Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA peste, a Sibéria e o apocalipse “The fear, not the disease, threatened to break the society apart.” – John M. Barry, The Great Influenza: The Story of the Deadliest Pandemic in History (2004) A humanidade moderna possui um talento extraordinário para duas actividades aparentemente contraditórias. Por um lado, ignora solenemente os perigos reais que enfrenta todos os dias. Por outro, corre em círculos ao mais leve indício de uma catástrofe potencial. Um cidadão comum atravessa distraidamente uma passadeira olhando para o telemóvel, consome alimentos processados como se fossem património da humanidade e dorme sistematicamente quatro horas por noite. Contudo, basta surgir a palavra “peste” associada à Sibéria para se imaginar imediatamente uma versão actualizada da Idade Média, desta vez com ligação à internet e comentários em tempo real nas redes sociais. Foi precisamente isso que aconteceu quando surgiu a notícia da morte de uma jovem técnica de laboratório, Daria Shipilova, de 28 anos, que trabalhava num instituto de investigação dedicado ao estudo da peste em Irkutsk, na Sibéria. A morte ocorreu após uma pneumonia grave e gerou uma avalanche de especulações, rumores, desmentidos, rectificações e comunicados contraditórios. Num mundo que ainda sofre de stress pós-traumático epidemiológico desde 2020, bastou ouvir a expressão “peste pneumónica” para milhares de pessoas começarem mentalmente a procurar máscaras cirúrgicas esquecidas numa gaveta. O mais curioso é que a própria história parece construída para alimentar a imaginação colectiva. Existe uma investigadora jovem, um laboratório que estuda agentes patogénicos perigosos, uma morte repentina, autoridades que dizem uma coisa e depois corrigem o que disseram. Existem hospitais sob observação e centenas de contactos monitorizados. Falta apenas uma banda sonora inquietante e teríamos material suficiente para uma série de sucesso numa plataforma de streaming. Mas a realidade, felizmente, costuma ser menos cinematográfica do que os nossos medos. A primeira observação importante é que a peste nunca desapareceu. Esta afirmação tem o mesmo efeito psicológico que descobrir que um dinossauro continua vivo numa floresta remota. A maioria das pessoas imagina a peste como um capítulo encerrado da História, ao lado das armaduras medievais, dos castelos sitiados e das sangrias terapêuticas. Contudo, a bactéria “Yersinia pestis” continua presente em várias regiões do mundo, sobrevivendo em populações de roedores selvagens e nas pulgas que os acompanham. O desaparecimento da peste foi, na verdade, uma ilusão semântica. O que desapareceu foram as grandes pandemias devastadoras. A bactéria permaneceu. William McNeill, em “Plagues and Peoples”, observava que as doenças infecciosas acompanham a humanidade com uma fidelidade que muitos amigos não conseguem igualar. Podem recuar, mudar de intensidade e parecer derrotadas durante décadas, mas raramente desaparecem completamente. São hóspedes silenciosos da História. No caso concreto da peste pneumónica, existe uma diferença particularmente importante. Ao contrário da forma bubónica clássica, associada aos famosos bubões, a variante pneumónica instala-se nos pulmões e pode transmitir-se de pessoa para pessoa através de partículas respiratórias. É essa característica que provoca especial atenção das autoridades de saúde. Não porque seja inevitavelmente uma ameaça global, mas porque constitui uma forma potencialmente mais contagiosa da doença. Aqui entra em cena um elemento muito menos emocionante do que os cenários de desastre que é a ciência. Enquanto as redes sociais procuravam construir a próxima pandemia mundial, os epidemiologistas fizeram aquilo que devem fazer. Contaram casos. Identificaram contactos. Recolheram amostras. Compararam resultados laboratoriais. Em suma, dedicaram-se à ingrata tarefa de substituir especulações por evidências. A Organização Mundial de Saúde adoptou desde o princípio uma postura extraordinariamente prudente. O porta-voz Christian Lindmeier afirmou que, com base nas informações disponíveis, o risco era considerado “moderado a baixo” para Irkutsk, “baixo” para a Federação Russa e “muito baixo” para a região europeia da OMS. Acrescentou ainda que nenhum dos contactos identificados apresentava sintomas compatíveis com a doença e que os testes realizados não tinham detectado agentes patogénicos perigosos. Convém repetir esta parte porque ela tem o inconveniente de ser menos sensacionalista do que os títulos alarmistas. Nenhum contacto apresentou sintomas e testou positivo para agentes infecciosos perigosos. O risco internacional foi classificado como muito baixo. Naturalmente, este tipo de informação dificilmente se torna viral. A serenidade raramente gera audiências. Vivemos numa época peculiar em que um rumor se desloca à velocidade da luz enquanto a confirmação científica avança ao ritmo de um funcionário das finanças próximo da hora de almoço. O rumor chega primeiro, fala mais alto e parece sempre mais interessante. A questão central acabou por não ser apenas médica. Tornou-se também política. Os relatos contraditórios provenientes da Rússia contribuíram para a confusão. Algumas declarações iniciais sugeriam uma ligação à peste pneumónica. Posteriormente, as autoridades passaram a referir-se apenas a uma pneumonia de origem desconhecida. A OMS solicitou mais informações e insistiu na necessidade de transparência. O próprio director-geral da organização sublinhou a importância de uma partilha rápida e completa de dados ao abrigo dos Regulamentos Sanitários Internacionais. A palavra “transparência”, aliás, adquire frequentemente uma dimensão quase poética quando aplicada a regimes pouco conhecidos pela sua paixão pelos vidros limpos. A pandemia da Covid-19 deixou uma herança duradoura. Hoje, qualquer informação relacionada com um laboratório, um agente patogénico e uma morte inesperada desencadeia imediatamente associações mentais inevitáveis. O mundo aprendeu, da forma mais dolorosa possível, que ignorar sinais precoces pode ser extremamente caro. Ao mesmo tempo, também aprendeu outro ensinamento importante de que nem todos os alertas conduzem a catástrofes. É precisamente por isso que existe vigilância epidemiológica. A vigilância não serve para anunciar o fim do mundo. Serve para garantir que o fim do mundo não chega sem aviso. O professor Miguel Castanho, bioquímico e investigador português, salientou um aspecto particularmente relevante. A bactéria da peste não circula normalmente em ambientes hospitalares nem está sujeita à enorme pressão selectiva criada pelo uso intensivo de antibióticos. Por essa razão, continua geralmente sensível a muitos dos antibióticos convencionais actualmente disponíveis. Esta realidade diferencia profundamente a peste de muitos outros agentes infecciosos modernos, que desenvolveram níveis preocupantes de resistência terapêutica. É uma ironia deliciosa da biologia. Uma das doenças mais temidas da História revela-se, em vários aspectos, mais vulnerável aos tratamentos actuais do que muitos microrganismos relativamente banais encontrados em hospitais modernos. Em “The Great Influenza”, o historiador John M. Barry recorda que o verdadeiro poder das epidemias não reside apenas nos micróbios. Reside igualmente no medo. O medo altera comportamentos, influencia decisões políticas, perturba economias e molda sociedades inteiras. O caso de Irkutsk demonstra precisamente isso. Uma única morte, cuja causa permanece sob investigação, foi suficiente para desencadear preocupações internacionais, acompanhamentos diplomáticos, monitorização por parte dos Estados Unidos, atenção das autoridades chinesas e vigilância do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças. Mas seria incorrecto ridicularizar essa preocupação. A preocupação é saudável. O alarmismo é que costuma ser contraproducente. Existe uma diferença fundamental entre vigilância e pânico. A vigilância exige atenção. O pânico exige imaginação. E a imaginação humana, quando estimulada por palavras como “peste”, “laboratório” e “Sibéria”, raramente conhece limites. Outro elemento interessante deste episódio prende-se com a existência de institutos dedicados ao estudo da peste. Para muitas pessoas, a simples presença de um laboratório antipeste parece suspeita. Contudo, essa reacção revela uma curiosa inversão lógica. O laboratório existe precisamente porque a doença continua a existir. Estudar agentes patogénicos não cria os agentes patogénicos. Pelo contrário, ajuda a compreender os riscos que representam. Seria semelhante a encerrar quartéis de bombeiros na esperança de eliminar incêndios. A prevenção científica raramente beneficia do mesmo entusiasmo mediático que as crises que procura evitar. Há ainda uma dimensão geopolítica impossível de ignorar. Sempre que uma situação de saúde pública surge num contexto internacional marcado por tensões diplomáticas, a interpretação dos acontecimentos torna-se inevitavelmente mais difícil. A confiança é um recurso tão importante quanto os antibióticos. Quando existe confiança entre instituições, a informação circula rapidamente. Quando a confiança escasseia, multiplicam-se as suspeitas, os rumores e as teorias alternativas. É por isso que a insistência da OMS na transparência assume uma importância tão grande. Não se trata apenas de uma questão científica. Trata-se de uma questão de credibilidade institucional. Até ao momento, contudo, os factos disponíveis apontam numa direcção relativamente tranquilizadora. Não existem sinais de transmissão sustentada entre pessoas. Não existem cadeias documentadas de contágio. Não existem casos secundários confirmados. Não existe sequer uma confirmação oficial de que a peste tenha sido a causa da morte da investigadora. Em consequência, talvez a pergunta inicial mereça uma resposta simples. Devemos estar preocupados? Sim, na medida em que uma sociedade responsável deve acompanhar qualquer potencial ameaça sanitária. Não, na medida em que os dados actualmente disponíveis não justificam cenários de catástrofe. Uma sociedade madura distingue vigilância de histeria. Infelizmente, as sociedades modernas nem sempre demonstram grande talento para essa distinção. Talvez porque o apocalipse sempre vendeu melhor do que a normalidade. Talvez porque a prudência raramente conquista audiências. Ou talvez porque continuamos fascinados pela ideia de que a História regressa ciclicamente para nos assustar. Desta vez, contudo, tudo indica que a velha bactéria medieval encontrou pela frente algo que os seus antepassados nunca tiveram de enfrentar que são sistemas internacionais de vigilância, antibióticos eficazes, laboratórios avançados e uma comunidade científica que, apesar de todas as limitações humanas, continua a fazer o trabalho ingrato de separar factos de fantasias. E isso, por enquanto, é uma notícia bastante melhor do que qualquer manchete alarmista.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesQuando a paz tem cheiro a petróleo “The great enemy of the truth is very often not the lie, deliberate, contrived and dishonest, but the myth, persistent, persuasive and unrealistic.” John F. Kennedy, Yale University Commencement Address (11 June 1962). A História possui um sentido de humor particularmente cruel. Sempre que a humanidade proclama estar prestes a alcançar a paz, aparece uma factura. Desta vez, a factura poderá vir sob a forma de refinarias, campos petrolíferos e postos de combustível espalhados pelo mundo, pertencentes à gigante russa Lukoil. Porque, aparentemente, no século XXI, as pombas da paz já não transportam ramos de oliveira. Transportam contratos energéticos. Segundo uma investigação do New York Times, as negociações entre Washington e Moscovo para o fim da guerra na Ucrânia passaram a incluir discussões sobre um acordo multimilionário envolvendo activos internacionais da Lukoil. O negócio exigiria aprovação simultânea da administração americana e do Kremlin, demonstrando que, embora o capitalismo adore proclamar a sua independência, continua frequentemente a necessitar da bênção dos príncipes políticos. A situação tem algo de teatral. Durante décadas, políticos de ambos os lados do Atlântico repetiram que os valores democráticos, a soberania dos povos e o direito internacional constituem princípios inegociáveis. Entretanto, eis que as conversações sobre a paz surgem acompanhadas por uma oportunidade de negócio capaz de fazer sorrir qualquer administrador de fundos de investimento. O mais curioso não é que existam interesses económicos. Isso seria apenas a confirmação do óbvio. O verdadeiramente fascinante é a persistência com que o discurso público continua a fingir surpresa. Desde Tucídides até aos nossos dias, a política internacional raramente foi um concurso de virtudes. Foi quase sempre uma negociação entre interesses, recursos e poder. Henry Kissinger escreveu em “Diplomacy” (1994) que os Estados actuam principalmente segundo cálculos estratégicos e não por impulsos morais. A frase escandaliza apenas aqueles que ainda acreditam que as conferências internacionais são reuniões de poetas humanistas. Na realidade, são encontros onde cada participante chega acompanhado por uma calculadora. A eventual inclusão da Lukoil nas conversações sobre a Ucrânia parece confirmar essa tradição. De acordo com as informações divulgadas, o grupo empresarial em causa procura adquirir ou reestruturar activos internacionais da petrolífera russa, num processo que envolveria investidores ligados a círculos próximos de Steve Witkoff e Jared Kushner. É difícil evitar a ironia. Durante anos, as sanções económicas foram apresentadas como instrumento indispensável para pressionar Moscovo. O raciocínio era simples incluindo restringir receitas, enfraquecer capacidades e forçar concessões. Agora, discute-se a possibilidade de algumas dessas restrições serem aliviadas precisamente porque uma flexibilização poderá favorecer um acordo mais amplo. Numa época menos sofisticada, este fenómeno teria um nome muito directo que é pragmatismo. Hoje prefere-se utilizar expressões mais elegantes, como “criação de incentivos”, “construção de confiança” ou “arquitectura de estabilidade”. A terminologia mudou. A substância permanece notavelmente semelhante. A Lukoil não é uma empresa marginal. Trata-se da segunda maior produtora petrolífera da Rússia e de uma das maiores companhias energéticas mundiais, representando cerca de 2% da produção global de petróleo. Essa dimensão explica porque razão qualquer alteração ao seu estatuto jurídico ou sancionatório possui implicações que ultrapassam largamente as fronteiras russas. Num mercado internacional ainda sensível a choques energéticos, a mera expectativa de aumento da oferta pode influenciar preços. E os preços do petróleo continuam a ser um dos grandes reguladores silenciosos da economia mundial. Daniel Yergin, no clássico “The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power” (1991), demonstrou como o petróleo nunca foi apenas uma mercadoria. Foi uma alavanca geopolítica, uma arma estratégica e, em muitos momentos, um instrumento de política externa. Trinta e cinco anos depois da publicação da obra, a tese permanece desconfortavelmente actual. A guerra na Ucrânia transformou-se gradualmente numa demonstração prática dessa realidade. O conflito não é apenas territorial, militar ou ideológico. É igualmente energético. Enquanto os combates continuam a produzir destruição humana incalculável, o petróleo prossegue o seu percurso quase indiferente através de oleodutos, terminais marítimos e mercados financeiros. A energia não vota resoluções nas Nações Unidas. Limita-se a circular para onde encontra compradores. É aqui que surge uma das maiores contradições contemporâneas. Os governos falam frequentemente sobre princípios absolutos, mas os mercados operam segundo necessidades concretas. Uma refinaria não processa valores morais. Processa crude. Naturalmente, os defensores deste eventual acordo argumentarão que qualquer iniciativa susceptível de aproximar o fim da guerra merece consideração séria. E não lhes falta razão. A continuação do conflito representa um custo humano devastador. Milhares de mortos, milhões de deslocados, destruição de infra-estruturas e uma instabilidade prolongada que atinge toda a Europa. Perante este quadro, qualquer mecanismo que facilite negociações significativas deve ser analisado sem preconceitos ideológicos. Contudo, a questão não reside apenas nos benefícios potenciais. Reside também nas percepções. Se um acordo petrolífero passar a ser visto como parte essencial do processo de paz, surgirão inevitavelmente dúvidas sobre a natureza das negociações. Será a paz o objectivo principal ou apenas a consequência conveniente de um entendimento económico mais vasto? John Mearsheimer, em “The Tragedy of Great Power Politics” (2001), argumenta que as grandes potências tendem a actuar segundo os imperativos da sobrevivência estratégica. Sob essa perspectiva, o eventual envolvimento da Lukoil não constitui uma anomalia. Constitui precisamente o funcionamento normal da política internacional. Ainda assim, existe algo de perturbador na imagem. Enquanto soldados continuam a arriscar a vida nas linhas da frente, executivos discutem activos energéticos avaliados em milhares de milhões de dólares. Enquanto famílias ucranianas enfrentam incertezas diárias, mercados financeiros avaliam potenciais ganhos decorrentes de futuras alterações regulamentares. A distância entre a linguagem dos comunicados oficiais e a realidade concreta é frequentemente abissal. George Orwell observou, em “Politics and the English Language” (1946), que a linguagem política existe muitas vezes para fazer com que mentiras pareçam verdades e assassinatos pareçam respeitáveis. Talvez hoje fosse necessário acrescentar que a linguagem diplomática serve também para fazer parecer coincidentes interesses que apenas ocasionalmente caminham na mesma direcção. Vladimir Putin compreende perfeitamente o valor simbólico do negócio. Segundo as informações publicadas, o Presidente russo terá apresentado a proposta como uma demonstração de que russos e americanos continuam capazes de fazer negócios entre si. A mensagem é clara. Mais do que vender activos, trata-se de vender uma narrativa. A narrativa de que o isolamento pode terminar. A narrativa de que o regresso à normalidade é possível. A narrativa de que a cooperação económica continua a ser uma linguagem universal, mesmo quando a linguagem diplomática falha. Por seu lado, Washington enfrenta um dilema clássico. Se mantiver integralmente as sanções, preserva a coerência da pressão exercida sobre Moscovo. Se abrir espaço para excepções estratégicas, poderá facilitar entendimentos políticos mais amplos e aliviar tensões nos mercados energéticos. Nenhuma destas opções é particularmente confortável. E talvez seja precisamente esta a característica mais honesta da política internacional que raramente oferece escolhas moralmente perfeitas. Quase sempre apresenta alternativas imperfeitas, acompanhadas por consequências imprevisíveis. A Ucrânia observa este processo numa posição delicada. Qualquer acordo que contribua efectivamente para uma paz duradoura será naturalmente bem-vindo. Contudo, qualquer percepção de que interesses económicos externos passaram a dominar a agenda negocial poderá alimentar desconfianças legítimas. A experiência histórica aconselha prudência. Em “A Peace to End All Peace” (1989), David Fromkin mostrou como vários acordos celebrados após a I Guerra Mundial produziram efeitos profundamente distintos daqueles que os seus arquitectos imaginavam. A História está repleta de soluções brilhantes no papel e desastrosas na prática. Por isso, a pergunta essencial permanece sem resposta. Este potencial negócio representa uma ponte para a paz ou apenas uma oportunidade económica que surgiu no momento certo? Talvez seja ambas as coisas. O mundo contemporâneo raramente oferece explicações simples. A diplomacia mistura-se com finanças. A segurança cruza-se com energia. A moralidade disputa espaço com o interesse nacional. No final, o aspecto mais revelador desta história não é a participação da Lukoil, nem a presença de Jared Kushner ou Steve Witkoff, nem sequer o papel inevitável de Vladimir Putin. O aspecto mais revelador é a facilidade com que a geopolítica moderna transforma conflitos existenciais em negociações patrimoniais. Os cidadãos comuns escutam discursos sobre democracia, liberdade e segurança colectiva. Os mercados observam licenças, activos e fluxos de caixa. Uns falam de paz. Outros fazem contas. E, por vezes, ambos estão exactamente na mesma mesa.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesChina 77 anos: O futuro em construção “Study the past if you would define the future.” Confucius, The Analects O dia 1 de Outubro de 2026 marca o 77.