Brasil | Flávio Bolsonaro junta-se a Trump com a ajuda de Milei

Flávio Bolsonaro, o candidato presidencial brasileiro derrotado, fugiu para a Argentina e depois para o Equador, juntamente com a mulher e as duas filhas, confirmou ontem a autoridade de migração da Argentina.

O senador de 45 anos, candidato derrotado nas presidenciais brasileiras, e a sua família receberam vistos para os Estados Unidos, na terça-feira, pela administração norte-americana liderada por Donald Trump. Bolsonaro está a ser investigado pelo Supremo Tribunal do Brasil por alegada corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal em dois casos.

O tribunal tinha ordenado a Bolsonaro que entregasse os seus passaportes – o regular e o diplomático – até ao meio-dia de terça-feira. Não está claro se a ordem foi cumprida. Porém, aliados bolsonaristas disseram na terça-feira à noite que o candidato presidencial derrotado tem também um passaporte italiano.

A autoridade de migração da Argentina comunicou na rede social X que Bolsonaro, a mulher e as filhas chegaram na terça-feira ao final da noite. Segundo a mesma autoridade, Bolsonaro e a família entraram pela Ponte Internacional Tancredo Neves, um dos principais postos fronteiriços que liga o Brasil à província argentina do nordeste, Misiones.

“Os que o fizeram tinham documentação de viagem válida e não enfrentavam impedimentos legais para entrar no país”, disse a autoridade de migração argentina, que informou que, pouco depois de passarem pelo controlo de imigração, os quatro embarcaram num voo charter privado operado pela companhia aérea Baires Fly S.A.

Segundo o plano de voo registado, a aeronave partiu para Guayaquil, Equador. O ‘site’ de rastreamento de voos FlightRadar24 mostrou que um avião com a descrição da aeronave aterrou em Guayaquil por volta das 04:00, hora local, antes de partir alguns minutos depois para o aeroporto executivo Opa Locka, em Miami.

O Presidente brasileiro, que completou 81 anos na terça-feira, disse a algumas dezenas de apoiantes em frente à residência presidencial em Brasília que não tinha informações precisas sobre o paradeiro de Bolsonaro, mas afirmou que tinha deixado o Brasil.

“Lamento que ele tenha saído do Brasil, porque poderia ter ficado aqui e provado que as acusações não são verdadeiras”, disse Lula da Silva.

Donald contra o mundo

O Presidente dos Estados Unidos disse ontem que aprovaria a vinda de Bolsonaro para o seu país, adjetivando o candidato presidencial derrotado – e a respectiva família – de “pessoas boas”.

“As eleições foram realmente estranhas, e eu achei terrível”, disse Trump aos jornalistas na Base Conjunta Andrews, Maryland, após regressar na terça feira de uma campanha no Texas. Líderes de todo o mundo e a Organização dos Estados Americanos (OEA) deram os parabéns a Lula, reeleito no domingo com uma margem de cerca de 4,4 milhões de votos na segunda e última volta.

A deputada argentina Marcela Pagano disse na rede social X que apresentou uma acção num tribunal federal na cidade de Puerto Iguazú, no final da terça-feira, para solicitar uma investigação sobre o Governo do seu país por tráfico de pessoas e abuso de autoridade em relação a Bolsonaro.

Na terça-feira, o porta-voz da administração de Milei, Adrián Ravier, negou a existência de um pedido de asilo de Flávio Bolsonaro.

O Supremo Tribunal do Brasil está a investigar Bolsonaro por alegadamente usar uma empresa de apostas desportivas para lavar deduções fraudulentas das pensões do Governo pagas a idosos. Noutro caso, é acusado de ter recebido milhões de dólares de um banqueiro envolvido em escândalos.

O seu mandato de oito anos como senador termina a 31 de Janeiro de 2027, o que também fará com que perca jurisdição especial no Supremo Tribunal do país. A confirmação da chegada de Bolsonaro aos Estados Unidos, onde terá entrado com passaporte italiano, aconteceu, entretanto, ontem à noite, pelas 21h30, hora de Macau

29 Out 2026

IA | Relatório da Web Summit prevê redução de equipas e perda de empregos

O relatório “State of the Industry 2026: AI Edition” revela posições contraditórias de quase 1.500 profissionais do sector tecnológico quanto ao impacto da inteligência artificial. Se 33 por cento acredita na perda de empregos, 39 por cento prevê aumento. Mais de metade diz que a IA ajuda ao pensamento crítico

 

No “primeiro inquérito da Web Summit” sobre os impactos da inteligência artificial (IA) no sector tecnológico, as posições de 1.455 criadores de empresas ou engenheiros de software são contraditórias face aos impactos reais da IA no mercado de trabalho. Há quem acredite na perda de empregos, mas também há quem encare a IA como uma forma de reforçar o pensamento crítico ou mesmo numa alavanca para o aumento do número de profissionais no sector no espaço de dois anos.

Estas são algumas das conclusões do “State of the Industry 2026: AI Edition” [Estado da Indústria 2026: Edição IA], um documento que “revela divisão de opiniões em relação à IA”, conclui a Web Summit em comunicado. Há 42 por cento dos inquiridos a referir que a chegada da IA vai levar a uma redução de equipas nas empresas, enquanto 33 por cento acredita que a IA cortar postos de trabalho no espaço de dois anos. Porém, 39 por cento dos inquiridos acreditam que “o número de trabalhadores na sua área vai aumentar nos próximos dois anos”.

Descreve a mesma nota que “as perspectivas são mais negativas no que diz respeito aos empregos de entrada”, ou seja, de primeiro acesso ao sector. Isto porque “42 por cento antecipa uma diminuição de oportunidades, percentagem que sobe para 50 por cento entre os inquiridos que ocupam cargos de topo na gestão executiva”. Por sua vez, “os estudantes constituem uma excepção, com 55 por cento a prever um aumento” de vagas.

De destacar a opiniões de um consultor e director de serviços, oriundo da América Latina, que refere a “maior oportunidade da IA: acelerar processos”. Pelo contrário, o “risco” é a “perda massiva de empregos”.
Outro inquirido, também da América Latina e ligado à área dos média, considera que a “maior oportunidade da IA é quebrar barreiras linguísticas e permitir que criadores e comunidades de todo o mundo se liguem, comuniquem e cresçam em tempo real”.

O inquérito traz ainda perguntas sobre o volume de trabalho com a chegada da IA, e também aqui as posições são contraditórias. “A IA não está a reduzir a carga de trabalho”, aponta a Web Summit, já que “60 por cento afirma que a IA aumentou a carga de trabalho”. Porém, “20 por cento consideram que a IA reduziu” a quantidade de trabalho a produzir.

É ainda explicado que “o aumento é mais expressivo nos sectores directamente ligados à IA, com destaque para a área das infra-estruturas de inteligência artificial e aprendizagem automática (IA/ML), onde chega aos 70 por cento”.

Uma “visão positiva”

Outros dados fazem referência à conexão entre a máquina e o humano. “A maioria tem uma visão positiva da IA, com 55 por cento a afirmar que esta reforça o seu pensamento crítico.”

“O debate público sobre a IA oscila entre alertas sobre a deterioração das capacidades cognitivas, a rivalidade entre modelos de código aberto e fechado e receios de uma perda massiva de postos de trabalho, mas a realidade dos profissionais do sector tecnológico é mais complexa”, lê-se no relatório.

Isto porque “a maioria afirma que a IA melhora o seu pensamento crítico, havendo quem considere que a tecnologia permite dedicar mais tempo a tarefas de maior responsabilidade”. Apenas 26 por cento considera que a IA “enfraquece” esse mesmo pensamento, enquanto 19 por cento “não identifica diferenças”.

Sem referir nomes, o relatório destaca algumas das opiniões dos inquiridos. Neste ponto da manutenção, ou não, do pensamento crítico, o fundador de uma empresa na área dos serviços e consultoria, da Europa, refere que existe “um risco das pessoas confiarem demasiado na IA, colocando em causa o pensamento crítico”.

Outro participante, da área de engenharia e serviços, também oriundo da Europa, destaca como a IA está a “acelerar a produção, aumentando as expectativas sobre o quanto podemos produzir”. “Mas as pessoas podem estar demasiado confiantes nessa produção, existindo também pouco tempo para rever tudo isso”, alertou.

O relatório destaca como “a maioria também reconhece que a IA aumenta a carga de trabalho”, já que “muitos estimam que equipas mais pequenas terão de dar resposta a esse aumento, reduzindo oportunidades para os profissionais em início de carreira.”

Neste rol de opiniões, “os engenheiros, responsáveis pelo desenvolvimento destas ferramentas, continuam a ser o grupo mais céptico”. Nidhi Naithani, vice-presidente sénior de Operações Tecnológicas da Web Summit, destaca como o estudo “deixa claro que as pessoas estão divididas quanto a um futuro com IA”.

“O que mais me surpreende, embora não seja inteiramente inesperado, é o feedback da nossa comunidade de engenheiros e programadores. Aqueles que têm a responsabilidade de desenvolver processos e sistemas destinados a tornar o trabalho mais fácil e rápido são precisamente os que mais se preocupam com a segurança no emprego.”

“Parece contraditório”, frisou, “mas, como os engenheiros e fundadores são, em geral, os responsáveis pelo desenvolvimento destas tecnologias e os seus primeiros utilizadores, são também quem melhor as compreende e quem acompanha de perto o seu impacto”, acrescentou Nidhi Naithani.

A responsável diz ainda “compreender os receios em torno da IA”. “Não considero que devam ser ignorados os alertas relativos à perda de postos de trabalho e ao impacto social das mudanças associadas à IA. Muitos dos fundadores e directores executivos que participaram neste inquérito defendem a criação de equipas mais pequenas, capazes de fazer mais”, frisou.

Nidhi Naithani alerta para o facto de “sectores importantes, como os meios de comunicação social, estarem particularmente expostos, uma vez que a IA está a transformar o ecossistema da informação”. Estão, assim, em causa “pressões crescentes que podem ter efeitos duradouros e potencialmente prejudiciais”.

Questões de quantidade

O inquérito realizado pela Web Summit colocou ainda questões sobre o investimento feito no sector – será muito ou pouco? Também aqui as opiniões dividem-se. “Poucos estimam um colapso do investimento em IA”, lê-se no documento, já que “apenas cerca de um em cada dez inquiridos acredita que o investimento em IA vai sofrer uma queda acentuada”.

Por sua vez, “um terço [dos inquiridos] considera que o investimento é excessivo e irá abrandar, embora de forma gradual”. Além disso, “uma proporção semelhante entende que a tecnologia ainda se encontra numa fase inicial e continuará a crescer”.

Os “profissionais que desenvolvem soluções de IA são os mais cépticos, pois mais de metade dos inquiridos das áreas de engenharia e desenvolvimento de produtos considera que o investimento já é demasiado elevado”, é ainda explicado.

A Web Summit realiza-se em Lisboa no próximo mês, entre os dias 9 e 12 de Novembro, reunindo mais de 70 mil participantes, provenientes de mais de 100 países, incluindo 10 mil startups. Espera-se a realização de uma cimeira pensada para o sector da tecnologia da China, tida como a “maior concentração de sempre de líderes tecnológicos chineses num evento tecnológico ocidental, com representantes de empresas como a Tencent e a Xiaomi, bem como da Pony.AI e da Manus”, descreve-se na mesma nota.

28 Out 2026

China-Brasil | Reeleição de Lula da Silva ajuda aproximação a Pequim

Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro na segunda volta das eleições presidenciais do Brasil com 51,76 por cento dos votos, prometendo o melhor mandato da história do país. Vários analistas chineses acreditam que a vitória vai ajudar as relações comerciais e políticas com a China

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como Presidente do Brasil consolida a aproximação política e económica entre Brasília e Pequim, uma parceria que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter enfraquecido, segundo analistas chineses.

Lula conquistou aquele que será o seu quarto mandato ao vencer, no domingo, a segunda volta das eleições presidenciais com 51,76 por cento dos votos, contra 48,24 por cento de Flávio Bolsonaro, filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, segundo os resultados oficiais, após a contagem de 99,81 por cento dos votos.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. O comércio bilateral atingiu, em 2025, um valor recorde de 171 mil milhões de dólares, um aumento de 8,2 por cento, enquanto o Brasil foi o principal destino mundial do investimento chinês nesse ano, com 6,1 mil milhões de dólares, uma subida de 45 por cento.

A possibilidade de alternância política no Brasil tinha despertado interesse entre analistas chineses, que destacaram as diferenças entre a aposta de Lula numa política externa diversificada e a aproximação aos Estados Unidos defendida pelo seu adversário.

Numa análise publicada no jornal China Youth Daily, Li Bing, investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, afirmou que a continuidade de Lula da Silva permitiria “promover a cooperação pragmática em múltiplas áreas entre a China e o Brasil”, bem como a participação activa do país sul-americano no bloco de economias emergentes BRICS, grupo do qual ambos são membros fundadores.

Segundo Li, a vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter reduzido a importância política da relação com a China, ao dar maior prioridade a Washington, embora considerasse “improvável” tanto uma saída do Brasil dos BRICS como uma ruptura dos laços comerciais entre as duas economias.

Zhang Jieyu, analista do Instituto Chinês de Estudos Internacionais, afirmou, em declarações à imprensa local, que uma chegada da direita brasileira ao poder poderia transformar “completamente o panorama geopolítico da América Latina”. Zhang ressalvou, contudo, que não se verificaria “uma ruptura drástica” nas relações entre a China e o Brasil, que manteriam “alguma solidez” mesmo em caso de vitória de Bolsonaro.

Outros analistas apresentaram avaliações mais cautelosas. Xu Tianqi, da Universidade Renmin, afirmou ao portal chinês Guancha que o peso do comércio e do investimento tornava difícil que um eventual Governo de Bolsonaro abandonasse os BRICS, apesar das posições defendidas por alguns sectores do seu círculo político.

A reacção de Pequim

A China felicitou ontem Lula da Silva pela reeleição, tendo manifestado disponibilidade para continuar a trabalhar com o Brasil na construção de uma “comunidade de futuro partilhado” entre os dois países.

O porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Guo Jiakun afirmou, em conferência de imprensa, que “a China está disposta a trabalhar com o Brasil para continuar a avançar na construção de uma comunidade de futuro partilhado entre os dois países”.

Flávio Bolsonaro recusou reconhecer a vitória de Lula e anunciou que vai pedir à Justiça a “anulação” das eleições. Questionado sobre esta posição, Guo limitou-se a afirmar que “a China respeita a escolha do povo brasileiro”.

No tocante ao posicionamento político da China face à situação interna do Brasil, a liderança chinesa tem evitado associar expressamente as relações com a América Latina à orientação política dos respectivos governos. O representante especial da China para a região, Qiu Xiaoqi, afirmou em Outubro que Pequim “não estabelece divisões ideológicas” e respeita as escolhas eleitorais de cada país.

Xi Jinping e Lula falaram ao telefone em Julho, ocasião em que o Presidente chinês manifestou apoio à soberania brasileira e rejeitou as “interferências externas”, num contexto de tensões comerciais entre Brasília e a administração norte-americana de Donald Trump. Washington anunciou nesse mês novas tarifas de 25 por cento sobre determinados produtos brasileiros, às quais o Governo de Lula respondeu com o início dos procedimentos para aplicar a sua lei de reciprocidade.

Apesar da aproximação política, persistem divergências comerciais entre os dois países. Em Outubro, a China começou a aplicar uma tarifa adicional de 55 por cento sobre a carne de bovino brasileira que exceda a quota anual estabelecida por Pequim, após as exportações do Brasil terem esgotado o volume atribuído.

Promessa do “melhor”

Quando soube da vitória, rodeado de apoiantes na Avenida Paulista, em São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que o quarto mandato para que foi reeleito será o melhor da história do Brasil. Na rua havia uma multidão vestida de vermelho, eufórica entre o choro de felicidade e cânticos em louvor a Lula, que chegou à Avenida Paulista num trio eléctrico, cumprimentando os apoiantes com um megafone.

“Essa vitória é para mostrar que as mulheres são parte importante”, afirmou o Presidente, beijando a sua mulher, Rosângela Lula da Silva, ou ‘Janja’ para os brasileiros, para delírio dos apoiantes.

Lula da Silva, que se tornou o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para o mais alto cargo da nação, agradeceu ao povo e destacou a participação dos jovens, que “se levantaram em defesa da democracia”. “Esse meu quarto mandato será o melhor mandato que um Presidente já fez na história desse país”, prometeu o líder histórico brasileiro.

O candidato progressista impôs-se ao senador Flávio Bolsonaro com uma vantagem de mais de quatro milhões de votos e foi o primeiro candidato na história democrática do país a chegar ao Palácio do Planalto sem ter sido o mais votado na primeira volta.

Num primeiro discurso de vitória, Lula da Silva, agradeceu ao povo brasileiro e, em particular, aos jovens que foram “para a rua defender a democracia”. “Agradecer à generosidade da juventude brasileira que foi para rua defender a democracia”, disse o chefe de Estado brasileiro, numa sala a abarrotar no coração da cidade de São Paulo.

Lula declarou que a votação registou “o menor número de abstenções da história” e “o menor número de votos nulos”. “Quero agradecer às pessoas idosas. Vi muitas cenas de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para irem votar. Conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar o voto no país”, destacou.

A mais alta participação

Num país em que o voto é obrigatório, participação eleitoral atingiu 80,8 por cento de 159 milhões de eleitores registados, a mais alta desde 2006 e dois pontos percentuais acima do registado há três semanas. A percentagem de abstenção, 19,2 por cento, foi a mais baixa registada numa segunda volta das eleições presidenciais desde as eleições de 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito pela primeira vez frente a Geraldo Alckmin, actual vice-presidente de Lula.

