Conectividade e Alegria

Ana Cristina Alves – Coordenadora do Serviço Educativo do CCCM

Zhuangzi, filósofo taoista, que terá vivido entre o século IV e III a.C, possivelmente entre 369 e 268 a.C, deixou-nos na obra homónima 《莊(庄)子》, como era costume à época, os ensinamentos transmitidos possivelmente na primeira pessoa nos capítulos interiores (1-7), na segunda pessoa dos seus discípulos nos capítulos exteriores (8-21) e na terceira pessoa de outros intelectuais nos capítulos de miscelânea (22-33).

É uma filosofia extremamente motivante que assenta, do meu ponto de vista, em três princípios fundamentais: a aceitação da natureza espontânea (道Dào); o princípio da transformação (物化wùhuà ), que conduz ao postulado de uma uniformidade essencial; e do não-agir (無為/无为 wúwéi), que pressupõe a aceitação duma harmonia pré-estabelecida e do destino. Estamos perante a melhor ordem possível, pelo que o certo é não interferir com o que nos é dado, deixando-nos conduzir por um ritmo de vida necessariamente tensional, mas que cujos desafios devem ser encarados sem reações negativas, seguindo o modelo existencial do bambu, quando é confrontado com ventos de proporções gigantescas, como são os dos tufões na China.

Os capítulos 17 e 18, que agora aqui se trazem pertencem alegadamente aos seus discípulos mais próximos, que transmitem fielmente a filosofia do grande mestre taoista, sendo que o taoismo é a filosofia mais devotada a desenvolver um projeto pessoal, que funcionará, portanto, exemplarmente do ponto de vista existencial.

A concluir o capítulo XVII, o das Cheias de Outono (Qiū Shuǐ dìshíqī), assiste-se a um diálogo simbólico entre o filósofo Zhuangzi e o seu grande amigo Huizi (惠子), conhecido na tradição sinológica, da qual o padre Thomas Merton se faz um bom arauto em A Via de Zhuangzi (1999, 126-127), como “A Alegria dos Peixes”, cujo princípio diretriz é o da conectividade comunicante entre todos os seres vivos, o mesmo que norteia um outro episódio, relatado no final do capítulo II, o do filósofo sonhar ser uma borboleta (Zhuangzi, 1999,38-40) .

No capítulo XVII, Zhuangzi afiança ao incrédulo amigo Huizi perceber, ou melhor, intuir perfeitamente a alegria dos peixes, já que ao olhar para eles na ponte do Rio Hao reconhece os sinais que em si mesmo se manifestam quando se sente contente. O amigo Huizi, seguindo uma filosofia racionalizante e separatista, contrapõe que tal é impossível, sendo silenciado pelo pressuposto lógico da comunicação entre toda a natureza. Zhuangzi recorre ao argumento de que é possível estender o diálogo inteligente dos humanos a todos os seres vivos. O filósofo ao ganhar o debate alargou o domínio da linguagem, que passa a incluir a verbal, mas também a visual, muito mais próxima de uma comunicação silenciosa e intuitiva, muito valorizada pela escola taoista, sempre desconfiada de excessos palavrosos e discursivos. E garante, simultaneamente, o primado da conexão, ora visível ora invisível, entre toda a natureza, enraizada no Tao, sendo afinal essa conexão viabilizadora de um fluir de sentimentos entre todos os seres, que conduz à verdadeira alegria, contra o cosmos triste e solipsista defendido em algumas tradições filosóficas racionalistas, cujo primado assenta numa razão incapaz de estabelecer a conexão com o corpo, seja ele individual ou coletivo, como António Damásio teve oportunidade de denunciar em O Erro de Descartes (2011).

Na verdade, o que importa para que a alegria fique garantida, inclusive entre humanos, passa por um alargamento da esfera da sensibilidade, do sentimento de si, ainda pensando em Damásio, ao sentimento dos outros, do reconhecimento da satisfação advinda da profunda conexão entre toda a natureza.

Passe-se então à tradução do diálogo, do chinês tradicional para o contemporâneo e do contemporâneo para o português:

原文 Chinês clássico1

莊子與惠子遊於濠梁之上。莊子曰:“鯈魚2出遊從容,是魚之樂也。”

惠子曰:“子非魚,安知魚之樂?”

莊子曰:“子非我,安知我不知魚之樂?”

