EventosLivraria Portuguesa | Exposição de Mónica Coteriano explora mudanças de Macau Andreia Sofia Silva - 29 Out 2026 Pode ser vista até 15 de Novembro a nova exposição de instalação e fotografia de Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural. Em “Monochrome”, são exploradas as profundas transformações que Macau tem atravessado nos últimos anos espelhadas em rostos e objectos, numa conjugação da memória com algum sentido de humor Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural, apresentou esta terça-feira “Monochrome”, uma nova exposição de instalação e fotografia patente na Livraria Portuguesa até ao dia 15 de Novembro. Segundo um comunicado, o público pode ver “uma instalação com humor sobre memória e transformação” do território. Para contar esta história, Mónica Coteriano juntou “um conjunto de obras onde são revisitadas pessoas, lugares, linguagens e hábitos de Macau, cruzando fotografia, colagem, objectos, luz e participação do público”. O território é, assim, apresentado como um “espaço de memória, mudança e algumas contradições”, tratando-se de uma exposição onde Macau é olhada “a partir de situações aparentemente simples: o rosto de quem já não se volta a ver, uma loja antiga, uma placa de rua, um jogo de damas, uma garrafa de cerveja ou a neblina que esconde a Torre de Macau”. Mónica Coteriano não pretende, com “Monochrome”, construir uma “visão monumental ou definitiva da cidade”, mas sim trazer ao público “uma narrativa feita de fragmentos”. “As obras recuperam presenças e gestos do quotidiano, confrontam as transformações urbanas e reflectem sobre as marcas deixadas por diferentes culturas, línguas e gerações. O humor e a ironia atravessam a instalação, não como simples efeitos cómicos, mas como formas de olhar para aquilo que desaparece, permanece ou se transforma”, revelam-se no mesmo comunicado. Percurso de memória A primeira etapa da mostra explora “a memória como forma de resistência à ausência”. Uma das histórias exploradas é a de um alfaiate que teve uma loja na Rua dos Mercadores. Mónica Coteriano pegou nela, recuperou “uma figura da vida quotidiana de Macau e transformou essa fotografia numa homenagem e lugar de permanência”. Esta obra em particular “preserva não apenas um rosto, mas também o seu sorriso, aberto, generoso e luminoso, que se torna o ponto de partida para uma reflexão sobre os ofícios, lojas antigas e relações discretas que compõem a memória colectiva da cidade”. Outro tema abordado em “Monochrome”, é a linguagem e herança colonial, explorados “com humor” na obra “O poder da língua já não é o que era”. Aqui coloca-se “em tensão” o lugar da língua portuguesa no território, sendo presença em “placas de ruas e nomes de lugares”. Porém, revela-se o contraste pelo facto de não ser um idioma falado no dia-a-dia em Macau. “A fotografia de um caracter chinês que significa ‘para sempre’ acrescenta uma camada irónica e poética: de um lado, uma língua histórica cuja influência já não é a mesma; do outro, uma palavra que promete uma permanência absoluta. Entre a língua viva e a língua inscrita, a peça questiona o que fica verdadeiramente na memória de uma cidade”, é explicado. Há ainda obras que “confrontam o visitante com diferentes formas de olhar”, como é o caso de “Ignora a realidade”, com “um tubo que obriga a observar através de um enquadramento estreito, no fundo do qual surge a frase que dá título à peça”. Aqui, o visitante “torna-se voyeur e vê as fotografias dos casinos a partir de uma posição simultaneamente curiosa e clandestina”. Permanecem “o brilho, o desejo, o risco e a promessa de uma realidade diferente que entram em conflito com a ordem para ignorar aquilo que está diante dos olhos”. “Ignora a realidade” coloca-nos uma questão: “se ignoramos realmente a realidade ou se apenas escolhemos cuidadosamente o que queremos ver”. Monochrome constitui “um retrato de Macau feito de presenças frágeis e persistentes”, onde o território “aparece como arquivo vivo, lugar de conflito entre o antigo e o novo”. Macau surge também como um lugar “onde as memórias pessoais se cruzam com a história colectiva”. Nesta exposição, “as obras não procuram fixar Macau numa imagem única”, revelando “uma cidade que se reinventa, que esconde e expõe, que conserva vestígios e produz novos símbolos”. Mónica Coteriano diz recorrer “ao humor, ironia e participação” para contar todas estas mudanças. O visitante é convidado “a olhar de novo para aquilo que parece familiar”. Observa-se, num jogo permanente de contrastes, “a ausência e permanência, a língua e inscrição, a realidade e ilusão, o lamento e riso”. “Monochrome” faz-nos pensar o que “ainda conseguimos reconhecer numa cidade em transformação, e que parte dessa cidade continua, afinal, a viver dentro de nós”.