“Hoje minha fala é de agradecimento”, afirmou o Presidente no discurso de vitória, em que reservou um elogio a Alckmin, também ele reeleito: “Feliz o Presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade do Alckmin”, afirmou. “Tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram. Mas queria agradecer ao povo brasileiro a generosidade que ele tem comigo há muito tempo”, disse ainda.

27 Out 2026

Habitação | Detidos em Lisboa têm de se apresentar a tribunal hoje

As 25 pessoas detidas na madrugada de ontem em Lisboa após a intervenção da polícia na praça do Rossio começaram a ser libertados de manhã, tendo de apresentar-se a tribunal na segunda-feira.

A polícia dispersou ontem, à bastonada, as manifestações pelo direito à habitação, em duas acções em simultâneo em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens de dispersão não acatadas, para retirarem as tendas montadas pelos manifestantes pelo direito à habitação

As ordens da PSP, no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, começaram às 00:30, hora a que, segundo a polícia, as concentrações deveriam ter terminado, mas a intervenção da Unidade Especial de Polícia só aconteceu cerca das 02:00 (hora após a mudança para o horário de Inverno). De acordo com a PSP, há sete feridos e 31 detidos por desobediência, no entanto, em comunicado publicado nas redes sociais, a Acampada de Lisboa, refere a assistência a dezenas de feridos.

“Na madrugada de hoje, 25 de Outubro, dezenas de manifestantes foram brutalmente agredidos pela polícia de intervenção. Destes, mais de 20 foram para o Hospital de São José e muitos outros foram assistidos no local pela equipa de cuidados da Acampada”, lê-se no ‘post’ do Instagram.

Ao canal CMTV, Filipe, de 32 anos, uma das pessoas detidas e dos primeiros a sair da esquadra da 1.ª divisão policial na Rua da Palma, em Lisboa, explicou que “estava no lugar errado, à hora errada” quando foi detido pela polícia.

“Fui apanhado no meio. Fui ‘naif’ porque estava com amigos a conversar na fonte entre a polícia e os manifestantes que estavam acampados, já não estávamos no protesto. Participámos na manifestação desde o Marques de Pombal, mas só já estávamos a falar entre amigos”, disse. Filipe acrescentou ainda, embora não tenha noção das horas, que esteve “perto de seis horas detido” e que saiu com indicação de se apresentar na segunda-feira, pelas 13:30, a Tribunal.

De acordo com a nota da Acampada de Lisboa, os manifestantes foram “perseguidos durante horas pela baixa da cidade – Praça da Figueira, Martim Moniz, Rua da Palma, Intendente, Graça – com cães e balas de borracha, mostrando que o objectivo não era apenas tirar as nossas tendas do Rossio, mas sim encurralar-nos e fazer-nos sentir medo”.

“Neste momento [cerca das 08:15, hora de publicação do ‘post’], encontram-se cerca de 30 pessoas detidas”, lê-se na nota, adiantando ainda que depois de “uma manifestação que reuniu milhares de pessoas em marcha, entre o Marquês de Pombal e a praça do Rossio, a Acampada reergueu as suas infraestruturas, entre a montagem de mais de 100 tendas […]”.

Para a Acampada, e “para muitas das pessoas que aderiram a esta forma de protesto e reivindicação, a tenda já transcende o carácter simbólico trata-se da solução possível para a qual estamos a ser empurrados quando deixamos de poder pagar renda de uma casa ou de um quarto”.

Razões policiais

Em declarações aos jornalistas, o porta-voz do Cometlis da PSP, Sérgio Soares, refere que no decorrer da intervenção registaram-se “31 detidos, 25 em Lisboa e seis no Porto” por “desobediência à ordem de dispersão”, adiantando que os mesmos vão ser notificados para ser presentes à autoridade judiciaria competente na segunda-feira, quer no Porto, quer em Lisboa.

Segundo Sérgio Soares foram removidas pela Polícia Municipal 171 tendas no total: 117 em Lisboa e 54 no Porto. Dos “11 feridos confirmados, oito civis e três policias”, de acordo com responsável, “cinco decorreram de acidente da intervenção policial na cidade de Lisboa e seis no Porto”.

Em comunicado divulgado durante a madrugada, a PSP indicou que a operação policial na Praça do Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, teve como objectivo a “reposição da legalidade na ocupação de espaços públicos”.

“Esta acção policial ocorreu na sequência da manutenção de manifestações ao longo do tempo, da ocorrência de danos em património público, e da necessidade de remover estruturas de acampamento instaladas sem a necessária autorização legal e em condições contrárias à legislação aplicável”, especificou.

Afirmando que as manifestações promovidas pela Acampada de Lisboa e Acampada do Porto foram comunicadas às autoridades competentes, a polícia ressalvou que essa “comunicação do exercício do direito de manifestação não dispensa o cumprimento das demais disposições legais”, nomeadamente quanto aos “limites temporais estabelecidos e às condições de utilização e ocupação do espaço público”.

A polícia referiu ainda que “desenvolveu todas as diligências” para que os manifestantes retirassem as tendas voluntariamente, mas “tornou-se necessária a intervenção policial” dado o “não acatamento das orientações transmitidas” de forma a “repor a legalidade e assegurar a utilização regular dos espaços públicos”.

26 Out 2026

Português | Directora do IPOR defende “estratégia concertada” para a Ásia

Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, defende “uma estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. A ideia foi partilhada na conferência “China Sessions”, no Centro Científico e Cultural de Macau, que analisou a “Geopolítica da Língua Portuguesa a Oriente”

A directora do IPOR – Instituto Português do Oriente – considera que há pontos a mudar na forma como a língua portuguesa se posiciona na Ásia em conjugação com outros idiomas. Ao falar na conferência “China Sessions – Geopolítica da Língua Portuguesa no Oriente: Desafios e Oportunidades para Portugal e para a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, acolhida pelo Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) na última quinta-feira, Patrícia Quaresma defendeu a criação de uma “estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. Essa estratégia deve envolver, na sua óptica, “Portugal, os Estados-membros da CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e Macau, aproveitando as estruturas já existentes, em vez de criar novas”.

“Portugal, os restantes Estados-membros da CPLP, o IILP, as universidades, Macau e as próprias empresas actuam, muitas vezes, em paralelo. Uma estratégia comum para a língua portuguesa na Ásia ganharia escala e visibilidade se estas vontades fossem coordenadas”, justificou.

Em relação a Macau, a responsável entende que o território deve posicionar-se de uma forma diferente. Patrícia Quaresma referiu a necessidade de “reconhecimento de Macau como centro regional de formação de professores de português como língua estrangeira”, mas não só. A RAEM deveria também ser o lugar preferencial para a “produção de recursos didácticos para a Ásia”. Macau deve ser “plataforma de língua e não apenas de comércio”, defendeu. “O papel de Macau como ponte entre a China e os países de língua portuguesa é reconhecido no plano económico. Importa reforçá-lo também no plano linguístico, educativo e cultural”, apontou.

Patrícia Quaresma considerou que em Macau existe uma “comunidade de prática da língua, de instituições de ensino superior com oferta em português”, e ainda uma “experiência acumulada de mais de três décadas” no ensino da língua. Factores que fazem do território “um centro natural de formação, certificação e produção de recursos para toda a região”.

Ao HM, a directora do IPOR destacou o que deve ser melhorado no ensino de português nas escolas locais. Deve-se apostar na “definição de um programa de PLE [português língua estrangeira] de referência para todas as instituições de ensino (por forma a uniformizar o ensino da língua portuguesa na RAEM)”.

Além disso, a responsável sugere “contratações de professores com habilitação própria para o ensino de PLE, um programa de formação contínua para professores nesta área e a definição de um organismo do Governo da RAEM para monitorizar as práticas de ensino em sala de aula, são elementos que podem contribuir para que muitas falhas sejam supridas”.

O papel de Timor

Tendo em conta a recente entrada de Timor-Leste para a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), onde se fala português e tétum, Patrícia Quaresma acha que se deve reforçar “a cooperação com Timor-Leste no quadro da sua integração na ASEAN”.

“A adesão de Timor-Leste cria uma oportunidade inédita para a língua portuguesa no Sudeste Asiático. A cooperação entre Macau e Timor-Leste, na formação de professores, na produção de materiais e no intercâmbio cultural, pode contribuir para que o português ganhe visibilidade no espaço da ASEAN, onde o IPOR já trabalha com instituições no Vietname, na Malásia e na Indonésia”, adiantou.

Neste ponto, Patrícia Quaresma lembrou como, nos últimos anos, o IPOR tem conseguido expandir a sua rede na Ásia além Macau, tendo “consolidado uma rede colaborativa que envolve instituições na China, Vietname, Japão, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul, em actuação com a rede de ensino do Camões, I.P e representações diplomáticas”.

Desde 2019 que existe um posto de docência em Pequim, localizado na Embaixada de Portugal em Pequim, onde são organizados cursos de português como língua estrangeira e actividades culturais.

Ao enumerar uma série de propostas para a dinamização do idioma, Patrícia Quaresma acrescentou a necessidade de “investimento em recursos digitais de acesso livre que coloquem o português em pé de igualdade com outras línguas”, nomeadamente no que diz respeito às “ferramentas de aprendizagem e de tradução”.

Deve ainda ser feita a “valorização da programação cultural como parte integrante da política de língua e não como dimensão acessória”.

“Se a geopolítica da língua portuguesa no Oriente tem um sentido, é este: o de uma geopolítica da confiança”, frisou. “Uma língua partilhada por povos de quatro continentes, presente em Macau e agora também na ASEAN, é um recurso de diálogo que Portugal e a CPLP não podem deixar de valorizar”, disse.

Língua tem de ser atractiva

Patrícia Quaresma referiu no CCCM os mais recentes dados que espelham o volume de trabalho do IPOR. Em 2025, teve “mais de 3.900 formandos em mais de 100 cursos, em diferentes modalidades e níveis de competência, num total de mais de 12.000 horas de formação, com recurso a materiais didácticos próprios”.

Desta forma, os dados revelam, na perspectiva de Patrícia Quaresma, que “a procura [pelo português] existe e é diversificada”. “Dizem-nos que, em Macau, o português continua a ser uma língua de cidadania, trabalho e de mobilidade”, acrescentou na sua apresentação. Os alunos do IPOR são “muito diversos”, sendo “estudantes do ensino secundário e superior, quadros da Administração pública, colaboradores de empresas e cidadãos que querem ampliar o repertório linguístico”.

No rol de “desafios” anunciados, Patrícia Quaresma enumerou cinco cenários que devem sofrer melhorias, sendo que a “atractividade” da língua portuguesa é um deles. “No Oriente, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e empregabilidade. O português compete com o inglês, naturalmente, mas também com outras línguas que dispõem de recursos muito superiores, como o espanhol, o francês, o alemão, o japonês ou o coreano.”

Desta forma, a directora do IPOR acredita que o português “precisa de associar factores de atractividade económica à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não ficar reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”.

Patrícia Quaresma chamou ainda a atenção para a qualidade da formação de docentes. “O crescimento da oferta de português na região, particularmente na China, não foi sempre acompanhado pela formação de docentes em número e com qualificação suficientes. A formação contínua, a certificação e o acompanhamento pedagógico são condições para que esse crescimento seja sustentável”.

Patrícia Quaresma acredita na “continuidade das redes”, defendendo uma “cooperação linguística” que tenha “recursos humanos, tecnológicos e financeiros estáveis, conhecimento das realidades institucionais de cada país e mecanismos de avaliação”. “Muitas iniciativas na Ásia dependem de esforços pontuais e do empenho individual de leitores e professores. Sem continuidade, perdem-se os investimentos realizados”, acrescentou.

A apresentação da directora do IPOR chamou também a atenção para a chegada da inteligência artificial (IA) e “transformação digital”. “A forma como hoje se aprendem e se usam línguas está a mudar rapidamente. A presença do português nos recursos digitais e ferramentas de tradução e aprendizagem irá determinar, em boa parte, o seu peso futuro.” Desta forma, “uma língua com pouca presença digital tem menor relevância no espaço global”, rematou.

A sessão de quinta-feira contou ainda com oradores como o embaixador português em Pequim, Manuel Cansado de Carvalho; João Laurentino Neves, antigo director do IPOR e actual director-executivo do IILP, ou ainda Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, entre outros.

Alinhamento em curso

Questionada pelo HM sobre o facto de, na China, terem sido encerrados mais de uma dezena de cursos de português em universidades no interior do país, Patrícia Quaresma considera que houve “o ajustamento a uma nova realidade”.
“Na China, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e de empregabilidade. Neste momento, apesar das relações comerciais com os países de língua portuguesa ainda se manterem em valores significativos, o mercado de trabalho já não tem capacidade para absorver todos os tradutores que se formaram nos últimos anos. Por outro lado, a inevitável inteligência artificial veio contribuir para a simplificação do trabalho de tradução”, destacou.
A directora do IPOR considera, portanto, que se deu “um alinhamento com o novo panorama socioeconómico da China, a que devemos prestar muita atenção e procurar combater através da associação da língua portuguesa a factores de atractividade económica, à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não fique reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”, explicou.

26 Out 2026

Lisboa | Casa de Macau é o último reduto da comida macaense

Com o encerramento do restaurante Patuá, os almoços quinzenais na Casa de Macau em Lisboa tornaram-se o último reduto da comida macaense na capital portuguesa. No dia da visita do HM, o almoço foi Porco Bafassá cozinhado por Maria João Ferreira. Entre sócios e amigos há quem sonhe transformar o espaço numa espécie de restaurante

Ao abrir a porta na casa cor-de-rosa na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o cheiro emana da cozinha onde todos ajudam por amor à camisola. Tem sido assim todas as quartas-feiras, a cada quinze dias, na Casa de Macau em Lisboa, lugar que passou a ser o único a servir comida verdadeiramente macaense desde que o restaurante Patuá, também em Lisboa, fechou portas. O Patuá serve ainda refeições temporariamente, mas apenas até à próxima segunda-feira, numa parceria com o bar, restaurante e sala de espectáculos Damas, numa acção intitulada “Patuá Takeover”.

No dia em que o HM almoçou na Casa de Macau, o menu foi Porco Bafassá e rolinhos de massa de arroz com camarão para entrada. Pelo meio-dia a azáfama na cozinha já era muita, e apesar de a cozinheira ter sido Maria João Ferreira, membro da direcção da Casa, muitos braços ajudaram.

“Não posso dizer quem me ensinou esta receita, porque é um prato feito com muita frequência nas casas macaenses. Provavelmente aprendi em Macau com a empregada chinesa que estava em nossa casa. Sempre gostei muito de cozinhar, de maneira que a pouco e pouco comecei a fazer em minha casa.”

Há muito que a Casa de Macau tenta promover a gastronomia macaense. Não apenas com almoços com minchi aos sábados, como na organização de almoços semanais que contavam com a chef Justina do Rosário. A sua saída levou a direcção a decidir manter a iniciativa, para não perderem “projecção”.

“A Justina foi-se embora por questões de saúde e tivemos uma quebra bastante grande. Para o assunto não morrer, decidimos, em reunião de direcção, organizar os almoços quinzenalmente e não semanalmente, como fazíamos com a Justina. Tentamos respeitar as receitas macaenses.”

A Casa de Macau conseguiu aumentar o número de sócios no mandato de Carlos Piteira, de 180 para cerca de 400. “Não se pode dizer que temos um lucro grande, mas para nós é sempre positivo e temos alguma projecção.” Maria João Ferreira entende que “faz falta comida macaense” em Portugal. “Não há. Quando muito, há restaurantes a fazer minchi, mas não passa disso.”

Transformar a iniciativa quinzenal da Casa de Macau numa espécie de restaurante, com apoios, “seria excelente”, confessa. “Acho que todos nós desejaríamos isso, mas não sei até que ponto se poderá concretizar, não sei se a RAEM tem interesse em financiar uma iniciativa dessas. Mas seria fantástico, é um sonho de todos nós. Gostaríamos imenso de ter um restaurante em casa de Macau.”

“Conheci-os no Instagram”

Pelas mesas a azáfama é muita e, pelo meio de sócios e rostos habituais da casa, há quem tenha ido almoçar para descobrir os sabores desta gastronomia de fusão. É o caso de Pedro Carneiro, que gosta de explorar o que de novo existe em Lisboa, em termos culturais. “Sempre fui interessado na cultura macaense e tenho família que vive em Macau, e quis experimentar. Já tinha algumas referências da comida macaense. Tinha alguma curiosidade para ver como é feita cá, e o tipo de eventos que se fazem.”

Naquele dia, mostrou mesmo interesse em fazer-se sócio da Casa. Sendo conhecedor do restaurante Patuá, considera “fundamental” a existência destes espaços. “Há vários espaços associativos ou de restauração que estão a fechar, por diferentes razões, o que significa que qualquer comunidade ou espaço que organize eventos que permitem às comunidades estarem próximas umas das outras, é fundamental.” “Sempre fui interessado por comidas crioulas, que juntam várias culturas. É sempre engraçado ver como as técnicas, ou os ingredientes portugueses, são confeccionados de maneira híbrida com ingredientes asiáticos”, destacou.

Também Gonçalo Lamy, de 19 anos, quis ir provar o Porco Bafassá e levou consigo dois amigos. O estudante da Universidade Nova de Lisboa viajou até Macau há dois anos graças a uma parceria entre a sua escola secundária e a Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes. “Gostei muito de Macau e quis experimentar estes almoços. Conheci-os no Instagram, comecei a seguir. Achei um ambiente bastante familiar e fomos muito bem-recebidos. É engraçado ver as pessoas a encontrarem-se aqui”, destacou.

A voz da tradição

Na televisão vê-se a TDM, o canal chinês. Pelos corredores, trocam-se dois dedos de conversa enquanto o almoço não está na mesa. No dia da reportagem, o jornalista português Ricardo Dias Felner, autor do podcast “O Homem que Comia Tudo”, e cronista do semanário Expresso, também se encontrava à mesa para descobrir aquele lugar de comida macaense genuína.

