Hoje Macau Grande PlanoVaticano | Papa Leão XIV passou noite tranquila após cirurgia O Papa Leão XIV passou uma noite tranquila no hospital Gemelli, após a cirurgia para remover o lobo inferior do pulmão direito e a confirmação de um diagnóstico de cancro, informou o Vaticano. Num comunicado ontem divulgado, o Vaticano remeteu mais informação para mais tarde. Segundo as informações do boletim médico divulgado depois da cirurgia, na terça-feira, os exames confirmaram o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, o que obrigou a remover o lobo inferior do pulmão direito. Na mesma nota, o Vaticano indicava que a suspeita do diagnóstico tinha surgido em exames pré-operatórios e foi confirmada durante o procedimento cirúrgico, que durou 90 minutos. Na segunda-feira, o Vaticano cancelou todas as audiências do Papa até ao próximo dia 20 de Outubro. Nódulo retirado A cirurgia a que foi submetido esta terça-feira, 13 de Outubro, para remover um nódulo no pulmão foi concluída com resultado positivo. A informação foi divulgada na terça-feira pela Sala de Imprensa da Santa Sé. “A intervenção foi concluída positivamente, nos tempos e nos modos previstos, e o Santo Padre regressou ao quarto. Seguir-se-ão mais informações”, informou então o Vaticano. O pontífice, de 71 anos, foi operado no Hospital Universitário Gemelli, em Roma. A intervenção foi realizada pela equipa de cirurgia torácica liderada pelo professor Stefano Margaritora. O nódulo pulmonar tinha sido detectado durante exames médicos de rotina. Leão XIV anunciou no domingo que a lesão estava localizada e tinha sido identificada numa fase inicial, tendo decidido avançar com a cirurgia por recomendação médica. Antes da operação, o Vaticano indicou que o Papa deveria permanecer internado durante cerca de uma semana. Leão XIV tornou-se o líder de 1,4 mil milhões de católicos em todo o mundo – e o primeiro Papa norte-americano da história – a 08 de Maio de 2025, após o falecimento, aos 88 anos, do argentino Papa Francisco. Embora menos exuberante que o antecessor, Leão XIV imprimiu gradualmente o seu próprio estilo à liderança da Igreja Católica, abordando algumas das questões mais prementes a nível mundial, dos conflitos mortíferos à Inteligência Artificial.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivro | Daniel Pires lança biografia de Bartolomeu Lourenço de Gusmão Há 300 anos morreu o padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Homem de múltiplos feitos, falou de uma “máquina que voa” ao rei D. João V e foi perseguido pela Inquisição. Daniel Pires acaba de lançar “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, editado pela Imprensa Nacional A história de vida de Bartolomeu Lourenço de Gusmão acaba de chegar ao público em formato de livro. O projecto editorial, assinado por Daniel Pires, estudioso de Camilo Pessanha, conta a complexa vida do inventor da “passarola”. “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, tem edição da Imprensa Nacional e é lançado numa altura em que passam 300 anos sobre a morte do padre que teve muitas facetas, incluindo a de assessor do rei D. João V, e que morreu em Toledo, Espanha, com apenas 38 anos. Ao HM, Daniel Pires explica como iniciou a investigação para o livro. “Ele era um jovem luso-brasileiro, nascido em Santos, que na altura era uma vila piscatória, numa família de doze irmãos, todos católicos. Fez a instrução primária em Santos, depois foi para um seminário de jesuítas, e aos 20 anos percebe que não tem mais hipótese de evoluir e decide vir para o então continente [Portugal], com uma cunha do governador do Brasil, conseguindo que o rei [D. João V] o chamasse.” É na primeira audiência com o monarca que Bartolomeu de Gusmão fala da sua “passarola” e de como podia ajudar o rei a comunicar com as então colónias, dispersas por África, Ásia e América do Sul. “O rei queria saber coisas do Brasil, que não conhecia. Fez perguntas sobre os índios, a alimentação, a escravatura, o ouro. Às tantas, Bartolomeu de Gusmão, que era, na altura, um miúdo de 23 anos, consegue dizer ao rei: ‘Vossa Excelência conhece a locomoção terrestre, o ser humano desloca-se por terra e por mar, mas eu sei que o ser humano também se pode deslocar pelo ar, e tenho a possibilidade de fazer uma máquina que voa'”. O encontro com D. João V Segundo Daniel Pires, o padre inventor terá dito que, com esta máquina, era possível ir além do “país imenso” que era Portugal, já que se consideravam as colónias como parte do território. “Disse ao rei que ele podia governar mais facilmente se tivesse este engenho aeroestático, que levasse as ordens às colónias portuguesas, e que depois poderia transportar mercadorias, fazer negócios”, aponta o autor. D. João V, perante esta novidade, ficou “admiradíssimo”. “Estamos a falar da primeira máquina que voava no mundo, não apenas em Portugal. Ainda por cima, apresentava esta possibilidade de Portugal ganhar a guerra com Espanha [Guerra da Sucessão Espanhola, entre os anos de 1704–1715] e resolver esse problema, pois Portugal sofria com uma derrota pesadíssima”, acrescentou. Neste encontro com D. João V, que decorreu no ano de 1709, foi exigido a Bartolomeu de Gusmão que apresentasse, então, um desenho que explicasse como construir a “passarola”. “O rei reuniu físicos, matemáticos, químicos portugueses, e cinco dias depois o projecto estava aprovado. Gerou-se depois [um debate]: por um lado, havia pessoas retrógradas, mais concretamente a Igreja, desconfiados; e havia ainda quem apoiava Bartolomeu de Gusmão. Mas quem estava do lado da Igreja foi à Bíblia, e pensou: ‘locomoção pelo ar? Quem é que se desloca pelo ar na Bíblia? Os anjos’. Como a Bíblia não faz referência a máquinas aéreas, acharam que Bartolomeu de Gusmão tinha relações com bruxas, um pacto com o demónio. A partir daí, perseguiram-no a vida inteira.” Múltiplas fugas Bartolomeu de Gusmão teve de “fugir várias vezes”, perseguido pela Inquisição. “Ao fim de três meses, a máquina aeroestática subiu cerca de quatro metros e despenhou-se, incendiou-se. Então as más-línguas, e pessoas mal-intencionadas, disseram que ele, além de ter um pacto com o demónio, também queria criar uma máquina armada para subjugar os países católicos, neste caso Espanha, Portugal, França e Itália. Então, a partir daí, deu-se uma perseguição constante e [Bartolomeu de Gusmão] acabou por fugir de vez para a Holanda, onde foi inventando outras máquinas, outras coisas.” Uma destas coisas foi o registo “da patente de uma máquina hidráulica”. O padre fez ainda estudos em França, Holanda e Inglaterra. Porém, D. João V nunca deixou de acreditar imaginativo clérigo, e acabou por o chamar de volta a Portugal, regresso que permitiu a Bartolomeu de Gusmão estudar Direito Canónico na Universidade de Coimbra. “Criou-se uma amizade muito forte entre ele e o rei, que sempre confiou nele”, disse Daniel Pires. É então que Bartolomeu de Gusmão se torna secretário de D. João V. Apesar da posição, continuaria a ser perseguido e acusado das mais variadas coisas, inclusivamente de ser judeu. Porém, D. João V nunca acreditou nestas acusações e diz a Bartolomeu de Gusmão para fugir, pois havia o risco de ser queimado em praça pública pela Inquisição, como era costume à época. A denúncia dos jesuítas A figura de Bartolomeu de Gusmão ficou para sempre no imaginário português, ao ponto de José Saramago, escritor e Prémio Nobel da Literatura, ter criado um personagem inspirado nele, o “padre voador”. “[Saramago] criou um personagem muitíssimo bem-criado de acordo com os parâmetros históricos, pois tanto a história de Bartolomeu de Gusmão como a reconstituição da sociedade da época estão muito bem feitos no livro”, disse. Há muitas referências que falam de Bartolomeu de Gusmão enquanto padre jesuíta, mas a obra de Daniel Pires prova que este nunca entrou na Companhia de Jesus que, aliás, o terá denunciado à Inquisição. “Foi algo grave, o facto de a própria Companhia de Jesus ter denunciado Bartolomeu de Gusmão à Inquisição. Havia ali grandes divergências, pois nunca aceitaram que ele não tenha querido entrar na Companhia de Jesus. Mas também desconfiavam bastante daquela máquina aerostática.” Falamos de um “tempo difícil para os visionários”, com um grande poder da Igreja Católica. “Depois da morte de Bartolomeu de Gusmão o seu nome continuou a ser proibido. Estamos a falar do primeiro inventor de balões, do primeiro cientista das Américas.” Esta não foi a primeira vez que Daniel Pires fez a incursão no mundo deste padre inventor, já que, no ano passado, reuniu num livro toda a sua obra. O livro “Obra de Bartolomeu de Gusmão” nasceu de uma busca incessante de Daniel Pires pelos seus papéis. “Quando vi que ele tinha sido perseguido pela Inquisição e que tinha morrido em Espanha, vi que não havia praticamente quaisquer papéis e documentos dele. Há cerca de dois anos e meio resolvi investigar porquê. A Inquisição não queimou os papéis de amigos e familiares, existindo cópias, e foi a partir daí que comecei a trabalhar, reunindo toda a obra dele, 15 inéditos.” Este foi o resultado de uma pesquisa feita por vários arquivos em Portugal, incluindo a Torre do Tombo, assim como arquivos em Espanha, França e Inglaterra. “Trata-se de uma obra muito diversificada, que inclui poesia, filosofia, ciência. Ele também foi jurista e historiador, e fazia, por exemplo, os códigos cifrados dos documentos diplomáticos portugueses. Era também um grande matemático”, rematou Daniel Pires. Bartolomeu de Gusmão teve uma vida curta, falecendo de febres em Toledo com apenas 38 anos.
Hoje Macau Grande PlanoFMI | Resiliência financeira global está a “chegar ao limite” A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Silvana Tenreyro, alertou ontem que, apesar de a economia mundial ter resistido a “guerras, inflação e turbulência financeira”, este ano, essa capacidade de adaptação está a “chegar ao limite”. Numa conferência de imprensa para anunciar o novo relatório World Economic Outlook, durante as Reuniões Anuais do FMI e do Banco Mundial em Banguecoque, Tenreyro defendeu que os governos mundiais “devem passar de uma lógica de resposta aos choques para uma estratégia de reconstrução”. O FMI prevê um crescimento global de 3,1 por cento em 2026, antes de acelerar para 3,4 por cento em 2027, enquanto a inflação mundial deverá subir para 4,7 por cento este ano e recuar para 4,1 por cento no próximo. Segundo Tenreyro, o aumento dos preços da energia e das matérias-primas associado aos conflitos geopolíticos está a travar a actividade económica, ao mesmo tempo que o boom da inteligência artificial (IA) impulsiona o comércio, o investimento e o crescimento. “Estas forças da procura e da oferta puxam a actividade em direcções opostas”, afirmou. “Mas ambas exercem pressão ascendente sobre a inflação”, continuou. A responsável alertou que a evolução da economia mundial está a tornar-se cada vez mais desigual. Os países exportadores de energia e os mais integrados nas cadeias tecnológicas ligadas à IA deverão beneficiar, enquanto os importadores de energia e as economias menos expostas ao sector tecnológico enfrentam perspectivas mais difíceis. Perigos no caminho O FMI identificou três riscos principais para os próximos anos: uma nova escalada dos preços da energia, uma eventual correcção das expectativas em torno da inteligência artificial e o agravamento das fragilidades orçamentais. Tenreyro salientou que os mercados energéticos conseguiram absorver parte do impacto dos conflitos graças ao redireccionamento dos fornecimentos, ao aumento da produção noutros países e aos ganhos de eficiência. “Sem estas margens de ajustamento, estimamos que o crescimento mundial deste ano teria sido de 2,5 por cento em vez de 3,1 por cento “, disse a economista-chefe do FMI. Contudo, advertiu que algumas dessas almofadas de protecção estão a enfraquecer. “As reservas acumuladas e os ganhos de eficiência energética estão a chegar aos seus limites”, afirmou. A economista destacou igualmente o papel da IA como motor do crescimento recente, mas alertou para os riscos de dependência excessiva. “As cadeias de abastecimento da IA estão altamente concentradas em poucos países, sectores e empresas, o que cria potenciais estrangulamentos”, disse, acrescentando que uma reavaliação das expectativas sobre a rentabilidade da tecnologia poderá afectar o crescimento e a estabilidade financeira. Perante este cenário, o FMI defende uma política orçamental mais prudente. “Os países com elevados níveis de dívida e défices precisam de iniciar uma consolidação orçamental e garantir que os défices e, em última análise, a dívida seguem uma trajectória descendente”, afirmou Tenreyro. A responsável apelou ainda aos bancos centrais para manterem o foco no combate à inflação. “A política monetária deve permanecer firmemente orientada para a estabilidade dos preços” e “mais do que nunca, a independência dos bancos centrais é vital para atingir as metas de inflação”, declarou. “Precisamos de restaurar o espaço orçamental e reconstruir a resiliência do lado da oferta, para que os países estejam mais bem preparados para enfrentar futuros choques e garantir um crescimento sustentável”, concluiu.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteUniversidade de Macau | Plano de Desenvolvimento prevê 25 mil alunos em 2031 Foi apresentado, na sexta-feira, o “Plano de Desenvolvimento a 5 Anos” da Universidade de Macau, que traça a estratégia até ao ano lectivo 2030-2031, quando se prevê a inscrição de 25 mil alunos. Na futura Cidade Universitária Macau-Hengqin vão funcionar as Faculdades de Medicina, Ciências da Informação e da Computação, Engenharia e Design A Universidade de Macau (UM) planeia ter uma população estudantil de 25 mil pessoas daqui a cinco anos, ou seja, no ano lectivo de 2030-2031, e de 20 mil alunos já em 2028. Em 2030, espera-se chegar aos 22 mil alunos. Actualmente, a UM tem cerca de 16.900 alunos. Esta é uma das ideias constantes no “Plano de Desenvolvimento para 5 anos [Five Year Development Plan], pensado para um período compreendido entre os anos lectivos de 2026-2027 e 2030-2031, e que foi apresentado na sexta-feira. Com o mote “Uma Universidade, Dois Campus”, o documento apresenta as linhas mestras do que pretende ser um “desenvolvimento coordenado” entre o actual campus em Hengqin e a futura Cidade Universitária Macau-Hengqin, a funcionar na Zona de Cooperação Aprofundada de Guangdong e Macau em Hengqin. Em relação ao funcionamento dos cursos, o actual campus, em Hengqin, irá gerir as Faculdades de Letras e Humanidades, Gestão de Empresas, Educação, Direito, Ciências Sociais e Ciências, enquanto que na Cidade Universitária serão acolhidas as Faculdades de Medicina – cujos cursos de licenciatura e mestrado integrado serão ministrados em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa – Ciências da Informação e da Computação, Engenharia e Design. A UM tem como objectivo “construir um sistema equilibrado e integrado de desenvolvimento de talentos”, com o “reforço das ciências, engenharia, medicina e farmácia”. A instituição quer “priorizar o desenvolvimento dos currículos” nestas áreas. Mostrando como a investigação é apontada como uma das áreas-chave, o “Plano de Desenvolvimento a 5 Anos” visa que a UM seja uma instituição de ensino que reflecte “a mistura de estudantes numa universidade de investigação multidisciplinar”. “A proporção de estudantes de pós-graduação será mais de 50 por cento do total da população estudantil, com o rácio de 1:1 de estudantes de humanidades e ciências sociais em relação aos estudantes de engenharia, medicina e farmácia”, é acrescentado. Na conferência de imprensa de apresentação do plano, o reitor da UM, Song Yonghua, disse que o futuro traçado pelo documento para o futuro da universidade está alinhado o 15.º Plano Quinquenal do país e com o Terceiro Plano Quinquenal da RAEM. Para alcançar Outro dos motes para o desenvolvimento da universidade nos próximos cinco anos assenta nas siglas “R.E.A.C.H.”, que significam, segundo um comunicado da UM, “integração de recursos”, “foco na excelência”, “orientação para a ambição”, “foco na colaboração” e “alto impacto”. O “foco na excelência” significa que a UM quer posicionar-se ao lado das “universidades de investigação multidisciplinar que são líderes a nível mundial”, contribuindo “para a diversificação adequada da economia de Macau, o desenvolvimento da Grande Baía e as estratégias prioritárias” do país. Outro dos objectivos passa pelo “reforço da reputação internacional” da instituição de ensino, bem como “expandir a influência global”. A UM quer funcionar, no futuro, com o modelo “uma universidade, dois campus”, entrando “numa fase mais madura e aperfeiçoada”, mas mantendo as raízes em Macau. Outro dos planos é a expansão da rede de Colégios Residenciais, “transformando-a numa rede educativa composta por 20 colégios distribuídos por dois campus”, alargamento que tem como objectivo “melhorar a qualidade do ensino de pós-graduação”. Foco na investigação Para mostrar como a área da investigação será uma das mais importantes no desenvolvimento da universidade, o reitor explicou que os “três laboratórios-chave estatais” serão “o núcleo da estratégia de investigação”, pretendendo-se “promover a colaboração entre os laboratórios e institutos de investigação, reforçando a base da investigação para gerir resultados mais originais e inovadores”. A UM tem actualmente a funcionar o Laboratório de Referência do Estado para Mecanismo e Qualidade da Medicina Chinesa, Laboratório de Referência do Estado de Microelectrónica Analógica e Mista e ainda o Laboratório de Referência do Estado para a Internet das Coisas aplicada a Cidades Inteligentes. Todos aprovados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia da República Popular da China. Na mesma nota, a UM destaca o desenvolvimento de “plataformas de investigação de grande envergadura em áreas-chave como a incluindo inteligência artificial e ciências do cérebro, ciências biomédicas, engenharia médica inteligente, bem como energia e neutralidade carbónica”. O Instituto de Investigação Avançada da Universidade de Macau em Hengqin será transformado “no principal centro de transformação” ao nível da investigação e colaboração entre instituições, com maior conexão às indústrias e economia local. Amigos ibéricos No que diz respeito à expansão internacional, os países de língua portuguesa e espanhola surgem no topo das prioridades. “A UM vai criar um sistema de inovação aberto, em formato colaborativo e internacional, através da colaboração com universidades e empresas de renome a nível nacional e internacional, bem como com redes de inovação em países de língua portuguesa e espanhola.” Assim, a “prioridade” será dada “a parcerias com instituições em países de língua portuguesa, espanhola e inglesa, países ao longo da iniciativa ‘uma faixa, uma rota’ e países vizinhos da região da Ásia-Pacífico”. Na mesma nota, é explicado que a UM vai “reforçar a colaboração com universidades de referência na China continental e na RAEHK”, sendo que instituição de ensino superior promete ter “quatro dimensões da internacionalização”. Para ter maior projecção global, a UM quer ter “um corpo docente internacional, programas internacionalizados” mais intercâmbio e estudantes estrangeiros, “com vista a aprofundar a colaboração de projectos”. Salienta-se “a oferta de programas internacionais em todas as faculdades, institutos e colégios residenciais”, dando “prioridade ao desenvolvimento de programas internacionais com duplo grau nas Faculdade de Medicina, Faculdade de Ciências da Informação e Computação, Faculdade de Engenharia e Faculdade de Design”, na futura Cidade Universitária. O reitor da UM explicou que, nos próximos cinco anos, será dada “prioridade ao desenvolvimento do campus na Zona de Cooperação Aprofundada”, prevendo-se que a Cidade Universitária entre em funcionamento parcial em 2028, “estando totalmente concluído em 2029”. Song Yonghua disse que a UM “vai continuar a promover um desenvolvimento integrado na educação, ciência, tecnologia e recursos humanos, assumindo um papel mais pró-activo nos contributos para o desenvolvimento nacional”.