º aniversário da fundação da República Popular da China, proclamada por Mao Zedong em Pequim a 1 de Outubro de 1949, num acontecimento que alterou profundamente o rumo da história chinesa e teve repercussões globais que continuam a fazer-se sentir nos nossos dias. A cerimónia realizada na Praça Tiananmen simbolizou o nascimento de um novo Estado e o início de um projecto nacional que, ao longo de pouco mais de sete décadas, transformou um país devastado por conflitos internos, ocupações estrangeiras e profundas dificuldades económicas numa das maiores potências do mundo. Assinalar esta data não significa apenas recordar um momento histórico. Significa compreender a extraordinária trajectória de uma civilização com mais de cinco mil anos que soube adaptar-se às exigências de diferentes épocas, preservando simultaneamente a sua identidade cultural e a sua visão estratégica de longo prazo. Como observou o historiador Jonathan D. Spence em “The Search for Modern China”, a história moderna chinesa é marcada por sucessivos processos de reinvenção nacional, frequentemente conduzidos em resposta a desafios internos e externos. A China contemporânea constitui talvez o mais impressionante exemplo dessa capacidade de adaptação. Em 1949, a esperança média de vida era reduzida, a pobreza era generalizada e grande parte da população vivia em áreas rurais com baixos níveis de desenvolvimento. Poucos observadores internacionais poderiam imaginar que, menos de um século depois, o país se encontraria na vanguarda da inovação tecnológica, da investigação científica, da indústria transformadora e da economia digital. O percurso não foi linear. Houve períodos difíceis, erros estratégicos, crises e ajustamentos. No entanto, a história das últimas décadas demonstra uma notável capacidade de aprendizagem institucional e de mobilização colectiva. A transformação acelerou significativamente após as reformas lançadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970. O académico Ezra Vogel, na sua obra “Deng Xiaoping and the Transformation of China”, descreve esse período como uma das maiores revoluções económicas pacíficas da história moderna. A abertura ao investimento estrangeiro, a criação de zonas económicas especiais, a aposta na educação e a gradual integração nos mercados internacionais permitiram criar as bases da ascensão económica chinesa. Hoje, falar da China é falar da segunda maior economia mundial, de cidades futuristas ligadas por milhares de quilómetros de comboios de alta velocidade, de universidades que competem com as melhores instituições internacionais e de empresas tecnológicas que influenciam mercados em todos os continentes. Em sectores como os veículos eléctricos, as energias renováveis, a inteligência artificial, as telecomunicações e o comércio electrónico, a presença chinesa tornou-se incontornável. No entanto, seria um erro reduzir a actualidade chinesa apenas aos indicadores económicos. O país procura igualmente afirmar uma visão própria da modernidade. O conceito de modernização chinesa tem sido apresentado como uma estratégia de desenvolvimento assente na prosperidade comum, no progresso científico, no equilíbrio ambiental e na valorização da estabilidade social. A ideia procura demonstrar que não existe apenas um modelo possível para alcançar o desenvolvimento e que cada nação deve encontrar caminhos compatíveis com a sua história, cultura e circunstâncias. A tecnologia ocupará inevitavelmente um papel central na próxima etapa da evolução chinesa. A inteligência artificial, a computação quântica, a biotecnologia, a automação industrial e a exploração espacial serão áreas determinantes ao longo da próxima década. O investimento contínuo na investigação científica constitui um dos pilares da estratégia nacional e deverá continuar a moldar o posicionamento internacional da China. A presença chinesa no espaço é um exemplo particularmente ilustrativo dessa ambição. O país já desenvolveu capacidades autónomas de lançamento, mantém uma estação espacial própria e prossegue programas de exploração lunar que testemunham uma visão de longo prazo raramente observada na política internacional contemporânea. Mais do que objectivos científicos, estes projectos representam uma afirmação de capacidade tecnológica e de confiança nacional. Ao mesmo tempo, a China enfrenta desafios complexos. O envelhecimento da população, a necessidade de manter elevados níveis de produtividade, a adaptação a novas dinâmicas económicas e a gestão das mudanças climáticas exigirão respostas inovadoras. O crescimento quantitativo dará progressivamente lugar à procura de crescimento qualitativo. A este respeito, os ensinamentos do sociólogo Fei Xiaotong permanecem actuais. Em “From the Soil”, o autor recorda que a estabilidade e o progresso de uma sociedade dependem da capacidade de harmonizar tradição e modernidade. A China parece consciente dessa necessidade. O objectivo não consiste apenas em crescer, mas em construir uma sociedade mais equilibrada, sustentável e tecnologicamente avançada. A questão ambiental merece igualmente destaque. Durante décadas, o desenvolvimento acelerado trouxe consigo custos ecológicos significativos. Contudo, a realidade dos últimos anos demonstra uma aposta crescente nas energias limpas, na mobilidade eléctrica e na inovação ambiental. A liderança mundial na produção de painéis solares, baterias e veículos eléctricos evidencia a importância estratégica atribuída à transição energética. O futuro económico da China estará inevitavelmente ligado à capacidade de liderar também a revolução verde do século XXI. No plano internacional, o papel da China continuará a expandir-se. O país é hoje um parceiro económico fundamental para dezenas de Estados e um dos principais motores do comércio global. A sua participação em iniciativas internacionais, em grandes projectos de infra-estruturas e em organismos multilaterais demonstra uma presença internacional cada vez mais abrangente. Henry Kissinger escreveu em “On China” que a política chinesa é frequentemente orientada por horizontes temporais mais longos do que aqueles que predominam em muitas democracias ocidentais. Essa observação continua particularmente relevante. Ao analisar os objectivos definidos por Pequim para as próximas décadas, percebe-se uma estratégia que ultrapassa ciclos políticos imediatos e procura posicionar o país para horizontes de médio e longo prazo. É neste contexto que Macau assume uma relevância especial. A Região Administrativa Especial de Macau ocupa um lugar singular dentro da realidade chinesa. A sua história, profundamente marcada pelo encontro entre as culturas chinesa e portuguesa, transformou o território numa das mais bem-sucedidas experiências de intercâmbio cultural do mundo. Poucos lugares conseguiram preservar, ao longo de tantos séculos, uma convivência tão rica entre diferentes tradições, línguas e visões do mundo. Desde o retorno à pátria em 1999, Macau conheceu um extraordinário desenvolvimento económico e consolidou a sua importância estratégica. Actualmente, a cidade é muito mais do que um destino turístico internacional. É uma plataforma de serviços, um centro de intercâmbio económico e um ponto privilegiado de ligação entre a China e os países de língua portuguesa. Esta vocação internacional poderá tornar-se ainda mais relevante nos próximos anos. Num cenário global caracterizado por transformações geopolíticas rápidas, a capacidade de construir pontes entre diferentes espaços económicos e culturais adquire um valor crescente. Macau possui precisamente essa vantagem competitiva. A integração na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau constitui uma das mais importantes oportunidades da sua história recente. Esta região reúne Macau, Hong Kong e nove cidades da província de Guangdong num dos maiores e mais dinâmicos espaços económicos do planeta. A estratégia pretende reforçar a inovação, a conectividade, a cooperação empresarial e o desenvolvimento de sectores avançados. Para Macau, esta realidade abre perspectivas extraordinárias. A cidade poderá desempenhar um papel cada vez mais relevante em áreas como a investigação científica, as finanças modernas, a medicina tradicional chinesa, a economia digital, a educação superior e os serviços profissionais internacionais. Simultaneamente, continuará a afirmar-se como ponte privilegiada entre a China e as comunidades lusófonas espalhadas pela Europa, América do Sul, África e Ásia. Mas talvez o maior activo de Macau não seja económico. Talvez seja cultural. Num mundo frequentemente marcado pela polarização, Macau representa um exemplo concreto de convivência entre civilizações. As suas ruas, os seus edifícios históricos, a sua gastronomia, as suas tradições e a sua diversidade linguística recordam diariamente que o diálogo entre culturas não é apenas possível; é enriquecedor. Ao celebrar o Dia Nacional da República Popular da China em 2026, Macau participa simultaneamente em duas histórias complementares. Participa na história milenar da nação chinesa e na sua própria história de abertura ao mundo. É precisamente essa dupla identidade que lhe confere uma relevância ímpar. O futuro apresenta desafios, mas também possibilidades extraordinárias. A China continuará a procurar inovação, prosperidade e modernização. Macau continuará a afirmar-se como uma ponte de entendimento e cooperação internacional. Juntas, estas duas trajectórias ilustram uma ideia fundamental de que o progresso mais sólido é aquele que respeita a memória sem recear a mudança. Passados 77 anos sobre a fundação da República Popular da China, a dimensão da transformação alcançada é inegável. O país que procurava reconstruir-se em 1949 tornou-se uma referência global em múltiplos domínios. O caminho não termina aqui. Pelo contrário, talvez esteja apenas a entrar numa nova fase. Se o século XX foi marcado pelo renascimento da China, o século XXI poderá ficar na história como o período da sua afirmação plena enquanto potência científica, tecnológica, económica e cultural. E nesse percurso, Macau continuará a desempenhar um papel especial como cidade de encontro, de diálogo e de futuro. Num tempo em que tantas nações procuram respostas para as incertezas do mundo contemporâneo, a experiência chinesa demonstra que visão estratégica, investimento no conhecimento, confiança nas capacidades nacionais e abertura à inovação podem transformar profundamente o destino de um povo. É essa mensagem que o 1 de Outubro de 2026 simboliza. Mais do que a celebração de um aniversário, representa o festejo de uma caminhada histórica que continua a projectar-se para o futuro, envolvendo não apenas a China continental, mas também Macau, cuja contribuição para a história e para o futuro da nação permanece única e indispensável.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA anarco-monarquia das estrelas e riscas “Civilization is a movement and not a condition.” – Arnold J. Toynbee, A Study of History (1934-1961) Afirmar que os Estados Unidos se converteram numa anarcomonarquia é uma ousadia digna de um estudante de Filosofia que, depois de três cafés e duas discussões no bar da faculdade, decide reinventar a teoria do Estado. Mas, como escreveu Salvador Dalí, esse príncipe das excentricidades que pintava relógios derretidos como quem pinta ovos estrelados dizia que “a única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco”. A frase, que parece saída de um manual de etiqueta para génios, aplicase com uma exactidão quase cirúrgica ao estado actual da república americana, onde o poder se concentra num presidente que se julga monarca e se dispersa, simultaneamente, por uma multidão de actores privados que governam sem mandato, sem pudor e, sobretudo, sem a menor sombra de responsabilidade. Para os teóricos da ciência política, esta coexistência de absolutismo presidencial e anarquia corporativa é uma contradição insanável. Para quem observa o mundo com os pés na terra e não com o nariz enfiado em gráficos, relatórios e outras quinquilharias estatísticas é apenas o resultado natural de uma revolução que perdeu o manual de instruções e decidiu improvisar, como quem tenta montar um armário sueco sem parafusos e paciência. A decomposição da antiga república imperial não cabe em nenhuma classificação escolar; é um fenómeno híbrido, caótico, digno de um Shakespeare redivivo, se este tivesse acesso ao Truth Social, ao mercado financeiro e à televisão por cabo. Imagino o bardo, de pena na mão, a tentar descrever esta tragicomédia moderna, interrompido a cada cinco minutos por notificações de “breaking news”. O presidente, que alguns comparariam ao Rei Sol se Luís XIV se tivesse nascido em Queens e apreciasse conferências de imprensa como quem gosta de touradas, governa por decreto, impulso e improviso. O efeito é semelhante ao de uma maionese mal batida onde os três poderes, Executivo, Legislativo e Judicial não são pilares, mas ingredientes que se misturam sem receita, ordem e chef. O resultado é uma emulsão instável que ora se solidifica em autoritarismo, ora se dissolve em anarquia, conforme o humor do dia ou o estado da conta no Truth Social. A mediatização em tempo real ou melhor, em tempo irreal transforma cada gesto presidencial numa performance global. O regime tornou-se marca registada da época, mas a história, essa velha senhora teimosa, insiste em contrariar ambições revolucionárias. As aventuras parabelicistas no Médio Oriente, as fantasias de intervenção na Venezuela e as ameaças de “armadas” digitais sofrem todas do mesmo mal que é a arrogância solipsista de quem acredita que o mundo é um palco privado, onde cada acto se representa para uma plateia imaginária que aplaude sempre, mesmo quando não percebe nada. Convém recordar que a Armada Invencível de Filipe II não era, de facto, invencível. A derrota de 1588 inaugurou o declínio do “siglo de oro” espanhol. Hoje, a nevrose belicista americana precipita o fim do seu próprio século, não por falta de força militar, mas por falta de sentido estratégico. Como escreveu Carl von Clausewitz em “Da Guerra” (1832), “a guerra é a continuação da política por outros meios”. O problema é que, quando não há política, a guerra torna-se continuação de nada, como uma peça de teatro sem enredo, actores e público, representada apenas para satisfazer o ego do encenador. Os elefantes não dançam tip-tap. E a América, esse elefante geopolítico, insiste em tentar. O resultado é uma revolução permanente, sem objectivo, doutrina ou destino que devora os seus próprios filhos, como no célebre quadro de Goya. No palco global, a competição tornou-se inconclusa e sem regras pois cada actor internacional da China à Rússia, passando por oportunistas regionais tenta ocupar o espaço deixado pelo colosso desorientado. É a subversão das classes dirigentes, conceito de Antonio Gramsci, aplicado à escala planetária de uma crise de hegemonia onde líderes não lideram, aliados não confiam e adversários não sabem com quem negociar. A pergunta que ecoa nos corredores diplomáticos é simples; quem manda em Washington? Se decisões e declarações se contradizem no espaço de horas, vale a pena ouvilas? Pode discutirse esferas de influência com conselheiros improvisados que traduzem mal o que julgam ter ouvido em capitais estrangeiras? A diplomacia, que outrora se fazia com paciência, chá e protocolos, fazse agora com impulsos, redes sociais e uma espécie de improvisação permanente que faria corar qualquer amador de teatro. Hoje, não se pode ser próamericano nem antiamericano. Não há “América”, mas fragmentos; filamentos poderosos, misturas de Estado, Big Tech e Big Finance, orbitando sem centro, regência e maestro. São electrões livres, cada um com agenda própria, capacidade de influenciar o mundo, mas sem possibilidade de o orientar. Boa sorte aos historiadores do século XXII que tentarão vestir esta revolução mundial com lógica. Não há lógica possível. Há apenas caos organizado ou desorganização com orçamento, que é ainda mais inquietante. Ao anarcomonarca reconhecese, contudo, um mérito involuntário pois expôs a hipocrisia da metalinguagem pública ocidental. Esse discurso, baseado em princípios de irrealidade, mandamentos vazios e slogans reciclados, multiplicados por media irreflexivos, foi finalmente desmascarado. Como escreveu Mark Carney em “Value(s)” (2021), “é preciso abandonar a agradável ficção e enfrentar a dura realidade”. A dura realidade é que o irrealismo e o elitismo fomentam nacionalistas, racistas e demagogos. E as democracias liberais, fragilizadas, tornamse alvo fácil, como casas de madeira num vendaval. Não surpreende que vários líderes autocráticos sejam hoje mais populares do que os seus equivalentes eleitos. A crise de confiança é global. O descarrilamento originado pelo desconforto do protagonista americano ameaça culminar numa conflagração planetária. A terceira guerra mundial se alguma vez existir poderá ser filha da não tão fria guerra civil americana, essa disputa doméstica que se tornou espectáculo internacional. Reconstruir um mínimo de convivência planetária implica limpar a mesa dos pseudoconceitos que velam os factos. O pudor intelectual semelhante à lenda que atribui à rainha Vitória o hábito de cobrir as pernas dos móveis para evitar pulsões indecorosas tornou-se obstáculo à compreensão. Mas a lenda fala sobretudo de nós e da nossa incapacidade de encarar o mundo como ele é; da nossa tendência para preferir a ficção confortável à realidade desconfortável e da nossa recusa em admitir que a América, outrora farol, se tornou labirinto. E nesse labirinto, o anarcomonarca reina não porque governe, mas porque desgoverna. E o mundo, perplexo, aguarda que o século XXI encontre finalmente o seu Shakespeare como alguém capaz de transformar este caos em literatura, esta desordem em tragédia, e esta perplexidade em compreensão.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA crise interna americana Every empire is a graveyard of its own illusions.” James Baldwin, No Name in the Street (1972) A guerra que hoje se espalha pelo mundo não nasce de desertos longínquos nem de rivalidades ancestrais. Nasce, sim, da crise interna dos Estados Unidos, esse colosso que, ao tropeçar nos próprios pés, espalha a sua turbulência para fora como quem despeja lixo pela janela e espera que o vento o leve para longe. A velha república, corroída por dentro, parece saída de uma parábola de Mark Twain que escreveu que “a história não se repete, mas rima”. Pois bem, a rima actual é amarga, dissonante e profundamente reveladora. A América vive uma espécie de dissociação imperial, uma esquizofrenia política e social que transforma frustração doméstica em agressividade externa. Não é novidade que impérios em declínio se tornam nervosos; o que surpreende é a velocidade com que este se fragmenta. Como escreveu Christopher Lasch em “The Culture of Narcissism” (1979), “uma sociedade que perde o sentido de comunidade perde também o sentido de futuro”. E é exactamente isso que acontece de uma nação que não acredita no seu próprio amanhã. Sete em cada dez cidadãos não acreditam no chamado “sonho americano”. Não é uma estatística poética; é um dado real, repetido em estudos como o da “Pew Research Center” (2023). A chamada “revolução trumpiana”, longe de ser causa, é sintoma de uma reacção desesperada à crise de identidade nacional. A promessa de “restaurar a saúde espiritual e cultural” do país soa, para muitos, a um anúncio de vitaminas vencidas. O multiculturalismo, outrora bandeira de inclusão, tornou-se bode expiatório. Fala-se em reconstruir um “núcleo cultural central”, limitar a imigração e recuperar a velha assimilação. Mas o problema é mais profundo pois a sociedade americana não assimila nem os seus próprios filhos, quanto mais os recém-chegados. O teólogo R. R. Reno, em “Return of the Strong Gods” (2019), descreve esta tendência como “imperativo de reconsolidar” uma tentativa de colar os cacos depois de décadas de libertação social e económica que, embora legítimas, acabaram por dissolver solidariedades. Reno propõe o “nacionalismo cristão” como antídoto. Não uma teocracia, diz ele, mas uma espécie de travão moral para evitar que o nacionalismo se transforme em fúria. A ideia é interessante, mas contém o seu veneno de como unir uma sociedade que se habituou ao “cada um por si” durante meio século? A perda de dignidade causada pela desindustrialização é conhecida. O que ainda não entrou totalmente no radar é a epidemia de solidão, termo usado pelo Surgeon General dos Estados Unidos em 2023. As pessoas não se encontram na igreja, no sindicato e nas reuniões municipais. A amizade tornou-se artigo de luxo, como se fosse um relógio suíço. Menos de metade das famílias são compostas por casais casados; 42% dos adultos são solteiros. A depressão e o stress atingem níveis recorde, alimentados por uma economia onde até a classe média-alta teme não conseguir pagar contas. O dinheiro tornou-se o único valor em ascensão, enquanto família, comunidade e patriotismo se afundam como pedras num lago. A geração Z é o espelho mais cruel desta crise. São jovens que saem menos, vivem mais irritados, deprimidos e isolados. Passam horas entre ecrãs, mas atribuem pouco valor ao que fazem. Muitos nunca abordaram alguém presencialmente para iniciar uma relação. As taxas de actividade sexual entre menores de 34 anos caíram drasticamente, segundo o General Social Survey (2022). Endividados até ao tutano por diplomas que valem menos do que promessas eleitorais, estes jovens sabem que dificilmente comprarão casa. Vivem numa guerra de sexos onde as mulheres são acusadas de ser demasiado liberais e os homens demasiado conservadores. E culpam as gerações anteriores por lhes terem deixado um país onde o futuro é uma palavra gasta. A política externa é outro campo de batalha. Israel, outrora aliado incontestável, tornou-se tema fracturante. A esquerda acusa-o de colonialismo; a direita questiona se votou em “America First” ou “Israel First”. Não se trata de antissemitismo mas de fadiga moral e estratégica. Peter Slezkine, analista respeitado, afirmou que “para muitos jovens, qualquer discurso sobre tiranos a abater soa simplesmente vazio”. E quando figuras como Lindsey Graham defendem mudanças de regime, são vistos como relíquias de uma era que não convence ninguém. O inimigo não é externo. É o vizinho que vota no outro partido. Nathan Pinkoski descreve isto como “guerra civil fria”, marcada pela ideia de que não é possível viver com quem pensa diferente. A confiança social evapora-se. E sem confiança, não há democracia funcional. As tecnologias digitais aceleram tudo. Isolam, viciam e fragmentam. A economia da atenção transforma cidadãos em consumidores de estímulos. A leitura ponderada desaparece; cada um segue os seus gurus no Substack. A tribalização cresce. A inteligência artificial ironicamente, ameaça empregos e dignidade, introduzida à pressa para não perder terreno para a China. Mary Harrington, em “Feminism Against Progress” (2023), alerta para o risco de um “regime algorítmico a enxame”. Para evitar isso, diz ela, seria preciso um líder carismático com ligação ao povo como “o retorno do rei”. Não sei se é de concordar, mas compreende-se o diagnóstico de quando a complexidade interna é insuportável, alguém tenta simplificar à força. Um país só é actor geopolítico se conseguir reduzir a sua complexidade interna. Democracias precisam de coesão. Sem ela, há duas vias a do Estado de segurança e de vigilância, que cresce desde o 11 de Setembro e ignorar a coesão, permitindo que poderes públicos e privados actuem por conta própria. Os Estados Unidos parecem seguir ambas. E é essa contradição que alimenta guerras externas pois quando não se consegue resolver o caos interno, exporta-se. A guerra contemporânea é, antes de tudo, um sintoma da crise interna americana. Não é ideologia, destino e moralidade. É desespero. Uma nação que não acredita em si mesma tenta reafirmar-se através do mundo, como quem grita para não ouvir o próprio silêncio. E enquanto não se escavar no corpo ferido de Columbia, continuaremos a interpretar o presente com mapas antigos, sem perceber que o epicentro do tremor está dentro da própria América.