Disso percebe Manuel Fernandes Rodrigues, macaense de gema e autor de diversos estudos sobre a gastronomia da sua comunidade. Sócio e participante habitual das actividades da Casa de Macau, os almoços quinzenais servem para matar saudades.

“Em Lisboa não há restaurantes que façam comida macaense, e a Casa de Macau é o único sítio que conheço que faz comida genuína”, contou.

“A Casa de Macau já teve workshops semanais de gastronomia. É difícil manter um restaurante por uma razão muito simples: como se vão arranjar cozinheiros? A população de Macau que reside em Portugal tem uma idade avançada e as novas gerações não se interessam tanto por esta profissão. Ser cozinheiro já não é um modo de vida.”

Manuel Fernandes Rodrigues conhece as histórias que vivem no meio de sabores de cada prato. Explica-nos que a comida macaense tem origem em Malaca, que os portugueses conquistaram em 1511 e por onde passou grande parte do comércio feito na Ásia.

Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam apoiar este projecto gastronómico quinzenal, para que se sirvam refeições de forma mais frequente, Manuel Fernandes Rodrigues diz que seria importante tal acontecer. “Pessoalmente, acho que sim [que deveria haver apoios]. Mas as autoridades de Macau têm as suas prioridades, e não sei se o projecto da comida de Macau está nessas prioridades. Na minha óptica, deveria estar.”

O macaense entende que se deve apostar na divulgação que explicasse devidamente “o que é a comida macaense, porque não se resume apenas a receitas”. “Há muito mais, como a história dos macaenses, que têm a sua maneira de ser, e por detrás de cada receita está isso tudo.”

O almoço, acompanhado com xarope de figo, fechou com gelatina de agar-agar com chocolate. “Em Macau há dois tipos de gelatina de chocolate. A versão chinesa é menos rica, porque só leva o chocolate diluído em agar-agar, e esta leva leite normal ou leite condensado, portanto, tem mais doce”, explica Maria João Ferreira.

Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, também almoçou pela Casa de Macau. Ao HM, fala das dificuldades que é apoiar financeiramente estes projectos que vivem de acções voluntárias, mas que expandir os almoços quinzenais para um projecto mais regular seria importante.

“Não são fáceis os financiamentos. Mesmo em Macau os financiamentos passam por um escrutínio mais rigoroso. Desde que as instituições ligadas a Macau tenham condições de estudar possibilidades de subsidiar este ou aquele projecto, porque não? Nos tempos em que nos encontramos, a boa vontade tem um preço. As coisas custam dinheiro, o tempo que se dá a isto tem o seu preço, e é fundamental que se criem condições para este projecto seja uma realidade. Caso contrário, é mais uma coisa que acaba.”

Miguel de Senna Fernandes “lamenta” que o restaurante Patuá tenha fechado, assumindo que fazem falta espaços que mantenham a gastronomia macaense na comunidade. “A gastronomia macaense mantem-se nas casas. Há muitos macaenses que estão em Lisboa e seguem a sua própria comida com muito orgulho. É fundamental que se continue a pensar em termos comunitários. A Casa de Macau, por si só, não consegue fazer tudo, e é preciso boa vontade das pessoas”, concluiu.

23 Out 2026

História | Publicado livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles

Foi recentemente publicado o livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles, advogado e irmão de Ademar e Sita Valles, assassinados em Angola no período pós-independência. Ao HM, o autor revela estar a preparar um livro sobre o caso. Em “Sombras e Luzes do Império”, Edgar Valles relata a Angola antes de 1974

Edgar Valles acaba de lançar o livro “Sombras e Luzes do Império”, com a chancela da Gradiva, que relata “episódios – uns doces, outros amargos – da vida colonial e da ‘metrópole'”. A obra transfere para o papel as vivências do advogado, com sangue goês, nascido em Angola em 1953.

A “metrópole” que refere era o Portugal anterior ao 25 de Abril de 1974, quando havia um império colonial, que incluía Macau. Durante o Estado Novo, regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974, foram muitas as histórias de um império que passou por muitas crises antes de cair, incluindo 13 anos de guerra colonial.

Edgar Valles diz ser uma espécie de “filho do império”, no sentido em que é “fruto do império”. “Se os portugueses não tivessem chegado a Goa, a minha família não teria ido para Angola. Por outro lado, a minha infância e adolescência, foram passados em Angola. Se não fosse esse império, não estaria em Angola, e não teria estudado em Portugal”, frisou.

“Sombras e Luzes do Império” não tem cunho ideológico, nascendo de crónicas que Edgar Valles foi escrevendo na imprensa local portuguesa.

“O livro não tem pretensões ideológicas, nem pedagógicas. Relata apenas experiências vividas. Isto porque considero que, hoje em dia, os jovens têm acesso a muita coisa, a redes sociais, a televisão, a tudo, mas leem muito pouco. E procurei traduzir no papel histórias de vida em que não sou o personagem central, mas apenas a pessoa que assistiu a muitas situações.”

Segundo a sinopse do livro, descrevem-se “histórias verdadeiras e bem-humoradas, como o desembarque do primeiro-ministro Nehru numa praia de Benguela, que ali teria chegado de submarino e era procurado por tal infracção”.

Há ainda o relato “do lutador antifascista que se julga vigiado por um casal de agentes da PIDE a partir de um automóvel, quando, afinal, estes apenas estavam a utilizar o veículo para outros fins, por sinal atentatórios da moral dominante”. O livro contém também “histórias sobre as peripécias da luta política contra o regime”.

“Sombras e Luzes do Império” lança um convite ao leitor para “reflectir sobre estes relatos com a franqueza e profundidade que exigem, permitindo que as histórias contadas revelem não apenas a história de um tempo, mas também as ressonâncias que ecoam na nossa própria identidade”, descreve a mesma sinopse.

Um “modo de vida diferente”

O lado bom desse antigo império português era “o modo de vida”, recordou Edgar Valles. Se Portugal parecia um país sombrio, a viver numa ditadura, com separação de sexos nas escolas e baixo nível de vida, nas antigas colónias a vida tinha mais cor, apesar do regime político ser o mesmo.

“Nós, tal como acontecia em Moçambique, tínhamos praia, desportos náuticos, sol. No fundo, era um modo de vida completamente diferente do que existe aqui. Éramos muito abertos, os miúdos andavam de calções, e mesmo os adultos vestiam-se de forma muito simples. Tratávamos toda a gente por tu. Chocou-me, por exemplo, quando tinha 17 anos e vim para Lisboa, para a Faculdade de Direito, o facto de as pessoas não se tratarem por tu”, frisou.

Edgar Valles diz que este e outros episódios lhe causaram “impressão”. “É estranho, porque as pessoas daqui de Lisboa consideravam que nós éramos atrasados [os que vinham das colónias africanas], mas nós éramos mais avançados em muita coisa. Até tínhamos coca-cola, coisa que aqui não havia”, relata.

Edgar Valles diz ter percebido, já na adolescência, que pertencia a um império que acarretava uma certa ideologia e propaganda que não batiam certo com a realidade. “Despertei para isso antes de vir para cá. Mas, no fundo, há uma luta de contrários. Por um lado, havia aquele orgulho em ser português que eu cheguei a ter, do ‘Portugal de Minho a Timor’. Isto quando tinha uns 12, 13, 14 nos. Mas depois houve a constatação de que as coisas não eram bem assim. Isso, às vezes, é doloroso.”

Questionado sobre o seu sentimento de pertença, Edgar Valles diz que, quando está em Goa, sente-se goês. “Quando estou em Portugal, sinto-me português de Portugal.” Angola não entra nesta equação.

As “testemunhas de Jeová”

Edgar Valles chega a Lisboa em 1970 e ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, quando a luta estudantil contra o regime está ao rubro.

Aderiu ao Partido Comunista Português (PCP) e abraçou a luta anti-fascista, mas nunca foi preso pela PIDE. “A minha mulher foi presa e esteve seis dias em tortura de sono, em que a pessoa tinha de ficar de pé, e se se deitasse, era pontapeada. Também era chamada tortura da estátua. Só tive uma situação [de risco de prisão], mas não foi relevante: a 5 de Outubro de 1973 fazíamos sempre uma romagem ao cemitério do Alto de S. João, a polícia carregou e prendeu uma série de pessoas, e eu estive detido umas horas. Seríamos apresentados a julgamento por actividades subversivas, mas depois deu-se o 25 de Abril”.

Deixou o PCP anos depois da revolução, no contexto do assassinato da irmã, Sita Valles, aquando do movimento de 27 de Maio de 1977 em Angola, e também do irmão, Ademar Valles. Sita tinha pertencido ao PCP e quando é morta por forças ligadas ao partido angolano MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, o PCP nunca saiu em defesa da sua antiga militante e dirigente.

“Saí depois em 1977, quando isso aconteceu em Angola. Na altura acreditava naquilo tudo. Aquilo é fanatismo, como as Testemunhas de Jeová. Achávamos que a revolução estava a ir por água abaixo, e que o povo deveria revoltar-se e travar o capitalismo que se estava a implantar.”

A saída do PCP deu-se, precisamente, por considerar injusto o tratamento que o partido deu ao caso Sita Valles, que tinha sido uma das mais importantes dirigentes da UEC – União dos Estudantes Comunistas, quando era estudante de Medicina.

Edgar Valles acha, porém, que já é tarde para que as autoridades governamentais ou entidades partidárias se pronunciem sobre o caso. “Acho que já se falou bastante. Na altura, as autoridades deveriam ter tido outro tipo de postura, agora perdeu-se um pouco a oportunidade. É algo que as autoridades consideram um caso encerrado, infelizmente.”

A história de Sita Valles, e do próprio Edgar e Ademar, conta-se no livro “Sita Valles – Revolucionária, Comunista até à Morte (1955-1977)”, da jornalista Leonor Figueiredo.

Novo livro a caminho

A perda dos irmãos e o contexto político em que isso aconteceu será tema central de um novo livro. Sobre ele, Edgar Valles pouco quer revelar agora. “Vou escrever sobre o que aconteceu a seguir ao 25 de Abril.”

Ao reviver o passado, o autor não tem dúvidas de que foi o dia mais feliz da sua vida, mas teve desilusões com tudo o que aconteceu a seguir. “Houve muitas melhorias do ponto de vista económico na sociedade portuguesa, mas há um certo sentimento de angústia pelo facto de não se ter conseguido atingir estabilidade social. Acaba por haver uma liberdade muito formal, com algum controlo, porque é difícil publicar opiniões críticas. Há um certo desencanto na sociedade actual”, considerou.

22 Out 2026

Testamento vital | Chan Lai Kei quer mudar a lei para doenças terminais

Num debate pautado por pedidos de medidas para enfrentar o envelhecimento populacional e mais apoios a idosos, o deputado Chan Lai Kei defendeu mudanças na lei para permitir as chamadas “directivas antecipadas de vontade”, ou o testamento vital, em casos de doença terminal

O deputado Chan Lai Kei pede que o Governo altere a lei para permitir que uma pessoa assine a chamada “directiva antecipada de vontade” para casos de doença terminal. Numa intervenção antes da ordem do dia (IAOD) na Assembleia Legislativa (AL), o deputado diz que os Serviços de Saúde (SS) e o Instituto de Acção Social (IAS) devem “iniciar uma consulta pública e estudar a criação de um mecanismo de instruções médicas prévias adequado ao contexto social de Macau, de modo a acumular as bases para a futura revisão da legislação relevante”.

O deputado cita um “um estudo académico realizado em Macau”, sem nomear o nome da instituição académica ou os autores, em que 62 por cento dos 737 residentes entrevistados disseram “que na fase final da vida dariam prioridade aos cuidados paliativos”.

Porém, adiantou o deputado, nesse mesmo estudo, “cerca de metade dos inquiridos considerou que, em nenhuma circunstância, se deveria interromper o tratamento de suporte vital”.

Para Chan Lai Kei, estes 50 por cento de respostas mostra como “persiste uma lacuna de conhecimento relativamente aos conceitos de cuidados no final da vida e de directivas antecipadas de vontade”. O deputado cita “outro estudo local” que refere o facto de que “mais de 73 por cento dos residentes de Macau estariam dispostos a elaborar directivas antecipadas de vontade, caso existisse um mecanismo juridicamente reconhecido”.

Estas directivas serviriam, na prática, “para expressar antecipadamente a sua vontade em matéria de cuidados de saúde para quando viessem a perder a capacidade de decisão”. Desta forma, o deputado chama a atenção para o facto de a “sociedade possuir uma base de aceitação para este sistema”.

Explicações necessárias

O deputado referiu o projecto piloto dos SS na área de cuidados paliativos e cuidados antecipados com alguns lares de idosos subsidiados, mas, no seu entender, “trata-se apenas de uma fase piloto com âmbito de aplicação limitado”.

Chan Lai Kei diz que a comunidade chinesa evita, por norma, falar da morte, existindo ainda muitas dúvidas sobre o que são, realmente, as directivas antecipadas de vontade. “Ao ouvirem falar de cuidados paliativos, muitos cidadãos interpretam-nos logo como abandono de tratamento. Sugere-se que o Governo, em conjunto com associações de idosos, lares de idosos, organizações médicas e jurídicas; e em colaboração com o Centro Hong Neng, organize palestras e workshops de fácil compreensão, partilhando casos reais dos serviços prestados pelo Centro Hong Neng”.

A ideia é “explicar claramente” que “as directivas antecipadas de vontade são apenas a recusa prévia dos tratamentos de suporte vital fúteis, sendo mantidos os cuidados básicos, tais como o alívio da dor e os cuidados de enfermagem”.

Olhar os idosos

No debate de sexta-feira, vários deputados usaram o período de IAOD para pedir apoio à população envelhecida de Macau. Um deles foi José Chui Sai Peng, que defende o reforço “do regime jurídico sobre a acessibilidade para impulsionar o desenvolvimento da medicina e dos cuidados para idosos”.

O deputado chama a atenção para o facto de a lei “Supressão de barreiras arquitectónicas”, de 1983, “está em vigor há mais de 40 anos e algumas normas não responderem às necessidades actuais da sociedade no que respeita ao ambiente acessível”.

Existem ainda “discrepâncias, em termos jurídicos e práticos, face às ‘Normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras na RAEM’, publicadas nos últimos anos”. Desta forma, o deputado pede um mapeamento das necessidades, em termos de mobilidade, dos mais velhos.

“Sugere-se ao Governo que proceda, primeiro, ao levantamento das necessidades espaciais nos cenários de prestação de cuidados a idosos no domicílio, cuidados diurnos na comunidade, cuidados em lares de idosos e cuidados transfronteiriços a idosos, estabelecendo, depois, níveis diferenciados”, tendo em conta as “novas zonas urbanas, habitação pública e instalações públicas”.

José Chui Sai Peng também defende que as normas devem articular-se com as regiões de Hengqin e Grande Baía, para criar “condições para a prestação de cuidados transfronteiriços a idosos, encaminhamento e referência médica, e reconhecimento mútuo de serviços”.

Já Si Ka Lon falou da necessidade de fomentar a chamada “economia prateada”, ligada à criação de negócios ou serviços para idosos. “Embora a escala do mercado de Macau seja relativamente reduzida, o crescimento da população idosa indica um potencial de procura interna significativa. A indústria prateada abrange vários domínios, incluindo cuidados de saúde e bem-estar, tecnologia para a terceira idade, turismo de lazer e finanças para a reforma”, explicou.

Assim, o deputado ligado à comunidade de Fujian entende que esta área “não só é uma exigência inevitável para fazer face a uma sociedade envelhecida, mas também uma oportunidade crucial para promover a diversificação adequada da economia de Macau e abrir novos horizontes de mercado para as pequenas e médias empresas locais”.

No debate de sexta-feira foram aprovadas, na generalidade, as propostas de lei “Regime para a regulação de determinadas actividades e eventos” e ainda a “Alteração ao Regulamento do Imposto de Consumo, aprovado pela Lei n.º 4/99/M, de 13 de Dezembro” (ver caixa). Além disso, foi apresentado o Relatório sobre a Execução do Orçamento de 2025 e Relatório de Auditoria da Conta Geral de 2025. Foi ainda feito um projecto de simples deliberação do plenário relativo ao Orçamento Privativo da Assembleia Legislativa para o ano económico de 2027.

Abusos | Ho Ion Sang pede “reforço” da protecção de menores

O deputado Ho Ion Sang recorreu ao período de intervenções de antes da ordem do dia para abordar o mais recente caso em que um trabalhador de uma instituição é suspeito de abusar sexualmente de um menino e de ter filmado outras crianças.

O deputado pediu o “reforço da linha de defesa da protecção das crianças”, devendo as autoridades, na sua visão, “implementar a supervisão por níveis e a guarda institucionalizada de ciclo completo”. Para Ho Ion Sang, uma das soluções é “aperfeiçoar o regime de admissão e qualificação do pessoal dos lares, estabilizando as equipas profissionais”.

20 Out 2026

Ano Judiciário | Sam Hou Fai pede fim de “fenómenos indesejáveis” na advocacia

Decorreu ontem a sessão de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, com o Chefe do Executivo a deixar recados à Associação de Advogados de Macau. Esta deve “eliminar estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector” e corrigir “fenómenos indesejáveis” com “coragem”

O discurso do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, na abertura de mais um Ano Judiciário, que decorreu ontem, pautou-se por recados à forma como a advocacia está regulamentada no território e o que deve ser feito pela Associação de Advogados de Macau (AAM).

Sam Hou Fai pediu que a AAM “assuma com coragem as suas responsabilidades, seja hábil na inovação, acelere a reforma institucional e reforce a organização do sector”. Tudo para promover “uma maior normalização e modernização na área de advocacia”, devendo ser estudada “a revisão de leis e regulamentos relevantes, como o ‘Estatuto do Advogado’, a fim de eliminar os estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector”.