Hoje Macau Grande PlanoIA | Obama aponta “grande desafio” na coordenação entre EUA e China sobre IA O antigo Presidente norte-americano Barack Obama defendeu sábado, em Lisboa, a necessidade de regular a inteligência artificial a nível internacional, mas reconheceu que será “um grande desafio”, apontando a falta de confiança entre Estados Unidos e China. “Ainda não temos as guias de segurança de que precisamos. [A regulação] tem de começar nos Estados Unidos, a China é outro país”, comentou o 44.º Presidente dos Estados Unidos (2009-2017) e Nobel da Paz 2009, numa conversa no final da sexta edição do Game Changers Forum, no Meo Arena, perante uma plateia de mais de 10 mil pessoas, segundo a organização. Obama apontou EUA e China como os países mais avançados em termos de inteligência artificial (IA), mas ressalvou que “não há neste momento muita confiança entre eles”. “Temos de regular e coordenar entre nações e isso vai ser um grande desafio”, comentou. O antigo Presidente democrata advertiu que a evolução tecnológica vai provocar “uma enorme mudança, a nível económico, social e político, mas vai acontecer em 10 anos, não em 30 ou 50 anos”. “O problema”, disse, “é que a tecnologia move-se muito depressa, mas os governos e as sociedades movem-se devagar”, defendendo a necessidade de criar “um quadro regulatório” para responder a “assuntos sérios sobre segurança”. Os modelos de inteligência artificial avançam em três meses e ensinam-se a si próprios, acrescentou. “Alguém pode entrar no sistema financeiro ou de controlo de tráfego aéreo. Alguém pode desenvolver uma nova pandemia, um patógeno”, comentou. Insubstituíveis Mas, sublinhou, há realidades em que as máquinas nunca poderão substituir os humanos, como a educação ou cuidados de enfermagem. “O problema é que, como sociedade, desvalorizámos essas profissões. Os benefícios podem ser sempre monetizados e [estas tarefas] não dão um grande lucro. Historicamente, as mulheres têm estado de forma desproporcionada nessas profissões e não lhes pagamos como devíamos pagar”, reconheceu, recebendo novamente fortes aplausos. “Temos de reavaliar o que valorizamos e o que tem maior posição nas nossas sociedades”, considerou. Além disso, sublinhou, “outra coisa que as máquinas não podem fazer é ter discernimento e sabedoria”. “Há coisas em que há uma solução muito estreita e em que as máquinas serão melhores”, admitiu, salientando que “o que é unicamente humano é ter discernimento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo que seja um estranho, ter um sentido de perspectiva”. “Talvez a máquina pense que deve fazer da forma mais eficiente, mas se calhar não queremos eficiência em certas coisas”, acrescentou. Obama começou a sua intervenção a agradecer em português ao público, que o aplaudia de pé, e recordou que a sua administração foi a que teve mais luso-americanos, como o director político, o secretário da Energia ou o fotógrafo oficial. E, “mais importante”, os seus dois cães Bo e Sunny, da raça cão de água português.
Hoje Macau Grande PlanoCiência | Nobel da Física atribuído a investigação de neutrinos O Prémio Nobel da Física foi atribuído ao belga Francis Halzen pelos seus contributos decisivos para a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica, anunciou ontem a Real Academia Sueca de Ciências. A secretária-geral da academia, Ellen Moons, anunciou que o prémio é sobre “mensageiros-fantasma do espaço” e distingue o professor da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, pelos seus contributos para o Observatório de Neutrinos IceCube, instalado no Polo Sul. “Francis Halzen liderou uma equipa internacional de investigadores e engenheiros que nos forneceram um instrumento fantástico. A sua tenacidade e visão científica abriram caminho para um novo tipo de astronomia”, explicou o presidente do comité Nobel da Física, Mark Pearce, num comunicado publicado no ‘site’ do Prémio Nobel. Nascido na Bélgica, o cientista de 82 anos descobriu que o gelo no Polo Sul pode ser usado para rastrear partículas conhecidas como neutrinos que, embora muito abundantes no universo, são extremamente difíceis de detectar. O prémio foi ontem anunciado no Instituto Karolinska, em Estocolmo, e é o segundo dos Nobel a ser anunciado, depois do da Fisiologia ou Medicina, que na segunda-feira foi atribuído ao norte-americano Karl Deisseroth e aos alemães Peter Hegemann e Georg Nagel pela sua investigação sobre canais iónicos sensíveis à luz e optogenética.
Hoje Macau Grande Plano5 de Outubro | Seguro apela à responsabilidade de todos os que exercem funções públicas O Presidente da República, António José Seguro, apelou ontem à responsabilidade de todos os que exercem funções públicas, no seu primeiro discurso no Dia da República, em que alertou para a erosão da confiança nas instituições. Na cerimónia comemorativa do 116º aniversário da implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa, António José Seguro defendeu que “quando o Estado pede aos cidadãos confiança, tem de ser o primeiro a entregar-lhe essa confiança”, e que “em demasiadas situações isso não está a acontecer”. O chefe de Estado apontou como exemplos “decisões administrativas tardias, licenciamentos que levam tempos infinitos, apoios que tardam, processos judiciais que se eternizam” e considerou que “daí decorre que um dos perigos que ameaça a República é a erosão da confiança na integridade e eficácia das instituições”. “Apelo à responsabilidade de todos aqueles que exercem funções públicas. Defender o prestígio das instituições é essencial para garantir a confiança dos cidadãos na República”, afirmou, em seguida. António José Seguro referiu que “não compete ao Presidente da República substituir-se aos outros órgãos de soberania, nem impor ao país uma visão particular”, mas sim “respeitar a Constituição, exercer os seus poderes com independência e contribuir para que as instituições cumpram as suas responsabilidades”. “Compete-lhe, também, lembrar que há princípios que devem estar acima das divergências políticas: a dignidade humana, a liberdade, a igualdade, a justiça e o respeito pelo Estado de direito. É com este espírito de exigência que assumo o meu compromisso de trabalhar para que as futuras gerações recebam um país mais próspero, mais justo e mais coeso”, acrescentou. Saída das trincheiras O Presidente da República pediu ainda uma nova cultura política de compromissos interpartidários para várias legislaturas, defendeu a importância da estabilidade política e saudou a aproximação entre Governo PSD/CDS-PP e PS sobre o Orçamento do Estado. António José Seguro insistiu na necessidade de “soluções duradouras” e exortou os actores políticos a abandonarem “uma cultura de trincheiras” e adoptarem “novos comportamentos”. “Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal. Agir sobre o curto prazo com uma ideia de futuro para Portugal obriga a políticas públicas que se apliquem em várias legislaturas. Não podemos estar sempre a voltar ao início”, afirmou. António José Seguro acrescentou: “Não podemos estar sempre a voltar ao início, só porque se mudou uma legislatura. Os partidos políticos, os parceiros sociais e outros actores da sociedade têm de entender-se sobre os caminhos fundamentais para o nosso desenvolvimento. Não há tempo a perder”. “A esse propósito, saúdo o Governo e o PS pelo caminho de aproximação que têm vindo a fazer tendo em vista a aprovação do Orçamento do Estado para o próximo ano. Oxalá outros partidos possam juntar-se a este caminho de compromisso e de convergência neste e noutros processos legislativos. Como sempre disse, tanto se serve Portugal no Governo como na oposição”, declarou, mais à frente.
Hoje Macau Grande PlanoLídia Jorge toca leitor da China ou Portugal com as mesmas inquietações, diz tradutora da obra para mandarim Reportagem da Catarina Domingues e fotos da Gonçalo Lobo Pinheiro da agência Lusa A tradutora chinesa de “Misericórdia”, Han Lili, considera que Lídia Jorge aborda temas que falam diretamente aos leitores na China, como o envelhecimento, e que a “mestria literária” da autora permite anular distâncias geográficas e culturais. À noite, Han Lili voltava sempre ao texto, para o rever e polir. Queria preservar a força da escrita de Lídia Jorge – delicada, embora atravessada por “um toque afiado”. No processo de revisão de “Misericórdia” (D. Quixote, 2022), lembra agora a tradutora em entrevista à Lusa, foram várias as vezes que selecionou aquelas que considerava serem as melhores linhas da obra, para de novo transformá-las. “Tentei transmitir na escrita esse toque afiado, dentro de um rio muito suave. Tentei, por vezes, picar os leitores”, nota a tradutora da versão chinesa do mais recente livro de Lídia Jorge, lançado em agosto, em Xangai, pela editora Century Wenjing. A obra percorre o último ano de vida de Maria Alberta (ou dona Alberti) num lar de terceira idade, na sombra da covid-19. Em estrutura de diário, o romance atende a um pedido da mãe da autora, que, internada numa instituição para idosos, lhe pediu que escrevesse um livro intitulado “Misericórdia”. À primeira leitura, Han Lili sentiu-se “em sintonia” com a expressão literária da autora. Destaca também o poder reparador da narradora-protagonista – “não sou tão cínica como Alberti, mas um cinismo construtivo poderá ser uma cura para nos proteger”. Toda a humanidade cabe dentro deste ‘Hotel Paraíso’, diz. Aí convergem as sete dezenas de habitantes temporários, aqueles que veem o tempo esgotar-se, e ainda os que aí trabalham, os cuidadores, muitos deles trabalhadores migrantes, e que vivem “em situação miserável”. “É, aliás, uma voz feminista, com a qual me identifico”, assume Han. Lídia Jorge trabalha temas que falam à sociedade chinesa. Han Lili diz que, apesar de Portugal e a China viverem contextos culturais distintos, nomeadamente no que diz respeito às expectativas familiares, ao dever dos descendentes e à forma como a sociedade lida com o envelhecimento, “existem pontes universais que sobrepõem essas diferenças”. O ponto de união mais forte, observa, é a própria condição humana e a urgência do tema do envelhecimento. A terceira idade tornou-se “um debate central e premente na China”, explica a também professora da Universidade Politécnica de Macau. “Se existe um ponto de afastamento ou de estranheza inicial, este residirá talvez nas diferentes matrizes socioculturais do acolhimento aos idosos. Na tradição chinesa, o conceito de piedade filial ainda carrega uma forte expectativa de recolhimento no seio familiar intergeracional”, completa, notando, porém, que hoje a situação está a mudar. A “mestria literária” de Lídia Jorge tem a capacidade de “anular distâncias geográficas e culturais, permitindo que um leitor na China ou em Portugal se comova exatamente com as mesmas inquietações”, considera Han Lili, natural da província de Heilongjiang, nordeste chinês, e a viver em Macau há mais de 20 anos. Mas a obra chegou às mãos da académica repleta de provações, algumas em forma de poesia, outras relacionadas com técnicas de tradução. As passagens dedicadas às insónias da protagonista representaram um “desafio colossal”, lembra. No texto original, a autora recorre à personificação, referindo-se à “insónia” ou à “noite” através do pronome pessoal feminino “ela”. No entanto, em determinados momentos, a presença simultânea da filha de dona Alberti tornava difícil para o leitor perceber se o “ela” se referia à figura humana ou à entidade abstrata da noite/insónia. “Vi-me na contingência de optar pela forma neutra [da terceira pessoa do singular; usada por exemplo para animais] ao longo de todo o romance — sacrificando, com algum pesar, a personificação feminina, embora continue convicta de que esta última seria a solução estilisticamente mais rica e bela para a tradução”, conta. Um momento que marcou Han Lili foi quando a protagonista entra em greve de fome, num derradeiro ato de resistência, desencadeado por uma sequência de perdas. Numa época em que a privação alimentar está muitas vezes associada a objetivos estéticos, Han Lili considera que Lídia Jorge transforma a fome num gesto de dignidade – “o único território onde a idosa pode gritar a sua liberdade”. Passar a obra e estas reflexões para o chinês, e para uma geografia tão distante, serviu vários propósitos, admite a académica, seja ao nível da capacidade vocabular como da própria forma de olhar para o ato de envelhecer. “Ao testemunhar através do texto a resiliência intransigente de uma idosa de noventa anos, que mesmo no limite das suas forças recusa render-se (…), compreendi que todas as provações e tormentos que enfrentamos na vida não são em vão: servem como experiências de aprendizagem que nos temperam o espírito e nos permitem ascender ao sublime”, refere. E é uma obra que vive, sim, de esperança. Um sentimento que talvez perpassa de forma mais óbvia na capa da versão chinesa, batizada com o título “Tão pequeno é o cuco, tão orgulhoso ao anunciar a chegada da primavera”.