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesAs guerras mundiais não se planeiam For folly is more often than not a child of power.” Barbara W. Tuchman, The March of Folly: From Troy to Vietnam (1984) Existe uma crença infantil, embora amplamente partilhada entre adultos com diplomas, cargos ministeriais e acesso privilegiado a briefings confidenciais, segundo a qual as guerras mundiais começam quando alguém decide formalmente que chegou o momento de iniciar uma guerra mundial. A ideia é tão cómoda quanto errada. Pressupõe que a História obedece a calendários, que os governantes dominam os acontecimentos e que os conflitos surgem segundo guiões racionalmente elaborados. Infelizmente para os optimistas profissionais, a História é menos organizada do que os comunicados oficiais e muito mais sarcástica do que os discursos dos estadistas. As guerras mundiais não se planeiam. Tornam-se mundiais. Crescem por acumulação, por sobreposição de crises, por encadeamento de erros e por sucessivas tentativas de resolver um problema através da criação de problemas maiores. São o equivalente geopolítico de um incêndio iniciado por uma vela esquecida, agravado por uma instalação eléctrica defeituosa e concluído com alguém a decidir apagar as chamas utilizando gasolina. Barbara Tuchman, na obra clássica “The Guns of August” (1962), demonstrou como a I Guerra Mundial não resultou de uma conspiração cuidadosamente delineada para destruir a Europa. Resultou antes da conjugação de alianças rígidas, mobilizações automáticas, cálculos errados e convicções excessivamente optimistas. Cada potência acreditava controlar a situação. Nenhuma a controlava. O resultado foi uma catástrofe à escala continental que rapidamente se transformou numa tragédia global. Décadas mais tarde, Christopher Clark, em “The Sleepwalkers: How Europe Went to War in 1914” (2012), aprofundou essa interpretação ao descrever as lideranças europeias como sonâmbulos avançando para o abismo. Não estavam inconscientes. Pelo contrário, estavam plenamente despertas. O problema era outro; viam apenas fragmentos da realidade e confundiam frequentemente os seus desejos com os factos. A observação permanece inquietantemente actual. Os conflitos contemporâneos surgem quase sempre envoltos em promessas de rapidez, precisão cirúrgica e objectivos limitados. Os decisores políticos asseguram que tudo está calculado. Os estrategas garantem que os riscos foram avaliados. Os comentadores televisivos distribuem certezas com a prodigalidade de quem oferece amostras grátis num supermercado. Depois a realidade intervém. A chamada “Grande Guerra” do nosso tempo não nasceu de uma única decisão nem de um único teatro operacional. É a fusão de várias crises que se alimentam mutuamente. O conflito na Ucrânia, as operações militares israelitas desencadeadas após o massacre de 7 de Outubro, a crescente tensão envolvendo o Irão e a rivalidade entre grandes potências configuram partes distintas de um mesmo fenómeno que é a deterioração progressiva da ordem internacional construída após a II Guerra Mundial. Aquilo que inicialmente eram operações supostamente limitadas transformaram-se em conflitos de duração indeterminada, dotados de dinâmica própria. Uma vez iniciados, passaram a produzir justificações para a sua continuação. Carl von Clausewitz advertia em “Da Guerra” que a primeira tarefa de qualquer líder consiste em compreender a natureza do conflito que pretende travar. O conselho permanece famoso sobretudo porque continua a ser ignorado com admirável consistência. Ao longo da História, inúmeros governos iniciaram campanhas militares convencidos de que bastariam algumas semanas para atingir os seus objectivos. Poucos anteciparam os anos de desgaste, os custos financeiros exorbitantes, as consequências imprevistas ou as transformações políticas internas geradas pelas próprias guerras. A diferença actual reside na ausência de uma autoridade reconhecida capaz de arbitrar disputas entre grandes actores internacionais. Durante décadas, os Estados Unidos desempenharam esse papel, ora com legitimidade, ora sem ela, mas quase sempre com capacidade efectiva para influenciar decisivamente os acontecimentos globais. Essa posição encontra-se hoje fragilizada. Washington continua a ser a principal potência militar do planeta, mas a sua capacidade de definir unilateralmente as regras do sistema internacional diminuiu consideravelmente. Paul Kennedy, em “The Rise and Fall of the Great Powers” (1987), descreveu o fenómeno através do conceito de sobre-extensão imperial. As grandes potências tendem a acumular responsabilidades, compromissos e conflitos para além dos recursos necessários para os sustentar indefinidamente. Quando essa discrepância se torna visível, os concorrentes começam a testar os limites da potência dominante. É precisamente nesse momento que as rivalidades aceleram. O problema não consiste apenas no aparecimento de novos centros de poder. Consiste na percepção de que a autoridade antiga deixou de ser incontestável. Na política internacional, as percepções possuem frequentemente mais importância do que os factos. Um Estado pode continuar poderoso e, ainda assim, parecer vulnerável. E basta parecer vulnerável para incentivar apostas que anteriormente seriam consideradas suicidas. A situação torna-se particularmente perigosa quando diferentes actores passam a encarar os seus conflitos como questões existenciais. Quando tudo é existencial, nada pode ser negociado. Quando cada recuo é interpretado como ameaça à sobrevivência nacional, o compromisso passa a ser visto como traição. Quando a política se converte numa luta entre absolutos morais, a diplomacia perde espaço. E quando a diplomacia desaparece, a guerra adquire uma autonomia assustadora. A este respeito, Tucídides continua a ser um dos observadores mais lúcidos da condição humana. Na “História da Guerra do Peloponeso”, mostrou como medo, interesse e ambição constituem os motores fundamentais dos conflitos entre potências. Passaram mais de dois milénios e meio desde então. Mudaram os uniformes, os sistemas políticos e as tecnologias. Os impulsos essenciais permanecem notavelmente semelhantes. O Médio Oriente oferece actualmente um exemplo quase pedagógico dessa realidade. A região transformou-se numa complexa teia de confrontos directos e indirectos, rivalidades históricas, tensões religiosas, disputas energéticas e cálculos estratégicos contraditórios. Cada intervenção produz consequências inesperadas. Cada tentativa de estabilização gera novas fontes de instabilidade. A ironia é quase perfeita. As guerras são frequentemente apresentadas como instrumentos destinados a aumentar a segurança. Porém, após décadas de campanhas militares sucessivas, a insegurança parece crescer mais rapidamente do que a segurança prometida. George Orwell, no ensaio “Politics and the English Language” (1946), denunciava o uso da linguagem política para tornar aceitável o inaceitável. O seu diagnóstico mantém uma actualidade desconfortável. Já não existem apenas guerras; existem operações especiais, acções preventivas, respostas proporcionais, missões de estabilização e intervenções defensivas. A nomenclatura muda com impressionante criatividade. Os cemitérios permanecem teimosamente tradicionais. Enquanto isso, as repercussões económicas dos conflitos alastram muito para além dos campos de batalha. Rotas marítimas vitais enfrentam perturbações constantes. Mercados energéticos tornam-se mais instáveis. Cadeias globais de abastecimento revelam fragilidades anteriormente ignoradas. A globalização, que durante anos foi apresentada como garantia automática de paz e prosperidade, descobre subitamente que depende de condições políticas e estratégicas que não controla. A Europa encontra-se particularmente exposta a esta realidade. Acostumada durante décadas a considerar a guerra um fenómeno distante, o continente confronta-se agora com a possibilidade de viver num ambiente internacional marcado por competição estratégica permanente. Dependente de energia importada, fortemente integrada no comércio global e politicamente fragmentada, enfrenta desafios para os quais as suas lideranças nem sempre parecem adequadamente preparadas. Raymond Aron advertia em “Paix et Guerre entre les Nations” (1962) que a paz não constitui o estado natural das relações internacionais. É uma construção política delicada, sustentada por equilíbrios frequentemente precários. Quando esses equilíbrios se degradam simultaneamente, os riscos multiplicam-se. É precisamente essa degradação que observamos. Nenhum dos principais actores internacionais afirma desejar uma guerra mundial. Nenhum proclama ambições apocalípticas. Nenhum apresenta programas oficiais para destruir a ordem global. E é precisamente por isso que a situação merece ser observada com atenção. Também em 1914 poucos sonhavam com quatro anos de carnificina industrializada. A convicção mais perigosa em política internacional é a certeza de que os acontecimentos permanecerão sob controlo apenas porque sempre estiveram. A História possui um perverso sentido de humor. Costuma desmentir esse tipo de confiança com impressionante regularidade. As guerras mundiais não surgem porque alguém as planeia meticulosamente. Surgem quando demasiados conflitos se tornam simultaneamente inseparáveis. Quando demasiadas potências consideram os seus objectivos inegociáveis. Quando o prestígio substitui a prudência. Quando o medo supera a racionalidade. E quando já ninguém possui autoridade suficiente para impor travões. Nessa altura, os líderes continuam a discursar sobre estabilidade, os especialistas continuam a falar de gestão de crises e os cidadãos continuam a acreditar que o pior ainda pode ser evitado. Até ao dia em que descobrem que o pior já começou há bastante tempo.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Crepúsculo Ocidental “Civilizations now know that they are mortal.” Paul Valéry, “The Crisis of the Mind” (1919) O que até ontem poderia servir de roteiro-base para um daquelas séries de consumo rápido, embalados pela estética saturada da Netflix, hoje assume a forma de alegoria demasiado próxima da realidade para ser confortável. A aurora do crepúsculo ocidental expressão que, se não fosse trágica, seria apenas melodramática desenha-se diante de nós com a serenidade fatal das coisas que não precisam de provar nada. O velho sonho americano de um domínio eterno, vestido com o corte impecável do “modo de vida ocidental”, revela-se afinal uma peça de teatro que perdeu o protagonista, o enredo e o público. E, contudo, no caos que nos rodeia, descobrimos vestígios de uma ordem futura, como se o mundo, cansado de improvisar, começasse a ensaiar discretamente o próximo acto. Uma fenomenologia sóbria, aquela que não se deixa seduzir por teorias conspirativas nem por entusiasmos patrióticos ensina-nos que as aparências raramente enganam. Basta observar com atenção o palco da “Grande Guerra” (conflito sistémico global em curso) para perceber que o cenário mudou e que a América perde, a Rússia resiste, a China ganha e a Europa afunda. Eis o resumo, tão brutal quanto exacto, da nova cartografia estratégica. Os americanos perderam a dissuasão estratégica, que é como perder quase tudo. Já ninguém confia neles, excepto aqueles que não têm alternativa. Os rivais tentam lucrar com a fraqueza, enquanto os “aliados” se apressam a reprogramar protocolos de segurança que julgavam eternos. Washington, ao insinuar-se no teatro ucraniano com a astúcia de quem pretende desgastar Moscovo sem jamais correr o risco de o derrotar, acabou por se enredar na própria armadilha e arruinar-se com uma incompetência tão ruidosa quanto previsível. A ironia é que o americano médio, esse cidadão que, segundo Mark Twain, “nunca deixa que a verdade atrapalhe uma boa opinião” não sabe sequer localizar a Ucrânia no mapa. A Rússia, que arriscou o osso do pescoço, agora aproveita o marasmo americano com a paciência fria de quem viu impérios cair. O apoio dos Estados Unidos e dos atlânticos a Kiev permitiu a Putin transformar uma expedição punitiva numa guerra simbólica entre a Federação Russa e o Ocidente, da qual o Kremlin se apresenta como vencedor. Mas a vitória é ilusória porque Moscovo perde no seu eixo estratégico central, aquele que sempre temeu com a China. O preço da ousadia russa contra a América, com quem nunca travou uma guerra aberta, será elevado. Os chineses contemplam vastidões inteiras a desdobrar-se diante deles como a Ásia Central outrora soviética, a Sibéria profunda e o Árctico silencioso como se o mapa do Norte lhes abrisse, sem resistência, um corredor de expansão que Moscovo não consegue vigiar nem reivindicar com a antiga altivez imperial. Ali, russos e americanos serão forçados a reencontrar-se, não por afinidade, mas por necessidade, para tentar impedir que Pequim controle a rota setentrional. E os japoneses, sul-coreanos, indianos e demais parceiros asiáticos dos Estados Unidos efectivos ou presumidos perceberam que terão de confiar sobretudo em si próprios. A Pax Americana, que nunca foi tão pacífica quanto o nome sugeria, está a dissolver-se como uma névoa ao sol. Na escala ocidental, o espectáculo assume contornos ainda mais penosos. Os americanos, fiéis à velha arte de sacudir responsabilidades, tratam de despejar a derrota sobre os europeus e, por conseguinte, sobre nós. Perdemos a bússola, mas preservamos intacta a venerável tradição de varrer a realidade para debaixo do tapete, como quem acredita que o pó desaparece por decreto. A diferença entre eles e nós é quase cruel pois os americanos sabem que perderam e, por isso, iniciaram a sua revolução interna para mudar de pele e impor limites ao império; nós, pelo contrário, agitamo-nos em convulsões estéreis, sem compreender grande coisa deles e ainda menos de nós próprios. Somos simultaneamente frenéticos e apáticos, inertes na exacta medida em que gesticulamos. A Europa transformou-se numa figura secundária que insiste em ocupar o centro do palco, sem reparar que ninguém lhe acende os focos. E depois há o terceiro Ocidente, o ex-Ocidente identitário que é Israel. Envolvido num prolongado e desnecessário ensaio de suicídio nacional, que dura apenas porque é alternativa à guerra civil latente, o Estado hebraico vê a sua raiz ocidental comprometida nos planos antropológico, cultural e institucional. Resiste o vínculo existencial com a América, mas Jerusalém já não dispõe de um cheque em branco de Washington. A tragédia é que Israel, outrora símbolo da resiliência, se encontra hoje numa encruzilhada que lembra a advertência de Hannah Arendt: “A violência pode destruir o poder; é totalmente incapaz de o criar.” (On Violence, 1970). A única certeza trágica é a Ucrânia, que perdeu estrondosamente. Não apenas o Donbas e a Crimeia. Reduzidos à exaustão, espoliados, enfraquecidos até ao limite, deixados sem forças nem recursos pelos russos e agora também pelos americanos, diligentes na arte de rapinar os tesouros minerais alheios os ucranianos descobrem, com a amargura dos que já não têm ilusões, a distância abissal entre a retórica atlântica e os seus actos. Kiev depende de um Ocidente que deixou de existir com um corpo dilacerado, oportunista, hipócrita, que ainda se proclama guardião da liberdade enquanto tropeça nos próprios escombros morais. E é por isso que a Ucrânia arrisca perder-se a si própria, não apenas no mapa, mas na identidade. A pergunta que ressoa, como refrão de uma ópera medíocre e mal ensaiada, é de uma simplicidade devastadora de como chegámos a este ponto? Chegámos aqui porque o Ocidente confundiu poder com virtude, influência com destino, hegemonia com eternidade. Porque acreditou que a História tinha terminado, como proclamou Francis Fukuyama em 1992, num optimismo que hoje parece quase infantil. Porque julgou que a globalização era uma avenida de sentido único, conduzindo inevitavelmente à vitória liberal. Porque se habituou a pensar que o mundo era um espelho, e que todos desejavam ser versões menores de si próprio. Porque ignorou que a China, paciente como uma dinastia, preparava o século XXI enquanto o Ocidente se entretinha com guerras de identidade e crises financeiras. Porque não percebeu que a Rússia, humilhada nos anos de 1990, aguardava o momento de recuperar o orgulho ferido. Porque não viu que o Médio Oriente, longe de ser um tabuleiro estático, era um laboratório de convulsões que cedo se tornariam globais. Chegámos aqui porque a Europa, esse continente que produziu Kant, Goethe, Camões, Cervantes e Shakespeare, decidiu transformar-se numa burocracia sentimental, onde cada crise é resolvida com comunicados e cada ameaça com regulamentos. Porque os europeus confundiram paz com imobilidade, e prosperidade com anestesia. Porque acreditaram que a História era um fenómeno meteorológico que não lhes dizia respeito. Porque, como escreveu Paul Valéry, “as civilizações sabem agora que são mortais” (La Crise de l’Esprit, 1919), mas preferem fingir que não ouviram. Chegámos aqui porque os Estados Unidos, exaustos de si próprios, entraram numa fase de introspecção turbulenta, onde cada eleição é uma batalha cultural e cada decisão estratégica é filtrada por cálculos domésticos. Porque a América, que outrora se via como farol, hoje se vê como fortaleza. Porque perdeu a capacidade de inspirar, e com ela a capacidade de liderar. Porque, como advertiu George Kennan, “nenhum país pode manter uma posição de liderança se não souber controlar os seus impulsos” (American Diplomacy, 1951). Chegámos aqui porque o mundo mudou, e nós não. Porque a ordem internacional não é um edifício, mas um organismo. Porque a História não é linear, mas circular. Porque o poder não é estático, mas migratório. Porque a soberba é sempre punida, e o Ocidente confundiu soberba com missão. E chegámos aqui, sobretudo, porque ninguém quis ver os sinais. Porque os relâmpagos da Grande Guerra iluminam apenas aquilo que já estava à vista de um Ocidente cansado, dividido, hesitante; uma América vulnerável; uma Europa perdida; uma Rússia temerária; uma China paciente e ambiciosa; um Médio Oriente em combustão; uma Ucrânia sacrificada; um Israel em vertigem e um mundo em reconfiguração. O que resta, então? Resta observar, com a lucidez que ainda nos é possível, que o futuro começou e não espera por nós. Resta compreender que o Ocidente não está a morrer mas a transformar-se. Resta aceitar que a hegemonia americana não era destino, mas circunstância. Resta perceber que a China não é inevitável, mas preparada. Resta admitir que a Europa não é vítima, mas cúmplice da sua própria irrelevância. Resta reconhecer que a História não acabou, apenas mudou de narrador. E resta, finalmente, a pergunta que ninguém quer formular, mas que ecoa como um aviso: se o Ocidente está a terminar, o que começa?