Sam Hou Fai entende que a profissão de advogado em Macau deve ter um “novo dinamismo”. “É necessário alcançar consenso e avançar com determinação para reforçar a gestão regulamentada da profissão de advogado, corrigindo fenómenos indesejáveis”, adiantou. A AAM deve, portanto, “inspirar-se em experiências avançadas e acelerar a criação de um regime moderno de advocacia, que satisfaça a Lei Básica de Macau e corresponda à realidade de Macau”.

De resto, Sam Hou Fai fez um breve comentário quanto ao primeiro caso relacionado com segurança nacional, em que foi julgado o ex-deputado Au Kam San. “Iniciaram-se, de forma rigorosa e nos termos da lei, a investigação e apreciação do primeiro processo relacionado com a segurança nacional, defendendo com firmeza a segurança nacional e a estabilidade social.” Na visão de Sam Hou Fai, “a edificação do Estado de Direito em Macau alcançou resultados importantes e auspiciosos”.

Corpo de magistrados

O discurso proferido pelo governante olhou ainda para outras áreas da vida da RAEM, com Sam Hou Fai a declarar que o Governo vai atravessar, no próximo ano, o cumprimento de “prazos apertados, tarefas pesadas e exigências elevadas em todos os domínios da acção governativa”. O Chefe do Executivo lembrou que “o contexto interno e externo de Macau está a sofrer mudanças profundas e complexas, o que exige que mantenhamos sempre uma elevada consciência dos riscos, uma percepção das crises e uma mentalidade centrada nos limites mínimos”.

Foi pedido aos órgãos judiciais que adoptem “uma visão de conjunto, para saber abordar as questões a partir dos interesses fundamentais do país e do interesse geral de Macau”, mediante vários princípios. Um deles passa pelo “reforço da consciência de prevenção e combate à corrupção”.

“O corpo judiciário deve ser íntegro e imparcial”, frisou Sam Hou Fai referindo ainda ser necessário “optimizar a gestão do pessoal dos órgãos judiciais e acelerar a formação de uma equipa judiciária mais profissional e eficiente.”

Sam Hou Fai referiu que, desde 1999, “o corpo de magistrados tem vindo a crescer continuamente”, com o “número de juízes nos três níveis de tribunais a aumentar de 23 para 50; o número de magistrados em funções no Ministério Público a passar de 20 para 40; e ainda o número total de funcionários de justiça nos três níveis de tribunais e no Ministério Público a aumentar de 146 para 390”.

Assim, o Chefe do Executivo alertou para o facto de “o desenvolvimento económico e social de Macau nesta nova fase impor, inevitavelmente, novas e mais elevadas exigências ao trabalho do corpo judiciário”.

Sam Hou Fai pediu também a realização de “estudos sobre novos sistemas e regimes”, bem como “tirar referência de experiências bem-sucedidas do interior e do exterior país”. Sam Hou Fai acrescentou ainda outro pedido: o da importância de estudos “sobre o aperfeiçoamento de diplomas legais, nomeadamente o ‘Estatuto dos Magistrados’ e o ‘Estatuto dos Funcionários de Justiça'”, para melhorar os “regimes de nomeação e frequência do curso e estágio de formação de magistrados”.

Relativamente a obras em curso, Sam Hou Fai destacou que “o edifício do Tribunal de Segunda Instância deverá estar concluído no primeiro semestre do próximo ano”, enquanto que “as obras dos edifícios do Tribunal Judicial de Base estão a avançar de forma ordenada”.

Presidente da AAM diz que mudanças estão a ser analisadas

Vong Hin Fai, presidente da Associação de Advogados de Macau (AAM), apontou ontem que estão a ser analisadas as mudanças necessárias na regulamentação da advocacia em Macau. No discurso de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, Vong Hin Fai admitiu, em linha com as ideias deixadas pelo Chefe do Executivo, que “o actual regime da advocacia de Macau tem vindo a demonstrar algumas limitações no estímulo à inovação e reforço da competitividade externa, não respondendo às exigências de modernização da profissão na nova conjuntura”.

Desta forma, foi criado no início deste ano o “Grupo de Trabalho Provisório para Aperfeiçoamento do Regime da Advocacia”, que inclui várias comissões de trabalho. O objectivo, segundo disse o presidente da AAM, é “o aperfeiçoamento da estrutura orgânica e mecanismos de gestão interna da Associação”, bem como a “elaboração do regime das sociedades de advogados”.

Está ainda a ser estudada “a introdução do regime de prestação de serviços jurídicos externos por advogados do exterior”, ou ainda a “implementação da formação profissional contínua obrigatória”. Este Grupo de Trabalho também está a analisar “a revisão das normas deontológicas e do procedimento disciplinar”, sendo que todo este trabalho de análise está a ser feito mediante “um estudo comparado com os regimes do Interior da China, regiões vizinhas e práticas internacionais”.

Grande família

Vong Hin Fai destacou também que na última assembleia-geral da AAM, realizada em Setembro, foram alterados os estatutos da associação, “que alarga de sete para nove o número de membros da direcção da AAM”. Segundo o responsável, “trata-se de um ajustamento orgânico de relevante significado histórico”, sendo “a primeira com esta dimensão desde a criação da Associação em 1991”. Tal ocorreu “para dar resposta ao acrescido volume de trabalho, reforçar a eficiência decisória e aperfeiçoar os serviços prestados aos associados e aos interessados”.

O presidente da AAM comentou ainda a recente revisão da Lei dos Advogados da China, aprovada pelo Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, e que entrou em vigor no passado dia 1 de Setembro. Vong Hin Fai considera que “o exercício da advocacia na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau transitou de um programa-piloto para um regime jurídico permanente”, dando aos advogados locais “um quadro legal mais estável para expandirem a sua actividade e participarem activamente na construção do Estado de Direito da Grande Baía”.

16 Out 2026

Vaticano | Papa Leão XIV passou noite tranquila após cirurgia

O Papa Leão XIV passou uma noite tranquila no hospital Gemelli, após a cirurgia para remover o lobo inferior do pulmão direito e a confirmação de um diagnóstico de cancro, informou o Vaticano. Num comunicado ontem divulgado, o Vaticano remeteu mais informação para mais tarde.

Segundo as informações do boletim médico divulgado depois da cirurgia, na terça-feira, os exames confirmaram o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, o que obrigou a remover o lobo inferior do pulmão direito.

Na mesma nota, o Vaticano indicava que a suspeita do diagnóstico tinha surgido em exames pré-operatórios e foi confirmada durante o procedimento cirúrgico, que durou 90 minutos. Na segunda-feira, o Vaticano cancelou todas as audiências do Papa até ao próximo dia 20 de Outubro.

Nódulo retirado

A cirurgia a que foi submetido esta terça-feira, 13 de Outubro, para remover um nódulo no pulmão foi concluída com resultado positivo. A informação foi divulgada na terça-feira pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

“A intervenção foi concluída positivamente, nos tempos e nos modos previstos, e o Santo Padre regressou ao quarto. Seguir-se-ão mais informações”, informou então o Vaticano. O pontífice, de 71 anos, foi operado no Hospital Universitário Gemelli, em Roma. A intervenção foi realizada pela equipa de cirurgia torácica liderada pelo professor Stefano Margaritora.

O nódulo pulmonar tinha sido detectado durante exames médicos de rotina. Leão XIV anunciou no domingo que a lesão estava localizada e tinha sido identificada numa fase inicial, tendo decidido avançar com a cirurgia por recomendação médica. Antes da operação, o Vaticano indicou que o Papa deveria permanecer internado durante cerca de uma semana.

Leão XIV tornou-se o líder de 1,4 mil milhões de católicos em todo o mundo – e o primeiro Papa norte-americano da história – a 08 de Maio de 2025, após o falecimento, aos 88 anos, do argentino Papa Francisco.

Embora menos exuberante que o antecessor, Leão XIV imprimiu gradualmente o seu próprio estilo à liderança da Igreja Católica, abordando algumas das questões mais prementes a nível mundial, dos conflitos mortíferos à Inteligência Artificial.

15 Out 2026

Livro | Daniel Pires lança biografia de Bartolomeu Lourenço de Gusmão

Há 300 anos morreu o padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Homem de múltiplos feitos, falou de uma “máquina que voa” ao rei D. João V e foi perseguido pela Inquisição. Daniel Pires acaba de lançar “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, editado pela Imprensa Nacional

A história de vida de Bartolomeu Lourenço de Gusmão acaba de chegar ao público em formato de livro. O projecto editorial, assinado por Daniel Pires, estudioso de Camilo Pessanha, conta a complexa vida do inventor da “passarola”. “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, tem edição da Imprensa Nacional e é lançado numa altura em que passam 300 anos sobre a morte do padre que teve muitas facetas, incluindo a de assessor do rei D. João V, e que morreu em Toledo, Espanha, com apenas 38 anos.

Ao HM, Daniel Pires explica como iniciou a investigação para o livro. “Ele era um jovem luso-brasileiro, nascido em Santos, que na altura era uma vila piscatória, numa família de doze irmãos, todos católicos. Fez a instrução primária em Santos, depois foi para um seminário de jesuítas, e aos 20 anos percebe que não tem mais hipótese de evoluir e decide vir para o então continente [Portugal], com uma cunha do governador do Brasil, conseguindo que o rei [D. João V] o chamasse.”

É na primeira audiência com o monarca que Bartolomeu de Gusmão fala da sua “passarola” e de como podia ajudar o rei a comunicar com as então colónias, dispersas por África, Ásia e América do Sul.

“O rei queria saber coisas do Brasil, que não conhecia. Fez perguntas sobre os índios, a alimentação, a escravatura, o ouro. Às tantas, Bartolomeu de Gusmão, que era, na altura, um miúdo de 23 anos, consegue dizer ao rei: ‘Vossa Excelência conhece a locomoção terrestre, o ser humano desloca-se por terra e por mar, mas eu sei que o ser humano também se pode deslocar pelo ar, e tenho a possibilidade de fazer uma máquina que voa'”.

O encontro com D. João V

Segundo Daniel Pires, o padre inventor terá dito que, com esta máquina, era possível ir além do “país imenso” que era Portugal, já que se consideravam as colónias como parte do território. “Disse ao rei que ele podia governar mais facilmente se tivesse este engenho aeroestático, que levasse as ordens às colónias portuguesas, e que depois poderia transportar mercadorias, fazer negócios”, aponta o autor.

D. João V, perante esta novidade, ficou “admiradíssimo”. “Estamos a falar da primeira máquina que voava no mundo, não apenas em Portugal. Ainda por cima, apresentava esta possibilidade de Portugal ganhar a guerra com Espanha [Guerra da Sucessão Espanhola, entre os anos de 1704–1715] e resolver esse problema, pois Portugal sofria com uma derrota pesadíssima”, acrescentou.

Neste encontro com D. João V, que decorreu no ano de 1709, foi exigido a Bartolomeu de Gusmão que apresentasse, então, um desenho que explicasse como construir a “passarola”.

“O rei reuniu físicos, matemáticos, químicos portugueses, e cinco dias depois o projecto estava aprovado. Gerou-se depois [um debate]: por um lado, havia pessoas retrógradas, mais concretamente a Igreja, desconfiados; e havia ainda quem apoiava Bartolomeu de Gusmão. Mas quem estava do lado da Igreja foi à Bíblia, e pensou: ‘locomoção pelo ar? Quem é que se desloca pelo ar na Bíblia? Os anjos’. Como a Bíblia não faz referência a máquinas aéreas, acharam que Bartolomeu de Gusmão tinha relações com bruxas, um pacto com o demónio. A partir daí, perseguiram-no a vida inteira.”

Múltiplas fugas

Bartolomeu de Gusmão teve de “fugir várias vezes”, perseguido pela Inquisição. “Ao fim de três meses, a máquina aeroestática subiu cerca de quatro metros e despenhou-se, incendiou-se. Então as más-línguas, e pessoas mal-intencionadas, disseram que ele, além de ter um pacto com o demónio, também queria criar uma máquina armada para subjugar os países católicos, neste caso Espanha, Portugal, França e Itália. Então, a partir daí, deu-se uma perseguição constante e [Bartolomeu de Gusmão] acabou por fugir de vez para a Holanda, onde foi inventando outras máquinas, outras coisas.” Uma destas coisas foi o registo “da patente de uma máquina hidráulica”.

O padre fez ainda estudos em França, Holanda e Inglaterra. Porém, D. João V nunca deixou de acreditar imaginativo clérigo, e acabou por o chamar de volta a Portugal, regresso que permitiu a Bartolomeu de Gusmão estudar Direito Canónico na Universidade de Coimbra.

“Criou-se uma amizade muito forte entre ele e o rei, que sempre confiou nele”, disse Daniel Pires. É então que Bartolomeu de Gusmão se torna secretário de D. João V. Apesar da posição, continuaria a ser perseguido e acusado das mais variadas coisas, inclusivamente de ser judeu. Porém, D. João V nunca acreditou nestas acusações e diz a Bartolomeu de Gusmão para fugir, pois havia o risco de ser queimado em praça pública pela Inquisição, como era costume à época.

A denúncia dos jesuítas

A figura de Bartolomeu de Gusmão ficou para sempre no imaginário português, ao ponto de José Saramago, escritor e Prémio Nobel da Literatura, ter criado um personagem inspirado nele, o “padre voador”. “[Saramago] criou um personagem muitíssimo bem-criado de acordo com os parâmetros históricos, pois tanto a história de Bartolomeu de Gusmão como a reconstituição da sociedade da época estão muito bem feitos no livro”, disse.

Há muitas referências que falam de Bartolomeu de Gusmão enquanto padre jesuíta, mas a obra de Daniel Pires prova que este nunca entrou na Companhia de Jesus que, aliás, o terá denunciado à Inquisição. “Foi algo grave, o facto de a própria Companhia de Jesus ter denunciado Bartolomeu de Gusmão à Inquisição. Havia ali grandes divergências, pois nunca aceitaram que ele não tenha querido entrar na Companhia de Jesus. Mas também desconfiavam bastante daquela máquina aerostática.”

Falamos de um “tempo difícil para os visionários”, com um grande poder da Igreja Católica. “Depois da morte de Bartolomeu de Gusmão o seu nome continuou a ser proibido. Estamos a falar do primeiro inventor de balões, do primeiro cientista das Américas.”

Esta não foi a primeira vez que Daniel Pires fez a incursão no mundo deste padre inventor, já que, no ano passado, reuniu num livro toda a sua obra. O livro “Obra de Bartolomeu de Gusmão” nasceu de uma busca incessante de Daniel Pires pelos seus papéis.

“Quando vi que ele tinha sido perseguido pela Inquisição e que tinha morrido em Espanha, vi que não havia praticamente quaisquer papéis e documentos dele. Há cerca de dois anos e meio resolvi investigar porquê. A Inquisição não queimou os papéis de amigos e familiares, existindo cópias, e foi a partir daí que comecei a trabalhar, reunindo toda a obra dele, 15 inéditos.” Este foi o resultado de uma pesquisa feita por vários arquivos em Portugal, incluindo a Torre do Tombo, assim como arquivos em Espanha, França e Inglaterra.

“Trata-se de uma obra muito diversificada, que inclui poesia, filosofia, ciência. Ele também foi jurista e historiador, e fazia, por exemplo, os códigos cifrados dos documentos diplomáticos portugueses. Era também um grande matemático”, rematou Daniel Pires. Bartolomeu de Gusmão teve uma vida curta, falecendo de febres em Toledo com apenas 38 anos.

15 Out 2026

FMI | Resiliência financeira global está a “chegar ao limite”

A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Silvana Tenreyro, alertou ontem que, apesar de a economia mundial ter resistido a “guerras, inflação e turbulência financeira”, este ano, essa capacidade de adaptação está a “chegar ao limite”.

Numa conferência de imprensa para anunciar o novo relatório World Economic Outlook, durante as Reuniões Anuais do FMI e do Banco Mundial em Banguecoque, Tenreyro defendeu que os governos mundiais “devem passar de uma lógica de resposta aos choques para uma estratégia de reconstrução”.

O FMI prevê um crescimento global de 3,1 por cento em 2026, antes de acelerar para 3,4 por cento em 2027, enquanto a inflação mundial deverá subir para 4,7 por cento este ano e recuar para 4,1 por cento no próximo.

Segundo Tenreyro, o aumento dos preços da energia e das matérias-primas associado aos conflitos geopolíticos está a travar a actividade económica, ao mesmo tempo que o boom da inteligência artificial (IA) impulsiona o comércio, o investimento e o crescimento.

“Estas forças da procura e da oferta puxam a actividade em direcções opostas”, afirmou. “Mas ambas exercem pressão ascendente sobre a inflação”, continuou.

A responsável alertou que a evolução da economia mundial está a tornar-se cada vez mais desigual. Os países exportadores de energia e os mais integrados nas cadeias tecnológicas ligadas à IA deverão beneficiar, enquanto os importadores de energia e as economias menos expostas ao sector tecnológico enfrentam perspectivas mais difíceis.

Perigos no caminho

O FMI identificou três riscos principais para os próximos anos: uma nova escalada dos preços da energia, uma eventual correcção das expectativas em torno da inteligência artificial e o agravamento das fragilidades orçamentais.

Tenreyro salientou que os mercados energéticos conseguiram absorver parte do impacto dos conflitos graças ao redireccionamento dos fornecimentos, ao aumento da produção noutros países e aos ganhos de eficiência.

“Sem estas margens de ajustamento, estimamos que o crescimento mundial deste ano teria sido de 2,5 por cento em vez de 3,1 por cento “, disse a economista-chefe do FMI.