Hoje Macau Grande PlanoWorldskills | Delegação de Macau volta a ganhar medalha de ouro A delegação de Macau que participou na 48ª edição da Worldskills, a feira das profissões que decorreu em Xangai, trouxe para casa quatro distinções, nomeadamente a medalha de ouro por parte de Wong Wei Kei, na modalidade de merchadising visual e vitrinismo, ou ainda a medalha de prata arrecadada por Chao Chi Hou, na modalidade de sistema de drones. A RAEM trouxe também a medalha de bronze graças ao desempenho de Cloe Hoo Carvalho, na categoria de comércio a retalho. A delegação de Macau ganhou também, segundo um comunicado do gabinete da Secretária para a Economia e Finanças, Ng Wai Han, 11 prémios de excelência. A delegação de Macau participou em 22 modalidades, “um número mais elevado para Macau”, é referido na mesma nota, sendo que esta edição do Worldskills reuniu cerca de 1385 jovens concorrentes provenientes de 68 países e regiões. Pela primeira vez este evento realizou-se na China, sendo que a delegação de Macau foi organizada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL). Esta contou com 24 concorrentes e 22 peritos para a participação nas modalidades técnicas, “sendo esta edição com o maior número de modalidades em que Macau participou”. Macau voltou, desta forma, a ganhar uma medalha de ouro no concurso, após ter a ter conquistado, pela primeira vez, em 2017. A nota do gabinete da secretária dá conta que “desde a primeira participação na Competição Mundial de Aptidão Profissional [Worldskills], em 1983, Macau marcou presença em 17 competições até à competição anterior (47ª competição), tendo conquistado, no total, 1 medalha de ouro, 3 de prata, 3 de bronze e 50 prémios de excelência”, é destacado. Portugal faz pleno e consegue melhor participação de sempre Portugal conseguiu a sua melhor participação de sempre no WorldSkills (Mundial das Profissões), em Xangai, com os 10 jovens da selecção nacional distinguidos nas sete áreas em que competiram, incluindo uma medalha de prata. “Fizemos o pleno. Foi a melhor participação de Portugal em campeonatos mundiais das profissões”, afirmou à agência Lusa Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, estrutura integrada no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). No Mercedes-Benz Arena de Xangai, situado no distrito de Pudong, na zona da antiga Expo 2010, junto ao rio Huangpu, milhares de jovens das delegações participantes acompanharam a entrega das medalhas nas 64 profissões em competição. A cerimónia, que se prolongou durante três horas, alternou a subida ao palco dos vencedores com espectáculos de música e dança, em coreografias marcadas por elementos da cultura chinesa e jogos de luz. Nas bancadas, delegações e participantes aplaudiam e agitavam bandeiras. Loris Sgroj e Diogo Pinto conquistaram a medalha de prata em robótica industrial, enquanto cinco das restantes participações portuguesas receberam medalhas de excelência. Leonor Silva foi distinguida em cabeleireiro, Duarte Serra e Daniel Silva em robótica móvel, Dmitry Zhivitsa em maquinação CNC, Nelson Ribeiro em controlo industrial e Marco Malheiro em soldadura. Diogo Botelho e Simão Alves, que competiram em mecatrónica industrial, receberam a distinção “Best of Nation”, atribuída ao melhor desempenho entre os participantes da selecção portuguesa. Portugal subiu também do 13.º lugar, alcançado no último Mundial, realizado em Lyon, França, para o quarto lugar no ‘ranking’ internacional relativo ao desempenho das equipas, segundo Gustavo Seia.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteEconomia | Crescimento do PIB chinês deverá abrandar em 2026 e 2027 O “OECD Economic Outlook” descreve cenários de “resiliência” perante a escalada de preços devido à guerra no Irão, prevendo moderação do crescimento do PIB da China na ordem dos 4,5 por cento este ano, e ainda de 4,2 por cento em 2027 O nome do relatório não deixa margem para dúvidas: “Weathering Successive Shocks”, em português “Resistir a Choques Sucessivos” chama a atenção para os tempos difíceis que se vivem na economia global. O relatório em causa é o “OECD Economic Outolook”, produzido pelo secretariado-geral da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico]. O documento foi tornado público na quarta-feira. Há vários sinais de alerta para o leitor, desde logo pela análise do crescimento económico mais moderado, da existência de maiores dependências face à evolução do conflito do Médio Oriente e preços mais elevados nos bens essenciais, sempre dentro de um cenário de muitas incertezas e imprevisibilidades. Falando em “moderação do crescimento mundial” da economia no primeiro semestre deste ano, a OCDE prevê o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês até 4,5 por cento este ano, bem como 4,2 por cento em 2027. “Prevê-se que o crescimento económico nas economias de mercado emergentes do G20 se mantenha globalmente estável, embora o padrão de crescimento varie entre os países. Na China, prevê-se que o crescimento abrande ainda mais, passando de 5 por cento em 2025 para 4,5 por cento em 2026 e 4,2 por cento em 2027”, lê-se. Em termos globais, acredita-se que o crescimento do PIB a nível mundial seja de 2,9 por cento este ano, ficando ligeiramente abaixo da previsão para 2027, que é de 3 por cento. Para os Estados Unidos da América, a OCDE estima um crescimento do PIB na ordem dos 2,2 por cento este ano, e de 2,1 por cento em 2027. Tal crescimento será pautado “por um forte investimento relacionado com a IA [Inteligência Artificial]”, que irá “compensar parcialmente o abrandamento da despesa dos consumidores e do crescimento do rendimento real”. Na Zona Euro o crescimento do PIB será inferior, na ordem de 1 por cento este ano, percentagem que deverá ser semelhante em 2027. A OCDE refere que, em termos globais, a “maior pressão sobre os preços, um crescimento fraco do rendimento real e taxas de juro mais elevadas” vão dominar as economias. Estes factores vão trazer, nos próximos meses, um cenário de “moderação” ao “dinamismo do crescimento a curto prazo em muitas economias”. O estado da inflação Os preços deverão continuar mais elevados, mas não sempre. A OCDE prevê que “a inflação aumente a curto prazo, reflectindo a subida dos preços das matérias-primas, antes de diminuir gradualmente em 2027”. A quebra gradual explica-se pela “moderação dos preços da energia e uma política monetária mais restritiva, e que contribuam para limitar as pressões mais gerais sobre os preços”. Nos países que fazem parte do G20 estima-se que a inflação possa diminuir de 4,1 por cento este ano para 2,5 por cento em 2027. É referido um cenário de “resiliência” perante este crescimento económico mais moderado, apesar “dos efeitos adversos do conflito no Médio Oriente”. A “resiliência” dos países deveu-se “às reservas consideráveis de petróleo, à oferta adicional proveniente de países exteriores às economias do Golfo e a medidas discricionárias de apoio adoptadas pelos governos”, e que “contribuíram para atenuar o impacto sobre a economia mundial”. IA como força motriz A OCDE destaca o papel que os investimentos na área da IA têm tido como força dinamizadora de muitas economias. “A continuação da forte actividade relacionada com a inteligência artificial (IA) também impulsionou o investimento, a produção e o comércio”, lê-se no relatório. Aliás, é ainda referido no documento que “a robustez da actividade relacionada com a IA e a descida dos preços da energia (…) contribuirão para o reforço da actividade até 2027”. É explicado que os efeitos do conflito no Médio Oriente “foram parcialmente compensados pela continuidade do rápido crescimento do investimento e da produção relacionados com a inteligência artificial em muitas economias”. No continente asiático, “a Coreia e Japão, dois importantes fabricantes de semicondutores, registaram um forte aumento das exportações de tecnologia ao longo deste período”, sendo que “o mesmo aconteceu na China”. Por sua vez, “o crescimento de várias outras economias de mercado emergentes do G20, como a Índia, Indonésia e Brasil, foi sustentado por uma procura interna resiliente e por políticas governamentais que atenuaram o impacto do aumento dos preços da energia sobre as famílias e as empresas”. Muitas incertezas Não obstante a capacidade de superação e até um ligeiro crescimento do PIB global em 2027, a OCDE deixa no ar um cenário de muitas incertezas. Isto porque “as perspectivas económicas mundiais continuam fortemente dependentes da possibilidade de se alcançar uma solução duradoura para o conflito no Médio Oriente”. Lê-se que “os preços da energia voltaram recentemente a subir, num contexto de intensificação das perturbações na produção e nas exportações das economias do Golfo”. “As elevadas margens de refinação, devido aos estrangulamentos na produção, estão a exercer uma pressão adicional em alta sobre os preços no consumidor e os custos das empresas. Os preços de algumas matérias-primas agrícolas também aumentaram significativamente nos últimos meses, em parte devido ao impacto de fenómenos meteorológicos extremos na oferta”, é ainda explicado. As incertezas ocorrem também devido às “alterações contínuas nas políticas comerciais, tanto em matéria de tarifas como de restrições às exportações”. Tais cenários trazem também “perturbações na oferta”. A OCDE realça ainda “as novas taxas tarifárias bilaterais dos EUA, em vigor desde Julho, tenham aumentado em cerca de 1 ponto percentual a taxa tarifária efectiva média dos Estados Unidos”. Essencialmente, “a trajectória dos preços do petróleo e do gás depende fundamentalmente da duração das perturbações na oferta, da capacidade de produtores e consumidores para se ajustarem e da evolução geopolítica”. Outro risco apontado no relatório tem a ver com as alterações climáticas, nomeadamente o fenómeno El Niño, “que afecta negativamente a produção agrícola e contribui para aumentar as pressões sobre os preços dos alimentos”. Livro de receitas A OCDE deixa algumas sugestões para travar a escalada de preços, referindo que “os bancos centrais devem assegurar que as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas”. “Poderão ser necessários novos ajustes às políticas monetárias caso as pressões sobre os preços apresentem sinais de agravamento ou as perspectivas de crescimento se deteriorem significativamente”, acrescenta-se. Do lado dos governos, a OCDE diz que as medidas para travar a inflação “devem ser bem direccionadas”, apostando-se nos “incentivos à redução do consumo energético e à diversificação das fontes de energia”. Como tal, a organização internacional recomenda “reformas estruturais para aumentar o crescimento do produto potencial e reforçar a resiliência das economias perante novas perturbações do lado da oferta”. A recomendação inclui “medidas destinadas a diversificar ainda mais o fornecimento de energia e melhorar a eficiência energética”, bem como políticas “que reforcem a capacidade dos mercados de produtos e de trabalho para se ajustarem aos choques e garantam que os trabalhadores dispõem das competências necessárias para se adaptarem às mudanças estruturais”.
Hoje Macau Grande Plano MancheteXangai | Feira das profissões apresenta talentos portugueses ao mundo Arrancou ontem em Xangai a WorldSkills, uma feira profissional com 300 espaços de exposição e mais de 100 actividades interactivas, onde concorrem jovens de todo o mundo em profissões tão variadas como designers digitais, técnicos de robótica, floristas ou cabeleireiros. Portugal faz-se representar por alguns jovens talentos Um robô que recebe uma entrega, chama sozinho o elevador e a leva até ao quarto do hotel surpreendeu Daniel Silva em Xangai, onde o jovem português de 21 anos compete no WorldSkills em robótica móvel. A WorldSkills Xangai começou ontem e termina no domingo. “Em Portugal temos, por exemplo, o carrinho com o gatinho que leva os pratos”, contou à agência Lusa, referindo-se aos robôs autónomos utilizados em alguns restaurantes. Mas, na China, encontrou uma versão mais sofisticada da mesma tecnologia. “Já vi um robô do género em que chega alguém de fora com comida, entrega ao robô e aquilo entra no elevador e sobe”, contou. “Chama o elevador sozinho, entra no elevador e vai até ao quarto. É uma coisa muito diferente”, descreveu. Daniel, natural do distrito do Porto, representa Portugal na categoria de robótica móvel, em equipa com Duarte Serra, na maior competição mundial de profissões, que decorre ao longo desta semana em Xangai, a “capital” económica da China. A área envolve sistemas autónomos capazes de executar tarefas que reproduzem situações reais, combinando programação, visão artificial e capacidade para transportar ou manipular objectos. “Existe um pedido e depois o robô tem de completar esse pedido”, explicou, dando como exemplo a deslocação de um objecto de um ponto para outro. As aplicações podem ir muito além dos pequenos veículos utilizados em restaurantes ou hotéis. A China é actualmente o maior mercado mundial de robótica industrial. Mais de dois milhões de robôs operam nas fábricas do país e, só em 2024, foram instaladas 295.000 novas unidades, mais do que o resto do mundo combinado. A rápida automatização é acompanhada pelo crescimento da indústria local: mais de metade dos robôs industriais produzidos no mundo são já fabricados na China, ao mesmo tempo que empresas como a Unitree procuram acelerar a comercialização de robôs humanoides. É precisamente a diversidade de aplicações que atrai Daniel. Segundo o jovem, os princípios que aprende podem ser aplicados a diferentes sistemas autónomos, desde veículos a aviões ou submarinos. “Não precisa de ser especificamente uma solução programada de uma certa forma e acabou. É um conceito”, explicou. O percurso de Daniel começou no ensino profissional, inicialmente na área da mecatrónica, antes de se virar para a robótica móvel. “A mecatrónica é fixe, é uma máquina que temos que montar e programar, mas é estática”, explicou. “A robótica móvel permite inventar mais”, acrescenta. Após concluir formação de níveis 4 e 5, Daniel prosseguiu para o ensino superior e frequenta actualmente Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Quanto às possibilidades de Portugal na competição, Daniel prefere manter expectativas moderadas. “Realisticamente, nós sabemos que não estamos muito perto dos melhores. Temos dois olhos na cara e vemos o que eles fazem e o que têm feito ao longo dos últimos anos”, disse. Um 12.º lugar seria já um resultado que o deixaria satisfeito, admitiu. “Vamos fazer o nosso melhor”, assegurou. Um espaço maior Para Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, a dimensão do evento constitui, por si só, um desafio para os jovens portugueses. Portugal participa com dez jovens, distribuídos por sete profissões: robótica industrial, robótica móvel, mecatrónica, soldadura, controlo industrial, cabeleireiro e maquinação CNC. “O recinto é esmagador, são 1.400 jovens a participar de mais de 60 países”, afirmou Seia à Lusa, explicando que a preparação inclui também apoio na gestão da pressão e das emoções durante a competição. Para o coordenador, para lá dos resultados, a competição serve para mostrar aos jovens as possibilidades destas áreas. “Estas profissões valem a pena e são uma óptima opção para quem vai entrar no mercado de trabalho”, disse. Mas nem só de tecnologia é feita a WorldSkills. Prova disso é a presença de Leonor Silva, que representa Portugal na profissão de cabeleireiro. Aos 15 anos, quando muitos colegas ainda tentavam perceber o que queriam fazer no futuro, Leonor Silva decidiu aprender uma profissão e entrar logo no mercado de trabalho. “Tinha uma grande vontade de trabalhar e gostava da área da beleza. E foi um bocado por aí que decidi escolher um curso profissional”, explicou à agência Lusa a jovem de Santa Maria da Feira, hoje com 20 anos. Leonor começou uma formação em cabeleireiro em 2021, com cerca de dois anos e meio de duração. “Comecei logo a trabalhar na área. E depois, quando concluí a formação, continuei a trabalhar”, contou. A jovem integra a equipa portuguesa que marca presença na WorldSkills, sendo que Portugal está ligado a esta competição desde a sua origem. Juntamente com Espanha, inaugurou a competição em Madrid, em 1950. Peso do ensino técnico A composição da equipa espelha também a diversidade do actual ensino profissional, cada vez mais ligado a áreas tecnologicamente avançadas e para as quais existe procura de trabalhadores qualificados. Gustavo Seia, coordenador da WorldSkills Portugal, estrutura integrada no IEFP, considera que Portugal continua a enfrentar falta de mão-de-obra nestas áreas. “O nosso país ainda carece de mão-de-obra qualificada”, afirmou, atribuindo parte do problema a uma “hipervalorização do científico-humanístico”, que durante anos levou muitas famílias a privilegiar a universidade em detrimento da formação profissional. Segundo o responsável, apesar de a percepção ter melhorado, “há trabalho a fazer” para acabar com o estigma associado a esta via de ensino. “Estas profissões são eminentemente manuais”, mas exigem trabalhadores “altamente qualificados” e devem ser valorizadas também ao nível da remuneração, acrescentou. Para o coordenador da WorldSkills Portugal, uma das principais vantagens do ensino técnico-profissional continua, no entanto, a ser o acesso ao mercado de trabalho. “As profissões que trazemos são profissões com alta empregabilidade”, disse Gustavo Seia, considerando que um jovem que conclua este tipo de formação dispõe de boas perspectivas de encontrar trabalho, mesmo que decida simultaneamente prosseguir os estudos. Foi precisamente a possibilidade de se tornar independente ainda muito jovem que atraiu Leonor. “Eu queria começar a fazer carreira”, disse. “Queria começar logo a fazer a minha vida”. O WorldSkills apresenta profissões nas áreas dos Transportes e Logística, Tecnologia de Manufacturas e Engenharias, Moda e Artes Criativas, Tecnologias da Informação e Comunicação, Serviços Pessoais e Sociais e ainda Tecnologias da Construção e de Edifícios. O mote deste evento é que os participantes possam mostrar aquilo que valem em profissões com uma forte componente prática, como montagem de ares condicionais, pinturas de casas ou carpintaria, entre outras, embora a área digital marque presença. Nas áreas mais criativas, não faltam representantes em joalharia, floristas, costura ou merchadising visual. O evento acontece no Centro Nacional de Convenções e Exposições de Xangai.
