volta de amores possíveis e impossíveis.

10h01: aceito o pequeno rectângulo, que agradeço e conservo: «Se quiser prender uma vida nova e pôr fim a tudo que lhe preocupa. Contacte o Prof. Karamba que ele tratará o seu problema com rapidez, honestidade e eficácia.»

10h06: reparei que a nossa janela ainda dizia o ano passado, pelo que arranquei o autocolante que anunciava a exposição anterior.

10h15: acedo à conta para ver de recebimentos e tratar de pagar miudezas e nem tanto.

10h25: espreito os emails, despacho os urgentes a que consigo dar resposta, passo outros tantos para a pasta a responder. Assusto-me com o que ali se agita, insectos encurralados.

10h26: chega finalmente o contrato da RTP por causa do Spam Cartoon. Por momentos, chamo-me Joaquim. O erro costuma ser variante do Cotrim, mas desta vez apõem-me o nome do meu avô, o que me faz sorrir.

10h40: irrito-me com a agreste ironia de que, se quiser os livros que ainda estão na insolvente distribuidora, terei, não apenas de pagar o handling, assim lhe chamam em estrangeiro, como o transporte das 17 paletes. Ainda recolhem dinheiro de vendas que jamais verei, mas os pobres precisam da minha esmola para fazerem o trabalho deles.

11h52: entregue que estava mais um Spam Cartoon, reunimos telefonicamente para discutir o que se segue. Com muito esforço, evitamos atirar ao palhaço, i.e., a Trump. E lá continuamos, mesmo depois de desligar, uma conversa de há meses sobre a questão do assédio. Com tanta subtileza em jogo, só lá vai com jantar.

12h45: liga-me a advogada por causa de aditamento a um contrato, coisa de família, que me obrigada a parar tudo, imprimir o dito em quadriplicado, rubricá-lo, assiná-lo e enviar para a minha irmã, por estafeta.

13h15: devíamos comemorar certo encontro, mas as urgências obrigam a almoço rápido, sem mais história que a dos afazeres rotineiros. As datas dos amores possíveis devem celebrar-se contra a agenda, solverem-se na carne dos dias.

15h00: reunião com o Alex Cortez e o Daniel Moreira para acertar detalhes do livro (e dois CD’s) «Poetas Portugueses de Agora». Entusiasmo-me com as múltiplas qualidades, as que ouvi e estas que vejo agora.

15h45: ajudo o Bruno [Mantraste] a montar a exposição relâmpago que inaugura daqui a umas horas. Não há razão para alarme. Estendo o fio que acerta o horizonte. Ajudo a complicar umas contas. Prego uns pregos. Maravilho-me com o que vejo. Os esboços possuem uma tal intensidade que parecem brilhar (exemplo aqui na página). O Teófilo bate à janela: vem inesperadamente dar uma mão.

16h30: por desacerto da atenção, consegui que acontecessem três eventos ao mesmo tempo. Peço à Mariana que acompanhe o Luís Maio, na sua sessão na biblioteca de Oeiras à volta do «Ninguém Sabe Onde Está». Ninguém quis saber.

17h30: vejo a mensagem do Mário Gomes a convidar-me a colaborar na belíssima revista Diaphanes. Uma tentação.

18h00: embate com a realidade do que se entende por grande público. Vejo-me cercado de velhas convenções e mal-entendidos. Entristece-me, apesar de o ter previsto.

18h25: ao desligar o telefone, ainda leio mensagem com ultimato em torno de projecto que me parece estratégico. Tento desajeitadamente remediar o estrago provocado pelo meu desarranjo com os tempos.

18h30: abrimos o segundo ano do Obra Aberta com os recém publicados [José] Anjos e Inês [Fonseca Santos] a falar de poesia, infância e o mais que se solta dos livros. Doravante e para complicar, acederei ao microfone.

20h05: regresso à exposição que já vai alta em animação e gente. Na janela, mora desenhado o título «Sebenta do Diabo». Nas mãos de cada um vejo palpitar coração abraçado por espinhos.

20h35: avanços pelos cumprimentos e saudações em direcção aos braços do Jorge Colombo, que não vejo há anos. Continua grande instigador da curiosidade, dispensário dos mais díspares saberes e atenções. Sacudimos conversa, estendemo-la e nela nos sentámos prazerosamente.

22h05: não se fez fácil fechar, com os de última hora a pôr pé na porta. E olhos no diabo da sebenta.

 

Santa Bárbara, Lisboa, 12 Janeiro

Os esboços, mais do que o acabado, aproximam-me do gesto criador, da fragilidade e da potência. A imperfeição suscita-me reconhecimento, dá-me o conforto de um qualquer entendimento dos rasgos que nos abrem o mundo para o ver por dentro. O conjunto de esquissos desta «Sebenta do Diabo» do Mantraste (editada em risografia e quase toda no vermelho (proibido) pela Stolen Books) não cessa de me comover, de me divertir, de me surpreender. O fim último dos desenhos foi tornado impossível pelo amor e a exposição original, por força das coisas, teve de se chamar: «Desculpem, Apaixonei-me e Não Fiz Nada». Os desenhos, aqui agrupados, por junto com alguns já apurados e coloridos, possuem cuidados diferentes, mas sem perderem em momento algum a intensidade do olhar original do Bruno. Relendo o fantástico S. Cipriano, invoca infância em ambiente rural («foi o meu avô que podou as vinhas do mal») com a ilustração de ditos e lendas e episódios e animais e plantas e fascínios: poços que têm no castelo o seu reverso, mergulho no desconhecido e construção da segurança. Rico de detalhes e composições, ingénuo e metafórico, denso e poético, sugere a cada passo que estamos rodeados de fogos e corações. E diabos.

 

Barraca, Lisboa, 13 Janeiro

Andávamos há meses a escavar em busca do título para o romance do Valério [Romão] que fecha a trilogia. Ele descobriu-o para satisfação do editor: «Cair Para Dentro.»

17 Jan 2018