Contudo, advertiu que algumas dessas almofadas de protecção estão a enfraquecer. “As reservas acumuladas e os ganhos de eficiência energética estão a chegar aos seus limites”, afirmou. A economista destacou igualmente o papel da IA como motor do crescimento recente, mas alertou para os riscos de dependência excessiva.

“As cadeias de abastecimento da IA estão altamente concentradas em poucos países, sectores e empresas, o que cria potenciais estrangulamentos”, disse, acrescentando que uma reavaliação das expectativas sobre a rentabilidade da tecnologia poderá afectar o crescimento e a estabilidade financeira.

Perante este cenário, o FMI defende uma política orçamental mais prudente. “Os países com elevados níveis de dívida e défices precisam de iniciar uma consolidação orçamental e garantir que os défices e, em última análise, a dívida seguem uma trajectória descendente”, afirmou Tenreyro.

A responsável apelou ainda aos bancos centrais para manterem o foco no combate à inflação. “A política monetária deve permanecer firmemente orientada para a estabilidade dos preços” e “mais do que nunca, a independência dos bancos centrais é vital para atingir as metas de inflação”, declarou.

“Precisamos de restaurar o espaço orçamental e reconstruir a resiliência do lado da oferta, para que os países estejam mais bem preparados para enfrentar futuros choques e garantir um crescimento sustentável”, concluiu.

14 Out 2026

Universidade de Macau | Plano de Desenvolvimento prevê 25 mil alunos em 2031

Foi apresentado, na sexta-feira, o “Plano de Desenvolvimento a 5 Anos” da Universidade de Macau, que traça a estratégia até ao ano lectivo 2030-2031, quando se prevê a inscrição de 25 mil alunos. Na futura Cidade Universitária Macau-Hengqin vão funcionar as Faculdades de Medicina, Ciências da Informação e da Computação, Engenharia e Design

A Universidade de Macau (UM) planeia ter uma população estudantil de 25 mil pessoas daqui a cinco anos, ou seja, no ano lectivo de 2030-2031, e de 20 mil alunos já em 2028. Em 2030, espera-se chegar aos 22 mil alunos. Actualmente, a UM tem cerca de 16.900 alunos.

Esta é uma das ideias constantes no “Plano de Desenvolvimento para 5 anos [Five Year Development Plan], pensado para um período compreendido entre os anos lectivos de 2026-2027 e 2030-2031, e que foi apresentado na sexta-feira.

Com o mote “Uma Universidade, Dois Campus”, o documento apresenta as linhas mestras do que pretende ser um “desenvolvimento coordenado” entre o actual campus em Hengqin e a futura Cidade Universitária Macau-Hengqin, a funcionar na Zona de Cooperação Aprofundada de Guangdong e Macau em Hengqin.

Em relação ao funcionamento dos cursos, o actual campus, em Hengqin, irá gerir as Faculdades de Letras e Humanidades, Gestão de Empresas, Educação, Direito, Ciências Sociais e Ciências, enquanto que na Cidade Universitária serão acolhidas as Faculdades de Medicina – cujos cursos de licenciatura e mestrado integrado serão ministrados em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa – Ciências da Informação e da Computação, Engenharia e Design.

A UM tem como objectivo “construir um sistema equilibrado e integrado de desenvolvimento de talentos”, com o “reforço das ciências, engenharia, medicina e farmácia”. A instituição quer “priorizar o desenvolvimento dos currículos” nestas áreas.

Mostrando como a investigação é apontada como uma das áreas-chave, o “Plano de Desenvolvimento a 5 Anos” visa que a UM seja uma instituição de ensino que reflecte “a mistura de estudantes numa universidade de investigação multidisciplinar”. “A proporção de estudantes de pós-graduação será mais de 50 por cento do total da população estudantil, com o rácio de 1:1 de estudantes de humanidades e ciências sociais em relação aos estudantes de engenharia, medicina e farmácia”, é acrescentado.

Na conferência de imprensa de apresentação do plano, o reitor da UM, Song Yonghua, disse que o futuro traçado pelo documento para o futuro da universidade está alinhado o 15.º Plano Quinquenal do país e com o Terceiro Plano Quinquenal da RAEM.

Para alcançar

Outro dos motes para o desenvolvimento da universidade nos próximos cinco anos assenta nas siglas “R.E.A.C.H.”, que significam, segundo um comunicado da UM, “integração de recursos”, “foco na excelência”, “orientação para a ambição”, “foco na colaboração” e “alto impacto”.

O “foco na excelência” significa que a UM quer posicionar-se ao lado das “universidades de investigação multidisciplinar que são líderes a nível mundial”, contribuindo “para a diversificação adequada da economia de Macau, o desenvolvimento da Grande Baía e as estratégias prioritárias” do país. Outro dos objectivos passa pelo “reforço da reputação internacional” da instituição de ensino, bem como “expandir a influência global”.

A UM quer funcionar, no futuro, com o modelo “uma universidade, dois campus”, entrando “numa fase mais madura e aperfeiçoada”, mas mantendo as raízes em Macau.

Outro dos planos é a expansão da rede de Colégios Residenciais, “transformando-a numa rede educativa composta por 20 colégios distribuídos por dois campus”, alargamento que tem como objectivo “melhorar a qualidade do ensino de pós-graduação”.

Foco na investigação

Para mostrar como a área da investigação será uma das mais importantes no desenvolvimento da universidade, o reitor explicou que os “três laboratórios-chave estatais” serão “o núcleo da estratégia de investigação”, pretendendo-se “promover a colaboração entre os laboratórios e institutos de investigação, reforçando a base da investigação para gerir resultados mais originais e inovadores”.

A UM tem actualmente a funcionar o Laboratório de Referência do Estado para Mecanismo e Qualidade da Medicina Chinesa, Laboratório de Referência do Estado de Microelectrónica Analógica e Mista e ainda o Laboratório de Referência do Estado para a Internet das Coisas aplicada a Cidades Inteligentes. Todos aprovados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia da República Popular da China.

Na mesma nota, a UM destaca o desenvolvimento de “plataformas de investigação de grande envergadura em áreas-chave como a incluindo inteligência artificial e ciências do cérebro, ciências biomédicas, engenharia médica inteligente, bem como energia e neutralidade carbónica”.

O Instituto de Investigação Avançada da Universidade de Macau em Hengqin será transformado “no principal centro de transformação” ao nível da investigação e colaboração entre instituições, com maior conexão às indústrias e economia local.

Amigos ibéricos

No que diz respeito à expansão internacional, os países de língua portuguesa e espanhola surgem no topo das prioridades. “A UM vai criar um sistema de inovação aberto, em formato colaborativo e internacional, através da colaboração com universidades e empresas de renome a nível nacional e internacional, bem como com redes de inovação em países de língua portuguesa e espanhola.” Assim, a “prioridade” será dada “a parcerias com instituições em países de língua portuguesa, espanhola e inglesa, países ao longo da iniciativa ‘uma faixa, uma rota’ e países vizinhos da região da Ásia-Pacífico”.

Na mesma nota, é explicado que a UM vai “reforçar a colaboração com universidades de referência na China continental e na RAEHK”, sendo que instituição de ensino superior promete ter “quatro dimensões da internacionalização”.

Para ter maior projecção global, a UM quer ter “um corpo docente internacional, programas internacionalizados” mais intercâmbio e estudantes estrangeiros, “com vista a aprofundar a colaboração de projectos”.

Salienta-se “a oferta de programas internacionais em todas as faculdades, institutos e colégios residenciais”, dando “prioridade ao desenvolvimento de programas internacionais com duplo grau nas Faculdade de Medicina, Faculdade de Ciências da Informação e Computação, Faculdade de Engenharia e Faculdade de Design”, na futura Cidade Universitária.

O reitor da UM explicou que, nos próximos cinco anos, será dada “prioridade ao desenvolvimento do campus na Zona de Cooperação Aprofundada”, prevendo-se que a Cidade Universitária entre em funcionamento parcial em 2028, “estando totalmente concluído em 2029”. Song Yonghua disse que a UM “vai continuar a promover um desenvolvimento integrado na educação, ciência, tecnologia e recursos humanos, assumindo um papel mais pró-activo nos contributos para o desenvolvimento nacional”.

13 Out 2026

IA | Obama aponta “grande desafio” na coordenação entre EUA e China sobre IA

O antigo Presidente norte-americano Barack Obama defendeu sábado, em Lisboa, a necessidade de regular a inteligência artificial a nível internacional, mas reconheceu que será “um grande desafio”, apontando a falta de confiança entre Estados Unidos e China.

“Ainda não temos as guias de segurança de que precisamos. [A regulação] tem de começar nos Estados Unidos, a China é outro país”, comentou o 44.º Presidente dos Estados Unidos (2009-2017) e Nobel da Paz 2009, numa conversa no final da sexta edição do Game Changers Forum, no Meo Arena, perante uma plateia de mais de 10 mil pessoas, segundo a organização.

Obama apontou EUA e China como os países mais avançados em termos de inteligência artificial (IA), mas ressalvou que “não há neste momento muita confiança entre eles”.

“Temos de regular e coordenar entre nações e isso vai ser um grande desafio”, comentou. O antigo Presidente democrata advertiu que a evolução tecnológica vai provocar “uma enorme mudança, a nível económico, social e político, mas vai acontecer em 10 anos, não em 30 ou 50 anos”.

“O problema”, disse, “é que a tecnologia move-se muito depressa, mas os governos e as sociedades movem-se devagar”, defendendo a necessidade de criar “um quadro regulatório” para responder a “assuntos sérios sobre segurança”.

Os modelos de inteligência artificial avançam em três meses e ensinam-se a si próprios, acrescentou. “Alguém pode entrar no sistema financeiro ou de controlo de tráfego aéreo. Alguém pode desenvolver uma nova pandemia, um patógeno”, comentou.

Insubstituíveis

Mas, sublinhou, há realidades em que as máquinas nunca poderão substituir os humanos, como a educação ou cuidados de enfermagem.

“O problema é que, como sociedade, desvalorizámos essas profissões. Os benefícios podem ser sempre monetizados e [estas tarefas] não dão um grande lucro. Historicamente, as mulheres têm estado de forma desproporcionada nessas profissões e não lhes pagamos como devíamos pagar”, reconheceu, recebendo novamente fortes aplausos.

“Temos de reavaliar o que valorizamos e o que tem maior posição nas nossas sociedades”, considerou. Além disso, sublinhou, “outra coisa que as máquinas não podem fazer é ter discernimento e sabedoria”.

“Há coisas em que há uma solução muito estreita e em que as máquinas serão melhores”, admitiu, salientando que “o que é unicamente humano é ter discernimento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo que seja um estranho, ter um sentido de perspectiva”.

“Talvez a máquina pense que deve fazer da forma mais eficiente, mas se calhar não queremos eficiência em certas coisas”, acrescentou.

Obama começou a sua intervenção a agradecer em português ao público, que o aplaudia de pé, e recordou que a sua administração foi a que teve mais luso-americanos, como o director político, o secretário da Energia ou o fotógrafo oficial. E, “mais importante”, os seus dois cães Bo e Sunny, da raça cão de água português.

12 Out 2026

Ciência | Nobel da Física atribuído a investigação de neutrinos

O Prémio Nobel da Física foi atribuído ao belga Francis Halzen pelos seus contributos decisivos para a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica, anunciou ontem a Real Academia Sueca de Ciências.

A secretária-geral da academia, Ellen Moons, anunciou que o prémio é sobre “mensageiros-fantasma do espaço” e distingue o professor da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, pelos seus contributos para o Observatório de Neutrinos IceCube, instalado no Polo Sul.

“Francis Halzen liderou uma equipa internacional de investigadores e engenheiros que nos forneceram um instrumento fantástico. A sua tenacidade e visão científica abriram caminho para um novo tipo de astronomia”, explicou o presidente do comité Nobel da Física, Mark Pearce, num comunicado publicado no ‘site’ do Prémio Nobel.

Nascido na Bélgica, o cientista de 82 anos descobriu que o gelo no Polo Sul pode ser usado para rastrear partículas conhecidas como neutrinos que, embora muito abundantes no universo, são extremamente difíceis de detectar.

O prémio foi ontem anunciado no Instituto Karolinska, em Estocolmo, e é o segundo dos Nobel a ser anunciado, depois do da Fisiologia ou Medicina, que na segunda-feira foi atribuído ao norte-americano Karl Deisseroth e aos alemães Peter Hegemann e Georg Nagel pela sua investigação sobre canais iónicos sensíveis à luz e optogenética.

7 Out 2026

5 de Outubro | Seguro apela à responsabilidade de todos os que exercem funções públicas

O Presidente da República, António José Seguro, apelou ontem à responsabilidade de todos os que exercem funções públicas, no seu primeiro discurso no Dia da República, em que alertou para a erosão da confiança nas instituições.

Na cerimónia comemorativa do 116º aniversário da implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa, António José Seguro defendeu que “quando o Estado pede aos cidadãos confiança, tem de ser o primeiro a entregar-lhe essa confiança”, e que “em demasiadas situações isso não está a acontecer”. O chefe de Estado apontou como exemplos “decisões administrativas tardias, licenciamentos que levam tempos infinitos, apoios que tardam, processos judiciais que se eternizam” e considerou que “daí decorre que um dos perigos que ameaça a República é a erosão da confiança na integridade e eficácia das instituições”.

“Apelo à responsabilidade de todos aqueles que exercem funções públicas. Defender o prestígio das instituições é essencial para garantir a confiança dos cidadãos na República”, afirmou, em seguida.
António José Seguro referiu que “não compete ao Presidente da República substituir-se aos outros órgãos de soberania, nem impor ao país uma visão particular”, mas sim “respeitar a Constituição, exercer os seus poderes com independência e contribuir para que as instituições cumpram as suas responsabilidades”.

“Compete-lhe, também, lembrar que há princípios que devem estar acima das divergências políticas: a dignidade humana, a liberdade, a igualdade, a justiça e o respeito pelo Estado de direito. É com este espírito de exigência que assumo o meu compromisso de trabalhar para que as futuras gerações recebam um país mais próspero, mais justo e mais coeso”, acrescentou.

Saída das trincheiras

O Presidente da República pediu ainda uma nova cultura política de compromissos interpartidários para várias legislaturas, defendeu a importância da estabilidade política e saudou a aproximação entre Governo PSD/CDS-PP e PS sobre o Orçamento do Estado.

António José Seguro insistiu na necessidade de “soluções duradouras” e exortou os actores políticos a abandonarem “uma cultura de trincheiras” e adoptarem “novos comportamentos”. “Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal. Agir sobre o curto prazo com uma ideia de futuro para Portugal obriga a políticas públicas que se apliquem em várias legislaturas. Não podemos estar sempre a voltar ao início”, afirmou.

António José Seguro acrescentou: “Não podemos estar sempre a voltar ao início, só porque se mudou uma legislatura. Os partidos políticos, os parceiros sociais e outros actores da sociedade têm de entender-se sobre os caminhos fundamentais para o nosso desenvolvimento. Não há tempo a perder”.

“A esse propósito, saúdo o Governo e o PS pelo caminho de aproximação que têm vindo a fazer tendo em vista a aprovação do Orçamento do Estado para o próximo ano. Oxalá outros partidos possam juntar-se a este caminho de compromisso e de convergência neste e noutros processos legislativos. Como sempre disse, tanto se serve Portugal no Governo como na oposição”, declarou, mais à frente.

6 Out 2026

Lídia Jorge toca leitor da China ou Portugal com as mesmas inquietações, diz tradutora da obra para mandarim

Reportagem da Catarina Domingues e fotos da Gonçalo Lobo Pinheiro da agência Lusa

A tradutora chinesa de “Misericórdia”, Han Lili, considera que Lídia Jorge aborda temas que falam diretamente aos leitores na China, como o envelhecimento, e que a “mestria literária” da autora permite anular distâncias geográficas e culturais.

À noite, Han Lili voltava sempre ao texto, para o rever e polir. Queria preservar a força da escrita de Lídia Jorge – delicada, embora atravessada por “um toque afiado”. No processo de revisão de “Misericórdia” (D. Quixote, 2022), lembra agora a tradutora em entrevista à Lusa, foram várias as vezes que selecionou aquelas que considerava serem as melhores linhas da obra, para de novo transformá-las.

“Tentei transmitir na escrita esse toque afiado, dentro de um rio muito suave. Tentei, por vezes, picar os leitores”, nota a tradutora da versão chinesa do mais recente livro de Lídia Jorge, lançado em agosto, em Xangai, pela editora Century Wenjing.

A obra percorre o último ano de vida de Maria Alberta (ou dona Alberti) num lar de terceira idade, na sombra da covid-19. Em estrutura de diário, o romance atende a um pedido da mãe da autora, que, internada numa instituição para idosos, lhe pediu que escrevesse um livro intitulado “Misericórdia”.

À primeira leitura, Han Lili sentiu-se “em sintonia” com a expressão literária da autora. Destaca também o poder reparador da narradora-protagonista – “não sou tão cínica como Alberti, mas um cinismo construtivo poderá ser uma cura para nos proteger”.

Toda a humanidade cabe dentro deste ‘Hotel Paraíso’, diz. Aí convergem as sete dezenas de habitantes temporários, aqueles que veem o tempo esgotar-se, e ainda os que aí trabalham, os cuidadores, muitos deles trabalhadores migrantes, e que vivem “em situação miserável”.

“É, aliás, uma voz feminista, com a qual me identifico”, assume Han.

Lídia Jorge trabalha temas que falam à sociedade chinesa. Han Lili diz que, apesar de Portugal e a China viverem contextos culturais distintos, nomeadamente no que diz respeito às expectativas familiares, ao dever dos descendentes e à forma como a sociedade lida com o envelhecimento, “existem pontes universais que sobrepõem essas diferenças”.