Hoje Macau Grande Plano MancheteÓbito | Jorge Palma morreu aos 76 anos vítima de paragem cardiorrespiratória Jorge Palma, um dos mais importantes músicos portugueses, morreu na noite de segunda-feira vítima de paragem cardiorrespiratória. Deixa êxitos que marcaram gerações, como “Frágil”, “Bairro do Amor” ou “Dá-me Lume”. O músico actuou duas vezes em Macau, nos anos 90 e em 2015 O músico Jorge Palma, que morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória, trocou a música clássica pelo rock no início da adolescência, acabando por se tornar num dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea. Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma começou aos seis anos a ter aulas de música, tendo ingressado no Conservatório de Música de Lisboa aos 10. Embora as aulas tenham começado bem cedo, Jorge Palma começou a tocar antes disso, em casa, onde havia um piano. “Era o meu brinquedo. Tinha bom ouvido e as coisas que ouvia na rádio e no gira-discos reproduzia-as no piano. Tinha jeito para aquilo e as pessoas repararam, a começar pela minha mãe, que também tinha estudado piano. Daí ter-me posto a estudar aos seis anos”, partilhou numa entrevista, publicada em 2024 no jornal digital “Mensagem” de Lisboa. Em 1963, ficou em segundo lugar num concurso internacional de piano, no Festival Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca, Espanha, onde foi também distinguido com uma Menção Honrosa. Embora a sua carreira comece a ser contada em 1972, ano em que gravou o primeiro ‘single’ em nome próprio, o percurso na música começou oito anos antes, aos 14 anos, quando abandonou a música clássica para se dedicar ao pop-rock. Na altura, o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”. No liceu, começou “a ouvir a pop rock, a começar por [Elvis] Presley, mas sobretudo [The] Beatles e [The Rolling] Stones”. “Aí abandonei completamente os estudos clássicos, chumbei no Liceu Camões, no 4.º ano, deixei de ir à ginástica, às aulas de piano”, recordou Jorge Palma, em entrevista à Lusa, em 2022. Após terminar o liceu, entrou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que frequentou durante dois anos, até desistir. Início sindical Antes de se apresentar em nome próprio, Jorge Palma fez parte do grupo Sindicato, que tocou na primeira edição do festival de Vilar de Mouros, em 1971, e dos Black Boys. Na mesma época, começou a trabalhar em composição, orquestração e gravação. Em 1972, gravou “The Nine Billion Names of God”, o primeiro ‘single’ em nome próprio, cujo pagamento recebeu em electrodomésticos. O título do tema foi retirado de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado no livro “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier. “Gostei muito desse conto, ‘The Nine Billion Names of God’, que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu nessa altura 22 anos”, contou ao jornal Público, em 2022. Quando quis gravar “The Nine Billion Names of God” e o lado B do ‘single’, “Come, Morpheus”, Jorge Palma foi ter com “o grande músico e maestro” Thilo Krasmann, que o gravou, cedendo espaço de estúdio para que gravasse a maquete, de piano e voz, mas “não pertencia a nenhuma editora”, recordou em entrevista à Lusa em 2022. O músico foi então “bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo director era o Carlos Cruz, que ouviu, achou piada e disse: ‘Nós pagamos-te a gravação e fazemos a gravação’”. O pagamento chegou na forma de “uma máquina de lavar roupa e um frigorífico”. “O Arnaldo Trindade [1934-2024] tinha um negócio de electrodomésticos”, explicou Jorge Palma, lembrando que, naquela altura, tinha acabado de se casar com a primeira mulher. A saída da ditadura Pouco depois, em 1973, foi convocado para o serviço militar, mas decidiu abandonar o país e instalar-se na Dinamarca. Antes de partir, leiloou ‘o pagamento’ que recebeu pelo primeiro ‘single’ entre os amigos. “Consegui licença militar para sair 15 dias antes de entrar para a tropa. Quando obtive essa licença, em Setúbal, saí aos saltos cá para fora. Quem me tivesse visto deveria ter pensado que eu era maluco. Cheguei ao aeroporto com um bilhete para Londres, e de Londres viajei para Copenhaga”, lê-se na biografia oficial de Jorge Palma, “Na Palma da Mão”, da autoria de Pedro Teixeira. No mesmo livro conta-se que, em Copenhaga, Jorge Palma trabalhou num hotel onde desempenhou tarefas na manutenção e lavagem dos elevadores e na limpeza dos quartos, entre outras. Em 1974, regressa a Portugal, após o 25 de Abril, começa a trabalhar como orquestrador e, no ano seguinte, edita o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”, criado numa altura em que o músico estava “muito influenciado pelo rock sinfónico, Genesis, Yes, etc.”. “Foi sob essa influência que escrevi as canções desse álbum. Somos só três instrumentistas: Vítor Mamede na bateria, que veio do meu grupo Sindicato, Rui Cardoso, sopro, flautas e ‘saxes’, e eu toquei tudo o que era teclas, baixo, as guitarras todas. Fomos só três pessoas a fazer aquele ‘sonzão’, com a voz muito fininha, novinho”, recordou em entrevista à Lusa, em 2022. Ainda na década de 1970, troca Lisboa por Paris, onde toca nas ruas e no metro, cantando sobretudo Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby, Stills and Nash e ‘bluegrass’. Depois de “Como uma viagem na palma da mão” gravou mais 13 álbuns de originais, e “cada um corresponde a um momento” da vida de Jorge Palma. “Com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia, tudo isso torna cada disco único”, disse à Lusa na mesma ocasião. A chegada de “Só” Na década de 1980, de volta a Lisboa, retoma os estudos de piano no conservatório, que terminou em 1990. Logo a seguir, grava “Só”, editado em 1991, a primeira colectânea de carreira de Jorge Palma, na qual revisita, apenas ao piano, canções dos discos das duas décadas anteriores. Jorge Palma tinha 40 anos quando gravou as 15 canções de “Só”, nos antigos estúdios da Valentim de Carvalho. “É um disco intimista, é um ambiente íntimo que reflecte de facto o que aconteceu na escuridão daquele enorme estúdio. Reflecte-se que há uma entrega grande, que há um empenho”, referiu em entrevista à Lusa em 2016. Do alinhamento fazem parte, por exemplo, “Bairro do amor” (1977), “Na terra dos sonhos” (1980), “O meu amor existe” (1982), “Estrela do mar” (1984), “Deixa-me rir” (1985) e “Frágil” (1989). Na altura, “a editora não estava muito abonada para um artista como eu que não é um grande vendedor de discos”, recordou. Deram-lhe a possibilidade de gravar piano e voz, e 30 anos depois ainda era abordado por pessoas que lhe elogiavam o disco. Depois de “Só”, Jorge Palma passou o resto dos anos 1990 com a discografia que tinha, avançou com o Palma’s Gang (banda com Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau), fez música para teatro, fez parte do grupo Rio Grande, compôs para outros, até editar um novo álbum de originais, “É proibido fumar”, em 2001. Seguiram-se “Norte” (2004), “Voo nocturno” (2007) e “Com todo o respeito” (2011). O álbum mais recente, o derradeiro, “Vida”, foi editado em 2023. Em Maio de 2025 estreou o espectáculo “3 palmas na mão”, no qual se apresentava em palco com os dois filhos, Vicente Palma, nascido em 1983, e Francisco Palma, nascido em 1995. O título do espectáculo começou por ser o nome do grupo de Jorge Palma e filhos na plataforma Whatsapp, antes de se transformar numa canção incluída no álbum “Vida” e ganhar depois a forma de um concerto. Vicente Palma faz parte da banda que acompanha o pai há cerca de 20 anos. Sobre os filhos, Jorge Palma disse, numa entrevista ao Mensagem de Lisboa, em 2024, que “têm vozes muito fixes, são muito afinados: o Vicente mais piano do que guitarra, o Francisco mais guitarra do que piano. Escrevi o ‘Três Palmas na Mão’, que em estúdio fomos nós três a tocar, cada um com a sua guitarra, guitarras e voz”. Jorge Palma venceu o Prémio José Afonso, em 2002, com “Jorge Palma”, e a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2012, com o álbum “Com todo o respeito”. Em 2020, Jorge Palma recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa, no final de um concerto de celebração dos seus 70 anos, e foi condecorado pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Em Abril de 2026, foi distinguido com o Prémio Carreira dos 8.º PLAY – Prémios da Música Portuguesa. Jorge Palma actuou em Macau por duas vezes: em 1990, no Teatro D. Pedro V, e em 2015, por ocasião das celebrações do 25 de Abril. Jorge Palma actuou num trio composto pelo filho Vicente Palma (guitarra, piano e voz), e Gabriel Gomes (ex-Madredeus e ex-Sétima Legião, no acordeão). Políticos destacam legado de Jorge Palma A morte de Jorge Palma foi lamentada por vários políticos portugueses, nomeadamente o primeiro-ministro, Luís Montenegro, que escreveu na rede social X, que “Jorge Palma parte, mas a sua música fica”. “Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações. Fica, sobretudo, na cultura portuguesa, que ajudou a transformar com a sua voz única e músicas intemporais. Em meu nome e em nome do Governo, deixo à família e aos amigos as mais sentidas condolências”, destacou. Também Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, falou num “dia triste – muito triste – para a música portuguesa e, claro, para todos os que o amavam”. Na sua página na rede social X, Paulo Rangel escreve que, perante a morte do cantor e compositor, “ficam a voz, os poemas e o carisma”. Paulo Rangel abre a mensagem citando uma das canções do músico – “O que eu não vivi, hei-de inventar contigo” -, e termina-a garantindo: “O que ele já não vai viver, vamos nós agora inventar com ele”. Já a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, agradeceu o legado do músico, considerando-o um “cantautor extraordinário”. Numa publicação na rede social X, Margarida Balseiro Lopes considerou o autor de temas como “Frágil”, “Dá-me Lume” ou “Bairro do Amor” uma das vozes mais icónicas da música portuguesa das últimas décadas e endereçou “sentidas condolências” à família e amigos.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteCCCM | Livro aborda conexão da Rota do Cabo com Rotas da Seda “The Cape Route and the Silk Roads”, editado pela Brill e coordenado por João Oliveira e Costa e Carmen Amado Mendes, expõe as relações comerciais que se estabeleceram entre a Rota do Cabo, criada no século XV e que ligava Lisboa à Índia, e as rotas da Seda. A obra mostra como Lisboa foi uma cidade central no comércio de porcelana Estávamos em 1499 quando foi criada a Rota do Cabo para, entre Lisboa e a Índia, transportar especiarias para a Europa, embora “os navios portugueses trouxessem outros produtos das terras da Ásia”. Por sua vez, “a tecnologia e ciências europeias, o cristianismo e a prata das Américas chegavam a todos os recantos da Ásia”. Editado pela Brill, e recentemente apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), o livro “The Cape Route and the Silk Roads” [A Rota do Cabo e as Rotas da Seda] expõe a ideia de como “a Rota do Cabo permitiu que produtos e ideias circulassem no âmbito do sistema das Rotas da Seda, que abrangia a Eurásia de oeste a leste”, descreve-se na sinopse do livro. A obra também mostra como Lisboa se transformou “no centro nevrálgico que difundiu novos padrões de consumo e novas modas na Europa”, sendo que a Rota do Cabo também “introduziu novas formas de guerra, novos conhecimentos científicos e uma nova religião por toda a Ásia”. A obra é coordenada por João Paulo Oliveira e Costa, especialista em História Moderna e docente na Universidade Nova de Lisboa, e Carmen Amado Mendes, presidente do CCCM. Vários académicos colaboram nesta obra, que inclui capítulos como “Why the Cape Route should be considered parte of the Silk Roads” [Porque a Rota do Cabo deveria ser considerada parte das Rotas da Seda] ou ainda “Lisbon, the hub of the Silk Roads in the 16th century” [Lisboa, o centro das Rotas da Seda no século XVI]. Rui Oliveira, académico responsável pela apresentação do livro, destacou como a obra “trará, certamente, novas perspectivas e terá uma responsabilidade na internacionalização de muito o que se tem feito nesta área em Portugal”. Para o responsável, existe ainda “alguma dificuldade de mostrar essa perspectiva [da conexão da Rota do Cabo com as Rotas da Seda] e o impacto dos portugueses e das rotas comerciais transatlânticas na sua comunidade e em todas as instituições”. Rui Oliveira lembrou como o livro constitui uma oportunidade de olhar a Rota do Cabo “e perceber verdadeiramente as implicações que esta teve em diferentes territórios, e que continua a ter, nomeadamente nas questões identitárias do século XXI”. Ao fazer “a interligação com outros pontos fulcrais da Rota da Seda” tal como a costa oriental africana e sudeste da Ásia, a Rota do Cabo trouxe bastantes contributos para o comércio mundial. Mas Rui Oliveira lembrou que o livro agora editado pela Brill também espelha como se operavam estas interligações comerciais. “Este volume abre a oportunidade de mostrar e ligar a Rota do Cabo a todas as outras rotas, sobretudo no sudeste asiático, no contexto das Rotas da Seda. Trata-se de interligações que não são ainda aceites de forma transversal”, acrescentou. Da pimenta à porcelana João Paulo de Oliveira e Costa não deixou de destacar como Lisboa era, nesta época, um lugar onde determinados produtos chegavam bem mais depressa do que noutros pontos da Europa graças à Rota do Cabo, já que “a maneira como estes objectos chegavam e se espalharam pela Europa tem essa dimensão extraordinária”. “Lisboa estava carregada de porcelana, que entrava na Europa por Lisboa e que, particularmente no século XVI, era o porto asiático da Europa. É isso que tentamos aqui por mostrar, não por mania, mas porque a arqueologia o mostra.” O co-coordenador da obra fez referência a um artigo da autoria de Maria João Ferreira, intitulado “China at Home: Chinese Silks in Portuguese Households during the Early Modern Period” [China em Casa: Sedas Chinesas nos Lares Portugueses no Início da Era Moderna], e que mostra como existia “abundância da seda em Lisboa no século XVIII e que choca os visitantes europeus, que veem em Lisboa algo que para eles é uma raridade quando, aqui, era uma banalidade”. Segundo o académico, há “um problema de fundo” na historiografia portuguesa “que foi, durante um tempo, excessivamente preguiçosa, e a divulgação continua a ser preguiçosíssima”, face ao que verdadeiramente se comercializava via Lisboa nestes anos. “Acho que 90 e tal por cento das pessoas continua a pensar na carreira da Índia como a carreira da pimenta, mas em 1550 já metade dos porões das naus não traziam pimenta, mas sim porcelana, além de tudo o resto”, transportando depois esses produtos para a Europa. Além do colonialismo Na sessão de apresentação da obra, João Paulo Oliveira e Costa deixou a ideia de que fazer a história da Expansão Portuguesa está longe de estar relacionada com o colonialismo e ocupação de outros povos. “A Expansão Portuguesa é um episódio incontornável da história da humanidade” e foi “muito mais do que um episódio do Colonialismo.” Na sua visão, esta obra sobre a Rota do Cabo, além de “ajudar a desencadear novas investigações, ajuda a perceber que a expansão portuguesa não é uma história de guerra”. “Tem muita guerra, faz parte do ser humano e destes movimentos, mas é uma história que tem outras dimensões incontornáveis e fundamentais para se perceber a história da humanidade”, frisou, até pela maneira “como estes objectos chegavam e se espalharam pela Europa, o que tem uma dimensão extraordinária”. “Um dos méritos da investigação dos últimos 30 anos é perceber que fazer história da Expansão não é só sobre o que foi, mas também sobre o que vem. A Europa faz a Expansão com a pólvora inventada pelos chineses, os algarismos inventados pelos indianos, transmitidos depois pelos árabes; com a religião inventada pelos judeus. O papel é inventado pelos chineses, onde se faz a burocracia. E, portanto, é uma civilização que parte através de tudo o que tinha incorporado e lhe tinha chegado.” O académico destacou o exemplo da porcelana e da sua difusão na sociedade portuguesa. “A porcelana é um dos exemplos: não há família em Portugal que não tenha um serviço de porcelana. Faz parte da nossa lógica europeia e continua a ser uma coisa significante na nossa vida social.” O livro dá também destaque ao posicionamento dos Açores em todo este comércio, nomeadamente com os capítulos “The Sea of the Azores within the Silk Routes” [O Mar dos Açores nas Rotas da Seda], de Avelino de Freitas de Meneses; ou ainda “The Azores and the Legacies of the Silk Roads” [Os Açores e os Legados das Rotas da Seda], da autoria de Susana Goulart Costa, Rute Dias Gregório e Isabel Soares de Albergaria.
