UM | Migrantes e tecnologia são apostas para enfrentar envelhecimento

Um investigador da Universidade de Coimbra afirmou ontem num seminário na Universidade de Macau que a China está a desenvolver uma resposta própria ao envelhecimento da população, combinando mão-de-obra migrante interna e tecnologia

 

Num seminário realizado na Universidade de Macau (UM), o professor de Antropologia Sócio-Cultural, Gonçalo Santos, afirmou que a situação demográfica chinesa é muito diferente da de países como o Japão, que se tornou uma das sociedades mais envelhecidas do mundo. “A um nível macroestrutural, a situação chinesa é muito diferente”, afirmou Santos. “Para começar, a China tem a vantagem de beneficiar da experiência dos outros. O Japão não teve realmente essa vantagem”, indicou o investigador em resposta a perguntas da Lusa.

No final de 2025, a população chinesa com 60 anos ou mais tinha atingido os 323 milhões, representando aproximadamente 23 por cento da população total do país, de acordo com o Gabinete Nacional de Estatísticas, prevendo-se que mais de 30 por cento da sua população tenha 60 anos ou mais até 2035.

Apesar dos desafios, Santos considera que a resposta chinesa ao envelhecimento populacional está a dar origem a um modelo próprio, que combina mão-de-obra migrante, orientação estatal, incentivos de mercado e tecnologia.

Segundo o investigador, ao contrário do Japão, a China ainda não se tornou uma sociedade plenamente envelhecida e continua a poder contar com uma força de trabalho migrante interna “quase infinita” para apoiar os cuidados à população idosa.

Os trabalhadores migrantes provenientes das zonas rurais representam actualmente a maioria dos funcionários em muitas instituições de cuidados para idosos na China continental, com Santos a destacar que o principal desafio não é a escassez de trabalhadores, mas sim a melhoria das suas qualificações, estatuto e condições de trabalho. “Estes trabalhadores vêm das zonas rurais e são muitas vezes menosprezados pelos empregadores ou pelos filhos dos idosos”, afirmou, acrescentando que estas tensões acabaram por se transformar numa questão política centrada na melhoria das qualificações profissionais do sector.

Visão prática

Ao mesmo tempo, Pequim está a apostar num modelo que Santos descreveu como “tecno-solucionista”, colocando a tecnologia no centro da sua estratégia para responder ao envelhecimento da população. “A tecnologia é uma componente fundamental da estratégia de desenvolvimento do Governo, e não apenas no sector dos cuidados”, afirmou. “A robótica aplicada aos cuidados faz parte deste processo”, acrescentou.

Na sua opinião, o modelo chinês distingue-se dos seguidos no Japão ou na União Europeia, onde o investimento público se concentrou fortemente na investigação. A China optou, em grande medida, por delegar o desenvolvimento tecnológico em empresas privadas, orientadas por prioridades definidas pelo Estado.

“Desde o início, a China fez aquilo que o Japão começou a fazer nos anos 2000, externalizando o desenvolvimento da robótica para empresas privadas, de acordo com orientações e especificações definidas a nível nacional”, explicou. Em troca, as empresas obtêm acesso ao mercado e apoio político, enquanto as autoridades mantêm uma forte capacidade de intervenção.

“O Partido Comunista Chinês pode implementar políticas com um nível de controlo do mercado que nenhum país da União Europeia ou o Japão possui”, afirmou Santos. Ao mesmo tempo, o académico considera que a China está a concentrar-se no desenvolvimento de tecnologias de assistência acessíveis e orientadas para o uso doméstico, em vez de privilegiar os lares e outras instituições. “Acho que a China está a ser mais pragmática”, avaliou.

Apesar disso, o investigador alertou para o risco de as zonas rurais continuarem a ser negligenciadas nas políticas de envelhecimento. “Quase todas as políticas estatais que vejo centram-se nos residentes urbanos. Os residentes das zonas rurais da China não têm praticamente qualquer voz na implementação das políticas e as suas necessidades não estão a ser contabilizadas”, afirmou.

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