O ponto de união mais forte, observa, é a própria condição humana e a urgência do tema do envelhecimento. A terceira idade tornou-se “um debate central e premente na China”, explica a também professora da Universidade Politécnica de Macau.

“Se existe um ponto de afastamento ou de estranheza inicial, este residirá talvez nas diferentes matrizes socioculturais do acolhimento aos idosos. Na tradição chinesa, o conceito de piedade filial ainda carrega uma forte expectativa de recolhimento no seio familiar intergeracional”, completa, notando, porém, que hoje a situação está a mudar.

A “mestria literária” de Lídia Jorge tem a capacidade de “anular distâncias geográficas e culturais, permitindo que um leitor na China ou em Portugal se comova exatamente com as mesmas inquietações”, considera Han Lili, natural da província de Heilongjiang, nordeste chinês, e a viver em Macau há mais de 20 anos.

Mas a obra chegou às mãos da académica repleta de provações, algumas em forma de poesia, outras relacionadas com técnicas de tradução.

As passagens dedicadas às insónias da protagonista representaram um “desafio colossal”, lembra. No texto original, a autora recorre à personificação, referindo-se à “insónia” ou à “noite” através do pronome pessoal feminino “ela”. No entanto, em determinados momentos, a presença simultânea da filha de dona Alberti tornava difícil para o leitor perceber se o “ela” se referia à figura humana ou à entidade abstrata da noite/insónia.

“Vi-me na contingência de optar pela forma neutra [da terceira pessoa do singular; usada por exemplo para animais] ao longo de todo o romance — sacrificando, com algum pesar, a personificação feminina, embora continue convicta de que esta última seria a solução estilisticamente mais rica e bela para a tradução”, conta.

Um momento que marcou Han Lili foi quando a protagonista entra em greve de fome, num derradeiro ato de resistência, desencadeado por uma sequência de perdas. Numa época em que a privação alimentar está muitas vezes associada a objetivos estéticos, Han Lili considera que Lídia Jorge transforma a fome num gesto de dignidade – “o único território onde a idosa pode gritar a sua liberdade”.

Passar a obra e estas reflexões para o chinês, e para uma geografia tão distante, serviu vários propósitos, admite a académica, seja ao nível da capacidade vocabular como da própria forma de olhar para o ato de envelhecer.

“Ao testemunhar através do texto a resiliência intransigente de uma idosa de noventa anos, que mesmo no limite das suas forças recusa render-se (…), compreendi que todas as provações e tormentos que enfrentamos na vida não são em vão: servem como experiências de aprendizagem que nos temperam o espírito e nos permitem ascender ao sublime”, refere.

E é uma obra que vive, sim, de esperança. Um sentimento que talvez perpassa de forma mais óbvia na capa da versão chinesa, batizada com o título “Tão pequeno é o cuco, tão orgulhoso ao anunciar a chegada da primavera”.

30 Set 2026

Worldskills | Delegação de Macau volta a ganhar medalha de ouro

A delegação de Macau que participou na 48ª edição da Worldskills, a feira das profissões que decorreu em Xangai, trouxe para casa quatro distinções, nomeadamente a medalha de ouro por parte de Wong Wei Kei, na modalidade de merchadising visual e vitrinismo, ou ainda a medalha de prata arrecadada por Chao Chi Hou, na modalidade de sistema de drones. A RAEM trouxe também a medalha de bronze graças ao desempenho de Cloe Hoo Carvalho, na categoria de comércio a retalho.

A delegação de Macau ganhou também, segundo um comunicado do gabinete da Secretária para a Economia e Finanças, Ng Wai Han, 11 prémios de excelência. A delegação de Macau participou em 22 modalidades, “um número mais elevado para Macau”, é referido na mesma nota, sendo que esta edição do Worldskills reuniu cerca de 1385 jovens concorrentes provenientes de 68 países e regiões.

Pela primeira vez este evento realizou-se na China, sendo que a delegação de Macau foi organizada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL). Esta contou com 24 concorrentes e 22 peritos para a participação nas modalidades técnicas, “sendo esta edição com o maior número de modalidades em que Macau participou”.

Macau voltou, desta forma, a ganhar uma medalha de ouro no concurso, após ter a ter conquistado, pela primeira vez, em 2017. A nota do gabinete da secretária dá conta que “desde a primeira participação na Competição Mundial de Aptidão Profissional [Worldskills], em 1983, Macau marcou presença em 17 competições até à competição anterior (47ª competição), tendo conquistado, no total, 1 medalha de ouro, 3 de prata, 3 de bronze e 50 prémios de excelência”, é destacado.

Portugal faz pleno e consegue melhor participação de sempre

Portugal conseguiu a sua melhor participação de sempre no WorldSkills (Mundial das Profissões), em Xangai, com os 10 jovens da selecção nacional distinguidos nas sete áreas em que competiram, incluindo uma medalha de prata.

“Fizemos o pleno. Foi a melhor participação de Portugal em campeonatos mundiais das profissões”, afirmou à agência Lusa Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, estrutura integrada no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

No Mercedes-Benz Arena de Xangai, situado no distrito de Pudong, na zona da antiga Expo 2010, junto ao rio Huangpu, milhares de jovens das delegações participantes acompanharam a entrega das medalhas nas 64 profissões em competição. A cerimónia, que se prolongou durante três horas, alternou a subida ao palco dos vencedores com espectáculos de música e dança, em coreografias marcadas por elementos da cultura chinesa e jogos de luz. Nas bancadas, delegações e participantes aplaudiam e agitavam bandeiras.

Loris Sgroj e Diogo Pinto conquistaram a medalha de prata em robótica industrial, enquanto cinco das restantes participações portuguesas receberam medalhas de excelência. Leonor Silva foi distinguida em cabeleireiro, Duarte Serra e Daniel Silva em robótica móvel, Dmitry Zhivitsa em maquinação CNC, Nelson Ribeiro em controlo industrial e Marco Malheiro em soldadura.

Diogo Botelho e Simão Alves, que competiram em mecatrónica industrial, receberam a distinção “Best of Nation”, atribuída ao melhor desempenho entre os participantes da selecção portuguesa.
Portugal subiu também do 13.º lugar, alcançado no último Mundial, realizado em Lyon, França, para o quarto lugar no ‘ranking’ internacional relativo ao desempenho das equipas, segundo Gustavo Seia.

29 Set 2026

Economia | Crescimento do PIB chinês deverá abrandar em 2026 e 2027

O “OECD Economic Outlook” descreve cenários de “resiliência” perante a escalada de preços devido à guerra no Irão, prevendo moderação do crescimento do PIB da China na ordem dos 4,5 por cento este ano, e ainda de 4,2 por cento em 2027

O nome do relatório não deixa margem para dúvidas: “Weathering Successive Shocks”, em português “Resistir a Choques Sucessivos” chama a atenção para os tempos difíceis que se vivem na economia global. O relatório em causa é o “OECD Economic Outolook”, produzido pelo secretariado-geral da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico]. O documento foi tornado público na quarta-feira.

Há vários sinais de alerta para o leitor, desde logo pela análise do crescimento económico mais moderado, da existência de maiores dependências face à evolução do conflito do Médio Oriente e preços mais elevados nos bens essenciais, sempre dentro de um cenário de muitas incertezas e imprevisibilidades.

Falando em “moderação do crescimento mundial” da economia no primeiro semestre deste ano, a OCDE prevê o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês até 4,5 por cento este ano, bem como 4,2 por cento em 2027.

“Prevê-se que o crescimento económico nas economias de mercado emergentes do G20 se mantenha globalmente estável, embora o padrão de crescimento varie entre os países. Na China, prevê-se que o crescimento abrande ainda mais, passando de 5 por cento em 2025 para 4,5 por cento em 2026 e 4,2 por cento em 2027”, lê-se.

Em termos globais, acredita-se que o crescimento do PIB a nível mundial seja de 2,9 por cento este ano, ficando ligeiramente abaixo da previsão para 2027, que é de 3 por cento. Para os Estados Unidos da América, a OCDE estima um crescimento do PIB na ordem dos 2,2 por cento este ano, e de 2,1 por cento em 2027. Tal crescimento será pautado “por um forte investimento relacionado com a IA [Inteligência Artificial]”, que irá “compensar parcialmente o abrandamento da despesa dos consumidores e do crescimento do rendimento real”.

Na Zona Euro o crescimento do PIB será inferior, na ordem de 1 por cento este ano, percentagem que deverá ser semelhante em 2027.

A OCDE refere que, em termos globais, a “maior pressão sobre os preços, um crescimento fraco do rendimento real e taxas de juro mais elevadas” vão dominar as economias. Estes factores vão trazer, nos próximos meses, um cenário de “moderação” ao “dinamismo do crescimento a curto prazo em muitas economias”.

O estado da inflação

Os preços deverão continuar mais elevados, mas não sempre. A OCDE prevê que “a inflação aumente a curto prazo, reflectindo a subida dos preços das matérias-primas, antes de diminuir gradualmente em 2027”. A quebra gradual explica-se pela “moderação dos preços da energia e uma política monetária mais restritiva, e que contribuam para limitar as pressões mais gerais sobre os preços”.

Nos países que fazem parte do G20 estima-se que a inflação possa diminuir de 4,1 por cento este ano para 2,5 por cento em 2027. É referido um cenário de “resiliência” perante este crescimento económico mais moderado, apesar “dos efeitos adversos do conflito no Médio Oriente”.

A “resiliência” dos países deveu-se “às reservas consideráveis de petróleo, à oferta adicional proveniente de países exteriores às economias do Golfo e a medidas discricionárias de apoio adoptadas pelos governos”, e que “contribuíram para atenuar o impacto sobre a economia mundial”.

IA como força motriz

A OCDE destaca o papel que os investimentos na área da IA têm tido como força dinamizadora de muitas economias. “A continuação da forte actividade relacionada com a inteligência artificial (IA) também impulsionou o investimento, a produção e o comércio”, lê-se no relatório.

Aliás, é ainda referido no documento que “a robustez da actividade relacionada com a IA e a descida dos preços da energia (…) contribuirão para o reforço da actividade até 2027”.

É explicado que os efeitos do conflito no Médio Oriente “foram parcialmente compensados pela continuidade do rápido crescimento do investimento e da produção relacionados com a inteligência artificial em muitas economias”.

No continente asiático, “a Coreia e Japão, dois importantes fabricantes de semicondutores, registaram um forte aumento das exportações de tecnologia ao longo deste período”, sendo que “o mesmo aconteceu na China”.

Por sua vez, “o crescimento de várias outras economias de mercado emergentes do G20, como a Índia, Indonésia e Brasil, foi sustentado por uma procura interna resiliente e por políticas governamentais que atenuaram o impacto do aumento dos preços da energia sobre as famílias e as empresas”.

Muitas incertezas

Não obstante a capacidade de superação e até um ligeiro crescimento do PIB global em 2027, a OCDE deixa no ar um cenário de muitas incertezas. Isto porque “as perspectivas económicas mundiais continuam fortemente dependentes da possibilidade de se alcançar uma solução duradoura para o conflito no Médio Oriente”.

Lê-se que “os preços da energia voltaram recentemente a subir, num contexto de intensificação das perturbações na produção e nas exportações das economias do Golfo”.

“As elevadas margens de refinação, devido aos estrangulamentos na produção, estão a exercer uma pressão adicional em alta sobre os preços no consumidor e os custos das empresas. Os preços de algumas matérias-primas agrícolas também aumentaram significativamente nos últimos meses, em parte devido ao impacto de fenómenos meteorológicos extremos na oferta”, é ainda explicado.

As incertezas ocorrem também devido às “alterações contínuas nas políticas comerciais, tanto em matéria de tarifas como de restrições às exportações”. Tais cenários trazem também “perturbações na oferta”.

A OCDE realça ainda “as novas taxas tarifárias bilaterais dos EUA, em vigor desde Julho, tenham aumentado em cerca de 1 ponto percentual a taxa tarifária efectiva média dos Estados Unidos”.

Essencialmente, “a trajectória dos preços do petróleo e do gás depende fundamentalmente da duração das perturbações na oferta, da capacidade de produtores e consumidores para se ajustarem e da evolução geopolítica”.

Outro risco apontado no relatório tem a ver com as alterações climáticas, nomeadamente o fenómeno El Niño, “que afecta negativamente a produção agrícola e contribui para aumentar as pressões sobre os preços dos alimentos”.

Livro de receitas

A OCDE deixa algumas sugestões para travar a escalada de preços, referindo que “os bancos centrais devem assegurar que as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas”. “Poderão ser necessários novos ajustes às políticas monetárias caso as pressões sobre os preços apresentem sinais de agravamento ou as perspectivas de crescimento se deteriorem significativamente”, acrescenta-se.

Do lado dos governos, a OCDE diz que as medidas para travar a inflação “devem ser bem direccionadas”, apostando-se nos “incentivos à redução do consumo energético e à diversificação das fontes de energia”.

Como tal, a organização internacional recomenda “reformas estruturais para aumentar o crescimento do produto potencial e reforçar a resiliência das economias perante novas perturbações do lado da oferta”. A recomendação inclui “medidas destinadas a diversificar ainda mais o fornecimento de energia e melhorar a eficiência energética”, bem como políticas “que reforcem a capacidade dos mercados de produtos e de trabalho para se ajustarem aos choques e garantam que os trabalhadores dispõem das competências necessárias para se adaptarem às mudanças estruturais”.

25 Set 2026

Xangai | Feira das profissões apresenta talentos portugueses ao mundo

Arrancou ontem em Xangai a WorldSkills, uma feira profissional com 300 espaços de exposição e mais de 100 actividades interactivas, onde concorrem jovens de todo o mundo em profissões tão variadas como designers digitais, técnicos de robótica, floristas ou cabeleireiros. Portugal faz-se representar por alguns jovens talentos

Um robô que recebe uma entrega, chama sozinho o elevador e a leva até ao quarto do hotel surpreendeu Daniel Silva em Xangai, onde o jovem português de 21 anos compete no WorldSkills em robótica móvel. A WorldSkills Xangai começou ontem e termina no domingo.

“Em Portugal temos, por exemplo, o carrinho com o gatinho que leva os pratos”, contou à agência Lusa, referindo-se aos robôs autónomos utilizados em alguns restaurantes. Mas, na China, encontrou uma versão mais sofisticada da mesma tecnologia.

“Já vi um robô do género em que chega alguém de fora com comida, entrega ao robô e aquilo entra no elevador e sobe”, contou. “Chama o elevador sozinho, entra no elevador e vai até ao quarto. É uma coisa muito diferente”, descreveu.

Daniel, natural do distrito do Porto, representa Portugal na categoria de robótica móvel, em equipa com Duarte Serra, na maior competição mundial de profissões, que decorre ao longo desta semana em Xangai, a “capital” económica da China.

A área envolve sistemas autónomos capazes de executar tarefas que reproduzem situações reais, combinando programação, visão artificial e capacidade para transportar ou manipular objectos. “Existe um pedido e depois o robô tem de completar esse pedido”, explicou, dando como exemplo a deslocação de um objecto de um ponto para outro. As aplicações podem ir muito além dos pequenos veículos utilizados em restaurantes ou hotéis.

A China é actualmente o maior mercado mundial de robótica industrial. Mais de dois milhões de robôs operam nas fábricas do país e, só em 2024, foram instaladas 295.000 novas unidades, mais do que o resto do mundo combinado.

A rápida automatização é acompanhada pelo crescimento da indústria local: mais de metade dos robôs industriais produzidos no mundo são já fabricados na China, ao mesmo tempo que empresas como a Unitree procuram acelerar a comercialização de robôs humanoides.

É precisamente a diversidade de aplicações que atrai Daniel. Segundo o jovem, os princípios que aprende podem ser aplicados a diferentes sistemas autónomos, desde veículos a aviões ou submarinos. “Não precisa de ser especificamente uma solução programada de uma certa forma e acabou. É um conceito”, explicou.

O percurso de Daniel começou no ensino profissional, inicialmente na área da mecatrónica, antes de se virar para a robótica móvel. “A mecatrónica é fixe, é uma máquina que temos que montar e programar, mas é estática”, explicou. “A robótica móvel permite inventar mais”, acrescenta. Após concluir formação de níveis 4 e 5, Daniel prosseguiu para o ensino superior e frequenta actualmente Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP).

Quanto às possibilidades de Portugal na competição, Daniel prefere manter expectativas moderadas. “Realisticamente, nós sabemos que não estamos muito perto dos melhores. Temos dois olhos na cara e vemos o que eles fazem e o que têm feito ao longo dos últimos anos”, disse. Um 12.º lugar seria já um resultado que o deixaria satisfeito, admitiu. “Vamos fazer o nosso melhor”, assegurou.

Um espaço maior

Para Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, a dimensão do evento constitui, por si só, um desafio para os jovens portugueses. Portugal participa com dez jovens, distribuídos por sete profissões: robótica industrial, robótica móvel, mecatrónica, soldadura, controlo industrial, cabeleireiro e maquinação CNC.

“O recinto é esmagador, são 1.400 jovens a participar de mais de 60 países”, afirmou Seia à Lusa, explicando que a preparação inclui também apoio na gestão da pressão e das emoções durante a competição.

Para o coordenador, para lá dos resultados, a competição serve para mostrar aos jovens as possibilidades destas áreas. “Estas profissões valem a pena e são uma óptima opção para quem vai entrar no mercado de trabalho”, disse.

Mas nem só de tecnologia é feita a WorldSkills. Prova disso é a presença de Leonor Silva, que representa Portugal na profissão de cabeleireiro. Aos 15 anos, quando muitos colegas ainda tentavam perceber o que queriam fazer no futuro, Leonor Silva decidiu aprender uma profissão e entrar logo no mercado de trabalho. “Tinha uma grande vontade de trabalhar e gostava da área da beleza. E foi um bocado por aí que decidi escolher um curso profissional”, explicou à agência Lusa a jovem de Santa Maria da Feira, hoje com 20 anos.