惠子曰:“我非子,固不知子矣;子固非魚也,子之不知魚之樂,全矣。”

莊子曰:“請循其本。子曰‘汝安知魚樂’雲者,既已知吾知之而問我,我知之濠上也。”

今译 Chinês contemporâneo

庄子和惠子在濠水桥上游玩。庄子说:“白鲦鱼从容不迫地游来游去,这是鱼的快乐啊!”

惠子说:“您不是鱼,怎么知道鱼是快乐的?”

庄子说:“您不是我,怎么知道我不晓得鱼的快乐?”

惠子说:“我不是您,固然不知道您;您本来也不知道鱼,那么您不知道鱼的快乐, 是完全可以肯定的了。“

庄子说:“请回到原来的话题吧。您说‘您怎么知道鱼的快乐’这句话,就是您已知道我晓得鱼的快乐而来问我的,——我是在濠水桥上知道的啊!”

(Zhuangzi, 1999, 282-3)

Note-se que a Tradução que proponho para Português possui alguma adaptação à nossa língua, por exemplo, recorro a conjunções e locuções conjuntivas para unir orações e evito a repetição de certos verbos, com sentido não-filosófico, de modo a tornar a leitura mais fluída:

Zhuangzi e Huizi estavam a passear na ponte do Rio Hao, quando Zhuangzi disse: “Os peixes nadam calma e despreocupadamente de um lado para o outro, eis a sua alegria!”

Huizi respondeu: “Se não é peixe, como pode conhecer a alegria dos peixes?”

Zhuangzi replicou: “Você não é eu, como pode conhecer que eu não sei da alegria dos peixes?”

Huizi prosseguiu: “Eu não sou o meu amigo, razão pela qual não o conheço, e o senhor também não conhece os peixes, então é mais que certo que não conhece a alegria deles.”

Zhuangzi concluiu: “Vamos voltar à raiz da questão. Proferiu a seguinte oração: ‘como pode conhecer a alegria dos peixes’, então já percebeu que eu sabia da alegria deles, por isso me perguntou, quanto a mim, conheci-a na ponte do Rio Hao!”

Esta ligação espontânea e natural a tudo o que existe é fonte de grande alegria e felicidade, como nos é explicado no capítulo XVIII da obra, intitulado “Felicidade Perfeita”. Aqui se defende o princípio do não-agir (無為/无为 wúwéi), melhor dizendo, da concordância com a natureza, interior e exterior, sem procurar interferir com o mundo que nos rodeia, até porque se o objetivo for alcançar a felicidade, ela não é adquirível por nenhuma das nossas ações que tenham em vista valores materiais ou sociais, normalmente enaltecidos, como sejam a riqueza, as honras, a abundância e, até mesmo, a saúde ou a longevidade; chegámos a este mundo sem ser consultados e partiremos quando for a nossa hora, como bem ilustra o episódio da morte da mulher de Zhuangzi, relatado neste mesmo capítulo. Quando Huizi visita o amigo para lhe apresentar as suas condolências, encontra-o agachado a tamborilar numa bacia e a cantar, numa aceitação clara do destino: Sim, a mulher lhe tinha feito muito boa companhia ao longo de décadas, havia então que aceitar a lei da natureza e não revoltar-se contra a ordem pré-estabelecida, que nos diz haver saúde e doença, riqueza e pobreza, vida e morte num ciclo de eterna transformação. “A felicidade genuína é derivada da ausência de felicidade, assim como a fama perfeita deriva da ausência de fama.” (至樂無樂,至譽無譽 , na versão contemporânea em chinês simplificado, 最大的快乐在于‘无乐’,最高的荣誉在于‘无誉’ (Zhuangzi, 1999, 286).

Ao não-agir, ou melhor, ao não-interferir seguimos os modelos existenciais do Céu claro/clarividente e da Terra tranquila, alcançando assim uma felicidade perfeita e uma imensa alegria em viver:

原文 Chinês clássico

天下是非果未可定也。雖然,無為可以定是非。至樂活身,惟無為幾存。請嘗試言之。天無為以之清,地無為以之寧,故兩無為相合,萬物皆化生。芒乎芴乎,無從出乎?芴乎芒乎,而無有象乎!萬物職職,皆從無為殖。故曰天地無為也而無不為也