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA tenaz Russo-Americana «The great nations have always acted like gangsters, and the small nations like prostitutes.» Stanley Kubrick, Interview with Jeremy Bernstein, 1966 Há ideias que não deveriam ser pronunciadas em voz alta, nem sequer admitidas em confidência. São pensamentos que, se ganhassem forma, fariam estremecer os alicerces das chancelarias europeias, habituadas a viver de certezas herdadas, alianças fossilizadas e uma confortável ilusão de centralidade. Mas, como advertiu George Orwell em “Notes on Nationalism (1945)”, «to see what is in front of one’s nose needs a constant struggle». E o que está diante do nariz europeu, por mais que se tente disfarçar com comunicados, cimeiras e fotografias de grupo, é uma realidade desconfortável de que talvez o inimigo não esteja no Leste, nem no Sul, nem no espectro difuso do terrorismo. Talvez o inimigo esteja sentado à cabeceira da mesa, com o sorriso branco de Hollywood e a sombra pesada do Kremlin. Talvez a Europa seja apenas a noz colocada entre duas pedras de moinho, destinada a ser triturada com a elegância burocrática que caracteriza o nosso tempo. Vivemos, o início do final da partida entre americanos e europeus. Uma partida jogada com bolas murchas, chuteiras rotas e árbitros que, se existem, estão ocupados a negociar palestras bem remuneradas. Os jogadores, outrora campeões da seriedade continental, surgem agora exaustos, nervosos, dispostos a faltas de obstrução que fariam corar os velhos mestres do fair play. A Europa, essa entidade que outrora se imaginava farol da civilização, descobre-se sem equipa, sem treinador, sem táctica e, sobretudo, sem vontade. Os Estados, outrora orgulhosos das suas tradições diplomáticas, parecem hoje actores secundários num teatro onde o protagonismo se deslocou para fora do continente. A Alemanha, que acreditou durante décadas que a ordem internacional era uma extensão da sua racionalidade industrial, observa perplexa que o mundo não funciona a diesel. A França, que ainda se imagina herdeira de Richelieu, tenta manter a pose, mas tropeça nos próprios éditos. A Espanha, sempre dividida entre o mar e a montanha, hesita. E nós, portugueses, habituados a sobreviver entre tempestades, olhamos para este teatro com a resignação melancólica de quem viu impérios cair e sabe que o mundo não se comove com lágrimas lusitanas. Nos bastidores, os magarefes da política acumulam camisolas de todas as cores, prontas para serem vestidas ao sabor das conveniências. A troca de casaca, outrora considerada acto de traição, tornou-se agora prática desportiva. O mercado e a partida coincidem em tempo real, como se a política fosse uma feira de vaidades onde cada um tenta vender a sua própria irrelevância ao preço mais alto. A cada mudança de vento, muda-se de camisola, de discurso e de fidelidade. A coerência tornou-se um luxo que ninguém está disposto a pagar. Fora do estádio, bancas improvisadas oferecem camisolas da NATO e da União Europeia, algumas falsificadas, outras apenas ridículas. São objectos de coleccionador, relíquias de uma era em que ainda se acreditava que o Ocidente era uma família, e não uma assembleia de primos afastados que só se reúnem para discutir heranças. A política transformou-se num mercado de símbolos, onde cada bandeira é vendida ao preço da conveniência. Nas bancadas, olhos orientais observam a rixa com uma mistura de curiosidade e satisfação. A China, paciente como um escriba imperial, contempla o caos ocidental com a serenidade de quem sabe que o tempo trabalha sempre a seu favor. Mas também com a preocupação de quem teme que a loucura europeia e americana ultrapasse os limites do razoável. Como lembra Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, «a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar». E Pequim, que domina essa arte com a elegância de um mandarim, receia que o Ocidente, enlouquecido, a arraste para um conflito que destruiria o seu plano de retorno gradual ao primado global. A confusão, quando atinge níveis europeus, deixa de ser excelente e passa a ser perigosa. A loucura ocidental, se não for contida, pode transformar o planeta num tabuleiro de xadrez onde todas as peças se movem ao mesmo tempo, sem regras, lógica, rei e rainha. A Europa, que outrora se imaginava árbitro da história, descobre-se agora peça menor num jogo que não controla. Enquanto isso, os membros da chamada “Maioria Mundial” designação russa para o antigo Sul Global observam a disputa com inquietação. Perguntam-se se o Supremo Norte resolverá os seus conflitos dentro das suas muralhas ou se os descarregará sobre Caoslândia, essa vasta região do planeta onde as potências despejam os seus fracassos. Talvez, pensam alguns, este seja o momento de ascender à primeira divisão. Talvez o colapso ocidental abra espaço para novos protagonistas. Ou talvez o Caos, esse deus pagão que nunca morre, se torne finalmente senhor da Terra. A Europa, entretanto, continua a debater-se com a sua insignificância. A guerra na Ucrânia, que deveria ter sido o momento de reafirmação da unidade europeia, tornou-se o espelho da sua fragmentação. Os Estados Unidos, que durante décadas foram o guarda-chuva estratégico do continente, mostram agora sinais de fadiga, impaciência e, sobretudo, egoísmo. A Rússia, que deveria estar isolada, encontra-se paradoxalmente fortalecida pela desordem ocidental. E a Europa, que deveria liderar, limita-se a reagir mal, tarde e com hesitação. A pergunta proibida ecoa com força crescente: e se o inimigo fosse a América? Não o inimigo militar, mas o inimigo estratégico, o aliado que se tornou demasiado grande, imprevisível e interessado em si próprio. Como escreveu Henry Kissinger em “Diplomacy” (1994), «America has no permanent friends or enemies, only interests». E quando os interesses americanos deixam de coincidir com os europeus, a amizade transforma-se numa formalidade diplomática. Mas o pior cenário não é uma América adversária. O pior cenário é uma América aliada à Rússia, não por afinidade ideológica, mas por conveniência estratégica. Washington e Moscovo como as duas mandíbulas de uma tenaz destinada a arrancar a Europa do seu pedestal, a desmontar a sua arquitectura política, a reduzir o continente a uma península irrelevante do grande continente euro-asiático. Uma Europa comprimida entre duas potências que, apesar das suas diferenças, partilham um interesse comum de redefinir o mundo sem pedir licença ao velho continente. Seria este cenário plausível? Os diplomatas dizem que não. Os analistas dizem que talvez. Os historiadores, mais prudentes, recordam que alianças improváveis já moldaram o mundo. Como escreveu Thucydides na “História da Guerra do Peloponeso”, «the strong do what they can and the weak suffer what they must». E a Europa, neste momento, parece mais fraca do que nunca. O que resta, então, ao velho continente? Resta-lhe a ironia, essa arma subtil que sempre utilizou para disfarçar a sua impotência. Resta-lhe a diplomacia, que foi arte e hoje é apenas protocolo. Resta-lhe a esperança de que o mundo não enlouqueça completamente. E resta-lhe, sobretudo, a consciência de que o futuro será decidido por outros. Se o inimigo for a América, a Europa terá de reinventar-se. Se o inimigo for a dupla russo-americana, a Europa terá de sobreviver. Se o inimigo for o Caos, a Europa terá de rezar. E, enquanto isso, no Kremlin, alguém abre uma garrafa de champanhe.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO canto da Europa desencantada (III) “History teaches us that men and nations behave wisely once they have exhausted all other alternatives.” Raymond Aron, Peace and War: A Theory of International Relations (1962) A integração europeia nasceu de um medo profundo que foi o receio de que a Alemanha, derrotada mas nunca irrelevante, pudesse novamente tentar dominar o continente. Logo após a II Guerra Mundial, o Departamento de Estado americano afirmava que, “para contrabalançar este perigo, os países ocidentais devem associar-se mais estreitamente e incluir a Alemanha na sua comunidade”. Era uma estratégia simultaneamente pragmática e psicológica, destinada a impedir que o país regressasse ao isolamento que tantas vezes precedera a catástrofe. Winston Churchill, em 1949, sintetizava o dilema europeu ao afirmar que “o problema alemão consiste em restaurar a vida económica da Alemanha sem que isso exponha os vizinhos a qualquer reafirmação do seu poder militar”. A Europa unida surgia, assim, como solução para um problema que não era apenas económico ou militar, mas civilizacional. Robert Schuman, um dos arquitectos da integração, reforçava esta visão ao escrever que “a Alemanha nunca é tão perigosa como quando está isolada”. A frase, simples e incisiva, traduzia a convicção de que a integração funcionaria como uma espécie de terapia colectiva, capaz de salvar a Alemanha “dos seus demónios”. Mesmo dentro da Alemanha, figuras como Adenauer eram mal vistas por sectores nacionalistas, que o acusavam de separatismo renano por defender uma integração profunda com o Ocidente. A Europa acreditava que só poderia protegerse, ajudando também a Alemanha de si própria. Este receio não desapareceu com o passar das décadas. Pelo contrário, regressou com força em 1989-1990, quando a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã reacenderam temores antigos nas chancelarias europeias. Mitterrand e Thatcher, em particular, viam na unificação um potencial desequilíbrio continental. Não surpreende, que esse momento tenha coincidido com um novo avanço da integração como o nascimento do euro, concebido, como “sempre em função antialemã”. A moeda única pretendia amarrar a Alemanha a um quadro institucional que limitasse a sua autonomia económica e, por extensão, política. Ainda hoje, a chamada “questão alemã” paira sobre a Europa. Os Estados Unidos, aliados centrais do projecto europeu, receiam o neutralismo do continente e temem que os seus parceiros, “com a Alemanha à cabeça”, não resistam à penetração estratégica da China e da Rússia. Por isso mantêm presença militar em território alemão muito reduzida face ao passado, mas ainda significativa e estendemna até à Europa Central, com o objectivo de “separar fisicamente Moscovo de Berlim”. A geopolítica continua a ser moldada por esta preocupação estrutural de impedir que a Alemanha, pela sua força económica e posição geográfica, se torne o pivô de uma aproximação eurorussa. Paradoxalmente, a Alemanha não quer liderar a União Europeia (UE). Embora seja extremamente influente no plano normativo e económico, evita assumir o papel de guia político. Os seus vizinhos aceitam integrar a cadeia produtiva alemã, mas rejeitam ordens vindas de Berlim; e os alemães, conscientes dos aspectos desagradáveis do poder, também não querem dálas. Preferem concentrarse no comércio e manter o excedente produtivo que sustenta a coesão interna de um país “historicamente propenso à centrifugação”. Esta relutância alemã em liderar, combinada com a dependência europeia da sua economia, cria uma tensão permanente entre expectativa e recusa e entre necessidade e desconforto. O mito europeísta, construído ao longo das décadas, alimentou também a fantasia do fim do Estado nacional. Contudo, os fundadores da integração nunca pretenderam abolir o Estado. Schuman escreveu em 1963 que “os nossos Estados europeus são uma realidade histórica” e que seria “psicologicamente impossível fazêlos desaparecer”. A retórica federalista existia, mas era marginal e não representava os humores populares, divididos entre patriotismo e retraimento. A academia, porém, difundiu a ideia de que a integração europeia estava em antítese com o Estado, que as nações eram aberrações históricas destinadas a fundirse numa identidade superior e que as fronteiras eram barreiras anacrónicas. As teorias funcionalistas defendiam que a criação de instituições sucessivas educaria elites e massas para uma cultura comum, através do chamado efeito “spillover”. Esta visão ignorava uma constante histórica de que as colectividades humanas “fundamse e fundemse através da violência”, e mudar identidades não é uma operação de laboratório. Ao longo das décadas, o Estado reforçouse e a democracia enfraqueceu. A integração permitiu aos Estados oferecer mais segurança e prosperidade, mas retirou poder às maiorias, criando um défice democrático desde o início. Os pais fundadores queriam proteger o sistema das distorções que tinham permitido a ascensão dos autoritarismos, retirando competências não aos Estados, mas à volubilidade das maiorias. O Parlamento Europeu ampliou a representatividade, mas também aumentou a distância em relação ao cidadão, contribuindo para a confusão sobre a soberania e para a sensação de perda de controlo num contexto económico longe de ser próspero. A ausência de uma dimensão simbólica e emocional agravou este afastamento. Pascal Lamy reconheceu que “à integração europeia faltou uma dimensão simbólica e cultural capaz de consolidar um sentido de pertença”. Jacques Delors dizia que “não é possível apaixonarse por um mercado ou por uma moeda comum”. A Europa tornouse um projecto frio, racional, incapaz de gerar encantamento ou laços profundos. A falta de narrativa mobilizadora transformou a UE numa entidade tecnocrática, mais próxima de um cálculo administrativo do que de uma comunidade política. O resultado foi o regresso do nacionalismo, uma reacção ao receio de ver esbaterse a identidade e a soberania. O Eurobarómetro mostra que a UE suscita “neutralidade impassível em quase metade dos inquiridos”, sinal de que o mito não se consolidou. O mito europeísta nasceu da vontade de fugir às violências do século XX, mas a Europa não pode recomeçar numa página em branco como os Estados Unidos, que só o conseguiram após o extermínio dos povos nativos. O continente europeu é demasiado fragmentado, denso de memórias e marcado por divisões profundas. Aqui, Estado e nação permanecem unidos por mais do que a simples experiência de existir ou de partilhar bemestar. A insistência da UE em apresentarse como única alternativa ao caos revela o medo profundo de ver regressar a história, os conflitos e os nacionalismos que foram empurrados para o inconsciente porque uma vez conduziram à catástrofe. No fundo, desmontase o mito europeísta mostrando como ele nasceu de medos, ilusões e pressões externas, e como continua a revelar contradições estruturais. A integração foi concebida para neutralizar a Alemanha; o euro surgiu como resposta ao receio provocado pela reunificação; a Alemanha evita liderar; o Estado nacional permanece central; a democracia fragilizouse; a identidade europeia não se consolidou; e o nacionalismo regressa. A Europa não pode fugir da sua história, porque, “a história é a Europa”.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO canto da Europa desencantada (II) “The most radical revolutionary will become a conservative the day after the revolution.” Hannah Arendt, On Revolution (1963) Quando a ameaça soviética desapareceu, acolheram com entusiasmo a proclamação que vinha dos Estados Unidos, mas que germinava em ideias filosóficas profundamente europeias de que a convicção de que a história tinha terminado, que não era necessário afirmar-se violentamente para satisfazer interesses e que a cooperação dominante na Europa nos últimos 75 anos podia ser eterna e universal. A exclusão das heranças incómodas da história é visível na tentativa insistente de definir uma cultura e identidade europeias como se existisse uma única. É uma selecção histórica feita a golpes de machado, escolhendo apenas o que convém para legitimar a aspiração à unidade. Esta operação é natural para um Estado ou império completo, mas muito menos para uma construção em curso que nunca será concluída. Veja-se a Marca do Património Europeu, atribuída pela Comissão a 38 locais que simbolizam os ideais e a história europeia. Entre eles está o Promontório de Sagres, de onde no século XV o príncipe Henrique, o Navegador, estudou técnicas de navegação que impulsionaram a expansão colonial portuguesa e o domínio europeu sobre o mundo. No site da Comissão, Sagres é celebrado como o “lugar-chave da era das descobertas que marcou a expansão da cultura, ciência, exploração e comércio europeus”, uma descrição justa, mas selectiva. Outro exemplo são as notas de euro, sem rostos e decoradas com símbolos arquitectónicos neutros, porque o herói de uns pode ser o tirano de outros, e o combatente pela liberdade de uns o terrorista de outros. Ou ainda a página dos pioneiros da UE, onde Winston Churchill surge ao lado de Schuman, De Gasperi e Spaak apenas por ter pronunciado a expressão “United States of Europe”, ignorando que no discurso de Zurique de 1946 Churchill mantinha distância, equiparando essa ideia à Commonwealth, que Londres ainda via como instrumento para preservar o seu estatuto mundial e não europeu. Não se pode pegar no Parténon, em Aristóteles, em Jesus Cristo, no Império Romano, em Montesquieu, Kant ou Einstein para proclamar uma cultura europeia comum. Como avisava Hannah Arendt “Já não podemos permitir‑ nos pegar apenas no que havia de bom no passado e dizer simplesmente que essa é a nossa herança, ignorar a parte má e considerá-‑ la apenas um fardo que o tempo relegará no esquecimento”. Ignorar a história conduz a narrativas aberrantes, como a ideia difundida de que com a queda do Muro de Berlim a Europa se reunificou, como se alguma vez tivesse sido unificada algo que nem Roma, nem o Sacro Império, nem Carlos V, nem Napoleão, nem Hitler conseguiram. Ou a facilidade com que se considera europeia, válida para todos, a história da parte ocidental desde 1945, como se a parte oriental tivesse apenas de recuperar o tempo perdido durante a catividade soviética. Um mito construído sobre estas bases transforma-‑ se numa lenda de si próprio. Como escreve o historiador Mark Mazower ao sondar o coração de trevas do continente “A Europa da União Europeia pode ser uma promessa ou uma desilusão, mas não é uma realidade”. A ruptura com a história e a sua reconstrução artificial não é a única distorção presente no mito fundador da União Europeia. Muitas vezes raciocina-‑ se como se a UE funcionasse num vazio, quando na verdade os seus destinos sempre foram moldados pelas influências das grandes potências. Isso é visível desde o início. Costuma atribuir‑ -se a integração europeia ao impulso voluntário e desinteressado de políticos como Robert Schuman e Jean Monnet, mas o impulso decisivo veio dos Estados Unidos. No final da guerra, Washington não tinha qualquer intenção de dominar com mão-de-ferro a metade do continente que ocupava pois custava demasiado e contrariava o espírito americano, avesso ao império. A sua estratégia, porém, exigia impedir o surgimento na Europa de um novo hegemon. A administração Truman traduziu esse imperativo numa táctica de reerguer os Estados ocidentais prostrados, convencida de que um crescimento económico robusto impediria a difusão de ideologias subversivas e de revanchismos, enquanto a defesa militar ficaria a cargo do Pentágono através da NATO. Este esquema servia tanto para conter a Alemanha, preocupação imediata do pós‑guerra, como para enfrentar a União Soviética, que só a partir de 1948 e com urgência desde a guerra da Coreia em 1950 se revelou ameaça estratégica. Independentemente de quem fosse o inimigo, a ideia mais popular na América para desarmar as rivalidades intra-europeias era obrigar as nações locais a federar‑se. Até na sociedade civil era forte o entusiasmo pelos “Estados Unidos da Europa”, promovido pelo influente senador James William Fulbright. Embora ninguém no governo americano pensasse seriamente numa federação europeia, o espírito era claro de que os europeus derrotados deviam partilhar recursos económicos para reconstruir o continente, começando por franceses e alemães. Também Paris falava de cooperação, mas com o objectivo de se apropriar dos recursos industriais da Ruhr para financiar a sua recuperação e retirar à Alemanha os meios com que, acreditava após três guerras em setenta anos, voltaria a atacá-la. Fala‑se muitas vezes da súbita conversão de Jean Monnet ao europeísmo, chegando a afirmar‑se que foi ele quem convenceu os americanos da necessidade de uma união europeia. A verdade é o contrário e Monnet percebeu os desígnios de Washington graças às suas amizades na capital americana. John J. McCloy, seu íntimo e vice‑ -rei dos Estados Unidos na Alemanha ocupada, explicou‑lhe que a única forma de legitimar a aspiração francesa à Ruhr era criar uma autoridade supranacional que gerisse também as indústrias de França e do Benelux. Um memorando interno do Departamento de Estado de 1949 é emblemático desta mentalidade estratégica ao dizer que “a contínua intransigência francesa em relação ao povo alemão favoreceria os desígnios soviéticos”. Assim nasceu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, progenitora da UE. Um documento oficial americano anotou mais tarde que “um dos aspectos mais constantes da política externa dos Estados Unidos no pós‑ -guerra foi o forte apoio à integração política e económica da Europa. A integração europeia no quadro de uma comunidade atlântica em expansão permanece a pedra angular da sua política para a Europa Ocidental”. Em 1949, o administrador do Plano Marshall, Paul Hoffman, avisou de forma ameaçadora que a generosidade americana dependia dos planos de federação. Em 1950, os Estados Unidos forçaram a Organização para a Cooperação Económica Europeia a reduzir para metade os direitos aduaneiros e a criar a União Europeia dos Pagamentos, destinando 25% do Plano Marshall desse ano a esses fins. Washington ditou as primeiras linhas, não todo o texto. Impôs a ideia de interdependência, não os passos seguintes, embora os visse com benevolência. Império pela integração, como sintetizou o historiador Geir Lundestad. Os Estados Unidos induziram a fé no economicismo, a convicção de que o bem-‑ estar devia ser um processo histórico imparável. Encontraram ouvidos mais do que dispostos a acolher esse credo. Mas tinham um motivo estratégico preciso de que o crescimento era a métrica da comparação com o bloco comunista. Para os europeus, era apenas o salvo‑ -conduto para se acomodarem fora da história. Todo o mito identifica uma fortaleza, o bastião que protege a colectividade e cria o “outro” de quem se distingue. O problema do mito europeísta é que a fortaleza e o outro coincidem, porque a geopolítica europeia gira em torno da questão alemã e o seu espaço é simultaneamente o centro dos equilíbrios do continente e a fonte dos seus desequilíbrios. Demasiado forte para não gerar contra-golpes, demasiado fraco para dominar a Europa. A integração europeia nasceu para desarmar a Alemanha, reflexo de uma germanofobia difundida. Mas é impossível construir um mito sobre isso pois seria uma demonização inútil. Por tal razão se expurga este dado fundamental, tal como se depuram as origens americanas do projecto. No imediato pós‑ -guerra, todas as potências queriam desmembrar a Alemanha. Os americanos tinham o plano Morgenthau para reduzir o país a um estado pastoral. Churchill piscava o olho ao divide et impera e disse em Zurique, em 1946, que os antigos Estados alemães poderiam ocupar lugar individual nos Estados Unidos da Europa. De Gaulle reagiu dizendo que uma Europa unida não seria senão uma Alemanha alargada. Monnet queria devolver o espaço alemão ao estado gasoso anterior à unificação. Apenas a rivalidade entre soviéticos e americanos impulsionou a federação das zonas ocupadas.