Leonor começou uma formação em cabeleireiro em 2021, com cerca de dois anos e meio de duração. “Comecei logo a trabalhar na área. E depois, quando concluí a formação, continuei a trabalhar”, contou. A jovem integra a equipa portuguesa que marca presença na WorldSkills, sendo que Portugal está ligado a esta competição desde a sua origem. Juntamente com Espanha, inaugurou a competição em Madrid, em 1950.

Peso do ensino técnico

A composição da equipa espelha também a diversidade do actual ensino profissional, cada vez mais ligado a áreas tecnologicamente avançadas e para as quais existe procura de trabalhadores qualificados.

Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, estrutura integrada no IEFP, considera que Portugal continua a enfrentar falta de mão-de-obra nestas áreas. “O nosso país ainda carece de mão-de-obra qualificada”, afirmou, atribuindo parte do problema a uma “hipervalorização do científico-humanístico”, que durante anos levou muitas famílias a privilegiar a universidade em detrimento da formação profissional.

Segundo o responsável, apesar de a percepção ter melhorado, “há trabalho a fazer” para acabar com o estigma associado a esta via de ensino. “Estas profissões são eminentemente manuais”, mas exigem trabalhadores “altamente qualificados” e devem ser valorizadas também ao nível da remuneração, acrescentou.

Para o coordenador da WorldSkills Portugal, uma das principais vantagens do ensino técnico-profissional continua, no entanto, a ser o acesso ao mercado de trabalho. “As profissões que trazemos são profissões com alta empregabilidade”, disse Gustavo Seia, considerando que um jovem que conclua este tipo de formação dispõe de boas perspectivas de encontrar trabalho, mesmo que decida simultaneamente prosseguir os estudos.

Foi precisamente a possibilidade de se tornar independente ainda muito jovem que atraiu Leonor. “Eu queria começar a fazer carreira”, disse. “Queria começar logo a fazer a minha vida”.

O WorldSkills apresenta profissões nas áreas dos Transportes e Logística, Tecnologia de Manufacturas e Engenharias, Moda e Artes Criativas, Tecnologias da Informação e Comunicação, Serviços Pessoais e Sociais e ainda Tecnologias da Construção e de Edifícios. O mote deste evento é que os participantes possam mostrar aquilo que valem em profissões com uma forte componente prática, como montagem de ares condicionais, pinturas de casas ou carpintaria, entre outras, embora a área digital marque presença. Nas áreas mais criativas, não faltam representantes em joalharia, floristas, costura ou merchadising visual. O evento acontece no Centro Nacional de Convenções e Exposições de Xangai.

24 Set 2026

Óbito | Jorge Palma morreu aos 76 anos vítima de paragem cardiorrespiratória

Jorge Palma, um dos mais importantes músicos portugueses, morreu na noite de segunda-feira vítima de paragem cardiorrespiratória. Deixa êxitos que marcaram gerações, como “Frágil”, “Bairro do Amor” ou “Dá-me Lume”. O músico actuou duas vezes em Macau, nos anos 90 e em 2015

O músico Jorge Palma, que morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória, trocou a música clássica pelo rock no início da adolescência, acabando por se tornar num dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea.

Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma começou aos seis anos a ter aulas de música, tendo ingressado no Conservatório de Música de Lisboa aos 10. Embora as aulas tenham começado bem cedo, Jorge Palma começou a tocar antes disso, em casa, onde havia um piano.

“Era o meu brinquedo. Tinha bom ouvido e as coisas que ouvia na rádio e no gira-discos reproduzia-as no piano. Tinha jeito para aquilo e as pessoas repararam, a começar pela minha mãe, que também tinha estudado piano. Daí ter-me posto a estudar aos seis anos”, partilhou numa entrevista, publicada em 2024 no jornal digital “Mensagem” de Lisboa.

Em 1963, ficou em segundo lugar num concurso internacional de piano, no Festival Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca, Espanha, onde foi também distinguido com uma Menção Honrosa.

Embora a sua carreira comece a ser contada em 1972, ano em que gravou o primeiro ‘single’ em nome próprio, o percurso na música começou oito anos antes, aos 14 anos, quando abandonou a música clássica para se dedicar ao pop-rock.

Na altura, o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”. No liceu, começou “a ouvir a pop rock, a começar por [Elvis] Presley, mas sobretudo [The] Beatles e [The Rolling] Stones”. “Aí abandonei completamente os estudos clássicos, chumbei no Liceu Camões, no 4.º ano, deixei de ir à ginástica, às aulas de piano”, recordou Jorge Palma, em entrevista à Lusa, em 2022. Após terminar o liceu, entrou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que frequentou durante dois anos, até desistir.

Início sindical

Antes de se apresentar em nome próprio, Jorge Palma fez parte do grupo Sindicato, que tocou na primeira edição do festival de Vilar de Mouros, em 1971, e dos Black Boys. Na mesma época, começou a trabalhar em composição, orquestração e gravação.

Em 1972, gravou “The Nine Billion Names of God”, o primeiro ‘single’ em nome próprio, cujo pagamento recebeu em electrodomésticos. O título do tema foi retirado de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado no livro “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier.

“Gostei muito desse conto, ‘The Nine Billion Names of God’, que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu nessa altura 22 anos”, contou ao jornal Público, em 2022.

Quando quis gravar “The Nine Billion Names of God” e o lado B do ‘single’, “Come, Morpheus”, Jorge Palma foi ter com “o grande músico e maestro” Thilo Krasmann, que o gravou, cedendo espaço de estúdio para que gravasse a maquete, de piano e voz, mas “não pertencia a nenhuma editora”, recordou em entrevista à Lusa em 2022.

O músico foi então “bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo director era o Carlos Cruz, que ouviu, achou piada e disse: ‘Nós pagamos-te a gravação e fazemos a gravação’”. O pagamento chegou na forma de “uma máquina de lavar roupa e um frigorífico”.

“O Arnaldo Trindade [1934-2024] tinha um negócio de electrodomésticos”, explicou Jorge Palma, lembrando que, naquela altura, tinha acabado de se casar com a primeira mulher.

A saída da ditadura

Pouco depois, em 1973, foi convocado para o serviço militar, mas decidiu abandonar o país e instalar-se na Dinamarca. Antes de partir, leiloou ‘o pagamento’ que recebeu pelo primeiro ‘single’ entre os amigos.

“Consegui licença militar para sair 15 dias antes de entrar para a tropa. Quando obtive essa licença, em Setúbal, saí aos saltos cá para fora. Quem me tivesse visto deveria ter pensado que eu era maluco. Cheguei ao aeroporto com um bilhete para Londres, e de Londres viajei para Copenhaga”, lê-se na biografia oficial de Jorge Palma, “Na Palma da Mão”, da autoria de Pedro Teixeira.

No mesmo livro conta-se que, em Copenhaga, Jorge Palma trabalhou num hotel onde desempenhou tarefas na manutenção e lavagem dos elevadores e na limpeza dos quartos, entre outras.

Em 1974, regressa a Portugal, após o 25 de Abril, começa a trabalhar como orquestrador e, no ano seguinte, edita o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”, criado numa altura em que o músico estava “muito influenciado pelo rock sinfónico, Genesis, Yes, etc.”.

“Foi sob essa influência que escrevi as canções desse álbum. Somos só três instrumentistas: Vítor Mamede na bateria, que veio do meu grupo Sindicato, Rui Cardoso, sopro, flautas e ‘saxes’, e eu toquei tudo o que era teclas, baixo, as guitarras todas. Fomos só três pessoas a fazer aquele ‘sonzão’, com a voz muito fininha, novinho”, recordou em entrevista à Lusa, em 2022.

Ainda na década de 1970, troca Lisboa por Paris, onde toca nas ruas e no metro, cantando sobretudo Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby, Stills and Nash e ‘bluegrass’.

Depois de “Como uma viagem na palma da mão” gravou mais 13 álbuns de originais, e “cada um corresponde a um momento” da vida de Jorge Palma. “Com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia, tudo isso torna cada disco único”, disse à Lusa na mesma ocasião.

A chegada de “Só”

Na década de 1980, de volta a Lisboa, retoma os estudos de piano no conservatório, que terminou em 1990. Logo a seguir, grava “Só”, editado em 1991, a primeira colectânea de carreira de Jorge Palma, na qual revisita, apenas ao piano, canções dos discos das duas décadas anteriores.

Jorge Palma tinha 40 anos quando gravou as 15 canções de “Só”, nos antigos estúdios da Valentim de Carvalho. “É um disco intimista, é um ambiente íntimo que reflecte de facto o que aconteceu na escuridão daquele enorme estúdio. Reflecte-se que há uma entrega grande, que há um empenho”, referiu em entrevista à Lusa em 2016.

Do alinhamento fazem parte, por exemplo, “Bairro do amor” (1977), “Na terra dos sonhos” (1980), “O meu amor existe” (1982), “Estrela do mar” (1984), “Deixa-me rir” (1985) e “Frágil” (1989).

Na altura, “a editora não estava muito abonada para um artista como eu que não é um grande vendedor de discos”, recordou. Deram-lhe a possibilidade de gravar piano e voz, e 30 anos depois ainda era abordado por pessoas que lhe elogiavam o disco.

Depois de “Só”, Jorge Palma passou o resto dos anos 1990 com a discografia que tinha, avançou com o Palma’s Gang (banda com Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau), fez música para teatro, fez parte do grupo Rio Grande, compôs para outros, até editar um novo álbum de originais, “É proibido fumar”, em 2001.

Seguiram-se “Norte” (2004), “Voo nocturno” (2007) e “Com todo o respeito” (2011). O álbum mais recente, o derradeiro, “Vida”, foi editado em 2023.

Em Maio de 2025 estreou o espectáculo “3 palmas na mão”, no qual se apresentava em palco com os dois filhos, Vicente Palma, nascido em 1983, e Francisco Palma, nascido em 1995. O título do espectáculo começou por ser o nome do grupo de Jorge Palma e filhos na plataforma Whatsapp, antes de se transformar numa canção incluída no álbum “Vida” e ganhar depois a forma de um concerto.

Vicente Palma faz parte da banda que acompanha o pai há cerca de 20 anos. Sobre os filhos, Jorge Palma disse, numa entrevista ao Mensagem de Lisboa, em 2024, que “têm vozes muito fixes, são muito afinados: o Vicente mais piano do que guitarra, o Francisco mais guitarra do que piano. Escrevi o ‘Três Palmas na Mão’, que em estúdio fomos nós três a tocar, cada um com a sua guitarra, guitarras e voz”.

Jorge Palma venceu o Prémio José Afonso, em 2002, com “Jorge Palma”, e a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2012, com o álbum “Com todo o respeito”.

Em 2020, Jorge Palma recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa, no final de um concerto de celebração dos seus 70 anos, e foi condecorado pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em Abril de 2026, foi distinguido com o Prémio Carreira dos 8.º PLAY – Prémios da Música Portuguesa.

Jorge Palma actuou em Macau por duas vezes: em 1990, no Teatro D. Pedro V, e em 2015, por ocasião das celebrações do 25 de Abril. Jorge Palma actuou num trio composto pelo filho Vicente Palma (guitarra, piano e voz), e Gabriel Gomes (ex-Madredeus e ex-Sétima Legião, no acordeão).

Políticos destacam legado de Jorge Palma

A morte de Jorge Palma foi lamentada por vários políticos portugueses, nomeadamente o primeiro-ministro, Luís Montenegro, que escreveu na rede social X, que “Jorge Palma parte, mas a sua música fica”. “Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações. Fica, sobretudo, na cultura portuguesa, que ajudou a transformar com a sua voz única e músicas intemporais. Em meu nome e em nome do Governo, deixo à família e aos amigos as mais sentidas condolências”, destacou.

Também Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, falou num “dia triste – muito triste – para a música portuguesa e, claro, para todos os que o amavam”. Na sua página na rede social X, Paulo Rangel escreve que, perante a morte do cantor e compositor, “ficam a voz, os poemas e o carisma”.

Paulo Rangel abre a mensagem citando uma das canções do músico – “O que eu não vivi, hei-de inventar contigo” -, e termina-a garantindo: “O que ele já não vai viver, vamos nós agora inventar com ele”.

Já a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, agradeceu o legado do músico, considerando-o um “cantautor extraordinário”. Numa publicação na rede social X, Margarida Balseiro Lopes considerou o autor de temas como “Frágil”, “Dá-me Lume” ou “Bairro do Amor” uma das vozes mais icónicas da música portuguesa das últimas décadas e endereçou “sentidas condolências” à família e amigos.

23 Set 2026

CCCM | Livro aborda conexão da Rota do Cabo com Rotas da Seda

“The Cape Route and the Silk Roads”, editado pela Brill e coordenado por João Oliveira e Costa e Carmen Amado Mendes, expõe as relações comerciais que se estabeleceram entre a Rota do Cabo, criada no século XV e que ligava Lisboa à Índia, e as rotas da Seda. A obra mostra como Lisboa foi uma cidade central no comércio de porcelana

Estávamos em 1499 quando foi criada a Rota do Cabo para, entre Lisboa e a Índia, transportar especiarias para a Europa, embora “os navios portugueses trouxessem outros produtos das terras da Ásia”. Por sua vez, “a tecnologia e ciências europeias, o cristianismo e a prata das Américas chegavam a todos os recantos da Ásia”.

Editado pela Brill, e recentemente apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), o livro “The Cape Route and the Silk Roads” [A Rota do Cabo e as Rotas da Seda] expõe a ideia de como “a Rota do Cabo permitiu que produtos e ideias circulassem no âmbito do sistema das Rotas da Seda, que abrangia a Eurásia de oeste a leste”, descreve-se na sinopse do livro.

A obra também mostra como Lisboa se transformou “no centro nevrálgico que difundiu novos padrões de consumo e novas modas na Europa”, sendo que a Rota do Cabo também “introduziu novas formas de guerra, novos conhecimentos científicos e uma nova religião por toda a Ásia”.

A obra é coordenada por João Paulo Oliveira e Costa, especialista em História Moderna e docente na Universidade Nova de Lisboa, e Carmen Amado Mendes, presidente do CCCM. Vários académicos colaboram nesta obra, que inclui capítulos como “Why the Cape Route should be considered parte of the Silk Roads” [Porque a Rota do Cabo deveria ser considerada parte das Rotas da Seda] ou ainda “Lisbon, the hub of the Silk Roads in the 16th century” [Lisboa, o centro das Rotas da Seda no século XVI].

Rui Oliveira, académico responsável pela apresentação do livro, destacou como a obra “trará, certamente, novas perspectivas e terá uma responsabilidade na internacionalização de muito o que se tem feito nesta área em Portugal”.

Para o responsável, existe ainda “alguma dificuldade de mostrar essa perspectiva [da conexão da Rota do Cabo com as Rotas da Seda] e o impacto dos portugueses e das rotas comerciais transatlânticas na sua comunidade e em todas as instituições”.

Rui Oliveira lembrou como o livro constitui uma oportunidade de olhar a Rota do Cabo “e perceber verdadeiramente as implicações que esta teve em diferentes territórios, e que continua a ter, nomeadamente nas questões identitárias do século XXI”.

Ao fazer “a interligação com outros pontos fulcrais da Rota da Seda” tal como a costa oriental africana e sudeste da Ásia, a Rota do Cabo trouxe bastantes contributos para o comércio mundial. Mas Rui Oliveira lembrou que o livro agora editado pela Brill também espelha como se operavam estas interligações comerciais. “Este volume abre a oportunidade de mostrar e ligar a Rota do Cabo a todas as outras rotas, sobretudo no sudeste asiático, no contexto das Rotas da Seda. Trata-se de interligações que não são ainda aceites de forma transversal”, acrescentou.

Da pimenta à porcelana

João Paulo de Oliveira e Costa não deixou de destacar como Lisboa era, nesta época, um lugar onde determinados produtos chegavam bem mais depressa do que noutros pontos da Europa graças à Rota do Cabo, já que “a maneira como estes objectos chegavam e se espalharam pela Europa tem essa dimensão extraordinária”.

“Lisboa estava carregada de porcelana, que entrava na Europa por Lisboa e que, particularmente no século XVI, era o porto asiático da Europa. É isso que tentamos aqui por mostrar, não por mania, mas porque a arqueologia o mostra.”

O co-coordenador da obra fez referência a um artigo da autoria de Maria João Ferreira, intitulado “China at Home: Chinese Silks in Portuguese Households during the Early Modern Period” [China em Casa: Sedas Chinesas nos Lares Portugueses no Início da Era Moderna], e que mostra como existia “abundância da seda em Lisboa no século XVIII e que choca os visitantes europeus, que veem em Lisboa algo que para eles é uma raridade quando, aqui, era uma banalidade”.

Segundo o académico, há “um problema de fundo” na historiografia portuguesa “que foi, durante um tempo, excessivamente preguiçosa, e a divulgação continua a ser preguiçosíssima”, face ao que verdadeiramente se comercializava via Lisboa nestes anos.

“Acho que 90 e tal por cento das pessoas continua a pensar na carreira da Índia como a carreira da pimenta, mas em 1550 já metade dos porões das naus não traziam pimenta, mas sim porcelana, além de tudo o resto”, transportando depois esses produtos para a Europa.

Além do colonialismo

Na sessão de apresentação da obra, João Paulo Oliveira e Costa deixou a ideia de que fazer a história da Expansão Portuguesa está longe de estar relacionada com o colonialismo e ocupação de outros povos. “A Expansão Portuguesa é um episódio incontornável da história da humanidade” e foi “muito mais do que um episódio do Colonialismo.”

Na sua visão, esta obra sobre a Rota do Cabo, além de “ajudar a desencadear novas investigações, ajuda a perceber que a expansão portuguesa não é uma história de guerra”.