今译 Chinês contemporâneo

天下的是非确实还难以下定论。尽管如此,“无为”可以定是非。最大的快乐能存活身心,而只有清静无为才几乎可以存活身心。请让我说说试试看:天“无为”,因而清虚; 地“无为”,因而宁静,天与地这两个无为的合一,才孕育出万物的存在。恍恍惚惚,不知道它们从哪里生出来!恍恍惚惚找不出一点迹象来!万物繁多,都从无为的生态中产生。所以说:“天地无心作为,却没有一样东西不是从它们之中产生出来的。”

(Zhuangzi, 1999, 286)

Proposta de Tradução para Português

É muito difícil distinguir o certo do errado no nosso mundo, apesar disso o “não-agir” pode fazê-lo, sendo esta a maior felicidade. Permitam-me que o diga, o Céu é Clarividente, por causa do seu “não-agir”; a Terra é tranquila, por causa do seu “não-agir”. O não-agir conjugados do Céu e da Terra, conduz à gestação e existência de tudo o que vive, indistintamente, sem que se perceba donde surgiram! Indistintamente, sem vestígios, surgem as miríades de seres, todos criados a partir de um não-agir vital. Por isso se diz que: “o Céu e a Terra criam sem intenção, porém nada fica por gerar.”

E acrescenta-se em jeito conclusivo que este não-interferir do Céu da Terra com a ordem natural dos “dez mil seres” traz grande alegria e até mesmo suprema felicidade na sequência do que é defendido pelo fundador do Taoismo, no capítulo VII do Livro da Via e da Virtude 《道德经•七》3, na tradução de António Graça de Abreu (2013):

天長地久

天地所以能長且久者

以其不自生

故能長生

(… …)

Eternos, Céu e Terra.

Porquê eternos?

Não existem para si próprios,

por isso permanecem para sempre.

(…)

(Abreu, 2013, 40-41)

Bibliografia

Abreu, António Graça de (trad.). 2013. Livro da Via e da Virtude. Tao Te Ching.道德经. Lisboa: Nova Vega.

Damásio, António. 2011. O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano. Lisboa:Temas e Debates.

Merton, Thomas. 1999. A Via de Chuang Tzu. Petrópolis: Editora Vozes.

Qin Xuqing (秦旭卿), Sun Yongchang (孙雍长) (Trad Chinês Contemporâneo),Wang Rongpei() (汪榕培Trad. Inglês). 1999. Zhuangzi 庄子. Vol I e II. Hunan, Beijing, Hunan People´s Publishing House, Foreign Languages Press.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo que as opiniões expressas no artigo são da inteira responsabilidade dos autores. https://www.cccm.gov.pt/

Os textos da presente edição mantêm a estrutura clássica, mas em chinês simplificado, no entanto, por uma questão de coerência temporal, os textos deste artigo terão chinês tradicional a acompanhar a estrutura clássica, enquanto que os de estrutura contemporânea serão apresentados em chinês simplificado, seguindo a edição sem quaisquer alterações.

Um tipo de peixe muito vulgar nas águas dos rios da China, cujo nome científico é Leuciscus macropus.

Os sinogramas do texto apresentado por Graça de Abreu foram convertidos para chinês tradicional, tal como sucedeu com a edição de Zhuangzi.

3 Mar 2025

A invenção da alegria

Neste espaço em que escrevo sobre livros, embora não tenha contas feitas, talvez tenha trazido quase tantos ensaios quanto romances. E hoje é acerca de mais um ensaio que vou escrever, que me marcou muito quando o li, ainda quando vivia no Brasil. O livro chama-se «A Grande Invenção», do escritor dinamarquês Johannes Jungersen. Jungersen morreu em 1996, dois anos depois da publicação do livro, com 34 anos, num trágico acidente de carro.

Fez ontem, 26 de Abril, 25 anos. Infelizmente, Jungersen não deixou mais nenhum livro além de «A Grande Invenção», onde nos mostra, através de mais de duzentas páginas, como «[…] a grande invenção humana não foi a roda, a penicilina ou o foguetão que nos levou à lua, mas a alegria.»

