Perspectivas VozesO Crepúsculo Ocidental Jorge Rodrigues Simão - 27 Ago 2026 “Civilizations now know that they are mortal.” Paul Valéry, “The Crisis of the Mind” (1919) O que até ontem poderia servir de roteiro-base para um daquelas séries de consumo rápido, embalados pela estética saturada da Netflix, hoje assume a forma de alegoria demasiado próxima da realidade para ser confortável. A aurora do crepúsculo ocidental expressão que, se não fosse trágica, seria apenas melodramática desenha-se diante de nós com a serenidade fatal das coisas que não precisam de provar nada. O velho sonho americano de um domínio eterno, vestido com o corte impecável do “modo de vida ocidental”, revela-se afinal uma peça de teatro que perdeu o protagonista, o enredo e o público. E, contudo, no caos que nos rodeia, descobrimos vestígios de uma ordem futura, como se o mundo, cansado de improvisar, começasse a ensaiar discretamente o próximo acto. Uma fenomenologia sóbria, aquela que não se deixa seduzir por teorias conspirativas nem por entusiasmos patrióticos ensina-nos que as aparências raramente enganam. Basta observar com atenção o palco da “Grande Guerra” (conflito sistémico global em curso) para perceber que o cenário mudou e que a América perde, a Rússia resiste, a China ganha e a Europa afunda. Eis o resumo, tão brutal quanto exacto, da nova cartografia estratégica. Os americanos perderam a dissuasão estratégica, que é como perder quase tudo. Já ninguém confia neles, excepto aqueles que não têm alternativa. Os rivais tentam lucrar com a fraqueza, enquanto os “aliados” se apressam a reprogramar protocolos de segurança que julgavam eternos. Washington, ao insinuar-se no teatro ucraniano com a astúcia de quem pretende desgastar Moscovo sem jamais correr o risco de o derrotar, acabou por se enredar na própria armadilha e arruinar-se com uma incompetência tão ruidosa quanto previsível. A ironia é que o americano médio, esse cidadão que, segundo Mark Twain, “nunca deixa que a verdade atrapalhe uma boa opinião” não sabe sequer localizar a Ucrânia no mapa. A Rússia, que arriscou o osso do pescoço, agora aproveita o marasmo americano com a paciência fria de quem viu impérios cair. O apoio dos Estados Unidos e dos atlânticos a Kiev permitiu a Putin transformar uma expedição punitiva numa guerra simbólica entre a Federação Russa e o Ocidente, da qual o Kremlin se apresenta como vencedor. Mas a vitória é ilusória porque Moscovo perde no seu eixo estratégico central, aquele que sempre temeu com a China. O preço da ousadia russa contra a América, com quem nunca travou uma guerra aberta, será elevado. Os chineses contemplam vastidões inteiras a desdobrar-se diante deles como a Ásia Central outrora soviética, a Sibéria profunda e o Árctico silencioso como se o mapa do Norte lhes abrisse, sem resistência, um corredor de expansão que Moscovo não consegue vigiar nem reivindicar com a antiga altivez imperial. Ali, russos e americanos serão forçados a reencontrar-se, não por afinidade, mas por necessidade, para tentar impedir que Pequim controle a rota setentrional. E os japoneses, sul-coreanos, indianos e demais parceiros asiáticos dos Estados Unidos efectivos ou presumidos perceberam que terão de confiar sobretudo em si próprios. A Pax Americana, que nunca foi tão pacífica quanto o nome sugeria, está a dissolver-se como uma névoa ao sol. Na escala ocidental, o espectáculo assume contornos ainda mais penosos. Os americanos, fiéis à velha arte de sacudir responsabilidades, tratam de despejar a derrota sobre os europeus e, por conseguinte, sobre nós. Perdemos a bússola, mas preservamos intacta a venerável tradição de varrer a realidade para debaixo do tapete, como quem acredita que o pó desaparece por decreto. A diferença entre eles e nós é quase cruel pois os americanos sabem que perderam e, por isso, iniciaram a sua revolução interna para mudar de pele e impor limites ao império; nós, pelo contrário, agitamo-nos em convulsões estéreis, sem compreender grande coisa deles e ainda menos de nós próprios. Somos simultaneamente frenéticos e apáticos, inertes na exacta medida em que gesticulamos. A Europa transformou-se numa figura secundária que insiste em ocupar o centro do palco, sem reparar que ninguém lhe acende os focos. E depois há o terceiro Ocidente, o ex-Ocidente identitário que é Israel. Envolvido num prolongado e desnecessário ensaio de suicídio nacional, que dura apenas porque é alternativa à guerra civil latente, o Estado hebraico vê a sua raiz ocidental