Andreia Sofia Silva Grande Plano ManchetePoesia | Editora portuguesa lança “China – Poemas do Erotismo Suave” Serão os chineses dados à explicitação do sexo? No mais recente livro de poesia traduzida por António Graça de Abreu, “China – Poemas do Erotismo Suave”, a pergunta faz-se no passado e dá respostas afirmativas: na China antiga escreveu-se muito sobre sexualidade e amor carnal. Não faltam sequer poemas sobre o amor LGBT António Graça de Abreu acaba de assinar a tradução de um punhado de poemas chineses clássicos que remetem para uma temática muito pouco comum nos dias de hoje na hora de editar poesia chinesa: o erotismo. Quando falámos com o autor e, por lapso, referimos romantismo, do outro lado da linha a questão surgiu condimentada com algum humor: “Romantismo?” Não é de romantismo que trata o livro, mas sim de sexualidade e erotismo puro na forma de palavras. “China – Poemas do Erotismo Suave”, acabado de sair para as bancas com a chancela da editora Guerra e Paz, deixa desde logo antever uma pergunta: “Como era o amor e amar na velha China?”. O prefácio, assinado pelo próprio António Graça de Abreu, denota como, ao contrário do que se possa pensar, a sexualidade estava bem presente na vida da corte imperial e não era vivida com tanto pudor como se possa pensar. Desde logo porque, como se lê, “não nos podemos esquecer que a China escapou aos preconceitos sexuais do mundo judaico-cristão, por isso, a ideia de pecado, punição e culpa é alheia; exterior ao simples fluir do homem e da mulher por dentro do brilho ou da penumbra do tempo”. O livro apresenta poesia sobre esta temática, incluindo escritos de obras clássicas como é o caso de “O Sonho do Pavilhão Vermelho ou Hong Lou Meng”, de Cao Xueqin, editado em meados do século XVIII, na dinastia Qing. Não faltam ainda poemas de Li Yu, como “Ode do coração despedaçado”, “O modesto instrumento” ou “Da esposa do soldado para o marido ausente”. E o que dizer do poema “Os teus dois montes”, de Wang Shizhen, que deixa ao leitor uma imagem de deleite visual do narrador: “Os teus dois montes, como lótus cor-de-rosa, / iluminam o teu corpo, / na limpidez da tarde.” Trata-se, portanto, de uma obra que expõe “o tema do amor na China entre o homem e uma mulher, embora também tenha referências ao amor homossexual entre homens e com lésbicas.” DR Um dos exemplos de um poeta que retrata relações homossexuais é Wang Wei. O livro apresenta três poemas traduzidos da sua autoria, como “Canção da bela de Luoyang”, “Balada de Xi Shi” e “Poema mesclado”. “Recentemente descobriram que havia tendências homossexuais em Wang Wei, um poeta dos anos 700 [século VIII] e um dos maiores poetas da China, e que tem um amigo a quem dedica poemas maravilhosos, tendo também dois ou três poemas virados para o feminino.” O lugar da mulher António Graça Abreu segue uma certa linha cronológica nos poemas, começando pelo “Livro das Mutações ou Yi Jing”, tido como “o mais enigmático dos clássicos chineses” e que terá sido composto por volta do século X a.C. Sobre esta poesia tão antiga, o autor e tradutor traça a comparação com a poesia trovadoresca portuguesa, que começou a ser escrita a partir do século XII e que tinha também o amor e o romance como tema. Já nesses primeiros poemas chineses se notavam “muitas referências de natureza sexual”, pelo que se pode concluir que não havia pudor ou até timidez neste tipo de expressões. “[A poesia] não esconde praticamente nada. A própria participação da mulher no poema… ela está à espera de um companheiro galante e bonito para haver amor. Isso acontece logo nos primeiros poemas, mais ou menos eróticos, da velha poesia chinesa”, destacou. “Depois”, frisa António Graça de Abreu, “as coisas vão evoluindo e é preciso considerar [outras questões], que também tem a ver com Confúcio que, de algum modo, subalternizava a mulher, colocando-a uns degraus abaixo do homem, mas no budismo não”. Certo é que “praticamente até ao século XX a mulher teve sempre pouco valor” na poesia, sendo que, na verdade, “não há muita poesia de amor”. Isto porque a beleza feminina é evidenciada em muitos dos escritos, mas nem sempre há uma elevação da mulher em relação ao homem. “As mulheres eram compradas e usadas muitas vezes. Mas depois há o encantamento feminino, com as mulheres a serem comparadas com flores de lótus, há toda uma poética do amor… as mulheres aparecem como sendo muito bonitas, muito estilizadas, com uma pele de seda, com um certo comportamento. Mas isso não é muito geral na poesia chinesa, e há muito mais poemas dedicados a outros letrados [mandarins] do que a mulheres que eles amaram.” António Graça de Abreu dá o exemplo do poeta Li Bai, também incluído na antologia, que viveu entre os anos de 701 e 762, e que tinha quatro mulheres. Porém, apesar destes lugares em que homens e mulheres eram colocados, havia depois algumas excepções na socialização. “A sociedade chinesa é muito curiosa nesse aspecto, porque tem períodos ou momentos de grande liberdade, em que se podia fazer quase tudo. O encantamento da mulher fazia parte da vida dos poetas, mas eles não davam tanta importância a isso como davam à amizade entre mandarins, por exemplo.” Ainda relativamente às possíveis comparações com a poesia trovadoresca, António Graça de Abreu destaca como podemos encontrar poemas muito parecidos com as Cantigas de Amigo. “Também há na China uma espécie de Cantigas de Amigo, mas é o homem que faz o poema, como se fosse a mulher a falar do companheiro.” Tal não quer dizer que não tenha havido mulheres a escrever poesia na China antiga, mas são casos muito pontuais. “As poetisas eram, muitas vezes, cortesãs, marginais na sociedade. Mas eram mulheres cultas, que tinham aprendido a escrever. Normalmente, as mulheres não sabiam ler nem escrever, mas as que faziam poemas na China, sobretudo na dinastia Tang, entre os anos de 600 a 900, eram cortesãs e, portanto, meio prostitutas”, explicou. Estas autoras “muito delicadas, dedicavam poemas inclusivamente aos poetas”. Tinham, portanto, “um núcleo de poetas com quem trabalhavam em amizade”. “Uma novidade” António Graça de Abreu assegura que esta obra “é uma novidade em Portugal porque nunca ninguém mexeu neste tema, a poesia erótica chinesa”. Este é, aliás, um resultado de muitos anos de pesquisa. “Entretive-me a comprar, ao longo destes anos e para fazer este trabalho, uma série de livros de poesia, inclusive dos Estados Unidos da América.” Relativamente a “O Sonho do Pavilhão Vermelho” é, para o autor, “um romance fabuloso, do século XVIII, um dos grandes romances da literatura universal, mas que está recheado de poemas e alguns eróticos”. “Já Mao Zedong dizia que cada chinês deveria ler cinco vezes o ‘Sonho do Pavilhão Vermelho'”, destaca. Houve uma época em que na China havia maior liberdade em termos de costumes, e Xangai “era o grande império da prostituição no Extremo Oriente, mas depois praticamente acabaram com a prostituição em Xangai nos anos 50, seguindo os princípios confucianos”. António Graça de Abreu escreveu no prefácio outra realidade muito comum nos anos da China imperial: as concubinas. “E que dizer da depurada prática sexual de mandarins e príncipes – afastados de qualquer idealismo romântico – que tinham à disposição inúmeras mulheres, esposas, concubinas, cortesãs e prostitutas para amar ou fingir o amor de amar?”. Graça de Abreu dá o exemplo de um poeta que, com 65 anos, comprou 10 concubinas. “Uma era a boquinha de cereja, e outra a cintura de salgueiro. Ele dizia que, com a cintura de salgueiro, era capaz de subir às árvores. Com 65 anos, está a ver? Portanto, o encantamento da mulher é uma constante em todas as civilizações, mas na China não se nota muito. Foi isso que tentei fazer nesta antologia, indo buscar poemas desde a era de Confúcio até aos nossos dias.” Na obra constam ainda notas sobre os períodos históricos a que remetem os poemas. Graça de Abreu diz ter procurado assegurar que os poemas “tivessem qualidade em português”, mantendo algum do ritmo do original chinês. “O poema tem de ter som, algumas rimas internas como tem em chinês. Como tradutor tenho de dar uma volta àquilo, para que fique bonito em português. É isso que me satisfaz, porque consigo dar algum valor ao poema, que, em português, fica com uma leitura agradável.” Esse é um dos desafios a que António Graça Abreu procura dar sempre resposta. “Se traduzimos mal o poema para português, ou se somos demasiado literários, estamos quase a assassinar o poema, e eu não quero isso, porque são poemas muito bonitos em chinês, com cor, sensibilidade, bom gosto. Ficamos a ver as pessoas à nossa frente”, rematou. Uma coisa é certa: este livro mostra “que os homens [chineses] sabem amar, e as mulheres também”, remata o autor.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteHong Kong | Plano Quinquenal anuncia mais habitação e emprego Hong Kong anunciou ontem o primeiro Plano Quinquenal e as linhas de acção governativa do território que promete mais habitação, emprego e o desenvolvimento da zona de “Northern Metropolis”. Espera-se “um novo horizonte” para a RAEHK, com a aposta “na reforma e inovação” e o compromisso com políticas que assegurem a qualidade de vida O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, apresentou ontem o primeiro Plano Quinquenal da região vizinha. Depois de um período de consulta pública, foi divulgado o documento que se foca no emprego e habitação, mas não esquece matérias como a garantia da qualidade de vida, a implementação do princípio “um país, dois sistemas” ou ainda o reforço de medidas securitárias. Segundo a agência Reuters, John Lee prometeu a construção de 196 mil casas públicas em cinco anos, que deverá dar tecto a 2,5 milhões de pessoas. O Governo garantiu também que irá incentivar, em matéria de habitação, a “mobilidade ascendente”, com o objectivo de “melhorar a escada habitacional para promover a aquisição de casa própria entre os jovens”, disse o governante. Pretende-se, neste contexto, fomentar o desenvolvimento da área de Northern Metropolis, com cerca de 30 mil hectares e que fica muito perto do território chinês. A ideia é que a zona venha a “reforçar as ligações tecnológicas e económicas com o continente, com o objectivo de criar empregos e habitação”, descreveu a Reuters. Sobre o projecto, John Lee declarou que irá “reforçar ainda mais a competitividade global e o dinamismo de Hong Kong para um desenvolvimento sustentável”. Nos próximos dez anos, a oferta de habitação será dividida nas seguintes proporções: 40 por cento das casas públicas para arrendamento, 30 por cento de habitação subsidiada e outros 30 por cento de habitação destinada ao mercado privado. O documento traça objectivos para os anos de 2026 a 2030, visando “abrir novos horizontes e iniciar um novo capítulo” para o território, lê-se no website oficial do Plano Quinquenal. A Autoridade de Renovação Urbana planeia gastar cerca de 40 mil milhões de dólares de Hong Kong nos próximos cinco anos “em iniciativas de renovação urbana”, lê-se no Plano. “Tendo em conta o ano de início do 15º Plano Quinquenal [da China], este inaugural Plano Quinquenal da RAEHK está formulado para, de forma pró-activa, se alinhar com as estratégias nacionais de desenvolvimento e uma melhor integração” no país, pode ler-se. Há sete princípios definidos: “adesão ao princípio ‘um país, dois sistemas'”; “manter o compromisso” com a garantia de qualidade de vida no território; a liderança do poder Executivo, a aposta “na reforma e inovação”; a intenção de uma “dupla abordagem” nas ideias de um “mercado eficiente” e um “Governo capaz”. Pretende-se ainda, dentro destes princípios, “adoptar uma aproximação holística nas áreas do desenvolvimento e segurança”; além de se adoptar “um planeamento pragmático e pró-activo”. Finanças são o caminho John Lee assegurou que Hong Kong irá, com o Plano Quinquenal, “reforçar o seu papel enquanto centro global de negócios offshore em renminbis, como centro internacional de gestão de activos e património, e também como centro internacional de gestão de riscos”. Pretende-se o desenvolvimento de “um ecossistema de comércio de matérias-primas, alinhando-se os serviços financeiros com as necessidades da economia real”, declarou o governante. Segundo a Reuters, o Chefe do Executivo da região vizinha anunciou, para o primeiro trimestre do próximo ano, a criação do primeiro sistema central de compensação e liquidação de ouro da cidade. Além disso, a Autoridade Monetária de Hong Kong planeia implementar, até ao final deste ano, a liquidação através de moeda digital do banco central, acrescentou John Lee. Tendo em conta a importância do território para a transacção de mercadorias, o Plano Quinquenal contém a medida de transformar Hong Kong num “superconector” entre regiões, sobretudo com a Grande Baía. “Vamos acelerar o alinhamento com as principais estratégias nacionais no domínio da tecnologia”, disse o Chefe do Executivo. As grandes áreas de cooperação passam pela melhoria da qualidade de vida, cuidados de saúde, inteligência artificial, robótica e microelectrónica, entre outras. No contexto da Grande Baía e integração regional, o que se pretende é a “‘conectividade dos corações’ entre os residentes de Guangdong, Hong Kong e Macau”, através do “reforço da cooperação das instituições do ensino superior de Hong Kong” com as restantes regiões, a fim de “cultivar a junção de talento e cooperações entre Guangdong e Hong Kong”. Pretende-se, a este nível, “abrir horizontes para que os mais jovens possam desenvolver as suas carreiras” na Grande Baía, que inclui as duas regiões administrativas especiais e mais nove cidades da província chinesa. Criar uma nova marca Se Macau está a criar a sua Cidade Universitária em Hengqin, também Hong Kong tem planos para desenvolvimento a área do ensino superior. O Plano Quinquenal apresenta projectos para três áreas destinadas à instalação de campus universitários, criando a marca “Study in Hong Kong” [Estudar em Hong Kong] para atrair estudantes de todo o mundo, incluindo “talentos não locais”. John Lee indicou também que a ideia é “desenvolver um centro internacional de inovação e tecnologia (IT)”, criando-se um modelo “assente em três grandes parques de IT e cinco instituições-chave na investigação e desenvolvimento”. Em causa está o Parque de Hong Kong da Zona de Cooperação de Inovação Científica e Tecnológica Hetao Shenzhen-Hong Kong e o San Tin Technopole; o Science Park e o Cyberport. Por sua vez, estabelece-se a ligação com cinco instituições – Hong Kong Productivity Council, o Hong Kong Applied Science and Technology Research Institute, o Hong Kong Microelectronics Research and Development Institute, o Hong Kong Artificial Intelligence Research and Development Institute e o Life and Health Technology Research Institute. A ideia é “reforçar o sistema público de investigação e a eficácia do quadro de inovação e tecnologia”. De frisar que, com estes planos de mudanças a nível político e económico, as autoridades da RAEHK pretendem criar 650 mil empregos. John Lee referiu que um dos grandes objectivos do plano, e também do Executivo, é “melhorar o bem-estar da população”, definindo-se medidas nas áreas da “educação, desenvolvimento dos jovens e mulheres” e ainda o “reforço do apoio aos grupos desfavorecidos”. Na área da saúde, por exemplo, planeia-se “avançar com o desenvolvimento de infra-estruturas de cuidados de saúde”, no âmbito do Primeiro Plano de Desenvolvimento Hospitalar [First Hospital Development Plan]. Este tem por objectivo aumentar o número de camas nos hospitais públicos para 35 mil em 2031. Hong Kong também se depara com uma baixa taxa de natalidade e, a pensar nessa problemática, a linha de acção governativa inclui a extensão, por mais três anos, do incentivo de 20 mil dólares de Hong Kong para quem tenha o primeiro filho. Caso haja mais filhos, esse valor aumenta para 30 mil dólares de Hong Kong, sendo também concedidos subsídios para crianças, deduções fiscais e criados centros adicionais de cuidados infantis. Na área do ensino não superior, Hong Kong quer apostar “na integração progressiva da inteligência artificial (IA) na aprendizagem, ensino e avaliação”. Pretende-se, assim, “promover a educação digital para o reforço da aprendizagem dos alunos na matemática, ciências e tecnologia”, além de se criar “mais espaço” para a inovação.