Livros | Manuela António lança autobiografia e fala de “marasmo económico” em Macau

“Em Portugal e Macau – Os dois lados de uma vida”, a advogada Manuela António recorda uma vida construída a pulso desde a povoação de Porto Brandão até Macau, onde abriu o escritório em 1986. O livro foi lançado na última quinta-feira, em Lisboa. Ao HM, Manuela António lamentou o “marasmo económico” em que vive o território

A sua vida foi feita entre as margens do Tejo. Do lado de lá, desde Porto Brandão, estudava e ajudava os pais na venda ambulante para os lados de Belém. Mas do lado de cá, na escola e depois na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, os sonhos foram-se concretizando aos poucos.

Hoje, Manuela António é uma das mais conceituadas advogadas do território, para onde foi nos anos 80, tendo aberto o seu escritório em 1986. A sua autobiografia, “Em Portugal e Macau – Os dois lados de uma vida”, com edição de autor, foi lançada na última quinta-feira, 5 de Novembro, no MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, que em tempos foi uma escola e onde Manuela António fez o ensino secundário.

A sessão contou com muitas caras conhecidas da política portuguesa, como Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro, António Marinho e Pinto, ex-Bastonário da Ordem dos Advogados, ou até Francisca Van-Dunem, antiga ministra da Justiça.

Ao HM, Manuela António disse que quis escrever este livro “para partilhar com os amigos alguns momentos muito bons” que viveu e também para mostrar “que os sonhos conseguem concretizar-se e que tudo é possível”.

Questionada sobre o actual panorama da advocacia portuguesa em Macau, Manuela António disse não haver motivo para alarme. “Temos uma promessa que está a ser cumprida, porque Macau faz parte do segundo sistema. A matriz portuguesa [dos escritórios] tem-se mantido consistente e penso que não há esse risco [de redução].”

A advogada é bem mais crítica em relação ao panorama económico do território. “Macau é que não percebeu bem o que é preciso fazer, e está numa situação de marasmo económico muito grande de que é muito difícil sair, porque as medidas deveriam ter surgido nos últimos 15 anos. [A crise] não é de agora, mas tem vindo a piorar”, defendeu.

Residência precisa-se

Para Manuela António, o Executivo “deveria perceber que tem um sistema fiscal privilegiado, com estrangeiros e técnicos privilegiados, e que poderia incentivar a vinda de empresas, permitindo e facilitando a residência de Macau aos estrangeiros”.

Desta forma, a sua crítica incide nas dificuldades actuais na obtenção de residência. “O Governo tem como paradigma principal a diversificação da economia, mas o que temos visto nos últimos anos é uma maior dependência do jogo, não existindo diversificação rigorosamente nenhuma. O Governo não está a saber aproveitar as oportunidades que tem. Falta inteligência e sentido de oportunidade, e ainda capacidade para enfrentar o futuro com competência, abrindo de facto Macau aos ocidentais e chineses da China, Hong Kong e Singapura, e aos técnicos e empresários que se poderiam fixar em Macau.” “O maior bloqueio é ao nível da residência, porque, de resto, temos tudo”, acrescentou a advogada.

Carreira feita a pulso

Numa obra dedicada à sua filha Catarina, Manuela António recorda algumas quezílias que teve com o também advogado Jorge Neto Valente e Carlos Monjardino, então secretário-adjunto para a Economia, Finanças e Turismo, nomeadamente na tentativa de condicionar o arrendamento do andar no edifício Montepio, onde abriu o seu escritório a 28 de Novembro de 1986.

A autobiografia de Manuela António deixa também comentários sobre alguns governadores portugueses de Macau, como é o caso de Rocha Vieira, que a advogada considera ter sido um governante “com muita autoridade, mas pouca obra”. Já Carlos Melancia foi autor de uma “obra que ficou incompleta”, enquanto Joaquim Pinto Machado foi, no seu entender, “apanhado na teia do jogo político”. Com Melo Egídio, Manuela António acredita que se deu “o regresso à estagnação” em Macau.

Manuela António dedica também muitas linhas a contar a China que viu com os seus olhos, ainda a abrir-se ao mundo, no capítulo “O século chinês: Um crescimento sem limites” ou ainda em “A ascensão chinesa e os travões invisíveis ou imprevistos”. A advogada termina a sua autobiografia com algumas linhas dedicadas aos “tempos do covid em Macau”, território onde “os efeitos da pandemia assumiram contornos particularmente severos”.

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