IA | Relatório da Web Summit prevê redução de equipas e perda de empregos

O relatório “State of the Industry 2026: AI Edition” revela posições contraditórias de quase 1.500 profissionais do sector tecnológico quanto ao impacto da inteligência artificial. Se 33 por cento acredita na perda de empregos, 39 por cento prevê aumento. Mais de metade diz que a IA ajuda ao pensamento crítico

 

No “primeiro inquérito da Web Summit” sobre os impactos da inteligência artificial (IA) no sector tecnológico, as posições de 1.455 criadores de empresas ou engenheiros de software são contraditórias face aos impactos reais da IA no mercado de trabalho. Há quem acredite na perda de empregos, mas também há quem encare a IA como uma forma de reforçar o pensamento crítico ou mesmo numa alavanca para o aumento do número de profissionais no sector no espaço de dois anos.

Estas são algumas das conclusões do “State of the Industry 2026: AI Edition” [Estado da Indústria 2026: Edição IA], um documento que “revela divisão de opiniões em relação à IA”, conclui a Web Summit em comunicado. Há 42 por cento dos inquiridos a referir que a chegada da IA vai levar a uma redução de equipas nas empresas, enquanto 33 por cento acredita que a IA cortar postos de trabalho no espaço de dois anos. Porém, 39 por cento dos inquiridos acreditam que “o número de trabalhadores na sua área vai aumentar nos próximos dois anos”.

Descreve a mesma nota que “as perspectivas são mais negativas no que diz respeito aos empregos de entrada”, ou seja, de primeiro acesso ao sector. Isto porque “42 por cento antecipa uma diminuição de oportunidades, percentagem que sobe para 50 por cento entre os inquiridos que ocupam cargos de topo na gestão executiva”. Por sua vez, “os estudantes constituem uma excepção, com 55 por cento a prever um aumento” de vagas.

De destacar a opiniões de um consultor e director de serviços, oriundo da América Latina, que refere a “maior oportunidade da IA: acelerar processos”. Pelo contrário, o “risco” é a “perda massiva de empregos”.
Outro inquirido, também da América Latina e ligado à área dos média, considera que a “maior oportunidade da IA é quebrar barreiras linguísticas e permitir que criadores e comunidades de todo o mundo se liguem, comuniquem e cresçam em tempo real”.

O inquérito traz ainda perguntas sobre o volume de trabalho com a chegada da IA, e também aqui as posições são contraditórias. “A IA não está a reduzir a carga de trabalho”, aponta a Web Summit, já que “60 por cento afirma que a IA aumentou a carga de trabalho”. Porém, “20 por cento consideram que a IA reduziu” a quantidade de trabalho a produzir.

É ainda explicado que “o aumento é mais expressivo nos sectores directamente ligados à IA, com destaque para a área das infra-estruturas de inteligência artificial e aprendizagem automática (IA/ML), onde chega aos 70 por cento”.

Uma “visão positiva”

Outros dados fazem referência à conexão entre a máquina e o humano. “A maioria tem uma visão positiva da IA, com 55 por cento a afirmar que esta reforça o seu pensamento crítico.”

“O debate público sobre a IA oscila entre alertas sobre a deterioração das capacidades cognitivas, a rivalidade entre modelos de código aberto e fechado e receios de uma perda massiva de postos de trabalho, mas a realidade dos profissionais do sector tecnológico é mais complexa”, lê-se no relatório.

Isto porque “a maioria afirma que a IA melhora o seu pensamento crítico, havendo quem considere que a tecnologia permite dedicar mais tempo a tarefas de maior responsabilidade”. Apenas 26 por cento considera que a IA “enfraquece” esse mesmo pensamento, enquanto 19 por cento “não identifica diferenças”.

Sem referir nomes, o relatório destaca algumas das opiniões dos inquiridos. Neste ponto da manutenção, ou não, do pensamento crítico, o fundador de uma empresa na área dos serviços e consultoria, da Europa, refere que existe “um risco das pessoas confiarem demasiado na IA, colocando em causa o pensamento crítico”.

Outro participante, da área de engenharia e serviços, também oriundo da Europa, destaca como a IA está a “acelerar a produção, aumentando as expectativas sobre o quanto podemos produzir”. “Mas as pessoas podem estar demasiado confiantes nessa produção, existindo também pouco tempo para rever tudo isso”, alertou.

O relatório destaca como “a maioria também reconhece que a IA aumenta a carga de trabalho”, já que “muitos estimam que equipas mais pequenas terão de dar resposta a esse aumento, reduzindo oportunidades para os profissionais em início de carreira.”

Neste rol de opiniões, “os engenheiros, responsáveis pelo desenvolvimento destas ferramentas, continuam a ser o grupo mais céptico”. Nidhi Naithani, vice-presidente sénior de Operações Tecnológicas da Web Summit, destaca como o estudo “deixa claro que as pessoas estão divididas quanto a um futuro com IA”.

“O que mais me surpreende, embora não seja inteiramente inesperado, é o feedback da nossa comunidade de engenheiros e programadores. Aqueles que têm a responsabilidade de desenvolver processos e sistemas destinados a tornar o trabalho mais fácil e rápido são precisamente os que mais se preocupam com a segurança no emprego.”

“Parece contraditório”, frisou, “mas, como os engenheiros e fundadores são, em geral, os responsáveis pelo desenvolvimento destas tecnologias e os seus primeiros utilizadores, são também quem melhor as compreende e quem acompanha de perto o seu impacto”, acrescentou Nidhi Naithani.

A responsável diz ainda “compreender os receios em torno da IA”. “Não considero que devam ser ignorados os alertas relativos à perda de postos de trabalho e ao impacto social das mudanças associadas à IA. Muitos dos fundadores e directores executivos que participaram neste inquérito defendem a criação de equipas mais pequenas, capazes de fazer mais”, frisou.

Nidhi Naithani alerta para o facto de “sectores importantes, como os meios de comunicação social, estarem particularmente expostos, uma vez que a IA está a transformar o ecossistema da informação”. Estão, assim, em causa “pressões crescentes que podem ter efeitos duradouros e potencialmente prejudiciais”.

Questões de quantidade

O inquérito realizado pela Web Summit colocou ainda questões sobre o investimento feito no sector – será muito ou pouco? Também aqui as opiniões dividem-se. “Poucos estimam um colapso do investimento em IA”, lê-se no documento, já que “apenas cerca de um em cada dez inquiridos acredita que o investimento em IA vai sofrer uma queda acentuada”.

Por sua vez, “um terço [dos inquiridos] considera que o investimento é excessivo e irá abrandar, embora de forma gradual”. Além disso, “uma proporção semelhante entende que a tecnologia ainda se encontra numa fase inicial e continuará a crescer”.

Os “profissionais que desenvolvem soluções de IA são os mais cépticos, pois mais de metade dos inquiridos das áreas de engenharia e desenvolvimento de produtos considera que o investimento já é demasiado elevado”, é ainda explicado.

A Web Summit realiza-se em Lisboa no próximo mês, entre os dias 9 e 12 de Novembro, reunindo mais de 70 mil participantes, provenientes de mais de 100 países, incluindo 10 mil startups. Espera-se a realização de uma cimeira pensada para o sector da tecnologia da China, tida como a “maior concentração de sempre de líderes tecnológicos chineses num evento tecnológico ocidental, com representantes de empresas como a Tencent e a Xiaomi, bem como da Pony.AI e da Manus”, descreve-se na mesma nota.

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