No século XIX, Darwin escrevia que a capacidade de adaptação era a grande responsável pela sobrevivência das espécies e, concomitantemente, dos espécimes. E, segundo Jungersen, a alegria é indissociável da capacidade de adaptação. A capacidade de adaptação não se define apenas em relação ao clima, à alimentação, às contrariedades físicas, mas também em relação à capacidade de se ser alegre. Escreve, logo na página 17: «Sem alegria, ninguém sobrevive.» E, depois de várias páginas onde percorre várias doenças psicológicas, como a depressão, o transtorno de ansiedade e o transtorno obsessivo-compulsivo, ligando-as à falta de alegria – «[…] todas estas doenças têm como principal problema a incapacidade de produzir ou de encontrar alegria. É a falta de alegria que está na base do problema e que é comum a todos os distúrbios psicológicos mencionados antes. As diferentes expressões da doença é o modo como a pessoa reage a essa ausência de alegria.»

Mas o que é a alegria? Ou o que é que o autor dinamarquês entende por alegria, que acusa de ser a maior invenção humana? Leia-se as páginas 32-3:

«Em a Epístola aos Filipenses, Paulo escreve: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: Alegrai-vos!” A palavra alegria vem de um verbo grego “phyo”, que significa “produzir”, querendo com isso significar que quem é alegre é produtivo, fecundo. […] Independentemente de uma posição religiosa, o que está em causa é que a alegria, seja no Senhor ou no Universo, é fundamental. A alegria é criadora de vida. É a alegria que permite que possamos ver o futuro como um lugar que não nos é hostil, que nos permite ver adiante e aligeirar o medo.»

A alegria, enquanto invenção, não é apenas a criação de vida, mas a criação de sentido para a vida, porque «[…] alegria é uma disposição que nos afasta do peso de todos os fins. E todos os fins, quer seja o de uma relação amorosa, o de um projecto em que se está envolvido ou o da própria vida ou daqueles que amamos, são impeditivos de continuação. Viver com a visão do fim continua ou frequentemente impede que a vida avance. E a alegria é esse desbloqueador. Depois de ganharmos consciência, de sabermos que tudo tem um fim, era preciso um antídoto para que a vida não bloqueasse de vez. A alegria é esse antídoto, essa grande invenção, que permite que o ser humano continue, apesar da consciência.»

Jungersen faz também a distinção entre capacidade de criar alegria e capacidade de encontrar alegria. «Ambas são importantes, pois são elas que nos colocam nos eixos do futuro, de vermos a vida com sentido ou, pelo menos, de não vermos a vida sem sentido nenhum. Há, contudo, duas capacidades diferentes: capacidade de criar alegria e capacidade de encontrar alegria. A primeira é aquilo que podemos definir como capacidade de criação e a segunda a capacidade de encontrar as criações que promovem o bem-estar. […] em ambas, é fundamental a aceitação da alegria. Pois não é de todo certo que aquele que cria ou aquele que encontra alegria a aceite. Podemos criar e recusar essa alegria, recusar participar na própria dádiva de vida que foi criar. Assim como podemos encontrar a alegria a cada esquina e constantemente rejeitá-la. Por conseguinte, a despeito de se criar ou de se encontrar alegria, a capacidade de aceitá-la é determinante.»

No fundo, o que parece estar em causa neste livro é mostrar que, contrariamente à ideia generalizada de que a tristeza pode ser um grande propulsor de criação, é a alegria que produz, porque é ela que permite que continuemos a projectar futuro e a ter forças para continuar, apesar de todas as contrariedades. «O mundo, sem alegria, não seria uma tristeza; simplesmente não existia. Embora pudesse existir a natureza.»

Numa das suas entrevistas, aquando da publicação do livro, Johannes Jungersen diz que esta descoberta da alegria, como sendo a grande invenção humana, já há uns anos que vinha sendo pensada, «mas quando li “Água Viva” da escritora brasileira, Clarisse Lispector” tudo se organizou como se precisasse de ler essa passagem para ter coragem de escrever o livro. A passagem é esta: “Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida […]”. Foi como ver um sinal fora de mim de que tinha de escrever este livro. A alegria é aquilo que nos sustenta, que nos dá força. Mas não é algo que tenhamos herdado, foi algo que inventámos, assim como a posição erecta.»

Na Dinamarca, assinala-se os vinte e cinco anos da morte de Johannes Jungersen com uma edição conjunta do livro, de todas as entrevistas e de todos os artigos que escreveu para revistas e jornais. Por aqui, talvez fosse altura de termos uma tradução em português de Portugal de «A Grande Invenção», mesmo sem as entrevistas e os artigos publicados. Talvez hoje faça ainda mais sentido reflectirmos acerca da função ou da necessidade da alegria do que ao tempo da publicação do livro. Para Jungersen, a alegria é o factor responsável pela capacidade de adaptação à vida, às mudanças, à descida ao inferno, a todos os infernos, até mesmo ao da consciência mais cristalina.