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivro | Joaquim Magalhães de Castro lança “Bengala e o Reino do Dragão” Acaba de ser editado o livro “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias”, de Joaquim Magalhães de Castro, cronista e viajante que viveu em Macau. O livro revive o percurso que os padres jesuítas Estevão Cancela e João Cabral fizeram pelos Himalaias, no século XVII, em busca de um sítio chamado “Cataio”, nome alternativo para a China Há muito que Joaquim Magalhães de Castro se dedica a vaguear pela Ásia em busca dos seus segredos, com particular incidência sobre as missões dos jesuítas portugueses e a presença histórica dos portugueses no continente. Depois do documentário “No Reino do Dragão”, exibido em 2022 na RTP, o autor e cronista resolveu editar um livro que nasce desse projecto audiovisual e que conta as aventuras dos jesuítas Estevão Cacela e João Cabral rumo ao Tibete Central, no século XVII, e que incluiu uma longa estadia no recém-criado Butão, no coração dos Himalaias. “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” é o nome dado à obra apresentada recentemente na Feira do Livro do Porto, e que tem a chancela da Lema D’Origem. Estevão Cacela e João Cabral estiveram na missão jesuíta de Cochim e foram para Goa, no então Estado português da Índia. Saíram em 1626 do Golfo de Bengala para o Butão, onde chegaram em Fevereiro de 1627 e onde permaneceram largos meses. O objectivo, porém, era chegar ao Tibete Central e a um lugar chamado “Cataio”, ou seja, à China. Segundo o prólogo do livro, antes da chegada ao Tibete era preciso desbravar “as montanhas do reino do Butão, tarefa que não se adivinhava nada fácil”. Oito meses depois, e “após duas sofridas viagens – intercaladas por uma longa e privilegiada permanência no reino butanês –, Cacela atingiria Xigatsé”. Por sua vez, João Cabral chegaria a esse lugar uns meses depois, onde os dois criaram uma missão jesuíta. Ao HM, Joaquim Magalhães de Castro conta como este livro é fruto da viagem realizada há exactamente dez anos para a produção do documentário para a RTP. “Queria contar o resto da história das viagens dos jesuítas ao Tibete. Os padres João Cabral e Estevão Cacela foram os primeiros ocidentais a conhecer o Butão via Bengala, e nessa viagem que fizemos para o documentário passámos pelo Bangladesh, Bengala e Butão, seguindo mais ou menos o trajecto que os padres fizeram no início do século XVII.” Lançar este livro revelou-se importante dado que em 2026 celebram-se os 400 anos do início desta viagem. Dos oito meses que passaram no Butão, grande parte foram marcados por difíceis viagens a pé, em condições muito precárias, das quais restaram alguns escritos. “A chegada deles [dos dois padres jesuítas] coincide com a formação do Estado do Butão, que antes não existia nessa condição. Na primeira parte do livro falo dessa história”, explicou o autor. Joaquim Magalhães de Castro também se debruça “nas comunidades de católicos que vivem naquela zona de Bengala”, onde “há muita gente que se assume como tendo origem portuguesa, tendo ou não sangue português, e que têm apelidos portugueses”. Uma série de peripécias Por norma, naqueles anos, os jesuítas exploravam aquela parte do mundo pela Índia, “através das montanhas dos Himalaias”. Tratava-se de um percurso “cheio de peripécias, aventuras e dificuldades”, sendo que a primeira passava por tentar passar despercebido. “Eles iam sempre disfarçados de mercadores muçulmanos, por exemplo. A certa altura, disfarçavam-se de soldados, usavam todos os meios que tinham ao seu alcance para atingir o objectivo que queriam, que era chegar ao Tibete.” Além disso, a dupla de padres levava mercadorias para possíveis transacções, e “presentes que serviam como moedas de troca para favores”. “Agora existem fronteiras, mas na altura era mais complicado, e havia ainda muitos ladrões e uma série de dificuldades no trajecto em si. Logo em Daca [actual capital do Bangladesh], houve uma rebelião e eles foram praticamente linchados, tendo de se esconder em cima de uma casa com a ajuda de alguém. Conseguiram afastar-se, mas a aventura poderia ter terminado logo ali”, acrescentou. Estevão Cacela e João Cabral foram avançando entre autorizações de reis para atravessar território. Havia ainda “a questão das doenças, e um deles contraiu uma, talvez malária, e teve quase às portas da morte, tudo isto antes de chegar ao Butão”. Chegados a este país nos Himalaias, o monarca foi “previamente informado de que havia estrangeiros nas suas terras” e acabou por mandar “enviados especiais para saber o que é que eles [padres jesuítas] queriam, se traziam presentes”. O livro conta também “imensas histórias interessantes” que Estevão Cacela e João Cabral deixaram até chegar ao Tibete Central. “De certa maneira enganaram o próprio rei, que os tinha como hóspedes, mas, ao mesmo tempo, prisioneiros. Eles [autoridades asiáticas] gostavam de ter estrangeiros, pois eram pessoas exóticas e com conhecimento, cultas.” Joaquim Magalhães de Castro realça a permanência de estrangeiros sob uma ténue vigilância mediante um acordo tácito, uma espécie de moeda de troca. “Havia a questão da curiosidade, e depois claro que os portugueses tinham o objectivo de envangelizar [as populações].” Sinais que perduram O autor de “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” adiantou que ainda hoje, nas escolas do Butão, “as crianças aprendem nos manuais escolares quem foi João Cabral e Estevão Cacela como os dois primeiros ocidentais a chegar ao Butão”. “Enquanto que, no Tibete, a memória desapareceu completamente, no Butão continua e é ensinado na escola, além de que pessoas com alguma cultura sabem essa história”, acrescentou. Ao longo dos anos houve registos, “documentos que não foram publicados, que não foram descobertos, ou que se perderam”. Estas viagens feitas pelos jesuítas “eram especiais e únicas, feitas com muitas dificuldades”. Joaquim Magalhães de Castro já as fez, quer na qualidade de documentarista, quer como guia turístico, e assume: “só podemos sentir um bocadinho do que eles passaram”. “Há zonas em que se sobem as montanhas, uma cada vez mais alta do que outra, com vales e precipícios, coisas incríveis, com uma profundidade… é como multiplicar as nossas montanhas várias vezes. E eles referem isso nos seus diários. Imagine-se fazer isto a pé, sempre com ladrões, a ter de pagar isto e aquilo”, rematou. De destacar que o par de religiosos aventureiros tiveram relações com Macau, que por esta altura já tinha uma presença jesuíta bem firmada: João Cabral foi vice-reitor do Colégio de São Paulo, a primeira instituição de ensino superior de estilo ocidental na Ásia. A escola foi fundada em 1594 e servia para preparar os missionários jesuítas nas suas missões. Tinha disciplinas como Latim, Teologia, Filosofia, Matemática, Chinês e Japonês, entre outras.
Hoje Macau Grande Plano MancheteJuíza portuguesa diz que tribunais constitucionais “estão a ser atacados” A juíza do Tribunal Constitucional (TC) português Maria Benedita Urbano avisou ontem que os tribunais constitucionais “estão a ser atacados” face à ascensão do populismo e autoritarismo em sociedades democráticas. “Somos alvo de ataque por aqueles que querem desmantelar o Estado de Direito democrático, porque o Tribunal Constitucional defende os direitos fundamentais, de expressão, manifestação, participação política”, disse a magistrada. Urbano, que é também docente na Universidade de Coimbra, falava durante o 29º Encontro de Professores de Direito Público, que decorreu pela primeira vez em Macau. O TC “assegura que competição política é justa e igualitária”, sublinhou Urbano, e “garante o jogo de pesos e contrapesos, que o executivo não usurpe as funções do legislativo”. A juíza defendeu que a pandemia de Covid-19 “foi a tempestade perfeita”, ao levar à imposição de restrições às liberdades fundamentais, algo que “acelerou estas tendências” para o populismo. Urbano alertou para vários métodos que podem ser usados para reduzir o papel do TC como “guardião da Constituição por excelência”, incluindo a “asfixia financeira”, a limitação da jurisprudência e a substituição de juízes. A magistrada deu como exemplo a “campanha pública de deslegitimação” do Supremo Tribunal Federal do Brasil, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023) tentou nomear “mais juízes sensíveis à sua causa”. Urbano sublinhou que a situação não é tão grave em Portugal, mas lembrou que em 2022 juristas apelaram ao fim ou à redução do número de juízes nomeados pelos outros membros do TC. Nos termos da Constituição, o TC é composto por 13 juízes, sendo dez designados pela Assembleia da República e os outros três cooptados por estes. Dos 13, seis são obrigatoriamente escolhidos de entre juízes dos restantes tribunais e os demais de entre juristas. “Há quem defenda que a cooptação deve deixar de existir, que os três juízes devem ser nomeados pelo Presidente da República”, disse Urbano. Mas a magistrada disse que essa mudança “é de evitar”, porque pode levar à nomeação de “juízes leais ao poder político do momento” e “favorecer o controlo do poder judicial pelo executivo”. Para evitar uma “deslegitimação, que com o tempo se pode agravar”, Urbano sublinhou que o TC deve manter “total respeito pela separação dos poderes”. “É preciso manter o prestígio do Tribunal Constitucional, manter e transmitir uma imagem de tribunal independente e parcial, para que seja a própria população a defender a instituição”, disse a juíza. Cenários políticos Em Maio, a vice-presidente do grupo parlamentar do partido português Chega, Cristina Rodrigues, acusou o TC de “activismo político” e desrespeito pela separação de poderes. Isto depois do TC ter declarado como inconstitucional um decreto do parlamento que previa a perda de nacionalidade como sanção acessória pela prática de certos crimes. “A esquerda perdeu a maioria na Assembleia da República, mas continua a ter a maioria no TC e nos juízes que ocupam os cargos para os quais são nomeados. E isto tem tido consequências, consequências à vista de todos, principalmente nos últimos tempos”, afirmou Rodrigues.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteCinema | Fundação Oriente recebeu estreia de “The Violin Case” “The Violin Case”, a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny, teve a estreia europeia na sexta-feira na Fundação Oriente, em Lisboa. O filme conta a história de um artista que se vê enrolado em múltiplas peripécias enquanto procura um violino perdido. O filme rodado durante a pandemia procurou captar a essência de Macau Quem nunca teve problemas com um taxista em Macau? A questão transversal é o ponto de partida para a história de Theo, um artista que transporta um violino pintado com a figura do Napoleão Bonaparte, obra de arte que é o ponto de ignição para um autêntico incêndio narrativo. A impossibilidade de pagar a totalidade da tarifa de táxi, leva o motorista a vingar-se e simplesmente arrancar com o veículo, levando a que Theo perca o violino que tinha de entregar nessa noite. Este episódio, que se inspira numa história verdadeira, é o mote para a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny. Depois da estreia em Macau, “The Violin Case” teve a sua estreia europeia na última sexta-feira, no Auditório Dr. Stanley Ho da Fundação Oriente (FO). O público pode ver de perto os actores, o realizador e parte da equipa de produção, incluindo António Vale da Conceição, músico macaense responsável pela banda sonora. “The Violin Case” é um filme que retrata a noite de Macau com todos os seus ingredientes: as ruas quentes e desertas, os táxis e carros a deambularem de um lado para o outro, os néons que dão ao território uma essência tão especial. Maxim Bessmertny conseguiu fazer um filme onde o jogo está longe de ser o principal protagonista, nem sequer o Cotai. Há personagens que remetem para as muitas vidas que Macau tem e teve, de pessoas que, não nascendo no território, fizeram dele a sua casa. É o caso da personagem Pauline, interpretada pela designer Clara Brito, que, na trama, foi viver para o território nos anos 80 devido aos negócios do pai, e que vira uma galerista sem escrúpulos. Ao HM, Maxim Bessmertny revelou como esta foi a primeira vez que mostrou um trabalho cinematográfico seu em Lisboa. “É uma sensação incrível porque vim cá com os actores, a Clara [Brito], o Filipe Baptista Tou, que também é músico, actor, empreendedor de Macau. É a primeira vez que vou mostrar qualquer trabalho meu em Portugal. Mostrei as curtas-metragens, mas estávamos na altura da covid-19. Espero que as pessoas gostem do filme, que haja mais exibições e que o cinema independente continue a crescer.” O realizador revela a dificuldade em chegar à programação de festivais de cinema com uma longa-metragem. “É este o nosso trabalho [mostrar o filme]. Eu, com as curtas-metragens, tive a sorte de entrar em festivais, mas com as longas-metragens é muito mais complicado, porque um festival de cinema recebe cerca de quatro mil filmes. É impossível.” Desta forma, salientou, “é preciso ser um pouco mais criativo com as coisas, e não depender apenas de reuniões e convites”, referiu, explicando a presença na FO. Outras organizações de Macau, como a Fundação Macau ou a operadora de jogo Melco, deram também apoio, tal como o Governo da RAEM. Filmar durante a covid Fazer “The Violin Case” implicou enfrentar o período de confinamento em Macau na fase da covid-19. Implicou fazer escolhas e, muitas vezes, esperar até ao último momento para tomar decisões. Maxim Bessmertny é filho do pintor russo Konstantin Bessmertny, há décadas radicado em Macau. Eles próprios perderam um violino há muitos anos, em Hong Kong, e foi esse lado real que o realizador transpôs para a sua primeira longa. “O filme inspira-se num acidente que aconteceu ao meu pai, pintor que nasceu na Rússia e veio para Macau nos anos 90, onde cresci. A minha primeira memória é, portanto, de Macau, e o filme é inspirado nas imagens de Macau, na noite, e também na aventura que tive com o meu pai, em Hong Kong, quando ele perdeu o violino.” “Passámos a noite inteira à procura da peça de arte, e no final não o conseguimos encontrar. Fomos à polícia, fizeram-se umas investigações, e não aconteceu nada nessa noite. Só o facto de eu estar à frente de um polícia de Hong Kong a fingir que era advogado do meu pai…”, recordou Maxim Bessmertny na apresentação do filme, para divertimento da plateia. “Tentei escrever vários guiões, mas nada era muito real. Era tudo mais ligado aos anos 40, ao período da II Guerra Mundial, sempre passado em Macau, com o Casino Lisboa. Era difícil financiar isso. Lembrei-me da história do violino, estava a ver ‘After Hours’, do Martin Scorsese, e foi uma explosão de ideias”, explicou Maxim sobre o momento em que teve a ideia sobre aquilo que ia filmar. Questionado pelo HM sobre os principais desafios do projecto, o realizador destacou a rodagem do filme, que coincidiu com os tempos da pandemia. “Quase não filmámos, porque havia um confinamento todos os dias, testes. Não sabíamos se íamos realmente filmar, então foi sentir pânico até ao último minuto.” E nesta história não falta, sequer, o ingrediente da superstição. “No dia 1 de Setembro fizemos a cerimónia do Pai San, e não houve chuva durante as nossas noites de filmagens. Tivemos quase um mês inteiro sem chuva, e percebi que talvez os ventos estivessem do nosso lado.” Maxim Bessmertny destaca como teve “sorte, e muita sorte com as pessoas, que entenderam que estávamos a fazer uma coisa maluca num tempo maluco, com ideias malucas: várias localizações, quase 42, em 24 noites. Muitas personagens. Esse foi o grande desafio, o de conseguir chegar ao final”. O realizador transformou a história que viveu com o pai fazendo-lhe adaptações. Theo, interpretado pelo jornalista e músico Kelsey Wilhem, é, por exemplo, “um artista mais novo”. “The Violin Case” foi também feito à imagem de “The After Hours”, película de 1985 com assinatura de Scorsese. “Escrevi o argumento numa semana”, confessou Maxim Bessmertny. E tudo se compôs depois disso. O malvado motorista Filipe Baptista Tou tem um dos papéis mais importantes da trama: é motorista de táxi e responsável por levar o violino para bem longe de Theo. Ao HM, Filipe recorda a experiência. “Para começar filmámos este filme durante a pandemia e todos nós estávamos em confinamento, não tínhamos nada para fazer. Conheci o Maxim num podcast, conversámos, e ele disse-me que ia fazer um filme. Um ano depois perguntou-me se queria entrar. Ele deu-me a escolher entre dois personagens, um deles o de motorista de táxi. Fiz os dois, e tinha a ideia de que conseguiria fazer este papel na vida real. Quando fiz o teste, eles disseram: ‘Ok, temos o nosso condutor de táxi'”. Filipe Baptista Tou destaca a importância de apresentar “The Violin Case” na Europa já que, em Macau, “não são feitos muitos filmes”. “Na maioria, são feitas curtas-metragens e eis que o Maxim decidiu fazer este filme, trabalhando com pessoas de diferentes nacionalidades. É um privilégio para mim estar no filme”, acrescentou. “Precisamos de mais tempo [para desenvolver a indústria do cinema], porque de facto não temos uma grande indústria de entretenimento em Macau, com compositores, músicos, actores… Macau é muito pequeno, e estamos ainda a tentar mostrar-nos lá fora e conectarmo-nos com mais pessoas e países. O facto de estarmos aqui constitui uma grande oportunidade.” Por sua vez, Clara Brito confessou que a possibilidade de interpretar Pauline surgiu quando buscava novos desafios. “Foi uma fase em que estava particularmente aberta a novos desafios, e não tinha grandes expectativas. Para mim, era entusiasmante fazer parte do projecto, e estávamos naquele contexto fechado, com Macau parada, e sendo eu da área criativa, interessava-me.” A apresentação do filme contou com a presença do pintor e artista Manuel San-Payo, que viveu em Macau e partilhou a sua vivência com Konstantin Bessmertny.