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO canto da Europa desencantada (I) “Europe is a cultural notion, not a political reality.” George Steiner, The Idea of Europe (2004) A Europa alimenta há décadas a ilusão de que é possível desenhar uma união perfeita sobre uma página em branco. Mas páginas em branco não existem na política. O passado não desaparece por decreto, os Estados não se dissolvem no ar e as nações não evaporam como nevoeiro ao sol. A chamada “questão alemã”, sempre presente, lembra que a história não se deixa apagar. E até o entusiasmo americano pelo europeísmo estratégico tem limites bem definidos. O sonho europeu costuma ser acompanhado de referências nobres como o verso de Montale ou o célebre “Seid umschlungen, Millionen!” literalmente “Sede abraçados, milhões!” que pertence ao poema “An die Freude” (À Alegria) de Friedrich Schiller, que Ludwig van Beethoven imortalizou na Nona Sinfonia símbolos de união, esperança e transcendência. Mas a realidade raramente acompanha a música. Durante grande parte do século XX, a Europa avançou segundo o princípio simples de cada nação defendia os seus interesses, pela força se fosse preciso. As consequências foram devastadoras com duas guerras mundiais, destruição em massa, desconfiança generalizada e milhões de mortos. Depois de 1945, o continente estava física e moralmente arrasado. Ainda assim, um grupo de líderes acreditou que era possível romper com o passado e começar de novo. Apesar da Guerra Fria e da ameaça soviética, imaginaram uma Europa onde antigos adversários se sentariam à mesma mesa, substituindo armas por diálogo. Esta visão é a que recebe os visitantes do Parlamentarium, em Bruxelas, onde se apresenta a narrativa fundadora da União Europeia de um novo começo, a rejeição do passado violento, a promessa de paz e prosperidade, e a ideia de uma união cada vez mais estreita construída passo a passo. O projecto europeu foi pensado como um caminho gradual de primeiro carvão e aço, depois mercados, fronteiras, moeda e, um dia, uma identidade comum. A Europa seria um abraço colectivo, o fim da história, uma comunidade que se libertaria das velhas armadilhas do nacionalismo. Mas o tempo verbal da UE é sempre o futuro. O presente não tem lugar na narrativa europeia; existe apenas como ponte para um amanhã idealizado. É uma espécie de êxodo permanente rumo à Terra Prometida, onde tudo será melhor, mais unido e estável. O problema é que esta promessa está sempre a ser adiada. Falta uma justificação sólida para o momento actual, algo que todas as entidades geopolíticas possuem de uma história que legitime o presente. A UE não tem isso. Vive num estado de construção permanente, sem identidade consolidada. Os mitos não servem para dizer verdades; servem para criar sentido. Simplificam, destilam e inventam se necessário. Tornam familiar aquilo que é complexo e dão forma ao que é invisível com os laços que unem uma comunidade, a distinção entre “nós” e “eles” e a visão do mundo que se pretende afirmar. Analisar estes mitos à luz da geopolítica não é decidir se são verdadeiros ou falsos, mas medir a distância entre ambição e capacidade. O mito pode mobilizar, mas também pode iludir. Pode fortalecer, mas também pode virar-se contra quem o invoca. A União Europeia não escapa a esta regra. Não é um actor geopolítico pleno, mas é um símbolo das esperanças e das confusões que atravessam o continente desde 1945 e, sobretudo, desde 1989. Hoje, a Europa voltou a ser palco da competição entre grandes potências. Mas, pela primeira vez na história, nenhum país europeu é protagonista. A promessa de paz perpétua é desmentida pelos conflitos nas periferias como a Ucrânia e Balcãs que mostram que a estabilidade não é garantida. A promessa de prosperidade também se fragmentou. A crise financeira de 2011 expôs os desequilíbrios do euro, a falta de solidariedade entre Estados-membros e a incapacidade das regras económicas europeias para estimular o crescimento. Os Estados Unidos, antigos tutores da integração, acusam a arquitectura comunitária de gerar instabilidade na sua esfera de influência. E dentro da Europa reacendem-se falhas históricas com separatismos, tensões identitárias e disputas territoriais. Em vez de unir, a UE parece multiplicar a desunião. A distância entre mito e realidade nunca foi tão grande. O mito da UE não nasceu do nada. Enraizou-se porque correspondeu ao espírito do tempo. Entre 1914 e 1945, a Europa viveu três décadas de horror com guerras civis e mundiais, genocídios, fomes, doenças, cem milhões de mortos e cinquenta milhões de refugiados. Países destruídos, fronteiras redesenhadas e identidades esmagadas. As potências europeias, que durante séculos dominaram o mundo, tinham-se autodestruído. O ano de 1945 marca o fim da sua supremacia global. O trauma foi profundo a nível filosófico, cultural e psicológico. Era preciso reconstruir não só cidades, mas também auto-estima. A Europa precisava de acreditar novamente em si. E metade do continente recebeu essa oportunidade, sob tutela americana. A integração europeia surgiu como resposta a duas pressões, a pressão externa dos Estados Unidos, que exigiam união contra a União Soviética, e a pressão interna de sociedades cansadas de nacionalismos e elites intelectuais desconfiadas do Estado. Konrad Adenauer dizia que “As pessoas precisam de uma ideologia, e essa ideologia só pode ser europeia.” Era uma forma de oferecer esperança, sobretudo vindo de um país marcado pela culpa histórica. A ideia de uma união cada vez mais estreita teve três funções essenciais de restabelecer a sensação de superioridade europeia, agora sob a forma de exemplo moral para o mundo; compensar a perda dos impérios coloniais, recolhendo os “fragmentos dos impérios falhados”, como observa Timothy Snyder e tranquilizar o medo do declínio económico, que cresceu após o fim da Guerra Fria e a ascensão da Ásia. Era uma utopia literalmente, um “não lugar” construída para dar sentido a um continente traumatizado. O mito europeísta foi útil, necessário e até inspirador. Mas hoje revela desgaste. A Europa vive entre promessas adiadas, identidades incompletas e contradições internas. A distância entre o que a UE diz ser e o que consegue fazer nunca foi tão grande. O mito não desapareceu mas não basta para orientar o futuro. A ideia de uma união cada vez mais estreita na Europa traz consigo outra ambição a de ser também cada vez mais ampla, quase universal. Daí a pretensão de falar em nome da humanidade, reflectida no hino escolhido pela União Europeia, a Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, talvez a mais elevada composição musical alguma vez escrita. No texto de Schiller lêse que “Todos os homens se tornam irmãos onde repousa a tua asa suave”. Beethoven provavelmente pretendia dedicar esta mensagem aos povos alemães, ainda divididos no início do século XIX, que deveriam abraçarse na unidade e, através da nação, alcançar um patamar mais avançado da humanidade. Era uma aspiração iluminista e tipicamente alemã, que reconhecia a nação na sua cultura e, em particular, na música clássica. Mas esse ecumenismo é insuficiente para fundar uma colectividade política. Um mito e os seus instrumentos precisam de delimitar e de traçar fronteiras simbólicas. A América pode permitirse um universalismo desmesurado, sustentado por um primado global ainda inatacável. Os Estados europeus, enfraquecidos e com margem de manobra reduzida, não dispõem desse luxo. O ecumenismo gera curtocircuitos na relação com o outro, criando uma tensão constante entre o desejo de alargamento ilimitado e a necessidade de diferenciarse. Para os euro-entusiastas, esse atrito não existe pois qualquer povo poderá integrar a família europeia quando estiver pronto para ser como nós. Mas esta visão contém paternalismo disfarçado, sobretudo em relação aos países balcânicos ou da Europa centrooriental. E também conduz a confusões, de como observar as categorias mutáveis da política em vez das estruturais da geopolítica, na ilusão de que uma mudança de regime altera a natureza das coisas, erro evidente na convicção de que o problema da Turquia é apenas Erdoğan. Armadas destas ideias, as colectividades europeias saíram da história. Em parte porque não podiam cuidar da sua segurança tanto a oeste como a leste da cortina de ferro eram as superpotências que assumiam essa função. Em parte porque, na metade ocidental, os americanos impuseram a economia como único horizonte possível de afirmação, o único instrumento de legitimação e de construção comum. E em parte porque as sociedades europeias se convenceram de que era possível renunciar à violência inerente a qualquer projecto de poder.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO umbral da desordem mundial (IV) “A nation which cannot control its own destiny cannot expect to influence the destiny of others.” George F. Kennan, American Diplomacy, 1951 A centralidade atribuída à crise dos Estados Unidos não é um acidente histórico. O que sucede na América repercute-se directamente nas estruturas políticas, estratégicas e mentais da Europa. Durante três gerações, os europeus substituíram a insuficiente autoconsciência nacional pelo conforto de uma existência tranquila numa espécie de província imperial. A intimidade com os Estados Unidos, para o bem e para o mal, foi sempre singular e permanece, em parte, intacta. O fascínio pelo “way of life” americano tornou-se universal e até os seus detractores eram atraídos por ele. Estaline assistia a westerns de John Wayne em sessões privadas no Kremlin; Hitler coleccionava desenhos animados, sobretudo da “Branca de Neve”; Mussolini, apesar de proibir banda desenhada estrangeira e promover um super-herói nacional, lia em privado histórias infantis americanas. Todos os rivais do poder americano ambicionaram o reconhecimento dos Estados Unidos. Fidel Castro talvez não tivesse seguido o caminho do comunismo se alguém na Casa Branca lhe tivesse estendido a mão. Contudo, nenhum actor reflectiu tão intensamente no espelho americano como a Europa do pós-guerra. O colapso desse ídolo deixou o continente num estado de desnorte sem paralelo. Libertar-nos das imagens idealizadas às quais sacrificámos a inteligência do real exige recuperar um ponto de vista próprio sobre o mundo. Para tal, é necessário desmontar o teatro da irrealidade que nos absolve de responsabilidade e nos reduz a uma entidade irrelevante no mercado das potências, uma comédia espectral, ritmada por retórica belicista imprudente. Existimos em paz; morreríamos se forçados à guerra. A nossa segurança depende de uma área móvel que abrange a Europa e o Mediterrâneo. Para os protagonistas globais, a área de segurança coincide com a esfera de influência, frequentemente estruturada em império. Não é o caso europeu. A nossa soberania insuficiente fragiliza o perímetro de tranquilidade, enquanto a deslegitimação da política impede o enraizamento da paz social. A Europa é estruturalmente heterodependente. O paradoxo é evidente pois consagrou, com um gesto quase soberano, a renúncia à própria soberania, princípio inscrito nos tratados fundadores. Essa escolha transformou-a numa entidade dirigida por outros sempre que alguém deseje fazê-lo no domínio da segurança, até ontem pelos Estados Unidos. Mas o que resta desse vínculo agora que o aliado americano se afasta e, em boa companhia europeia, nos acusa de cobardia e oportunismo? A União Europeia evita enfrentar este dilema. Enquanto não o fizer, permanecerá aquém da linha de sombra que separa os imaturos dos responsáveis. A pergunta de Gretchen a Fausto, “E tu, como te entendes com a religião?”, ilumina o problema. A segurança é um acto de fé, e era necessária muita para acreditar que os americanos morreriam por nós. Como Fausto, evitamos a questão. Ofuscados durante oitenta anos pela luz verde do farol americano, temos dificuldade em orientar-nos na escuridão da Grande Guerra. Reconquistar um ponto de vista próprio implica adaptar o olhar à realidade, uma revolução cultural. Possível? Certamente. Não nascemos ontem. Não precisamos de reinventar o continente. Podemos retirar muito do passado imenso para iniciar a reconquista de nós mesmos, procurando a trama de um estilo europeu de estar no mundo, a nossa “figura no tapete”, para usar a imagem de Henry James. A Europa possui um cânone próprio, um destilado de realismo activo que emerge e se eclipsa ao longo dos séculos. Trata-se de um cânone do equilíbrio, herdado dos Estados renascentistas, frequentemente confundido com improvisação, mas reconhecido por Hegel na Constituição da Alemanha de que “A situação não pode ser definida como anarquia porque a multiplicidade de partidos em conflito eram Estados organizados. Apesar da falta de um vínculo estatal em sentido próprio, grande parte desses Estados unia-se para fazer frente comum contra o chefe do império, enquanto outros se aliavam a ele.” É deste cânone que nasce “a necessária ideia de que, para salvar o país, era preciso unificá-lo num Estado”, fim que movia a mente “grande e nobre” de Maquiavel, deliberadamente deturpado por quem nunca desejou uma unificação política. Este cânone europeu, pragmática do equilíbrio, cuja traição conduz invariavelmente à autodestruição, inspirou os Estados Unidos na época, hoje renegada, do “balance of power”, interpretada por Kennan e Kissinger. A falta de equilíbrio é hoje a ameaça que parece antecipar o fim de tudo. Quantos entre nós disso se apercebem? Poucos. É essa inquietação que nos leva a discuti-la. Esta batalha cultural de médio prazo começa pela língua, porque, contra o senso comum, as coisas são frequentemente consequência do nome que lhes damos. Nomear é exercer poder. Veja-se o exemplo das querelas toponímicas que divertem Trump, para quem o Golfo do México se transforma, do amanhecer ao anoitecer, no “Golfo da América”. Não é mera sinalética; é a consagração simbólica da pertença à nação epónima. O sentido do ridículo impede-nos tais pretensões. O sentido que nos anima exige uma limpeza semântica rigorosa. Impõe nomear as coisas pelo que são, contra jargões mediáticos, académicos e burocráticos que deformam os termos do raciocínio destinado a informar a acção geopolítica. Dois exemplos do glossário da irrealidade são “comunidade internacional” e “direito internacional”. Gémeos siameses. Devem ser abandonados, não por juízo moral, mas porque não correspondem a qualquer realidade terrestre. Sacrificando-nos a estes ídolos inconsistentes, acabamos por embater contra a parede. E se fosse pura hipocrisia, o que não cremos, apresentar-nos-íamos à mesa diplomática com cartas falsas. A “Comunidade internacional” é a expressão menos poderosa de uma frase feita, irreflectida, querida pelos media e pelos técnicos da diplomacia. Para os ocidentais, funciona como sinédoque de si próprios. Podia fazer sentido na acepção anglo-americana “The West” quando essa figura era reconhecida como hegemónica. Hoje, não. Mais profundo é o equívoco do “direito internacional”, arma de legitimação agitada por actores interessados em fazer passar por universais os seus interesses. Falta-lhe o primeiro carácter de qualquer sistema legal que é a aplicação uniforme e consensual. Falta-lhe também consenso popular, pois está enraizado fora da comunidade. Pretende-se universal, mas é apátrida. Disponível para qualquer actor pronto a disfarçar-se de porta-voz da civilização. Utilizável em qualquer contexto, portanto falso em toda a parte. Um diplomata arguto observa que “O direito internacional não precede a prática dos Estados, mas reflecte-a, nascendo como instrumento para servir os interesses da comunidade dos Estados no seu conjunto.” Os actores aderem aos princípios flexíveis do chamado “direito internacional” enquanto estes coincidirem com os seus interesses; nesse caso, postulam como real esse direito, tal como o padre que, à Sexta-feira, baptiza como peixe a carne de que é guloso. O direito deriva do poder, não o contrário. Cada Estado julga-se a si mesmo. Falta o juiz, um terceiro acima das partes, capaz de emitir sentença e fazê-la aplicar. A busca desse terceiro imparcial levanta dúvidas sobre a própria concebibilidade do direito internacional. Isso não impede que potências se erijam em juízes da história, desqualificando fracos ou vencidos em tribunais “internacionais”, isto é, seus. É também habitual delegar negociações interestatais a académicos que, enquanto internacionalistas, tendem a negar o interesse nacional ou a subordiná-lo a uma norma universal. Não é justo censurá-los pois defendem a sua disciplina e cátedra, absorvidos por discussões de subtileza infinita. Daí a “suffisance” com que tratam quem ousa contestar a validade ou concebibilidade desse “direito”. Não surpreende a classificação do “direito internacional” como “direito anárquico”. A tendência para conferir roupagem pseudo-jurídica a decisões geopolíticas revela a falta de sentido de Estado nas vetocracias europeias. Os teóricos do “carácter nacional” lamentam-se, mas isto não é destino, torna-se destino apenas se insistirmos em defini-lo como tal. A limpeza lexical não é um fim em si mesma, embora fosse muito. A nação é um plebiscito de todos os dias; a democracia, acrescentaríamos, de todas as horas. Quando as palavras deixam de revelar o pensamento e passam a escondê-lo, de que falamos? Regressamos ao pré-histórico 1993, quando a geopolítica reapareceu como contributo para a consciência democrática europeia. Na época, não faltou quem reagisse com escândalo, rotulando como “fascista” tanto o interesse europeu como a própria geopolítica, termos hoje inflacionados, também graças ao uso despreocupado dos seus antigos críticos. Motivo adicional para não abdicar do propósito fundador de reconstruir um léxico político que permita à União pensar-se como sujeito e não apenas como processo. De Maquiavel herdamos a lição essencial que “pareceu mais conveniente seguir a verdade efectiva da coisa do que a imaginação dela”. A União Europeia faria bem em reaprender esta máxima, substituindo a confortável imaginação normativa pela verdade efectiva do poder, mais Europa, menos província jurídica, mais consciência estratégica. Um general europeu recorda um episódio exemplar deste cânone. Em 2007, enquanto dirigia um serviço de informações, estabeleceu relação de confiança com Ali Larijani, então secretário do Conselho de Segurança Nacional da República Islâmica, que o informava confidencialmente sobre as negociações com o grupo 5+1. Perante um café, o general perguntou: “Então, afinal, essa Bomba fazem-na ou não?” Larijani respondeu: “Se eu dissesse que não, acreditaria?” – “Não.” – “Então mais vale fazê-la.” É duvidoso que essa franqueza tivesse sido oferecida aos seis Grandes. Larijani foi morto por um míssil israelita a 17 de Março, em Pardis. A lição permanece de que a verdade efectiva da coisa deve prevalecer sobre a imaginação normativa. A Europa só recuperará maturidade estratégica quando reencontrar o seu cânone, o equilíbrio, a clareza conceptual, a consciência de poder, e quando chamar o mundo tal como ele é.
