EventosTeatro | “Desconhecido ilhÉU” traz obra de Saramago a Macau Hoje Macau - 9 Nov 20269 Nov 2026 Uma peça inspirada num livro de José Saramago quer ajudar Macau a “repensar a vida” e a escapar à “jaula invisível” em que muitos vivem, disseram à Lusa os responsáveis pela adaptação. A Associação de Arte Teatral Dirks vai levar ao Centro Cultural de Macau em 14 e 15 de Novembro a peça “Desconhecido IlhÉU”, criada a partir do “Conto da Ilha Desconhecida”, do escritor português (1922-2010) e Prémio Nobel da Literatura. O livro fala de um homem que consegue do rei um barco para procurar uma ilha ainda por descobrir, uma alegoria que representa a luta contra as convenções e a busca pelos sonhos. O co-director artístico da Dirks, Ip Ka Man, lembrou-se do livro de Saramago após a pandemia, em conversa com amigos que “já tinham mudado de rumo, passando a trabalhar nos casinos”, e outros que estavam a pensar fazer o mesmo. “Muitos dos nossos amigos se questionavam: ‘Será que devo abandonar o que faço agora e pensar de forma mais prática?'”, recorda o encenador de “Desconhecido IlhÉU”. A questão levou Ip a interrogar-se sobre se os residentes de Macau são “obrigados a fazer este tipo de escolhas”, simplesmente porque “há menos opções ou oportunidades”. “Será que as pessoas em Macau se concentram apenas em ganhar dinheiro, ou será que foram moldadas por outros factores: o próprio lugar, as leis, a cultura?”, deixa no ar o co-director artístico da Dirks. Dúvidas e conforto Para Mirabella Lao, que adaptou com Ip Ka Man o livro de Saramago, Macau é “uma cidade abençoada”, onde quem trabalha em casinos ou para a função pública pode ter “uma vida muito confortável”. Algo que faz com “as pessoas reflictam menos sobre si próprias” e acabem por, “talvez nas suas mentes, sentirem que as escolhas que têm são mais limitadas”, explica Lao. A proposta de “Desconhecido IlhÉU” é, segundo Ip Ka Man, “repensar a vida”: “Estamos a viver numa espécie de jaula invisível, que limita a nossa imaginação ou a forma como pensamos sobre nós mesmos”. “A forma como o indivíduo reage à sociedade ou ao colectivo, o que acontece quando deixa que a sua imaginação e os seus desejos venham ao de cima”, é um dos traços na literatura de Saramago que Ip Ka Man mais valoriza. As personagens nesta peça, refere, começam resignadas com a identidade que têm, “mas, no final, talvez tenham a hipótese de mudar algo à volta graças à sua imaginação”. O co-director artístico da Dirks quer encorajar o público a “experimentar algo diferente” e “alargar os horizontes”, nem que seja a viajar. Algo que a companhia também gostaria de fazer com “Desconhecido IlhÉU”, projecto que já apresentou em feiras de artes de palco na Coreia do Sul e no Japão. Muitos grupos artísticos da Ásia querem tentar levar projectos a outros lugares, diz Ip, porque “o mercado está a encolher em todo o lado”. “Não querem passar três ou seis meses a criar um espectáculo novo para o apresentar apenas durante três dias”, sublinha o encenador. Objectivo: Portugal Ip confessa também que “adoraria” levar a peça a Portugal. “Talvez as pessoas pensassem: ‘Ah, então isto é Saramago em chinês’, imagina. Para torná-lo “mais simples e acessível para diferentes cidades ou países”, o espectáculo não inclui diálogo, uma decisão que o director admite ter sido “bastante dolorosa” face à “muita sabedoria” das palavras do escritor português. “Desconhecido IlhÉU” combina movimento, música ao vivo e objectos de papel, incluindo livros ‘pop-up’ e origami, explica Mirabella Lao, responsável pelo design e produção de adereços. Lao usou papel de diferentes texturas e vários tipos de livros ‘pop-up’, alguns “que abrem em ziguezague”, para “ajudar a contar a história” e ainda “reforçar a energia dos atores”. Em Junho, alunos do Conservatório de Macau adaptaram ao teatro outra obra de Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, para encerrar o ano lectivo. Em 2023, o co-director artístico da Dirks já tinha encenado “Centauro”, uma peça inspirada no conto do escritor português.