comprometida nos planos antropológico, cultural e institucional. Resiste o vínculo existencial com a América, mas Jerusalém já não dispõe de um cheque em branco de Washington. A tragédia é que Israel, outrora símbolo da resiliência, se encontra hoje numa encruzilhada que lembra a advertência de Hannah Arendt: “A violência pode destruir o poder; é totalmente incapaz de o criar.” (On Violence, 1970). A única certeza trágica é a Ucrânia, que perdeu estrondosamente. Não apenas o Donbas e a Crimeia. Reduzidos à exaustão, espoliados, enfraquecidos até ao limite, deixados sem forças nem recursos pelos russos e agora também pelos americanos, diligentes na arte de rapinar os tesouros minerais alheios os ucranianos descobrem, com a amargura dos que já não têm ilusões, a distância abissal entre a retórica atlântica e os seus actos. Kiev depende de um Ocidente que deixou de existir com um corpo dilacerado, oportunista, hipócrita, que ainda se proclama guardião da liberdade enquanto tropeça nos próprios escombros morais. E é por isso que a Ucrânia arrisca perder-se a si própria, não apenas no mapa, mas na identidade. A pergunta que ressoa, como refrão de uma ópera medíocre e mal ensaiada, é de uma simplicidade devastadora de como chegámos a este ponto? Chegámos aqui porque o Ocidente confundiu poder com virtude, influência com destino, hegemonia com eternidade. Porque acreditou que a História tinha terminado, como proclamou Francis Fukuyama em 1992, num optimismo que hoje parece quase infantil. Porque julgou que a globalização era uma avenida de sentido único, conduzindo inevitavelmente à vitória liberal. Porque se habituou a pensar que o mundo era um espelho, e que todos desejavam ser versões menores de si próprio. Porque ignorou que a China, paciente como uma dinastia, preparava o século XXI enquanto o Ocidente se entretinha com guerras de identidade e crises financeiras. Porque não percebeu que a Rússia, humilhada nos anos de 1990, aguardava o momento de recuperar o orgulho ferido. Porque não viu que o Médio Oriente, longe de ser um tabuleiro estático, era um laboratório de convulsões que cedo se tornariam globais. Chegámos aqui porque a Europa, esse continente que produziu Kant, Goethe, Camões, Cervantes e Shakespeare, decidiu transformar-se numa burocracia sentimental, onde cada crise é resolvida com comunicados e cada ameaça com regulamentos. Porque os europeus confundiram paz com imobilidade, e prosperidade com anestesia. Porque acreditaram que a História era um fenómeno meteorológico que não lhes dizia respeito. Porque, como escreveu Paul Valéry, “as civilizações sabem agora que são mortais” (La Crise de l’Esprit, 1919), mas preferem fingir que não ouviram. Chegámos aqui porque os Estados Unidos, exaustos de si próprios, entraram numa fase de introspecção turbulenta, onde cada eleição é uma batalha cultural e cada decisão estratégica é filtrada por cálculos domésticos. Porque a América, que outrora se via como farol, hoje se vê como fortaleza. Porque perdeu a capacidade de inspirar, e com ela a capacidade de liderar. Porque, como advertiu George Kennan, “nenhum país pode manter uma posição de liderança se não souber controlar os seus impulsos” (American Diplomacy, 1951). Chegámos aqui porque o mundo mudou, e nós não. Porque a ordem internacional não é um edifício, mas um organismo. Porque a História não é linear, mas circular. Porque o poder não é estático, mas migratório. Porque a soberba é sempre punida, e o Ocidente confundiu soberba com missão. E chegámos aqui, sobretudo, porque ninguém quis ver os sinais. Porque os relâmpagos da Grande Guerra iluminam apenas aquilo que já estava à vista de um Ocidente cansado, dividido, hesitante; uma América vulnerável; uma Europa perdida; uma Rússia temerária; uma China paciente e ambiciosa; um Médio Oriente em combustão; uma Ucrânia sacrificada; um Israel em vertigem e um mundo em reconfiguração. O que resta, então? Resta observar, com a lucidez que ainda nos é possível, que o futuro começou e não espera por nós. Resta compreender que o Ocidente não está a morrer mas a transformar-se. Resta aceitar que a hegemonia americana não era destino, mas circunstância. Resta perceber que a China não é inevitável, mas preparada. Resta admitir que a Europa não é vítima, mas cúmplice da sua própria irrelevância. Resta reconhecer que a História não acabou, apenas mudou de narrador. E resta, finalmente, a pergunta que ninguém quer formular, mas que ecoa como um aviso: se o Ocidente está a terminar, o que começa?