Jorge Rodrigues Simão PerspectivasO umbral da desordem mundial (III) (Continuação do artigo publicado na edição de 9 de Julho) Os segredos ocultos nas sombras levantinas devem ser decifrados lendo a sua trama original como um grande tapete persa tecido pelo avesso, o ghali, na designação farsi adoptada pelo turco. Viremolo para estudar os nós que desenham a sua estrutura profunda ao longo da modernidade, começando pela rivalidade entre o império otomano, Estado Grande da Casa de Osman, governante durante séculos da Palestina hoje ocupada por Israel e as dinastias iranianas contemporâneas, dos Safávidas aos Cajar, com a posterior e irregular dinastia Pahlavi. Rivalidade permanente, abalada em 1948 pelo surgimento do Estado israelita, nave alienígena caída sobre terras sagradas de outra maneira. A ordem do dia em Jerusalém é combater hoje o Irão para preparar a derrota da Turquia amanhã. É também uma forma de elaborar o luto pela eventual perda do Inimigo perfeito que é a República Islâmica. Considerada ameaça existencial pelas elites porque, até à ascensão de Ancara como pivô neo-imperial, não existiam outros adversários capazes de encarnar Amalec, o Mal absoluto da tradição bíblica. O paradoxo da guerra israelita é que está a combater o único adversário capaz de manter unidas as suas tribos cada vez mais heterogéneas. Assim, vencer significaria perder. Tragédia remediável erguendo a Turquia ao para-sultanismo de Recep Tayyip Erdoğan como novo Satã. O qual, por sua vez, eleva o Estado israelita à condição de demónio guiado pelo “novo Hitler”, que “se Deus quiser pagará o preço” dos seus massacres. Enquanto conta que os “nazis” de Jerusalém reduzam o poder iraniano. Se realmente o Senhor afundar Israel, a única potência a dominar o Médio Oriente será a Turquia. Na fórmula do ex-primeiro-ministro e aspirante a sucessor de Netanyahu, Naftali Bennett: “A Turquia é o novo Irão”. Ancara encara a agressão israelo-americana contra Teerão como ameaça vital. Antes de mais, devido ao risco de migração em massa caso o Irão seja devastado. A República Islâmica funciona para a Turquia como uma esponja destinada a protege-la da entrada de multidões vindas do sul (Iraque) e do leste (Afeganistão). A tal ponto que o Estado profundo turco (Derin Devlet), império dentro do império de matriz kemalista, planeia penetrar, se necessário, nas ruínas do império iraniano para estabelecer ali uma zona tampão onde internar os potenciais refugiados. O barco está sobrelotado. A Turquia acolhe o maior número de refugiados do mundo, quase dois milhões e meio, 90 por cento dos quais sírios. O que aconteceria se chegassem os 3,8 milhões de afegãos que ainda vagueiam em território persa? Sem falar do possível avanço de curdos iranianos incitados pelos serviços americanos e israelitas contra o regime dos Pasdaran. E sem excluir que o colapso da complexa composição étnica iraniana antigo projecto da inteligência britânica empurre também os azeris da Pérsia para a Turquia, que, para não entrar em contradição com o seu panturanismo, teria de os acolher em nome da afinidade étnica. A fricção turco-israelita vai muito além da emergência migratória e do impacto da guerra sobre a frágil economia turca, cuja inflação voltou a acelerar, levando o Banco Central a ponderar sacrificar parte das reservas de ouro para sustentar a lira. A estratégia do caos patrocinada por Netanyahu visa desestruturar, juntamente com o corredor imperial persa, a esfera de influência de Ancara, o chamado Mundo Turco, centrado no Médio Oriente, nos estreitos oceânicos, na Ásia centro-ocidental e nos Balcãs. Uma reinvenção ampliada do império otomano, pelo qual o Estado israelita se sentiria cercado e sufocado. A entrada dos turcos em Damasco ontem, e talvez em Gaza amanhã, coloca Jerusalém pela primeira vez frente a frente com uma grande potência adversária. O risco de guerra turco-israelita, especialmente na Síria penetrada por ambos, é real. As ligações de Erdoğan com o Paquistão e a Arábia Saudita levam Netanyahu a evocar um arco sunita radical potencialmente mais perigoso do que o xiita, entre Bagdade e Beirute, quebrado pela queda do regime sírio. Neste contexto, Jerusalém persegue três objectivos. Primeiro, separar a Turquia dos Estados Unidos. Segundo, alimentar os conflitos regionais para manter sob pressão os antigos dominadores da Palestina. Terceiro, construir um sistema de alianças de duplo corte, anti-persa e anti-turco. Aqui, o Estado israelita tempera a sua visão apocalíptica com uma estratégia positiva ainda por definir que é uma cintura de contenção do imperialismo turco sunita e do enfraquecido crescente iraniano xiita. Netanyahu chama-lhe “Hexágono”. Na sua mente, a moldura externa do Grande Israel em construção. Inclui Grécia e Chipre onde a direcção anti-turca é explícita além de vários países do Médio Oriente, da Ásia e de África, entre os quais os Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Quénia. No centro deste esquema está a “aliança de ferro” com a Índia. Grande potência emergente, liderada pelo islamófobo Narendra Modi, recebido em Março por Netanyahu com excessos de honra. Duas potências tecnológicas com ampla cooperação militar, ambas interessadas em desenvolver circuitos comerciais alternativos às rotas chinesas para ligar Ásia e Europa através da Península Arábica e do Mediterrâneo, com eventual ligação ao norte adriático. Israel fornece a tecnologia, a Índia a escala económica e o mercado. Israel e Índia cultivam a memória das afinidades entre sionismo e Hindutva, cujo ideólogo, Vinayak Damodar Savarkar, escreveu em 1923 “Se o sonho sionista se realizasse e se a Palestina se tornasse um Estado judeu alegrar-nos-íamos quase tanto quanto os nossos amigos judeus.” Hoje, a fusão entre para-democracia, radicalismo religioso e supremacismo étnico, marca de ambos, projecta uma imagem coerente deste alinhamento nada surpreendente. Com a diferença de que, enquanto Israel trata Bharat nome próprio da Índia de Modi, rejeição da designação britânica como aliado estratégico, em Nova Deli a palavra “aliança” é tabu. Em nome da astúcia transaccional de um colosso que não quer prender-se a nenhuma carruagem. Da relação com os Estados Unidos e com a NATO restam sobretudo as bases militares que a União Europeia coloca à sua disposição, ainda que acompanhadas de reservas crescentes como se viu quando, no final de Março, vários Estados membros recusaram autorizar a escala de bombardeiros americanos em território europeu. Esse gesto, discreto mas significativo, revela um início de reavaliação do papel estratégico dessas infraestruturas, tradicionalmente entendidas como penhor transatlântico da segurança europeia. A guerra em curso demonstra, porém, que acolher meios militares americanos no próprio território pode transformá-los em alvos directos. É o caso, por exemplo, dos mísseis iranianos Khorramshahr4, cujo alcance é suficiente para atingir o espaço europeu. Precisamente quando termina o fim da história e tudo nos convoca à responsabilidade por nós próprios, mergulhamos numa Grande Metáfora que substitui a realidade desagradável. O dever ser vendido como ser. Na retórica pública, suficientemente transversal, projectamos este universo imaginário com prodigalidade de fantasia. O hino: “A nossa pátria é o mundo inteiro”, cantado pelos anarquistas europeus refugiados na América no final do século XIX. A fé é a ONU como embrião de um governo mundial, com o diapasão do Conselho de Segurança a afinar todas as dissonâncias. O paradigma é a União Europeia, Super-Estado moralizador perante o qual recitamos os trabalhos de casa. Tudo sob o mágico guarda-chuva americano.
Jorge Rodrigues Simão PerspectivasO umbral da desordem mundial (II) “Great empires are not maintained by timidity.” Tacitus. Fala‑se muito da “defesa em mosaico”, que, ao descentralizar os comandos, permite ao Pasdaran, Basiji e militares das Forças Armadas regulares (Artesh) manterem‑se operacionais apesar da sucessão de assassinatos na liderança político‑militar. Menos divulgado, mas igualmente importante, é o aspecto económico‑industrial dessa estratégia. Nas primeiras fases da guerra, o presidente Masoud Pezeshkian delegou autoridade às províncias e simplificou os procedimentos administrativos, facilitando, entre outras coisas, a importação de mercadorias que favoreceu o comércio terrestre, compensando parcialmente o semi‑encerramento de Hormuz. O Irão importa, através desse estreito, parte do trigo, óleo vegetal e arroz que consome, além de quase toda a soja. O abastecimento provinha sobretudo de portos do Golfo, que foram alvo de represálias iranianas. Entre as rotas alternativas figuram ligações ferroviárias com a China a norte e portos secundários como Chabahar, no sul, embora com capacidade limitada. Apesar disso, os alimentos incluindo os frescos permaneceram abundantes e, ao contrário dos meses anteriores, relativamente estáveis nos preços, graças ao isolamento do rial. O racionamento do petróleo evitou a escassez após os ataques aos centros de armazenamento que escureceram o céu da capital. O Estado, principal empregador do país, continuou a pagar salários. A República Islâmica mostrou‑se economicamente preparada para a guerra, embora pagando um preço elevadíssimo. Tal como aconteceu com a Rússia após a invasão da Ucrânia, confundiram‑se as dimensões modestas da economia com a sua tenacidade, que lhe permite sustentar uma guerra de desgaste. A situação é diferente para a economia mundial que é um mecanismo muito maior, mas também mais complexo e, por isso, frágil. Os países árabes do Golfo são nós cruciais na produção global de fertilizantes azotados, essenciais para a agricultura industrial. Quando a cadeia do azoto se interrompe, os efeitos acumulam‑se nos solos e influenciam durante meses as decisões de plantação. As previsões de rendimento das colheitas de milho estão a ser revistas em baixa, dado que muitos agricultores optarão pela soja, que exige menos azoto. A este cenário soma‑se a guerra na Ucrânia. A Rússia e Ucrânia produzem cerca de um quarto do trigo mundial, e quase quinhentas mil pessoas, sobretudo em África e no Médio Oriente, sofrem choques alimentares devido a esse conflito. Com o agravamento climático, o Corno de África encontra‑se há muito à beira da fome. Os principais importadores de cereais, como o Egipto, têm reservas para apenas alguns meses. Aumentos de 30-40% nos preços dos alimentos básicos estão historicamente associados ao crescimento da instabilidade política nos 6 a 18 meses seguintes, como ocorreu amplamente durante as chamadas primaveras árabes. Há ainda consequências de médio e longo prazo. É cedo para avaliar o impacto da guerra contra o Irão sobre o poder económico‑financeiro dos Estados Unidos, mas alguns efeitos estruturais delineiam-se. Dois, em particular. Primeiro, embora a evidência imediata possa sugerir o contrário, a desdolarização tende a continuar, se não a intensificar‑se. A valorização do dólar nas primeiras semanas de guerra ecoa a sua função tradicional de refúgio. Mas muitos vêem nesta corrida ao dólar não tanto como uma busca de segurança, mas como uma postura de neutralidade. Depois de terem investido massivamente em ouro, em detrimento do dólar, os agentes económicos regressam parcialmente a um activo líquido e abundante, para retomarem distância assim que possível de uma moeda e de um país não vistos como totalmente fiáveis. Segundo, a China, aconteça o que acontecer, saiu vencedora. Uma guerra longa e dispendiosa que deixe o Médio Oriente ainda mais inseguro corrói a capacidade de dissuasão dos Estados Unidos isto é, a confiança dos aliados na protecção de Washington e o receio dos adversários em desafiá‑la. Tal implica, entre outras coisas, uma corrida generalizada ao armamento e à diversificação energética. Esta última não é apenas um esforço ecológico, mas sobretudo um instrumento de redução de risco, seguindo o modelo chinês das últimas três décadas, que levou o país a gerar hoje um terço da electricidade mundial proveniente de fontes renováveis. Tudo isto exige matérias‑primas críticas, o que significa sobretudo aço e electrónica, portanto terras e metais raros, mas também gás e outros precursores necessários à produção de chips. A China controla actualmente mais de 70% da capacidade manufactureira associada a estes sectores como o solar, eólico, baterias e componentes químicos. Com cerca de 1,3 mil milhões de barris de petróleo acumulados em reservas estratégicas, é também o único país capaz, no curto e médio prazo, de estabilizar o mercado petrolífero, além de ser exportador líquido de refinados e o segundo maior exportador mundial de fertilizantes. Possui ainda vastas reservas de enxofre, essencial para fertilizantes e metalurgia, e reduziu a dependência do Golfo em relação ao hélio, crucial para semicondutores, graças a descobertas recentes de jazidas internas. Para muitos outros países, especialmente os europeus, prevê‑se um aumento das dependências de bens críticos, bem como uma inflação persistente no sector energético e nas matérias‑primas em geral, com inevitáveis repercussões na indústria e nas limitadas margens fiscais dos seus orçamentos endividados. No Golfo trava‑se hoje uma guerra assimétrica. Assimétrica porque opõe o Irão que é um Estado organizado e detentor do monopólio da violência a uma América errática e sem estratégia, que visa exclusivamente destruir. E servir Israel, ou melhor, os seus impulsos autodestrutivos. O Estado iraniano longe de poder ser reduzido ao regime geriu com relativo sucesso as tentativas israelo‑americanas de decapitação, reorganizando rapidamente a cadeia de comando graças a planos preparados há décadas, mas aperfeiçoados recentemente através do estudo das tácticas usadas por Washington e Telavive contra os seus aliados regionais. Apesar da amputação do seu corredor estratégico, agora reduzido ao eixo Bagdade‑Teerão‑Herat com a extensão libanesa do Hezbollah demasiado cedo dada como destruída, o Irão permanece nas mãos dos Pasdaran. Pior ainda, das suas facções mais radicais. Os Estados Unidos e Israel estão, de facto, a impor uma mudança interna do regime. À liderança contrária ao confronto total, eliminada pelos assassinatos cirúrgicos, sucede uma constelação em recomposição, convencida de lutar pela vida ou morte. Com todos os meios ao seu dispor. Se o Estado não for destruído e se as negociações com os Estados Unidos não lhe oferecerem garantias absolutas (e como confiar, depois de tudo?), qualquer futura liderança iraniana acelerará a corrida à Bomba. Com esta guerra, Washington está a fazer a si aquilo que pretendia fazer a Teerão. E está a revelar‑se aquilo que acreditava ser o Irão; um “tigre de papel” (Trump), absolutamente “incapaz de raciocinar” (Rubio). Assim, na Casa Branca resta confiar nas orações. Da exportação da democracia à importação da teocracia? A operação Epic Fury configura‑se como a hegeliana “fúria do desaparecer” de um mau infinito de violência sem síntese, que expõe a profundidade da crise estrutural americana. Uma crise enrolada em três factores de fragilidade, encadeados e orientados para a rápida dissipação de uma potência que não é super. O primeiro é estritamente militar. Desde 28 de Fevereiro, os americanos têm esvaziado os seus arsenais a um ritmo paroxístico. Análises informadas sugerem que, em breve, poderão ficar sem mísseis balísticos de precisão e sem sistemas capazes de interceptar projécteis iranianos. No primeiro mês de combates, a Marinha dos Estados Unidos terá lançado mais de 850 mísseis Tomahawk, quase um quarto das reservas disponíveis. Sistemas como o Patriot, caríssimos e impossíveis de substituir de imediato, foram usados para interceptar drones iranianos baratos e facilmente reproduzíveis em massa. Sinal de uma guerra insustentável, mal concebida e pior executada como notaram soldados ucranianos enviados para a região como conselheiros militares (como o mundo muda), os americanos estão “a disparar sem pensar”. Exactamente como os iranianos desejavam. O segundo factor de fragilidade é a ausência de estratégia. Este défice resulta de dois elementos. Primeiro, os poderes americanos estão divididos, parcialmente privatizados, mais empenhados em combater‑se entre si do que em elaborar uma teoria da vitória. A potência substitui a estratégia, tornando a guerra interminável e, por fim, esgota‑se por autocombustão. Tudo muito americano com a diferença de que, desta vez, Washington enfrenta um inimigo cuja paciência estratégica é um mantra, enquanto se alia a um actor, o Estado israelita, que alimenta a dissipação da potência americana. A falta de estratégia impede derrotar o inimigo e também controlar o aliado. Em geopolítica, como na vida, se não sabes o que queres, acabas por fazer o que os outros querem. Sejam inimigos ou supostos amigos, pouco importa. Assim, os Estados Unidos invertem o princípio hegemónico de longe de fazerem os outros agir em seu benefício, fazem o que serve os outros, prejudicando‑se. Sem alcançar qualquer objectivo que não seja, nas palavras de Baudrillard, o “delírio de uma vitória vazia, a exaltação de uma proeza estéril”.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO umbral da desordem mundial (III) “The supreme folly is to believe that power is its own justification.” Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (1951) A abordagem americana de “fazemos como queremos” assenta num pressuposto errado. No Pentágono acreditam (ou fingem acreditar) que a exibição de força militar assustará a China. O Presidente Trump dispara para intimidar o Presidente Xi e levá-lo a renunciar às suas ambições no IndoPacífico, preservando o status quo. Revolução permanente para perpetuar o existente. Washington está, de facto, a reduzir as suas hipóteses de conter Pequim, que observa satisfeita o desperdício dos arsenais americanos destinados ao IndoPacífico. Os estrategas chineses regozijam-se ao consultar a tabela periódica pois cada míssil, drone ou avião perdido pelos Estados Unidos exige, para ser reconstruído, terras e metais raros dos quais a China detém um quase monopólio. A guerra contra o Irão expõe assim os americanos na única frente que realmente importa e torna Washington dependente de Pequim para reconstruir o arsenal necessário à disputa no Pacífico. Se os chineses fossem (estes) americanos, diriam jogo, set e partida. Em vez disso, esperam porque a guerra, terceiro factor de impotência, acelera a crise americana. Um inquérito recente realizado nos círculos da administração Trump mostra que apenas 32% dos funcionários se dizem satisfeitos e empenhados, enquanto 58% se declaram menos envolvidos do que em 2024. Os valores mais baixos surgem no Departamento de Estado, onde a satisfação mal ultrapassa os 20%. No Pentágono, situa-se nos 48%. Os funcionários federais não gostam de trabalhar para esta América, também porque poderes privados descomunais estão a canibalizar o Estado. Como sugerem os iranianos com ironia fria (bem diferente da Epic Fury), os Estados Unidos ainda precisam de “negociar consigo próprios”. Só depois poderão procurar um compromisso sério com a República Islâmica e mesmo assim em condições piores do que antes de 28 de Fevereiro. A menos que se lancem em aventuras militares que, a longo prazo, corroeriam ainda mais a sua reputação. O balanço provisório da terceira guerra do Golfo indica que a América pós-hegemónica e em défice de estatalidade nem sequer é a superpotência militar que sempre acreditou ser. Crise do Estado, fim da hegemonia e impossibilidade do domínio. O que mais esperar de uma monarquia anárquica? Há um elemento esotérico na disputa em torno do Irão. Encoberto pela névoa da guerra, começa apenas agora a delinear-se, como aqueles medalhões que, no centro dos tapetes persas, se estendem subtilmente para o exterior através de nós simétricos, também chamados turcos ou gordianos. Ao desvanecerem, assumem formas difíceis de decifrar, deixando o observador na dúvida sobre a figura oculta no tapete tal como os exegetas de Henry James continuam a experimentar. O segredo que se torna cada dia mais evidente, mas nunca totalmente revelado, é a questão turca. Quando os analistas do futuro reconstruírem a história da agressão israelita ao que resta do antigo império persa, concluirão que o seu alvo indirecto, mas central, era a Turquia. Potência em ascensão, hoje capaz de ampla projecção, enquanto a Pérsia se encontra em declínio, recolhida em si mesma para não morrer prisioneira de um regime que ofende a sua civilização. Mais do que impedir a bomba iraniana, Jerusalém quer impedir que Ancara a obtenha e assim consolide a sua primazia no Médio Oriente. Não vale a pena procurar noutro lado pois o hegemon regional, uma vez afastadas as potências ocidentais, será um entre Israel, Irão e Turquia. Talvez inscrito na esfera de influência chinesa, da qual o Médio Oriente é o elo que liga Ásia, Europa e África. A menos que, cego pela obsessão exclusivista, Israel arraste os rivais para o vórtice da última guerra preventiva que é nuclear. Ou que os dois rivais cedam a essa tentação. Pode acontecer quando se aprende a não temer e a amar a Bomba. Ironia das ironias pois durante cerca de vinte anos, entre as décadas de 1950 e 1970, os três actores estiveram associados numa “aliança da periferia” anti-árabe. Para lá das considerações estratégicas, essa aliança informal assentava no desprezo comum pelos árabes. Judeus, persas e turcos nunca consideraram as tribos de onde emergiu o verbo de Maomé como iguais. Era assim quando os unia o objectivo de liquidar o panarabismo egípcio, sírio ou iraquiano. E é ainda mais assim hoje, na competição triangular a leste do Suez, entre o Corno de África e o Mar Arábico. Quanto às petromonarquias do Golfo, vistas a partir deste triângulo, são patrimónios familiares sustentados por rendas energéticas precárias, destinados a desaparecer. Manipuláveis, incapazes de hegemonia, eternamente à procura de um protector que inevitavelmente as desiludirá em que o último foi os Estados Unidos. A guerra de 28 de Fevereiro confirmou ao mundo e a elas próprias a sua fragilidade irremediável.