26 Abr 2021

Brevíssimo tratado da alegria

[dropcap]P[/dropcap]ara quem se compraz com o familiar, como este vosso criado, a vida no bairro tem corrido a uma velocidade vertiginosa e inalcançável. Conto: primeiro foi a partida da menina Marina, a sábia que tantas vezes protagonizou estas crónicas. Foi substituída no seu posto por uma jovem rapariga. Mas com o regresso da época lectiva a adolescente foi fazer o que fazem os adolescentes. No seu lugar está agora uma mulher competente e de extrema simpatia, oriunda da China e com o mais extraordinário nome: Nasa (juro). Alguma da clientela habitual deste retiro não consegue impedir o trocadilho inofensivo: “Vou pedir um café à Nasa” ou “Será que a Nasa sabe fazer abatanados” são apenas dois exemplos. Toda a gente sorri e ninguém leva a mal, a começar pela própria.

A simpática Nasa está numa fase de aprendizagem, conhecendo devagar as manias dos clientes, os temas de conversa, os caprichos de alguns pedidos. E ainda tropeça na nossa língua. Um desses tropeções aconteceu comigo e levou-me mais longe do que esperaria. A estas palavras, por exemplo. Disse-me ela, vendo-me trocar graçolas com o dono do estabelecimento: “O senhor Nuno hoje é alegre”. Queria naturalmente dizer “está alegre”. Mas o engano revelou-lhe a linda (e incompreensível para estrangeiros) bifurcação ontológica entre o verbo “ser” e o verbo “estar”. Quando isso se conjuga com a palavra “alegre” e me diz respeito dá-me logo que pensar e escrever.

Bicho estranho, esse da alegria. Não se trata de ser feliz, não se trata de ter sentido de humor. Não é um riso sobre o mundo – é estar contente com ele, nem que seja por indesejados instantes. A língua portuguesa ainda complica a coisa de forma maravilhosa: somos alegres ou estamos alegres ou ambos?

«Não há ninguém capaz de me dar alegria», dizia um esplêndido refrão dos Heróis do Mar. Mas aqui a alegria é antónimo de tristeza e isso não chega nem serve e nem sequer é verdade. O que é ser alegre, estado existencial que confesso não conheço nem em mim nem aos que me rodeiam?

Apenas o estar alegre: um desprezo temporário das agruras da vida, um estar em casa com o que os dias têm para oferecer. Não se trata de felicidade ou de “ser feliz”: todos sabemos que ninguém com alguma vida e sensatez pode ousar dizer que é ou foi feliz. É uma utopia eufórica que normalmente se confunde com um momento. Não quer dizer que não se possa almejar a esse castelo de areia. Mas é difícil levar a coisa a sério. Por exemplo, se eu disser que tive uma infância “feliz” quero dizer que fui protegido, porque tive sorte e pais dedicados, das desgraças que me poderiam ter atingido. Mas o crescimento trouxe várias angústias e momentos de extrema solidão, como aliás penso que acontece a toda a gente que partilhou a mesma condição. Ou seja: apesar de tudo houve momentos de infelicidade, de dúvida, de tristeza.

Mas divago, como de costume. O leitor é paciente e compreende. E mais entenderia se alguém se apresentasse, como me aconteceu variadas vezes, como uma “pessoa alegre”. O que diabo isto quer dizer? Eu respondo: é o sinal para fugir a sete pés. Se alguém acredita que a vida é a sua sala de estar, que está sempre com um sorriso ou disposição luminosa está a mentir. Ou pior, está nas bermas da vida ou da inimputabilidade ou ambas.

Há um episódio verídico que o humorista Ricardo Araújo Pereira costuma dar como exemplo. Trata-se de um homem deprimido e descontente com o mundo que procura a ajuda de um psiquiatra. O clínico ouve-o, regista a sua tristeza e aconselha: “Deveria ir assistir ao espectáculo do famoso palhaço Grimaldi. É de uma alegria extraordinária. Isso ajudá-lo-ia”. A resposta do paciente é famosa: “Mas doutor, eu sou Grimaldi”.

A alegria é um estado transitório como todos, a começar pela própria vida. O que mais se pode aspirar é ser Grimaldi de quando em vez. Perguntem à Nasa.

9 Out 2019