Andreia Sofia Silva Grande Plano Manchete11 de Setembro | Ataque às Torres Gémeas aconteceu há 25 anos A 11 de Setembro de 2001, Jorge Silva tinha acabado de apresentar o telejornal quando se deparou com a catástrofe do outro lado do globo que viria a mudar o mundo. O analista Pedro Ponte e Sousa destaca como a queda das Torres Gémeas alterou “profundamente a ordem internacional” O 11 de Setembro foi há 25 anos e, tantos anos depois, a imagem da queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, após o embate de dois aviões desviados por terroristas da Al-Qaeda, ainda permanece na memória vívida. O mundo parou e as televisões permaneceram ligadas a imagens que pareciam ficção, mas que eram terrivelmente reais. Em Macau, Jorge Silva, pivot recentemente aposentado da TDM – Teledifusão de Macau – tinha acabado de apresentar o telejornal, o relógio batia as 21h. “Recordo-me perfeitamente desse dia porque acabei o telejornal como habitualmente, por volta das nove horas, e quando chego à redacção, um colega meu da altura que já não é jornalista, Rui Moura, disse-me: ‘Jorge, vê a televisão porque um avião acaba de bater no World Trade Center’. Por um segundo, perguntei: ‘Isto é no World Trade Center de Macau? O que se passa?’. Liguei a televisão, e percebi que era em Nova Iorque, e era uma coisa medonha. Logo a seguir, outro avião.” Jorge Silva ligou ao pai, que estava em Portugal, perguntando-lhe se estava a ver o horror em directo. “O meu pai respondeu: ‘Isto é a Terceira Guerra Mundial’. Assim mesmo.” A actualidade noticiosa dos anos seguintes foi pautada pelo ataque às Torres Gémeas e os seus protagonistas: Osama Bin Laden, anos mais tarde capturado e morto pelos Estados Unidos da América (EUA), a organização que liderava, a Al-Qaeda, e o terrorismo como alvo a abater. “Pegámos [a TDM] no dia seguinte, porque naquele dia não havia mais nenhum serviço noticioso. Por umas horas ninguém sabia exactamente o que estava a acontecer, mas o nome de Osama Bin Laden já estava a circular. Foi algo inusitado, ninguém imaginaria uma tragédia como essa. Aquilo transformou as nossas vidas e foi matéria noticiosa durante anos.” O crescimento de Pequim Na visão do analista Pedro Ponte e Sousa, investigador do IPRI – Instituto Português de Relações Internacionais e analista político na RTP, “o 11 de Setembro mudou profundamente a ordem internacional, mas talvez de uma forma diferente daquela que Washington imaginou”. Isto porque “os atentados permitiram aos EUA transformar o combate ao terrorismo no princípio organizador da sua política externa durante quase duas décadas. O resultado foi a chamada ‘guerra global contra o terrorismo’, com o Afeganistão, Iraque, Guantánamo, operações extraterritoriais, assassinatos selectivos e uma extraordinária expansão dos poderes de vigilância”. A Guerra no Iraque levou, no entender do analista, a uma “erosão” da ordem internacional. “A invasão do Iraque em 2003, fundada em alegações sobre armas de destruição maciça que se revelaram falsas, o combate ao terrorismo deixou de ser apenas uma política de segurança e tornou-se uma espécie de licença geopolítica para o exercício da força.” Desde então, os EUA “concentraram enormes recursos políticos, militares e financeiros no Médio Oriente e na ‘guerra ao terror'”, enquanto “a China consolidou a sua ascensão económica e estratégica”. Para Pedro Ponte e Sousa, a China tornou-se, nos 20 anos que se seguiram, “numa potência económica global e progressivamente numa potência política, tecnológica e militar. A ‘guerra global contra o terrorismo’, que pretendia consolidar a primazia norte-americana, contribuiu também para criar as condições em que a China pôde reduzir a distância em relação aos EUA”, referiu. Mudanças práticas Jorge Silva recorda o “medo” que pairava por toda a parte e mudanças no dia-a-dia das pessoas, tal como na forma de viajar. “Não podíamos transportar determinados produtos que antes transportávamos na mala de mão e que passaram a ir para o porão. Começou também um maior controlo das transferências bancárias”, graças a suspeitas que, na altura, pairavam sobre financiamentos e o envolvimento de estudantes nos atentados terroristas. O ex-jornalista recorda também como, a seguir ao 11 de Setembro, “começaram pequenos ataques contra alvos ocidentais”. “Aqui na Ásia, na Indonésia, discotecas e restaurantes ocidentais eram alvo de ataques de células ligadas à Al-Qaeda, por parte de terroristas radicais e, sobretudo, anti-Ocidente. Percebemos que o mundo tinha mudado. E mudou para sempre”, frisou. Jorge Silva não tem dúvidas que tudo isso culminou no actual panorama político nos EUA, pautado pela era Trump. “A situação agravou-se nos últimos tempos com Donald Trump, um presidente norte-americano completamente paranoico. Iniciaram-se uma série de aventuras hegemónicas norte-americanas, e não apenas anti-islâmicas, criando-se uma grande agitação no mundo, e estamos a pagar esse preço.” A IA na nova era Pedro Ponte e Sousa diz que a grande conclusão que se deve tirar do 11 de Setembro, e de tudo o que sucedeu nos 25 anos posteriores, é que “não se derrota uma ideologia através da guerra permanente”. “A Al-Qaeda foi profundamente debilitada e o Estado Islâmico perdeu o território que chegou a controlar, mas o terrorismo jihadista não desapareceu. E surgiram novas formas de extremismo, incluindo fenómenos de radicalização online e comunidades violentas sem uma estrutura organizacional clássica.” O analista destaca que hoje existem “redes digitais descentralizadas e com jovens radicalizados através da Internet”. “A grande lição deveria ser que a segurança não pode ser reduzida à dimensão militar. Quando se responde a um fenómeno político, social e ideológico fundamentalmente com bombardeamentos, ocupações e repressão, pode-se destruir organizações concretas, mas não se eliminam necessariamente as condições que alimentam a violência.” O analista não esquece as novas tecnologias, sobretudo a inteligência artificial (IA), e as novas formas de conflito, com o perigo da “utilização da ameaça tecnológica para justificar uma nova expansão dos mecanismos de vigilância e controlo”. “Foi exactamente isso que aconteceu depois de 2001. O medo legítimo do terrorismo foi utilizado para normalizar formas de vigilância que, em circunstâncias normais, seriam politicamente muito mais difíceis de aceitar. Com a IA, esse risco é ainda maior”, rematou. Estudo | Mais de 80% dos americanos lembram-se do ataque às Torres Gémeas Um inquérito realizado entre 24 e 30 de Agosto deste ano pelo Pew Research Center destaca que muitos adultos se recordam perfeitamente do 11 de Setembro e dos pequenos detalhes que povoaram as suas vidas nesse dia. Segundo o centro de estudos, “muitos americanos recordam esse dia com clareza”, já que “83 por cento dos adultos nascidos antes de 2001 – incluindo 93 por cento daqueles que tinham 10 anos, ou mais, na altura – afirmam lembrar-se exactamente onde estavam ou o que estavam a fazer quando ouviram a notícia”. O Pew Research Center destaca como “à medida que os ataques se tornam mais distantes no tempo, a percentagem de adultos americanos que não viveram aquele dia continua a aumentar”, já que “10 por cento dos adultos de hoje nasceram depois de 2001 e só conhecem os ataques através do que aprenderam com outras pessoas”. Além disso, os inquiridos que são hoje adultos, e que têm entre 18 e 24 anos, diz ter ficado a saber do 11 de Setembro pela primeira vez “nas aulas ou através de trabalhos escolares”, representando 60 por cento de todos os participantes. “Uma percentagem menor afirma ter tomado conhecimento dos ataques pela primeira vez através da família ou de amigos, 16 por cento; ao ler ou ver algo por conta própria, 8 por cento; ou de outra forma, 1 por cento.” Para a realização do inquérito, o Pew Research Center entrevistou 5.166 adultos norte-americanos. O inquérito comprova como o ataque às Torres Gémeas deixou “efeitos profundos no país”. “As sondagens realizadas na sequência desses acontecimentos revelaram um sentimento generalizado de medo, raiva e tristeza, a par de um apoio esmagador da opinião pública a uma acção militar contra os responsáveis”, indica o think tank.
Hoje Macau Grande Plano MancheteMao Zedong | A morte do Grande Timoneiro, 50 anos depois Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, marcando uma mudança política profunda no país. 50 anos depois, a data não se reflectiu em cerimónias oficiais na China, embora Mao nunca tenha deixado de ter importância ou de ser uma figura política omnipresente no país Cinquenta anos depois da morte de Mao Zedong, a China deixou ontem passar a efeméride sem cerimónias oficiais ou destaque na imprensa estatal, apesar da omnipresença simbólica do fundador da República Popular. Nas páginas da agência noticiosa oficial Xinhua, do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), ou do Global Times, o aniversário estava ausente dos principais destaques durante a manhã. Contudo, no mausoléu erguido no centro da praça Tiananmen, onde o corpo embalsamado de Mao permanece exposto, o horário foi prolongado em três horas e as reservas para toda a semana estão esgotadas. Por seu lado, a Xinhua dedicou uma ampla cobertura aos 90 anos da vitória da Longa Marcha, outro marco da história revolucionária chinesa. A agência estatal tem ainda uma reportagem fotográfica sobre o local de onde partiu o Exército Vermelho para a Longa Marcha, em Yudu, na província de Jiangxi, e que é hoje ponto turístico para muitos. O local tem um museu que serve de memorial a este episódio histórico, descrevendo a Xinhua que as autoridades de Yudu têm “aproveitado os abundantes recursos turísticos relacionados com a temática revolucionária para diversificar as experiências turísticas, promovendo tanto a herança do espírito da Longa Marcha como o desenvolvimento do turismo local”. A realidade é outra Mao permanece ainda hoje na paisagem política chinesa. O seu retrato continua afixado sobre a Porta da Paz Celestial, junto à Praça Tiananmen, no centro de Pequim, o rosto figura em todas as notas de renminbi e o “Pensamento Mao Zedong” integra a ideologia oficial do PCC. O seu legado permanece ainda indissociável das campanhas políticas que marcaram os seus quase 30 anos no poder e, sobretudo, da Revolução Cultural (1966-1976), lançada na última década da sua vida. Apresentada como uma campanha para “aprofundar a luta de classes sob a ditadura proletária”, a Revolução Cultural mobilizou milhões de jovens Guardas Vermelhos contra alegados “revisionistas”, “reacionários” e “inimigos de classe”, mergulhando o país numa década de purgas, perseguições e violência. O académico e comentador chinês Zhang Hongliang argumentou à agência Lusa, no entanto, que aquela foi “a única altura em que os pobres na China foram tratados com dignidade”. “Tinham habitação e educação gratuita e boas pensões. E, acima de tudo, a coragem para se erguerem perante burocratas e intelectuais” – então designados de “inimigos de classe” -, descreveu. Professor de Economia na Central University for Nationalities, em Pequim, Zhang é um dos mais proeminentes representantes da extrema-esquerda chinesa, uma facção que se bate pelo regresso da China à ortodoxia maoista. O derramamento de sangue constituiu uma “necessária intervenção cirúrgica na sociedade chinesa”, disse. Yu Xiangzhen tinha 13 anos quando se juntou aos Guardas Vermelhos e começou a perseguir professores e outros “inimigos de classe”. “Ninguém encarava as nossas acções como erradas, nem sequer parava para pensar, limitava-me a seguir ordens superiores”, contou. Para aquela adolescente, Mao “era como um deus”. “Acima do partido” O próprio PCC classificou posteriormente a Revolução Cultural como um grave erro, mas nunca repudiou o homem que fundou a RPC e devolveu a dignidade e a soberania à China. Isso ajuda, em parte, a explicar por que razão, meio século depois, a sua figura permanece indispensável à legitimidade política do regime. Sob a liderança do actual Presidente Xi Jinping, regressaram ainda conceitos associados à era Mao, incluindo a unidade ideológica, a centralização do poder e o espírito de “luta”, embora especialistas rejeitem uma equivalência entre os dois líderes. “Mao estava acima do Partido”, enquanto Xi é “um homem do Partido por inteiro”, explicou Jean Christopher Mittelstaedt, professor da Universidade de Zurique. A nostalgia é visível nas gerações mais antigas. Num antigo complexo habitacional maoista de Pequim, Zhang Qiwei lamentou a sociedade produzida por quase cinco décadas de reformas económicas, iniciadas após a morte do fundador da República Popular. “O povo está dividido; existe um materialismo excessivo”, afirmou. “No tempo de Mao, trabalhava-se arduamente sem se pensar em dinheiro. Lutava-se por um ideal comum”, acrescentou. O legado de Deng Dois anos depois da morte de Mao Zedong, a China entrava num período de Reforma e Abertura de que Deng Xiaoping foi um dos protagonistas. Apesar de Mao ter designado Hua Guofeng para a liderança do partido, a verdade é que Deng ascendeu no poder em 1978. A sua estátua de bronze encontra-se hoje no topo do parque Lianhua Hill Park, em Shenzhen, demonstrando a importância desta figura política para o país. Nos 120 anos do nascimento de Deng, celebrados em 2024, a Xinhua destacou, em reportagem, os seus grandes feitos. Numa reportagem da agência foi entrevistado Lan Zongguo, camponês de 58 anos natural de Huaqiao, cidade de Guang’an, terra natal de Deng Xiaoping. E este destacou que “as reformas lideradas pelo falecido dirigente chinês colocaram tigelas de arroz nas mãos das suas quatro irmãs”. Huaqiao é hoje conhecida pela produção de arroz, mas, nos anos 70, havia ainda escassez e muitas normas patriarcais que condicionavam a produção agrícola. Assim, Lan era o único membro da família autorizado a comer a modesta ração de arroz, lê-se na reportagem. “À hora do jantar, era o único dos filhos a receber uma tigela de arroz. As minhas duas irmãs mais velhas comiam silenciosamente a sua porção de papa de milho, enquanto as minhas irmãs mais novas se juntavam à minha volta, na esperança de conseguir uma colherada de arroz”, contou. Deng Xiaoping foi responsável não só pela implementação das Zonas Económicas Especiais, que deram um impulso à zona sul do país e a uma maior industrialização, como também criou, no início da década de 80, o “sistema de responsabilidade por contrato familiar”, reforma que atribuía terras colectivas a famílias individuais, permitindo aos agricultores gerir a sua própria produção e ficar com a maior parte das colheitas. Foi isso que trouxe mais comida à família de Lan. A Xinhua descreve ainda como o “processo de Reforma e Abertura liderado por Deng deu início à histórica transformação da China, que passou de uma economia planificada, com um Produto Interno Bruto per capita de cerca de 200 dólares norte-americanos, para a segunda maior economia do mundo”. Shenzhen tornou-se, em 1980, numa das primeiras ZEE do país, o que permitiu que empresas estrangeiras instalassem fábricas na cidade. Um dos exemplos foi a “gigante da televisão” Konka, fundada em 1980 em Shenzhen, e que “começou por produzir televisores a preto e branco para responder à crescente procura interna de produtos electrónicos de consumo”. Zhou Bin, presidente do grupo Konka, disse à Xinhua que a ZEE foi de extrema importância para o crescimento de uma economia de mercado. “Ao permitir que as empresas tivessem acesso a recursos estrangeiros, o processo de reforma e abertura criou um ambiente mais favorável à inovação, o que, por sua vez, acelerou o desenvolvimento social e económico da China”, afirmou. A.S.S. / Lusa