“Tem muita guerra, faz parte do ser humano e destes movimentos, mas é uma história que tem outras dimensões incontornáveis e fundamentais para se perceber a história da humanidade”, frisou, até pela maneira “como estes objectos chegavam e se espalharam pela Europa, o que tem uma dimensão extraordinária”.

“Um dos méritos da investigação dos últimos 30 anos é perceber que fazer história da Expansão não é só sobre o que foi, mas também sobre o que vem. A Europa faz a Expansão com a pólvora inventada pelos chineses, os algarismos inventados pelos indianos, transmitidos depois pelos árabes; com a religião inventada pelos judeus. O papel é inventado pelos chineses, onde se faz a burocracia. E, portanto, é uma civilização que parte através de tudo o que tinha incorporado e lhe tinha chegado.”

O académico destacou o exemplo da porcelana e da sua difusão na sociedade portuguesa. “A porcelana é um dos exemplos: não há família em Portugal que não tenha um serviço de porcelana. Faz parte da nossa lógica europeia e continua a ser uma coisa significante na nossa vida social.”

O livro dá também destaque ao posicionamento dos Açores em todo este comércio, nomeadamente com os capítulos “The Sea of the Azores within the Silk Routes” [O Mar dos Açores nas Rotas da Seda], de Avelino de Freitas de Meneses; ou ainda “The Azores and the Legacies of the Silk Roads” [Os Açores e os Legados das Rotas da Seda], da autoria de Susana Goulart Costa, Rute Dias Gregório e Isabel Soares de Albergaria.

22 Set 2026

Poesia | Editora portuguesa lança “China – Poemas do Erotismo Suave”

Serão os chineses dados à explicitação do sexo? No mais recente livro de poesia traduzida por António Graça de Abreu, “China – Poemas do Erotismo Suave”, a pergunta faz-se no passado e dá respostas afirmativas: na China antiga escreveu-se muito sobre sexualidade e amor carnal. Não faltam sequer poemas sobre o amor LGBT

António Graça de Abreu acaba de assinar a tradução de um punhado de poemas chineses clássicos que remetem para uma temática muito pouco comum nos dias de hoje na hora de editar poesia chinesa: o erotismo. Quando falámos com o autor e, por lapso, referimos romantismo, do outro lado da linha a questão surgiu condimentada com algum humor: “Romantismo?”

Não é de romantismo que trata o livro, mas sim de sexualidade e erotismo puro na forma de palavras. “China – Poemas do Erotismo Suave”, acabado de sair para as bancas com a chancela da editora Guerra e Paz, deixa desde logo antever uma pergunta: “Como era o amor e amar na velha China?”.

O prefácio, assinado pelo próprio António Graça de Abreu, denota como, ao contrário do que se possa pensar, a sexualidade estava bem presente na vida da corte imperial e não era vivida com tanto pudor como se possa pensar.

Desde logo porque, como se lê, “não nos podemos esquecer que a China escapou aos preconceitos sexuais do mundo judaico-cristão, por isso, a ideia de pecado, punição e culpa é alheia; exterior ao simples fluir do homem e da mulher por dentro do brilho ou da penumbra do tempo”.

O livro apresenta poesia sobre esta temática, incluindo escritos de obras clássicas como é o caso de “O Sonho do Pavilhão Vermelho ou Hong Lou Meng”, de Cao Xueqin, editado em meados do século XVIII, na dinastia Qing. Não faltam ainda poemas de Li Yu, como “Ode do coração despedaçado”, “O modesto instrumento” ou “Da esposa do soldado para o marido ausente”.

E o que dizer do poema “Os teus dois montes”, de Wang Shizhen, que deixa ao leitor uma imagem de deleite visual do narrador: “Os teus dois montes, como lótus cor-de-rosa, / iluminam o teu corpo, / na limpidez da tarde.” Trata-se, portanto, de uma obra que expõe “o tema do amor na China entre o homem e uma mulher, embora também tenha referências ao amor homossexual entre homens e com lésbicas.”

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Um dos exemplos de um poeta que retrata relações homossexuais é Wang Wei. O livro apresenta três poemas traduzidos da sua autoria, como “Canção da bela de Luoyang”, “Balada de Xi Shi” e “Poema mesclado”. “Recentemente descobriram que havia tendências homossexuais em Wang Wei, um poeta dos anos 700 [século VIII] e um dos maiores poetas da China, e que tem um amigo a quem dedica poemas maravilhosos, tendo também dois ou três poemas virados para o feminino.”

O lugar da mulher

António Graça Abreu segue uma certa linha cronológica nos poemas, começando pelo “Livro das Mutações ou Yi Jing”, tido como “o mais enigmático dos clássicos chineses” e que terá sido composto por volta do século X a.C.

Sobre esta poesia tão antiga, o autor e tradutor traça a comparação com a poesia trovadoresca portuguesa, que começou a ser escrita a partir do século XII e que tinha também o amor e o romance como tema.

Já nesses primeiros poemas chineses se notavam “muitas referências de natureza sexual”, pelo que se pode concluir que não havia pudor ou até timidez neste tipo de expressões. “[A poesia] não esconde praticamente nada. A própria participação da mulher no poema… ela está à espera de um companheiro galante e bonito para haver amor. Isso acontece logo nos primeiros poemas, mais ou menos eróticos, da velha poesia chinesa”, destacou.

“Depois”, frisa António Graça de Abreu, “as coisas vão evoluindo e é preciso considerar [outras questões], que também tem a ver com Confúcio que, de algum modo, subalternizava a mulher, colocando-a uns degraus abaixo do homem, mas no budismo não”.

Certo é que “praticamente até ao século XX a mulher teve sempre pouco valor” na poesia, sendo que, na verdade, “não há muita poesia de amor”. Isto porque a beleza feminina é evidenciada em muitos dos escritos, mas nem sempre há uma elevação da mulher em relação ao homem.

“As mulheres eram compradas e usadas muitas vezes. Mas depois há o encantamento feminino, com as mulheres a serem comparadas com flores de lótus, há toda uma poética do amor… as mulheres aparecem como sendo muito bonitas, muito estilizadas, com uma pele de seda, com um certo comportamento. Mas isso não é muito geral na poesia chinesa, e há muito mais poemas dedicados a outros letrados [mandarins] do que a mulheres que eles amaram.” António Graça de Abreu dá o exemplo do poeta Li Bai, também incluído na antologia, que viveu entre os anos de 701 e 762, e que tinha quatro mulheres.

Porém, apesar destes lugares em que homens e mulheres eram colocados, havia depois algumas excepções na socialização. “A sociedade chinesa é muito curiosa nesse aspecto, porque tem períodos ou momentos de grande liberdade, em que se podia fazer quase tudo. O encantamento da mulher fazia parte da vida dos poetas, mas eles não davam tanta importância a isso como davam à amizade entre mandarins, por exemplo.”

Ainda relativamente às possíveis comparações com a poesia trovadoresca, António Graça de Abreu destaca como podemos encontrar poemas muito parecidos com as Cantigas de Amigo. “Também há na China uma espécie de Cantigas de Amigo, mas é o homem que faz o poema, como se fosse a mulher a falar do companheiro.”

Tal não quer dizer que não tenha havido mulheres a escrever poesia na China antiga, mas são casos muito pontuais. “As poetisas eram, muitas vezes, cortesãs, marginais na sociedade. Mas eram mulheres cultas, que tinham aprendido a escrever. Normalmente, as mulheres não sabiam ler nem escrever, mas as que faziam poemas na China, sobretudo na dinastia Tang, entre os anos de 600 a 900, eram cortesãs e, portanto, meio prostitutas”, explicou.

Estas autoras “muito delicadas, dedicavam poemas inclusivamente aos poetas”. Tinham, portanto, “um núcleo de poetas com quem trabalhavam em amizade”.

“Uma novidade”

António Graça de Abreu assegura que esta obra “é uma novidade em Portugal porque nunca ninguém mexeu neste tema, a poesia erótica chinesa”. Este é, aliás, um resultado de muitos anos de pesquisa.

“Entretive-me a comprar, ao longo destes anos e para fazer este trabalho, uma série de livros de poesia, inclusive dos Estados Unidos da América.”

Relativamente a “O Sonho do Pavilhão Vermelho” é, para o autor, “um romance fabuloso, do século XVIII, um dos grandes romances da literatura universal, mas que está recheado de poemas e alguns eróticos”. “Já Mao Zedong dizia que cada chinês deveria ler cinco vezes o ‘Sonho do Pavilhão Vermelho'”, destaca.

Houve uma época em que na China havia maior liberdade em termos de costumes, e Xangai “era o grande império da prostituição no Extremo Oriente, mas depois praticamente acabaram com a prostituição em Xangai nos anos 50, seguindo os princípios confucianos”.

António Graça de Abreu escreveu no prefácio outra realidade muito comum nos anos da China imperial: as concubinas. “E que dizer da depurada prática sexual de mandarins e príncipes – afastados de qualquer idealismo romântico – que tinham à disposição inúmeras mulheres, esposas, concubinas, cortesãs e prostitutas para amar ou fingir o amor de amar?”.

Graça de Abreu dá o exemplo de um poeta que, com 65 anos, comprou 10 concubinas. “Uma era a boquinha de cereja, e outra a cintura de salgueiro. Ele dizia que, com a cintura de salgueiro, era capaz de subir às árvores. Com 65 anos, está a ver? Portanto, o encantamento da mulher é uma constante em todas as civilizações, mas na China não se nota muito. Foi isso que tentei fazer nesta antologia, indo buscar poemas desde a era de Confúcio até aos nossos dias.”

Na obra constam ainda notas sobre os períodos históricos a que remetem os poemas. Graça de Abreu diz ter procurado assegurar que os poemas “tivessem qualidade em português”, mantendo algum do ritmo do original chinês.

“O poema tem de ter som, algumas rimas internas como tem em chinês. Como tradutor tenho de dar uma volta àquilo, para que fique bonito em português. É isso que me satisfaz, porque consigo dar algum valor ao poema, que, em português, fica com uma leitura agradável.”

Esse é um dos desafios a que António Graça Abreu procura dar sempre resposta. “Se traduzimos mal o poema para português, ou se somos demasiado literários, estamos quase a assassinar o poema, e eu não quero isso, porque são poemas muito bonitos em chinês, com cor, sensibilidade, bom gosto. Ficamos a ver as pessoas à nossa frente”, rematou.

Uma coisa é certa: este livro mostra “que os homens [chineses] sabem amar, e as mulheres também”, remata o autor.

21 Set 2026

Hong Kong | Plano Quinquenal anuncia mais habitação e emprego

Hong Kong anunciou ontem o primeiro Plano Quinquenal e as linhas de acção governativa do território que promete mais habitação, emprego e o desenvolvimento da zona de “Northern Metropolis”. Espera-se “um novo horizonte” para a RAEHK, com a aposta “na reforma e inovação” e o compromisso com políticas que assegurem a qualidade de vida

O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, apresentou ontem o primeiro Plano Quinquenal da região vizinha. Depois de um período de consulta pública, foi divulgado o documento que se foca no emprego e habitação, mas não esquece matérias como a garantia da qualidade de vida, a implementação do princípio “um país, dois sistemas” ou ainda o reforço de medidas securitárias.

Segundo a agência Reuters, John Lee prometeu a construção de 196 mil casas públicas em cinco anos, que deverá dar tecto a 2,5 milhões de pessoas. O Governo garantiu também que irá incentivar, em matéria de habitação, a “mobilidade ascendente”, com o objectivo de “melhorar a escada habitacional para promover a aquisição de casa própria entre os jovens”, disse o governante.

Pretende-se, neste contexto, fomentar o desenvolvimento da área de Northern Metropolis, com cerca de 30 mil hectares e que fica muito perto do território chinês. A ideia é que a zona venha a “reforçar as ligações tecnológicas e económicas com o continente, com o objectivo de criar empregos e habitação”, descreveu a Reuters.

Sobre o projecto, John Lee declarou que irá “reforçar ainda mais a competitividade global e o dinamismo de Hong Kong para um desenvolvimento sustentável”.

Nos próximos dez anos, a oferta de habitação será dividida nas seguintes proporções: 40 por cento das casas públicas para arrendamento, 30 por cento de habitação subsidiada e outros 30 por cento de habitação destinada ao mercado privado.

O documento traça objectivos para os anos de 2026 a 2030, visando “abrir novos horizontes e iniciar um novo capítulo” para o território, lê-se no website oficial do Plano Quinquenal. A Autoridade de Renovação Urbana planeia gastar cerca de 40 mil milhões de dólares de Hong Kong nos próximos cinco anos “em iniciativas de renovação urbana”, lê-se no Plano.

“Tendo em conta o ano de início do 15º Plano Quinquenal [da China], este inaugural Plano Quinquenal da RAEHK está formulado para, de forma pró-activa, se alinhar com as estratégias nacionais de desenvolvimento e uma melhor integração” no país, pode ler-se.

Há sete princípios definidos: “adesão ao princípio ‘um país, dois sistemas'”; “manter o compromisso” com a garantia de qualidade de vida no território; a liderança do poder Executivo, a aposta “na reforma e inovação”; a intenção de uma “dupla abordagem” nas ideias de um “mercado eficiente” e um “Governo capaz”. Pretende-se ainda, dentro destes princípios, “adoptar uma aproximação holística nas áreas do desenvolvimento e segurança”; além de se adoptar “um planeamento pragmático e pró-activo”.

Finanças são o caminho

John Lee assegurou que Hong Kong irá, com o Plano Quinquenal, “reforçar o seu papel enquanto centro global de negócios offshore em renminbis, como centro internacional de gestão de activos e património, e também como centro internacional de gestão de riscos”.

Pretende-se o desenvolvimento de “um ecossistema de comércio de matérias-primas, alinhando-se os serviços financeiros com as necessidades da economia real”, declarou o governante.

Segundo a Reuters, o Chefe do Executivo da região vizinha anunciou, para o primeiro trimestre do próximo ano, a criação do primeiro sistema central de compensação e liquidação de ouro da cidade. Além disso, a Autoridade Monetária de Hong Kong planeia implementar, até ao final deste ano, a liquidação através de moeda digital do banco central, acrescentou John Lee.

Tendo em conta a importância do território para a transacção de mercadorias, o Plano Quinquenal contém a medida de transformar Hong Kong num “superconector” entre regiões, sobretudo com a Grande Baía. “Vamos acelerar o alinhamento com as principais estratégias nacionais no domínio da tecnologia”, disse o Chefe do Executivo. As grandes áreas de cooperação passam pela melhoria da qualidade de vida, cuidados de saúde, inteligência artificial, robótica e microelectrónica, entre outras.

No contexto da Grande Baía e integração regional, o que se pretende é a “‘conectividade dos corações’ entre os residentes de Guangdong, Hong Kong e Macau”, através do “reforço da cooperação das instituições do ensino superior de Hong Kong” com as restantes regiões, a fim de “cultivar a junção de talento e cooperações entre Guangdong e Hong Kong”.

Pretende-se, a este nível, “abrir horizontes para que os mais jovens possam desenvolver as suas carreiras” na Grande Baía, que inclui as duas regiões administrativas especiais e mais nove cidades da província chinesa.

Criar uma nova marca

Se Macau está a criar a sua Cidade Universitária em Hengqin, também Hong Kong tem planos para desenvolvimento a área do ensino superior. O Plano Quinquenal apresenta projectos para três áreas destinadas à instalação de campus universitários, criando a marca “Study in Hong Kong” [Estudar em Hong Kong] para atrair estudantes de todo o mundo, incluindo “talentos não locais”.

John Lee indicou também que a ideia é “desenvolver um centro internacional de inovação e tecnologia (IT)”, criando-se um modelo “assente em três grandes parques de IT e cinco instituições-chave na investigação e desenvolvimento”. Em causa está o Parque de Hong Kong da Zona de Cooperação de Inovação Científica e Tecnológica Hetao Shenzhen-Hong Kong e o San Tin Technopole; o Science Park e o Cyberport. Por sua vez, estabelece-se a ligação com cinco instituições – Hong Kong Productivity Council, o Hong Kong Applied Science and Technology Research Institute, o Hong Kong Microelectronics Research and Development Institute, o Hong Kong Artificial Intelligence Research and Development Institute e o Life and Health Technology Research Institute. A ideia é “reforçar o sistema público de investigação e a eficácia do quadro de inovação e tecnologia”.

De frisar que, com estes planos de mudanças a nível político e económico, as autoridades da RAEHK pretendem criar 650 mil empregos.

John Lee referiu que um dos grandes objectivos do plano, e também do Executivo, é “melhorar o bem-estar da população”, definindo-se medidas nas áreas da “educação, desenvolvimento dos jovens e mulheres” e ainda o “reforço do apoio aos grupos desfavorecidos”.

Na área da saúde, por exemplo, planeia-se “avançar com o desenvolvimento de infra-estruturas de cuidados de saúde”, no âmbito do Primeiro Plano de Desenvolvimento Hospitalar [First Hospital Development Plan]. Este tem por objectivo aumentar o número de camas nos hospitais públicos para 35 mil em 2031.

Hong Kong também se depara com uma baixa taxa de natalidade e, a pensar nessa problemática, a linha de acção governativa inclui a extensão, por mais três anos, do incentivo de 20 mil dólares de Hong Kong para quem tenha o primeiro filho. Caso haja mais filhos, esse valor aumenta para 30 mil dólares de Hong Kong, sendo também concedidos subsídios para crianças, deduções fiscais e criados centros adicionais de cuidados infantis.

Na área do ensino não superior, Hong Kong quer apostar “na integração progressiva da inteligência artificial (IA) na aprendizagem, ensino e avaliação”. Pretende-se, assim, “promover a educação digital para o reforço da aprendizagem dos alunos na matemática, ciências e tecnologia”, além de se criar “mais espaço” para a inovação.

17 Set 2026