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO umbral da desordem mundial (I) (Continuação do artigo publicado na edição de 18 de Junho) Quando planeiam intervenções terrestres, os decisores de Washington parecem ignorar a geografia acidentada de um território maior do que vários países europeus reunidos, com quase cem milhões de habitantes jovens, dotados de forte identidade e elevada cultura, com destaque para os avanços técnico‑ científicos e para a formação das mulheres. É compreensível que muitos iranianos estejam cansados de um regime opressivo e corrupto. O que não se compreende é como Trump pode pedir‑ -lhes que derrubem esse governo enquanto os bombardeia indiscriminadamente. Por que razão, então, esta aventura que desestabiliza o planeta e ameaça comprometer a posição do presidente nas próximas eleições intercalares? Três respostas interligadas; por Israel, Trump e Netanyahu, e Deus. Por Israel, porque nesta disputa mortal os Estados Unidos seguem a linha estratégica do Estado hebraico. O general Udi Dekel, analista do Institute for National Security Studies de Telavive, explica que “Desde 7 de Outubro, Israel caiu na armadilha da ‘segurança absoluta’, uma concepção que conduz à guerra permanente. Se a segurança é definida como eliminação total de qualquer ameaça assim que surge, em vez de a reduzir ou estabilizar, então qualquer resultado que não seja a remoção completa será visto como insuficiente.” Esta deriva, impulsionada por Netanyahu após o ataque do Hamas, transformou as Forças de Defesa de Israel em forças de ataque contínuo, esgotando-‑ as. O próprio chefe do Estado‑ Maior, Eyal Zamir, alertou: “Ergo dez bandeiras vermelhas antes que as forças colapsem.” Por Trump, hipnotizado por Netanyahu. Trata‑ se de mais uma prova da influência que Israel exerce sobre as elites americanas como fenómeno poderoso e insuficientemente estudado. Como pode o presidente alinhar tão cegamente com um aliado? Porque, nos círculos políticos, mediáticos, económicos e financeiros dos Estados Unidos, muitos consideram Israel quase um parente próximo. As ligações bipartidárias são antigas. Há episódios históricos que revelam essa assimetria, como o ataque israelita ao navio USS Liberty de 8 de Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, que matou dezenas de marinheiros americanos sem provocar qualquer reacção oficial. A relação entre os actuais líderes dos dois países constitui o ponto máximo dessa ligação. Entre Trump e Netanyahu há uma espécie de devoção recíproca, com momentos de tensão e reconciliação, mas sempre com dependência mútua. Circulam teorias menos nobres sobre possíveis meios de pressão, mas o essencial é que Netanyahu construiu a sua carreira política nos Estados Unidos e mantém influência profunda no Partido Republicano e em sectores do Estado. Hoje, a estratégia da guerra permanente serve-‑ lhe também para atrasar um processo judicial por corrupção. Trump, por sua vez, empenha-‑ se em obter para o aliado uma forma de imunidade, irritando-‑ se com a recusa do presidente israelita Isaac Herzog. O último elo da cadeia é religioso. O fio que une os dois países é o chamado sionismo cristão, muito popular entre conservadores americanos e bem recebido em Jerusalém, apesar de alguns dos seus defensores serem antissemitas convictos. Trata-se de um literalismo bíblico segundo o qual Deus atribui ao povo eleito um território vasto e liga o seu destino ao regresso do Messias. Esta visão mística permite a Netanyahu e Trump afirmar que a guerra terminará apenas com a segunda vinda de Cristo. Desde o início, esta guerra foi concebida como um exercício de resistência que, nas intenções israelo‑ -americanas, deveria desenrolar‑ -se sobretudo no plano militar. O cálculo era simples; pois tinha como objectivo degradar rapidamente a capacidade iraniana de resposta com mísseis e drones, antes que o arsenal americano se esgotasse. Se essa aposta falhou, foi porque a subestimação do Irão atingiu também o plano económico. Em cerca de quarenta anos, a República Islâmica estruturou uma “economia de resistência” capaz de suportar guerras, sanções e choques comerciais. O país produz internamente grande parte do que não consegue importar, ainda que com qualidade variável, incluindo medicamentos, componentes automóveis e electrodomésticos. Para isso, dispõe de centenas de indústrias distribuídas pelo território, numa estratégia de descentralização desenvolvida após a guerra com o Iraque, que revelou a vulnerabilidade das cadeias produtivas concentradas. Quando as sanções apertam, Teerão recorre à troca directa de bens por bens (escambo), permutando petróleo por alimentos e maquinaria. A estratégia de substituição de importações e de criação de rotas alternativas a Hormuz ganhou força durante a primeira administração Trump, cuja política de “pressão máxima” expôs fragilidades internas mas também acelerou a capacidade iraniana de adaptação. Décadas de embargo, durante as quais Teerão foi impedida de se apoiar plenamente no rendimento energético, produziram, paradoxalmente, uma das economias mais diversificadas e industrializadas da região. O petróleo continua a ter grande peso e, durante este conflito, o Irão manteve as exportações sobretudo para a China a um ritmo de quase três milhões de barris por dia, gerando receitas que fluem em grande parte para os Pasdaran. No entanto, cerca de dois mil milhões de dólares por mês provêm da exportação de metais, produtos químicos e alimentos. Trata-se de um sistema que, apesar das disfunções evidentes, preservou o impulso modernizador das décadas de 1960 e 1970, colocando a base industrial erguida pela monarquia Pahlavi ao serviço da revolução. Este modelo enfrenta agora a sua prova mais difícil. Desde 28 de Fevereiro, Israel e Estados Unidos atingiram uma infinidade de alvos em território iraniano, sobretudo infra-‑ estruturas civis com uso industrial. Assim agravaram uma economia debilitada pelas sanções e por uma inflação de 40%, simultaneamente causa e efeito dos protestos do início de 2026. Apesar disso, a economia de resistência cumpriu o seu papel, pois o custo da guerra para o Irão é imenso, mas as autoridades têm como prioridade absoluta a sobrevivência do Estado, não a prosperidade salvo a sua própria. Ainda existe muita economia civil para ser sacrificada em benefício da máquina bélica.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO umbral da desordem mundial (I) “When a political community loses the courage to name reality, it also forfeits the capacity to shape it.” Adrian Leclerc, European Letters on Power Avançamos para Gibraltar como o último estreito ainda livre que nos liga ao grande oceano e que, pela sua centralidade geoestratégica, deveria converter à fé até o mais céptico. Observado a partir do centro do poder europeu, o assalto israeloamericano ao Irão assume a forma de um cerco progressivo, no qual a Europa corre o risco de se ver confinada a um mar interior crescentemente condicionado. A antiga noção de “ponte oceânica” entre territórios e rotas globais dissolve-se à medida que, de leste a oeste, se fecha uma válvula após outra. Hormuz arde, Bāb alMandab encontrase sob fogo e o Suez é atingido pelas guerras de reacção desencadeadas após o 7 de Outubro. Sobre os estreitos turcos, fronteira entre o Mar Negro como palco da disputa russo-ucraniana e um Mediterrâneo oriental em convulsão com o epicentro em Chipre, reina igualmente um silêncio inquietante. Nem o Estreito da Sicília oferece tranquilidade, dada a presença assertiva da Turquia na margem sul, a influência russa na Cirenaica e a pressão dos conflitos permanentes entre o Sahel e o Corno de África. Mais a oeste, a situação melhora apenas marginalmente, condicionada pelas reivindicações argelinas sobre zonas marítimas adjacentes, às quais se responde com prudência devido à dependência energética europeia. É previsível, nos próximos meses, um movimento migratório de grande escala proveniente do sudeste em direcção ao continente europeu, evocando em alguns espíritos a travessia bíblica do Mar Vermelho. O caos aproxima-se. O colapso do império marítimo americano repercute-se directamente sobre nós. A ofensiva desencadeada a 28 de Fevereiro por Trump, actuando como aliado subordinado de Israel contra o Irão, marca o crepúsculo da talassocracia americana. Um império em declínio perde a capacidade de controlar os pontos de estrangulamento estratégicos que constituíam o sistema nervoso da sua hegemonia, agora em dissolução. A situação representa uma humilhação particular para a Marinha dos Estados Unidos, herdeira da antiga supremacia britânica. O motim a bordo do seu maior porta-aviões, o Gerald Ford, temporariamente imobilizado após danos provocados por marinheiros exaustos depois de quase um ano de missões contínuas, revela o estado de degradação da “Armada” na qual Trump confiava para esmagar a República Islâmica. O caos alastra pelas instituições, estruturas administrativas, órgãos de decisão, burocracias e centros de influência de Washington e pelo próprio governo federal, onde o presidente, num estilo errático, acumula vantagens pessoais enquanto fomenta conflitos internos. Chega mesmo a ameaçar com a saída da NATO, que descreve como “tigre de papel”. A comparação com Nero torna-se inevitável. Entre as frases apócrifas atribuídas a Mark Twain, uma parece ajustar-se ao auto-afundamento do líder americano ao afirmar que “Deus criou a guerra para que os americanos aprendessem geografia.” E, acrescentar-se-ia, história. Missão falhada. Apenas uma minoria dos cidadãos dos Estados Unidos consegue localizar o Irão num mapa; muitos pensam tratar-se de um país árabe e confundem-no com o Iraque; poucos o identificam como a antiga Pérsia. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA Europa fortificada (Continuação do artigo da edição anterior) O discurso político que acompanha a reforma é um espectáculo à parte. Os líderes europeus celebram o pacto como vitória da razão sobre o caos, como se a migração fosse uma força natural indomável que só agora encontrou o seu mestre. A retórica da “ordem” e da “segurança” domina, enquanto a palavra “humanidade” aparece apenas em notas de rodapé. A Europa parece ter esquecido que a sua própria história é feita de migrações, exílios e deslocações, preferindo agora apresentar-se como bastião de estabilidade ameaçado por hordas imaginárias. Mas é quando olhamos para Portugal que o pacto revela toda a sua ironia. O país que durante anos viveu numa espécie de “excepção mediterrânica” com fronteiras abertas, processos lentos, legalizações por acumulação e uma fé quase religiosa na Manifestação de Interesse vê agora o chão a fugir-lhe dos pés. O pacto europeu não só confirma como obriga Portugal a abandonar o seu antigo modelo. A triagem obrigatória nas fronteiras torna impossível o velho sistema português de “entra, trabalha, espera e logo se vê”. O DecretoLei 37A/2024, que revogou a Manifestação de Interesse, não foi um capricho nacional mas o primeiro passo para alinhar com a nova ortodoxia europeia. Portugal terá agora de criar centros de triagem rápida, recolher biometrias de todos os recémchegados e aplicar procedimentos acelerados para rejeitar pedidos considerados “manifestamente infundados”. O país que mal consegue gerir o balcão de atendimento da AIMA terá de gerir centros de triagem com prazos de 5 a 7 dias. A ironia é evidente pois a Europa exige eficiência a um Estado que ainda luta para emitir cartões de residência em menos de um ano. O pacto também pressiona Portugal a aumentar deportações. Historicamente, Portugal deporta pouco e mal; agora terá de alinhar com a nova métrica europeia de sucesso e “decidir rápido, devolver depressa”. A cooperação com países de origem será reforçada, e a irregularidade deixará de ser tolerada como fenómeno quase folclórico. As implicações para os migrantes em Portugal são profundas. Quem está no país com processos pendentes não será automaticamente afectado, mas enfrentará um ambiente mais rígido, com maior escrutínio e menor margem para regularizações por via administrativa. Quem ganha salário mínimo, a esmagadora maioria, verá renovação de títulos mais difícil, porque o pacto incentiva critérios económicos mais estritos. Quem entra sem visto adequado será automaticamente canalizado para triagem e, muito provavelmente, para recusa. O velho truque de entrar como turista e “tentar a sorte” morreu oficialmente em 2026. Os beneficiários do Acordo CPLP, que durante algum tempo viveram numa espécie de paraíso documental, verão a porta estreitar-se. O pacto não revoga a CPLP, mas pressiona Portugal a aplicar critérios de rendimento, antecedentes e integração com maior rigor. A autorização automática transforma-se em autorização condicionada. A irregularidade, antes tolerada como inevitabilidade administrativa, passa a ter consequências reais. A recolha biométrica obrigatória e a partilha de dados com o sistema europeu tornam mais difícil “desaparecer” no sistema. A Europa quer saber quem entra, quem sai e quem fica e Portugal terá de alinhar. O pacto é, em última análise, reflexo de uma Europa que perdeu a confiança na sua própria narrativa moral. Durante décadas, a União apresentouse como farol de direitos humanos, modelo de integração e exemplo de solidariedade. Hoje, parece mais preocupada em proteger-se do mundo do que em transformá-lo. A reforma migratória é sintoma desta mudança com uma Europa defensiva, ansiosa e obcecada com controlo. Portugal, apanhado no turbilhão, abandona o seu modelo improvisado e adopta o casaco apertado da ortodoxia europeia. Nada disto significa que a migração não exija regulação. Exige, e muita. Mas a questão é saber que tipo de regulação se pretende; será uma que reconheça a dignidade humana como princípio orientador ou uma que trate pessoas como variáveis de um problema logístico. O pacto inclina-se perigosamente para a segunda opção, reduzindo a complexidade humana a categorias administrativas. A reforma migratória europeia é, assim, menos um avanço e mais um espelho. Um espelho que mostra uma Europa que não sabe muito bem quem é, mas sabe perfeitamente quem não quer deixar entrar. E Portugal, fiel ao seu hábito histórico de seguir a corrente, adapta-se, ajusta-se e resigna-se, enquanto tenta convencer-se de que tudo isto é modernização e não apenas uma mudança de humor continental.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA Europa fortificada “The real problem of humanity is the following: we have paleolithic emotions, medieval institutions, and godlike technology.” – Edward O. Wilson O recém-aprovado Pacto Europeu para a Migração e Asilo, celebrado entre 2024 e 2026 com a solenidade típica de quem acredita ter reinventado a roda, apresenta-se como a grande obra civilizatória da União Europeia no domínio migratório. A sua aprovação formal, concluída entre Abril e Maio de 2024 com o Parlamento Europeu a dar o primeiro sinal verde a 10 de Abril e o Conselho a fechar o processo a 14 de Maio foi anunciada como um triunfo histórico. A entrada em vigor, porém, segue o ritmo habitual da burocracia europeia sendo lenta, cerimoniosa e estrategicamente espaçada. O pacto só se tornará plenamente aplicável em 2026, após um período de adaptação que permite aos EstadosMembros fingirem que estão a preparar-se enquanto tentam perceber como vão cumprir regras que eles próprios aprovaram. A narrativa oficial proclama que o pacto representa equilíbrio, solidariedade e modernização. Na prática, funciona como um manual de instruções para transformar fronteiras em filtros industriais, onde seres humanos entram como “fluxos” e saem como “decisões administrativas”. A Europa descobriu, enfim, que a melhor forma de lidar com a complexidade é simplificá-la até ao absurdo, convertendo dilemas humanitários em tabelas Excel e reduzindo a mobilidade humana a um problema de gestão logística. A triagem obrigatória nas fronteiras externas apresentada como inovação brilhante consiste, basicamente, em transformar aeroportos e portos em salas de espera jurídicas onde se decide, em poucos dias, o destino de quem chega. O objectivo é separar rapidamente quem “merece” protecção de quem “não merece”, como se a vulnerabilidade humana pudesse ser avaliada com a mesma objectividade com que se avalia a maturação de um queijo. A promessa de rapidez é vendida como garantia de eficiência, mas o subtexto é evidente pois quanto mais depressa se decide, mais depressa se pode recusar. A isto soma-se o mecanismo de “solidariedade obrigatória”, expressão que só a União Europeia conseguiria inventar sem corar. Os Estados Membros podem escolher entre acolher requerentes de asilo, financiar operações noutros países ou pagar para que outros façam o trabalho sujo. É a solidariedade convertida em menu de restaurante em que cada país escolhe o prato que lhe convém, desde que pague a conta. A ideia de que a responsabilidade comum se resolve com transferências financeiras é um triunfo da criatividade burocrática, mas também um retrato fiel de uma Europa que prefere cheques a compromissos. O pacto reforça igualmente as parcerias com países terceiros, transformando vizinhos geográficos em porteiros terceirizados da fortaleza europeia. A lógica é simples; se a Europa não quer lidar com migrantes, que o façam países com menos escrúpulos e mais necessidade de financiamento. A externalização do controlo migratório é apresentada como cooperação internacional, mas na realidade aproximase mais de um outsourcing moral. A União paga, os outros contêm, e todos fingem que se trata de uma estratégia humanitária. A reforma introduz ainda procedimentos fronteiriços obrigatórios para quem vem de países com baixas taxas de reconhecimento de asilo. A presunção de improcedência transforma-se, assim, em política pública. Em vez de avaliar cada caso, avalia-se a nacionalidade, como se a dignidade humana fosse uma estatística. A Europa, que tanto se orgulha do Estado de Direito, parece agora confortável com a ideia de que alguns direitos são mais direitos do que outros, dependendo do passaporte. O pacto também promete acelerar deportações, porque nada diz “eficiência europeia” como um voo charter cheio de pessoas que não se enquadram nos critérios da nova engenharia migratória. A narrativa oficial insiste que se trata de garantir ordem e previsibilidade, mas o resultado é uma máquina administrativa que mede o sucesso pelo número de expulsões realizadas. A Europa, outrora defensora de valores universais, parece agora medir a sua virtude pela velocidade com que fecha portas. A reforma é apresentada como resposta ao aumento dos fluxos migratórios, como se a mobilidade humana fosse uma anomalia recente e não uma constante histórica. A verdade é que a Europa continua presa à ilusão de que pode controlar o mundo com regulamentos, ignorando que as causas profundas da migração com conflitos, desigualdades e alterações climáticas não desaparecem por decreto. O pacto é, nesse sentido, uma tentativa de gerir sintomas enquanto se ignora a doença. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (IV) “The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge.” Stephen Hawking À medida que os Estados Unidos se debatem nas suas contradições, o mundo observa se conseguirão inverter a trajectória ou se arrastarão os aliados para o mesmo abismo. A velha dialéctica das tempestades que regressam à calma ainda seduz alguns espíritos, mas o realismo impõe-se pois o optimismo tornou-se um luxo difícil de sustentar. O que se pode e deve fazer é assumir as nossas responsabilidades enquanto europeus ocidentais. A súbita moda de demonizar a América, sobretudo entre aqueles que até ontem a idolatravam, é apenas uma fuga às responsabilidades. E esse é um luxo que a Europa não pode pagar. O inimigo de que precisamos de nos defender somos, antes de mais, nós próprios. Fomos nós que nos deixámos aprisionar numa ideologia europeísta transformada em metaverso sentimental que prometia paz, prosperidade e progresso, mas produz belicismo, desconforto social e uma erosão cultural que corrói o que resta das democracias nacionais. A máquina europeísta, construída para fabricar consenso, tornouse uma fábrica de irrealidade que nos afasta das bases democráticas das nossas liberdades e nos empurra para uma deriva autodestrutiva. As estruturas comunitárias, cada vez mais distantes da legitimidade democrática, tentam impor a primazia de poderes delegados e tecnocráticos sobre os poderes eleitos. Esvaziam as democracias nacionais da sua substância e, ironicamente, alimentam os nacionalismos que pretendiam superar. Sem fronteiras claras, a União Europeia transformase numa salada institucional de países que, muitas vezes, têm mais afinidades com parceiros extra europeus do que entre si. Em tempos de paz, esta deriva ainda se tolera. Em tempos de guerra, é letal. Quando tudo é reduzido a preto e branco, a verdade desaparece. A censura e a autocensura atingiram níveis paroxísticos. O resultado é um continente que se gaba de ser o mais pacífico do mundo, esquecendo que essa paz foi um subproduto da derrota nas guerras mundiais e da protecção de uma potência que não tinha interesse em punirnos. A Europa Ocidental caiu, cambaleante, dentro do guardachuva estratégico americano, que nos reergueu para evitar que Moscovo nos absorvesse. Desde então, expulsámos a guerra do nosso horizonte mental, como se isso dependesse apenas da nossa vontade. Muitas Constituições cristalizaram essa ilusão. Para tudo o resto, confiávamos no protector transatlântico. Mas há dois problemas pois guerras não desaparecem por decreto; e a segurança nacional não pode ser terceirizada para um país que age exclusivamente segundo os seus interesses. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, ficámos estupefactos. Transformámos os ucranianos em heróis da nossa liberdade, enviámos armas às escondidas para não nos assustarmos a nós próprios nem irritarmos demasiado Moscovo, e rezámos para que a guerra ficasse longe das nossas fronteiras. Não movemos um dedo para promover negociações. Quando tentámos, no início de 2022, fomos rapidamente informados pelos nossos protectores de que não era o momento. Agora que são eles a tentar, criticamolos por não procurarem uma “paz justa”, como se pudesse existir justiça sem paz. Para agravar, embarcámos num rearmamento caótico, sem estratégia comum, em nome de um exército europeu sem Estado europeu. Cada país faz o que quer, como quer e quando quer. E, apesar disso, continuamos convencidos de que permaneceremos sob tutela americana que os americanos deixaram de garantir. É a síndrome do guardachuva fantasma pois continuamos a sentilo sobre a cabeça mesmo depois de ter desaparecido. Os europeístas mais fervorosos insistem que a defesa europeia criará finalmente a Europa política. Tentámos construir a casa pelo telhado com o carvão e o aço, depois com o mercado único e finalmente com a moeda única. Quando se professa o princípio da irrealidade, nada é obstáculo. Mesmo que o resultado seja a guerra desde que a Constituição continue intacta. O europeísmo tornouse, na prática, antieuropeu. E perigosamente aventureiro em tempos de conflito. O problema é que os seus defensores são sinceros pois acreditam genuinamente no que dizem. Apenas não têm qualquer noção da realidade. E fazem dessa cegueira uma virtude. O barómetro está preso no anticiclone permanente, enquanto a tempestade se aproxima. A devolução voluntária das últimas parcelas de soberania que o império americano nos tinha deixado por falta de vocação imperial completou o trabalho. A destruição deliberada das culturas estratégicas europeias, especialmente na Alemanha, fez o resto. Atordoados pelo ataque russo à Ucrânia, vagueamos como sonâmbulos num continente que perdeu a capacidade de interpretar o mundo e de se situar no tempo. A surpresa foi tal que nem percebemos que perdemos primeiro a guerra dos outros, amanhã talvez a nossa. Nada garante que russos e ucranianos interrompam tão cedo o massacre. E mesmo que o façam, o mais provável é que se trate de uma trégua instável, não de uma paz verdadeira. O que é certo é que os efeitos estratégicos desencadeados por esta ofensiva lenta e devastadora continuarão a propagarse durante anos, com intensidade crescente. A guerra não é mundial pela participação directa, mas é pelas consequências. O conflito abriu fissuras profundas na correlação de forças globais e arrastou para o tabuleiro a chamada “maioria mundial”, que observa o confronto entre um Norte inquieto e um Sul onde escasseiam Estados sólidos precisamente o instrumento que a Europa inventou para transformar guerras em paz. O impacto mais dramático para nós é a dissolução do Ocidente. Não apenas como bloco geopolítico, isso foi, mas como conceito cultural. O “Ocidente” que conhecíamos era herdeiro da Europa anterior a 1914, antes de o ramo americano da família se tornar dominante. Era a Europa civilizacional, matriz do homo occidentalis, livre para procurar a verdade, mas não para impôla. Uma Europa onde as elites falavam a mesma língua intelectual, onde a ciência, filosofia e arte circulavam sem fronteiras, onde um inglês continuava o trabalho de um francês, um alemão desenvolvia o de um inglês, um dinamarquês avançava mais um passo e um americano, ocasionalmente, inventava uma nova sequência. Talvez um dia consigamos recompor alguns fragmentos do Ocidente estratégico. Mas a civilização que lhe deu origem essa, temo, não voltará.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (III) (Continuação do artigo publicado na edição de dia 27 de Maio) O nuclear é o grande tabu da relação francoalemã. Na Alemanha, não apenas nos bastidores mas também na imprensa, discutese abertamente a necessidade de considerar a opção atómica. Alguns juristas lembram que o único obstáculo formal é o Tratado de Não Proliferação, que qualquer país pode denunciar. A Coreia do Norte fez; a Alemanha, se quisesse, poderia seguir o mesmo caminho. Tecnicamente, nada impede Berlim de construir rapidamente um pequeno arsenal pois tem conhecimento, tecnologia e infra-estruturas. O que falta é coragem política e disposição para enfrentar a reacção europeia. A ideia de um arsenal nuclear europeu é ilusória. A arma atómica é, por definição, símbolo de soberania nacional. A França faz disso um dogma. A Alemanha, soberana apenas desde 1990 e ainda hoje com tropas americanas no seu território, sabe que a sua margem de manobra é limitada. Mas a emergência estratégica leva Berlim a considerar o impensável. Daí a proliferação de “planos B” em toda a Europa. Quem confiou exclusivamente no guardachuva americano percebe agora que esse abrigo não é seu e pode fecharse a qualquer momento. O governo alemão criou grupos de trabalho para estudar formas de financiar um sistema nuclear europeu. E todos sabem que, uma vez aberto esse caminho, a transição para um programa nacional seria rápida. Alguns estrategas imaginam até uma solução híbrida com uma espécie de “nuclear europeu certificado”, onde parte do arsenal francês seria estacionado na Alemanha e parte de um eventual arsenal alemão seria acolhido em território francês. Uma troca simbólica para tranquilizar vizinhos nervosos e para disfarçar o facto de que cada país quer, no fundo, a sua própria bomba. Chamemoslhe “Plano C” por ser tão improvável quanto explosivo. Uma engenharia nuclear partilhada entre a França e Alemanha que, para além de suscitar arrepios em Varsóvia, provocaria urticária em Roma apesar da Itália ter ensaiado discretamente, nos anos cinquenta, um projecto atómico conjunto com esses mesmos parceiros. A história tem destas ironias. A verdade é que a desconfiança é recíproca. Os franceses olham para os alemães com o mesmo cepticismo com que os alemães observam o entusiasmo militar de Paris. Em Berlim, há quem veja na aproximação estratégica francesa uma versão musculada do velho instinto gaullista de abraçar para controlar. Um abraço sem ternura, claro está, apenas o suficiente para manter o vizinho sob vigilância. E tudo isto partindo do pressuposto, nada garantido, de que dentro de uma década a França continuará a ser militarmente superior à Alemanha. A retórica da emergência militar tem muito de teatral, mas funciona. Cada país cultiva as suas “almas belas”, aquelas que continuam a acreditar que o guardachuva americano é eterno e infalível. “Certo ou errado, é o meu protector”, murmuram alguns em Berlim e muitos mais em Roma. Em Itália, a fé no amparo transatlântico sobrevive a todas as evidências em contrário, sustentada por tabus constitucionais, ilusões jurídicas e um apego quase religioso ao direito internacional, que a história insiste em desmentir. O silêncio ensurdecedor do governo italiano nas primeiras semanas do novo ciclo político em Washington, e o afastamento em relação ao grupo dos países mais intervencionistas, revelam uma dependência persistente da dissuasão americana. Uma esperança contra si, quase bíblica na sua ingenuidade. Mas se a Itália quiser preservar o que ainda pode ser salvo, terá de renegociar a relação com os Estados Unidos em bases bilaterais claras de protecção em troca de acesso militar. E, sobretudo, Forças Armadas capazes de lutar ao lado dos americanos quando os interesses coincidem, ou sós quando não coincidem. Mesmo sem o resto da Europa. Apesar das aparências, algo começa a mexer debaixo da superfície. Os militares italianos falam abertamente de guerra em italiano, não em anglicismos anestesiantes. A indústria de defesa acelera, ainda que de forma descoordenada. E as Forças Armadas, embora dependentes dos Estados Unidos, estão mais preparadas do que as alemãs e apenas atrás das francesas em capacidade operacional. O objectivo é simples de depender menos, mesmo sabendo que a independência total é impossível. Como todas as revoluções geopolíticas, esta terá duas fases; a da ruptura e reconstrução. Estamos apenas no início da primeira com caos, acusações e incerteza. A segunda virá mais tarde, e será um compromisso imperfeito entre o velho e o novo. O mais provável é que o futuro energético e estratégico euroasiáticoafricano acabe por se parecer bastante com o passado, apenas com novos protagonistas. Se tudo correr bem, o mundo reencontrará um equilíbrio de poder como uma arte que os italianos dominaram no Renascimento. Se correr mal, destroem-se mutuamente.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (III) “Europe’s tragedy is that it never misses an opportunity to miss its moment.” – Tony Judt, Postwar: A History of Europe Since 1945 Avançando para o século XXI, a França tenta reinventar-se. Houve momentos em que Paris quis parecer uma “startup” política, ágil e moderna, como se a tradição gaullista pudesse ser substituída por entusiasmo tecnológico importado da Califórnia. Mas a realidade geopolítica encarregou-se de recentrar o debate. À medida que a ordem transatlântica se fragmenta, a França regressa ao seu instinto natural que é reivindicar a liderança europeia e apresentar-se como a única potência continental capaz de agir sem pedir licença. A retórica francesa recupera então o velho argumento da independência estratégica de que a Europa, não pode continuar a viver de joelhos perante potências externas, sejam americanas, britânicas ou russas. A França, única potência nuclear da União Europeia e que escapou ao estatuto de protectorado após 1945, vêse como guardiã dessa autonomia. E tenta convencer os restantes europeus de que, se não assumirem responsabilidade própria, acabarão reduzidos a figurantes num mundo dominado por gigantes. Neste contexto, a liderança francesa procura posicionarse como alternativa à deriva global. Apresentase como defensora de uma Europa que não quer ser arrastada para acordos entre Washington e Moscovo feitos à sua custa. E tenta liderar um grupo de países que se recusam a aceitar que a guerra na Ucrânia termine com um entendimento entre grandes potências que ignore os interesses europeus. Mas a tarefa é ingrata. A Europa está dividida, fragmentada e desconfiada. Alguns países olham para Paris com esperança; outros com irritação; muitos ainda com indiferença. A França, apesar de ser a potência militar mais estruturada do continente, não consegue transformar automaticamente essa força em liderança consensual. E, no entanto, insiste porque sabe que, se não o fizer, ninguém o fará. A França continua a moverse com naturalidade em cenários de conflito, mesmo quando a própria sociedade se fragmenta sob o peso de crises internas que corroem a Quinta República. Paradoxalmente, é precisamente este ambiente de tensão que alimenta a ambição francesa de se afirmar como potência dominante num continente onde quase todos os outros parecem desnorteados. O panorama europeu é um convite aberto à ascensão francesa pois as vanguardas mais ferozmente antirussas perderam o equilíbrio, a Anglosfera está rachada, a Alemanha vive uma crise de identidade permanente e a Itália vagueia num limbo estratégico. Para Paris, é o momento ideal para reivindicar o estatuto de Número Um na Europa. Mas para que a França volte a liderar, precisa de um entendimento com a Alemanha e esse está no ponto mais baixo em décadas. Enquanto Washington impõe tarifas punitivas e acusa os europeus de parasitismo, a famosa “parceria francoalemã” vive uma fase melancólica. A França, com a sua tradição de grandeza, sabe adaptarse quando o vento muda. A Alemanha, pelo contrário, não tem um passado glorioso ao qual regressar para recuperar ânimo, nem a capacidade de mobilizar a população em torno das Forças Armadas. Perdeu simultaneamente a referência americana e a europeia, e respira um ar de ano zero. O único ponto de convergência entre Paris e Berlim é a convicção de que os Estados Unidos não são o pilar ocidental que foram. A França, por orgulho; a Alemanha, por falta de alternativas, começam a imaginar um Ocidente sem América. Mas a Alemanha enfrenta um obstáculo adicional dada a divisão interna entre o antigo Oeste, órfão de um aliado americano cada vez mais hostil, e o antigo Leste, onde persistem simpatias históricas pela Rússia. A pressão simultânea de Washington e Moscovo deixa Berlim numa posição desconfortável. Daí a conclusão das elites alemãs de que a Alemanha terá de aprender a defenderse só, de preferência com apoio francês e europeu. Para isso, preparase para gastar centenas de milhares de milhões de euros, abandonando tabus orçamentais e tentando ressuscitar um espírito militar que desapareceu há gerações. Não o fará através do serviço militar obrigatório pois os jovens alemães não demonstram entusiasmo por morrer pela pátria mas através de campanhas de “reconversão cultural”, vendidas como oportunidades de socialização patriótica. Uma versão moderna das antigas associações estudantis nacionalistas. E aqui surge o paradoxo mais alemão de todos; quanto mais a Alemanha se rearma, mais se afasta da França. Paris não esquece as três agressões vindas do outro lado do Reno, duas das quais desencadearam guerras mundiais. E não está disposta a aceitar que a Alemanha volte a ser a potência militar dominante da Europa muito menos se isso incluir armas nucleares. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (II) (Continuação do artigo de 14 de Maio) A diplomacia asiática oferece pistas de mudança pois o Japão, China e Coreia do Sul ensaiam aproximações cautelosas, sugerindo que o eixo estratégico da região pode estar a deslocar-se. Em Londres, a aproximação entre o governo britânico e Paris, ainda que tímida, indica que a velha rivalidade pode dar lugar a uma cooperação pragmática, sobretudo quando ambos os países se vêem como potenciais líderes de um bloco europeu pós-americano. O Canadá, sob nova liderança, parece disposto a afirmar independência simbólica, preferindo Paris a Washington como primeira escala diplomática. Até a monarquia britânica participa no teatro, com gestos cuidadosamente coreografados que sublinham afinidades com Ottawa. Falta apenas a Nova Zelândia para que toda a Anglosfera comece a afastar-se do centro gravitacional americano. O futuro da cooperação de inteligência entre estes países, outrora considerada inabalável, torna-se incerto. As divisões entre as potências tradicionais da Europa Ocidental agravam-se. França e Alemanha desconfiam uma da outra, sobretudo devido ao rearmamento alemão e à possibilidade de Berlim ambicionar capacidades nucleares. Itália e França mal se falam. Espanha segue o seu caminho, alheada das disputas continentais. Entretanto, uma corrente de pensamento ganha força que é a ideia de que a Europa só poderá reencontrar um rumo se recuperar a tradição estratégica francesa. A França, única potência europeia com dissuasão nuclear autónoma e com memória viva de independência estratégica, volta a apresentarse como candidata natural à liderança continental. A convicção de que a humilhação prolongada dos Estados europeus pode conduzir ao seu desaparecimento alimenta a retórica de Paris. A história francesa, marcada por ambição universalista e rivalidade com os Estados Unidos, ressurge como referência num momento em que a ordem transatlântica se desagrega. A tensão entre a França e os Estados Unidos é antiga. Desde o século XVIII que Paris oscila entre aliança e ressentimento, enquanto Washington mantém uma tradição de unilateralismo que subordina qualquer parceria ao interesse nacional. A França, por sua vez, nunca aceitou plenamente a condição de potência secundária. A sua força nuclear, a ausência de bases americanas no território e a herança gaullista moldam uma identidade política que resiste a qualquer forma de tutela externa. O gaullismo, reinterpretado ao longo das décadas, continua a ser a matriz do pensamento estratégico francês, mesmo quando disfarçado sob roupagens modernas. Após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram reduzir a França ao estatuto de protectorado, tal como fizeram com a Alemanha, Itália e Japão. Consideravamna demasiado fraca para conter uma eventual ofensiva soviética e demasiado instável para desempenhar um papel autónomo. A França escapou a esse destino graças à obstinação dos seus líderes, que se recusaram a abdicar de soberania. Essa memória continua a influenciar a política externa francesa e explica a sua relutância em aceitar a dissolução silenciosa da Europa sob pressão externa. A desvalorização da França tem raízes antigas no imaginário político americano. Muito antes das derrotas militares do século XX, circulava nos Estados Unidos a caricatura de uma França encantadora mas frágil, mais dada a gastronomia e cabaré do que a “hard power”. A comparação, sempre pouco subtil, colocava os americanos no papel viril e os franceses no papel decorativo. Nada que ajudasse a melhorar a auto-estima parisiense. Neste ambiente, não surpreende que, no pósguerra, certos círculos em Washington tenham imaginado redesenhar o mapa francês como se fosse um tabuleiro de xadrez. A ideia de amputar regiões, redistribuir territórios e administrar o país como uma possessão temporária parecia, para alguns estrategas, uma forma sensata de evitar que nacionalistas ou comunistas ganhassem terreno. A França, vista como demasiado instável, deveria ser tratada como uma paciente em cirurgia forçada. A própria moeda de ocupação chegou a ser preparada, com notas que imitavam dólares disfarçados de francos um símbolo perfeito da tutela que se pretendia impor. Mas Paris não se deixou domesticar. A liderança francesa, consciente de que a soberania se perde uma vez e dificilmente se recupera, montou à pressa um governo provisório e impediu que o país fosse administrado como uma colónia libertada. A resistência francesa ao protectorado “aliado” tornouse episódio fundador da memória estratégica do país. E não faltaram momentos de tensão pois houve ocasiões em que tropas francesas e americanas quase se enfrentaram directamente, com Washington a acusar Paris de irresponsabilidade e Paris a acusar Washington de arrogância imperial. Este trauma histórico moldou a atitude francesa durante décadas. A França nunca esqueceu que escapou por pouco a ser tratada como um Estado tutelado. E essa memória explica a sua insistência em manter autonomia militar, diplomática e nuclear mesmo quando isso irrita aliados.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (II) “Nations do not die in a day; they dissolve slowly, as the ideas that sustained them lose their force.” – Alexis de Tocqueville O que está a ruir é a ordem construída após 1945, em que a Europa funcionava como extensão estratégica dos Estados Unidos. Para Washington, essa estrutura deixou de ser um activo e passou a ser um fardo. Ainda assim, os Estados Unidos não pretendem retirar as suas forças do continente nem abandonar as bases e infra-estruturas que garantem presença e influência. Podem ocorrer ajustamentos, mas não uma retirada profunda, enquanto os interesses americanos assim o exigirem. Tentar definir agora o novo mapa geopolítico europeu seria presunção. Mas acreditar que o Ocidente regressará ao modelo anterior é ilusão. A actual liderança americana declarou encerrada a fase de globalismo missionário, substituindoa por uma estratégia centrada na competição entre grandes potências e na redução de compromissos externos. Entre os ideólogos que influenciam esta mudança destacamse correntes que combinam elementos de contracultura, autoritarismo e capitalismo tecnológico extremo. Personalidades associadas ao universo digital defendem uma visão do mundo que pouco tem de europeia e que nem sempre se identifica com a tradição americana. Em contraste, outros representantes do novo poder político reivindicam raízes profundas na cultura popular dos Estados Unidos. Apesar das diferenças, ambos os grupos convergem numa ideia de que existe uma separação estrutural entre o Novo e o Velho Mundo. Muitos europeus, por razões opostas, chegam à mesma conclusão. A noção de que o “Ocidente” enquanto entidade política e cultural está a desaparecer tornouse comum dos dois lados do Atlântico. Falta determinar como e quando essa transformação se materializará. A transição americana de potência hegemónica para dominante mas limitada é um salto no escuro, motivado pela percepção de que o tempo se esgota. A Europa, por seu lado, reage com uma mistura de negação e improvisação. Perante este cenário, tornase urgente reavaliar a posição europeia. As famílias políticas do espaço atlântico enfrentam tensões profundas. A aproximação entre Estados Unidos e Rússia, mesmo que parcial ou táctica, desorienta os países do Nordeste europeu, que sempre confiaram na protecção americana. Muitos descobrem agora que a garantia de segurança que julgavam eterna pode estar a evaporarse. A pergunta impõese: se soubessem que a Aliança Atlântica se encontraria neste estado, os ucranianos teriam lutado tanto para nela entrar? As nações mais hostis a Moscovo, desde a Escandinávia até ao Mar Negro, vêem o seu alinhamento automático com Washington perder relevância. A frustração leva a medidas extremas, como restrições políticas a cidadãos de origem russa ou bielorrussa, ou tentativas de excluir candidatos considerados demasiado próximos de Moscovo. Em alguns países, surgem até propostas para repetir eleições caso o resultado não corresponda ao que certos sectores consideram aceitável. Esta tendência culmina em decisões judiciais que procuram impedir figuras políticas controversas de concorrer a cargos de topo, reflectindo um clima de desconfiança generalizada. A exclusão política através de mecanismos judiciais tornouse prática recorrente em várias democracias ocidentais, alimentando suspeitas de que estruturas profundas do Estado continuam a operar longe do escrutínio público. Não admira que muitos vejam nessas decisões a mão invisível de aparelhos que nunca aceitaram perder controlo. No mundo anglófono, a inquietação cresce. O Reino Unido, horrorizado com o rumo das antigas colónias, discute discretamente a possibilidade de se emancipar da tutela política e estratégica de Washington. Nos círculos mais exclusivos da City, multiplicamse críticas aos novos poderosos americanos, vistos como arrivistas que não compreendem a etiqueta imperial. O desconforto alastra ao Canadá, alvo de declarações intempestivas vindas de Washington, e à Austrália, cada vez menos disposta a desempenhar o papel de sentinela antichinesa num Pacífico onde a influência de Pequim não pode ser ignorada. A presença australiana numa reunião europeia de países “voluntários” foi interpretada como sinal de que Camberra procura alternativas. (Continua)