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteParques infantis | Estudo alerta para desigualdade na oferta Um estudo desenvolvido por académicos da China e Macau, dois deles da Universidade Cidade de Macau, analisou dados geográficos e publicações nas redes sociais sobre parques infantis, concluindo que existe desigualdade na sua distribuição, com maior carência em zonas como Coloane, zona sul da península de Macau e Cotai. Defende-se ainda a “melhoria sistemática da qualidade das instalações existentes” O estudo “Análise das redes sociais e análise espacial no planeamento de espaços de recreio infantil em Macau, uma cidade de alta densidade”, publicado na revista científica E3S Web of Conferences, aponta para a desigualdade na distribuição de parques infantis no território, com maior concentração na zona norte da península e menor em áreas como Coloane, a zona sul da península e o Cotai. O trabalho, da autoria de vários académicos chineses, dois deles – Yingqian Yang e Yujing Lai – ligados ao Instituto de Urbanismo e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Cidade de Macau, aponta para o facto de Macau, ao ser “uma cidade com uma densidade populacional extremamente elevada”, ser exemplo dos “desafios enfrentados pelas cidades de alta densidade [populacional] na disponibilização de parques infantis adequados”. Desta forma, “as instalações existentes não conseguem satisfazer plenamente as necessidades reais dos residentes e turistas, tanto em termos de qualidade como de distribuição espacial”. Com base na análise de publicações na rede social Weibo e de dados de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), os autores falam na necessidade de “intervenções prioritárias” por parte das autoridades, nomeadamente “o desenvolvimento de novos parques infantis na Ilha de Coloane, zona sul da Península e faixa do Cotai”. É também aconselhada uma “melhoria da qualidade das instalações existentes, com especial incidência em equipamentos para brincadeiras com água e criação de zonas adequadas a diferentes faixas etárias”. No total, foram analisadas 5.167 publicações no Weibo, feitas entre os anos de 2020 e 2025, bem como dados SIG relativos a 46 parques infantis. De destacar que estas publicações dizem respeito a 2.420 utilizadores com contas no Weibo. Há, no território, “graves desigualdades espaciais” no que diz respeito ao planeamento de parques infantis, sendo que “as deficiências em termos de qualidade contribuem mais para a insatisfação dos utilizadores do que a insuficiência quantitativa de instalações”. Melhor qualidade Em matéria de qualidade das instalações, revela-se que 37,9 por cento dos utilizadores mencionaram a necessidade de haver mais equipamentos para brincadeiras com água. Por sua vez, 28,7 por cento destacou a necessidade de mais infra-estruturas de segurança, enquanto 23,8 por cento lembrou a importância da “concepção adequada [de parques] para diferentes faixas etárias”. Apesar das conclusões pouco favoráveis ao actual planeamento de parques infantis, a análise das publicações no Weibo permite concluir que não existe “uma situação de crise”, existindo sim uma “margem para melhorias”. Isto porque se percebeu a existência de um “sentimento do público equilibrado em relação aos parques infantis e às instalações associadas às actividades familiares em Macau”. Dos utilizadores, 47,9 por cento deu respostas positivas, e 39 por cento deu respostas neutras. Face a este número, os autores concluem que “muitas publicações têm carácter informativo e não de avaliação, o que reflecte comportamentos de planeamento de actividades familiares”. Apenas 13,1 por cento dos utilizadores fez publicações com teor negativo. O caso de Coloane Tendo em conta apenas a análise dos dados SIG, o estudo fala na “existência de graves disparidades geográficas nos seis bairros de Macau”. As pontuações em termos de acessibilidade mostram que Coloane está bem abaixo na tabela – tem apenas 0,2 pontos numa escala de 0 a 10, enquanto o norte da península tem 10 pontos conforme a mesma escala. “A análise de dados SIG identifica a Ilha de Coloane como a zona com menor cobertura, não dispondo de qualquer parque infantil”, pode ler-se. E se não há tantos parques, os comentários ou publicações no Weibo são também reduzidos. “Na ilha de Coloane a escassez de instalações resulta numa utilização reduzida e, consequentemente, num baixo nível de comentários negativos nas redes sociais. Contudo, na zona do Cotai, a elevada intensidade de utilização, combinada com potenciais deficiências de qualidade — como problemas de manutenção ou sobrelotação — gera níveis significativamente mais elevados de insatisfação.” Da Grande Baía Os comentários feitos na rede social Weibo não são apenas feitos por residentes, mostrando como Macau é cada vez mais procurado por famílias que procuram pelos parques infantis existentes e, desta forma, deixam comentários na Internet sobre as zonas da RAEM com mais ou menos parques. O estudo destaca como “a análise geográfica das publicações com geolocalização”, que são apenas 18,1 por cento de todas as publicações feitas, mostra “a forte integração de Macau no ecossistema de turismo familiar da Grande Baía”. Neste campo, a província de Guangdong lidera com um total de 1.876 publicações, seguida por Hong Kong, 782 publicações. As publicações dos residentes de Macau estão em terceiro lugar, com um total de 586. Dizem os autores do estudo que “estas três regiões da Grande Baía representam, em conjunto, a maioria das conversas [online], sublinhando a interligação do mercado regional de turismo familiar”. Há ainda publicações de pessoas de Pequim, Xangai e outras zonas do país, o que mostra “a maior atractividade de Macau como destino familiar em toda a China”. Os autores dizem que 60,1 por cento publicações online se centram na experiência obtida nos parques, o que mostra “as limitações espaciais e climáticas das cidades subtropicais de elevada densidade”, como é o caso de Macau. Lê-se no estudo que “a limitada disponibilidade de terrenos e a elevada densidade populacional de Macau restringem a expansão dos parques infantis”, sendo citado um estudo de 2024 que dá conta da “forte desigualdade espacial e concentração na distribuição destas instalações”. Assim, a “melhoria da qualidade das instalações existentes” revela-se a “principal estratégia para aumentar a satisfação dos utilizadores”. Já “a elevada procura por equipamentos para brincadeiras com água reflecte as condições de clima quente e húmido”. Não está, portanto, em causa propriamente a falta de parques, mas sim a sua desigualdade de distribuição, já que Macau “dispõe de um número globalmente adequado de instalações”, com 46 parques infantis para 55 mil crianças, “correspondendo a uma proporção de 1 para 1:1.196”. Porém, olha-se para o tipo de infra-estruturas dos parques, revelando-se “um défice de 11,8 pontos percentuais relativamente à presença de equipamentos para brincadeiras com água”. Destaca-se, portanto, a qualidade do que existe e não a quantidade. “Os bairros cujas instalações não possuem as características desejadas apresentam um sentimento negativo mais elevado face aos bairros com um menor número de instalações. Isto sugere que, em contextos de elevada densidade [populacional] e com possibilidades limitadas de expansão, as deficiências de qualidade explicam melhor a insatisfação dos utilizadores do que os défices quantitativos”, lê-se. Deputados deixam alerta Algumas conclusões deste estudo vão de encontro aos alertas feitos por alguns deputados sobre a escassez, ou a desigualdade, de espaços de lazer para os mais novos. É o caso da deputada Loi I Weng, que em Abril deste ano interpelou o Governo sobre a “escassez de espaços de lazer para crianças” em “zonas antigas como a Zona Sul, a Rua da Praia do Manduco e San Kio”. “As instalações têm um design monótono e carecem de elementos inclusivos; a segurança e o ambiente dos percursos pedonais na comunidade também necessitam de ser reforçados”, acrescentou. Tratando-se de uma interpelação oral, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, respondeu no hemiciclo referindo que o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) “tem vindo a atribuir importância às necessidades das crianças no decorrer do seu crescimento, optimizando e disponibilizando mais espaços de lazer para crianças”. A governante deu o exemplo “do programa de reordenamento na zona de Toi San, que foi concebido tendo em consideração diversos elementos como o planeamento para todas as faixas etárias, a eliminação de barreiras arquitectónicas e [estabelecimento] de espaços de lazer inclusivos para pais e filhos”.
Hoje Macau Grande PlanoMais de 70 pessoas morreram no mar enquanto tentavam chegar às Canárias Mais de 70 pessoas, incluindo um bebé, morreram num pequeno barco que partiu da Gâmbia em direcção às ilhas Canárias com 128 pessoas a bordo, disseram ontem as autoridades espanholas e uma organização não-governamental (ONG). A embarcação foi resgatada na passada madrugada, depois de 26 dias à deriva no mar, com apenas 44 sobreviventes e cinco corpos a bordo, avançou a agência de notícias EFE, citando dados do Serviço de Resgate Marítimo espanhol. O barco foi localizado por uma das aeronaves do Serviço de Resgate Marítimo na quarta-feira, pelas 18:40, a 120 quilómetros da Grande Canária, e recebeu assistência do navio “Guardamar Urania” durante a madrugada. O navio de resgate foi obrigado a abandonar os cinco corpos a bordo devido ao mar agitado e à necessidade urgente de prestar assistência médica aos sobreviventes. “Estavam como cadáveres ambulantes, como ‘zombies’. Estavam a desmaiar, incapazes de manterem-se em pé. A maioria estava a alucinar. Alguns até nos tentaram agredir”, disse um dos socorristas à EFE. Os marinheiros do navio de resgate contabilizaram cinco mortos a bordo da embarcação, todos homens, mas não descartaram a possibilidade de haver mais, pois ainda estava escuro, o fundo da embarcação estava alagado e as ondas batiam constantemente contra o casco. Cuidar dos vivos A ONG espanhola Caminando Fronteras afirmou que a Guarda Civil confirmou que o barco tinha inscrições no casco que correspondem a uma embarcação que, segundo os seus registos, partiu da Gâmbia em 07 de Agosto com 127 ocupantes, incluindo quatro mulheres e um bebé. Estes números coincidem com o testemunho dos sobreviventes, que disseram à Cruz Vermelha, durante o socorro prestado no cais de Arguineguín, que tinham partido para as Canárias “com mais de uma centena de pessoas”, muitas das quais morreram durante a travessia. Durante o regresso do “Guardamar Urania” à Grande Canária, o Serviço de Salvamento Marítimo teve de enviar um helicóptero para transportar três sobreviventes para hospitais em Las Palmas devido ao precário estado de saúde. Os restantes chegaram a terra pelas 03:30, exaustos e mal conseguindo estar de pé. Segundo informações iniciais, ainda provisórias, os sobreviventes são todos homens da Gâmbia e do Mali. O serviço de emergência das Canárias disse que seis deles foram hospitalizados com desidratação e desorientação, assim como sintomas de ingestão de água do mar. Além disso, dois dos internados apresentavam outros ferimentos.
Hoje Macau Grande Plano MancheteCheias | Pelo menos 362 mortos e mais de 1.400 desaparecidos no Nepal e Tibete Os números de mortos e desaparecidos aumenta à medida que as equipas de salvamento avançam no terreno Equipas de resgate continuavam ontem a procurar mais de 1.400 pessoas desaparecidas devido às enxurradas que atingiram a região fronteiriça entre o Nepal e a China, onde pelo menos 362 pessoas morreram. De acordo com o mais recente balanço da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal, pelos menos 362 pessoas morreram e 826 estão desaparecidas, incluindo 466 estrangeiros numa altura em que se intensificam as operações nos distritos mais afectados de Nuwakot e Rasuwa. Sunil Sharma, porta-voz do organismo de turismo do Nepal, afirmou que entre os desaparecidos estavam 133 cidadãos indianos que participavam numa peregrinação ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para os hindus. Estavam também desaparecidos 47 cidadãos dos Estados Unidos, 34 da Austrália, 33 do Reino Unido e 24 do Canadá, segundo o responsável. O Ministério dos Negócios Estrangeiros disse à Lusa que pelo menos dois cidadãos portugueses, um homem e uma mulher, estão entre os desaparecidos. Também ontem, as autoridades da China tinham elevado de 265 para 558 o número de desaparecidos no município de Shigatse, na região do Tibete, onde já foi confirmada a morte de três pessoas. As encostas íngremes e os vales verdejantes situados abaixo da cordilheira dos Himalaias são particularmente vulneráveis a inundações e deslizamentos de terras, enquanto fenómenos meteorológicos extremos, como monções intensas e o degelo dos glaciares, tornaram-se mais frequentes devido ao aquecimento provocado pelas alterações climáticas de origem humana. Avisos naturais A região registou enxurradas semelhantes em Agosto de 2025, quando um lago glaciar no Tibete transbordou devido às temperaturas elevadas. Nove pessoas morreram e infraestruturas essenciais, incluindo uma ponte que liga o Nepal à China, ficaram danificadas. Imagens captadas por drone no Nepal mostraram estradas destruídas e edifícios soterrados por torrentes de água. Os vales íngremes da região constituem importantes corredores económicos e de transporte, mas tornam-se particularmente vulneráveis em situações de catástrofe. Imagens mostraram o que pareciam ser os segundos pisos de edifícios no distrito de Nuwakot, um dos mais afectados no Nepal, cobertos de lama após a passagem das águas. Destroços ficaram presos em ramos de árvores e cabos, veículos foram soterrados e alguns sobreviventes, cobertos de lama, mostravam-se atordoados. As inundações interromperam as deslocações em algumas zonas. O Governo nepalês ainda não solicitou ajuda, mas a Austrália está a coordenar com o Nepal, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha e outras organizações uma eventual resposta humanitária, acrescentou. A cordilheira dos Himalaias atravessa vários países do sul da Ásia e alberga alguns dos picos mais altos do mundo e vários glaciares. O que aconteceu Um forte fluxo de água, lama e detritos desceu a grande velocidade na manhã de quarta-feira de ambos os lados da fronteira montanhosa do Nepal e do Tibete, território chinês. Uma câmara de vigilância instalada do lado chinês filmou uma vaga castanha de vários metros a submergir e a engolir em poucos segundos um edifício de cerca de seis andares enquanto várias pessoas tentavam fugir a correr. No Nepal, a vaga atingiu as localidades situadas no vale do rio Trishuli, no distrito de Nuwakot, a norte de Katmandu, e no vale do Bhotekoshi, a leste da capital. Num primeiro momento, as autoridades chinesas falaram de um deslizamento de terras, e as nepalesas de inundações. As causas De acordo com o Instituto de Estudos Geológicos dos Estados Unidos (USGS), a enxurrada pode ter sido causada pelo colapso de um glaciar, com uma violência tal que terá provocado um sismo de magnitude 5,2 e numerosos deslizamentos de terras. A topografia extrema dos Himalaias agravou os riscos. Os cientistas vão tentar perceber se as alterações climáticas aumentam a probabilidade de tais eventos extremos. Ajuda internacional Meios de ajuda internacional começaram a ser enviados desde quarta-feira para o Nepal. Os Estados Unidos comprometeram-se a doar 500.000 dólares em ajuda de emergência. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês) desbloqueou pouco mais de um milhão de euros em fundos de emergência. A União Europeia activou o sistema europeu de vigilância por satélite Copernicus para ajudar os socorristas no Nepal e declarou-se pronta para fornecer mais ajuda. A vizinha Índia enviou 10 toneladas de ajuda humanitária, incluindo cobertores, lâmpadas solares e medicamentos. Nepal | Risco de novas cheias caso detritos bloqueiem rios Especialistas alertaram que os detritos transportados pelas enxurradas nos Himalaias, que deixaram pelo menos 270 mortos no Nepal e na China, podem criar barragens naturais e desencadear um segundo evento catastrófico caso sejam libertados. Num comunicado divulgado ontem, o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD, na sigla em inglês), com sede em Katmandu, indicou que as autoridades e os cientistas estão a avaliar se os detritos bloquearam temporariamente o rio num troço estreito, “formando uma barragem natural”, dado que, se esta água for libertada repentinamente, poderá criar “um risco secundário”. O centro acredita que uma avalanche proveniente de um glaciar terá provavelmente provocado a enxurrada de quarta-feira, que deixou pelo menos 1.300 desaparecidos dos dois lados da fronteira. “As observações hidrológicas indicam a velocidade e magnitude excepcionais”, afirmou o organismo, indicando que, num determinado ponto do rio Trishuli, o nível da água subiu até nove metros em apenas meia hora. O rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, registou as maiores cheias, acrescentaram os especialistas. “O Lhende Khola transbordou duas vezes em 14 meses, desta vez devido a uma avalanche de gelo e rocha proveniente de um glaciar do lado nepalês, que bloqueou o rio e libertou subitamente uma enorme massa de água a jusante”, explicou Saswata Sanyal, especialista em redução do risco de catástrofes do ICIMOD. Sanyal destacou a importância dos sistemas de alerta precoce num contexto de “aquecimento dos Himalaias”. A cordilheira dos Himalaias atravessa vários países do sul da Ásia e alberga alguns dos picos mais altos do mundo e vários glaciares.
Hoje Macau Grande PlanoÁrtico | Cimeira dos líderes europeus em Setembro na Finlândia A Finlândia anunciou ontem que vai organizar, em Setembro, uma cimeira de líderes da União Europeia dedicada ao Ártico, cuja “importância geopolítica continua a crescer rapidamente”. As declarações do Presidente norte-americano, Donald Trump, de acordo com as quais o território autónomo dinamarquês da Gronelândia devia passar a ser norte-americano, bem como a decisão da China de enviar um porta-contentores numa rota que atravessa o Ártico, confirmaram essa importância estratégica. A cimeira, a realizar-se nos dias 13 e 14 de Setembro, em Rovaniemi (norte), visa “reforçar a abordagem estratégica comum da UE em relação à região ártica, cuja importância geopolítica não cessa de crescer rapidamente”, referiu em comunicado o gabinete do primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo. Os líderes europeus, nomeadamente o chanceler alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, e a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, devem participar no evento, juntamente com a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. “A região ártica é uma parte cada vez mais importante do ambiente de segurança da Europa”, afirmou o primeiro-ministro finlandês. “A União Europeia tem interesses directos na estabilidade, segurança e desenvolvimento sustentável. É muito valioso poder debater estas questões em conjunto com um vasto grupo de líderes da UE”, acrescentou. O degelo marinho reforçou a importância estratégica desta região, melhorando o acesso a recursos naturais cruciais e abrindo novas rotas marítimas. Aliás, um porta-contentores sul-coreano partiu no sábado para a Europa pelo Ártico, o mais recente exemplo do novo interesse suscitado por esta rota marítima, num momento em que persiste o bloqueio do tráfego no Médio Oriente devido à guerra entre Estados Unidos e Irão. De acordo com especialistas, esta rota, mesmo que se tenha tornado mais navegável devido ao aquecimento global, deverá continuar a ser secundária.