Perspectivas VozesA tenaz Russo-Americana Jorge Rodrigues Simão - 21 Ago 2026 «The great nations have always acted like gangsters, and the small nations like prostitutes.» Stanley Kubrick, Interview with Jeremy Bernstein, 1966 Há ideias que não deveriam ser pronunciadas em voz alta, nem sequer admitidas em confidência. São pensamentos que, se ganhassem forma, fariam estremecer os alicerces das chancelarias europeias, habituadas a viver de certezas herdadas, alianças fossilizadas e uma confortável ilusão de centralidade. Mas, como advertiu George Orwell em “Notes on Nationalism (1945)”, «to see what is in front of one’s nose needs a constant struggle». E o que está diante do nariz europeu, por mais que se tente disfarçar com comunicados, cimeiras e fotografias de grupo, é uma realidade desconfortável de que talvez o inimigo não esteja no Leste, nem no Sul, nem no espectro difuso do terrorismo. Talvez o inimigo esteja sentado à cabeceira da mesa, com o sorriso branco de Hollywood e a sombra pesada do Kremlin. Talvez a Europa seja apenas a noz colocada entre duas pedras de moinho, destinada a ser triturada com a elegância burocrática que caracteriza o nosso tempo. Vivemos, o início do final da partida entre americanos e europeus. Uma partida jogada com bolas murchas, chuteiras rotas e árbitros que, se existem, estão ocupados a negociar palestras bem remuneradas. Os jogadores, outrora campeões da seriedade continental, surgem agora exaustos, nervosos, dispostos a faltas de obstrução que fariam corar os velhos mestres do fair play. A Europa, essa entidade que outrora se imaginava farol da civilização, descobre-se sem equipa, sem treinador, sem táctica e, sobretudo, sem vontade. Os Estados, outrora orgulhosos das suas tradições diplomáticas, parecem hoje actores secundários num teatro onde o protagonismo se deslocou para fora do continente. A Alemanha, que acreditou durante décadas que a ordem internacional era uma extensão da sua racionalidade industrial, observa perplexa que o mundo não funciona a diesel. A França, que ainda se imagina herdeira de Richelieu, tenta manter a pose, mas tropeça nos próprios éditos. A Espanha, sempre dividida entre o mar e a montanha, hesita. E nós, portugueses, habituados a sobreviver entre tempestades, olhamos para este teatro com a resignação melancólica de quem viu impérios cair e sabe que o mundo não se comove com lágrimas lusitanas. Nos bastidores, os magarefes da política acumulam camisolas de todas as cores, prontas para serem vestidas ao sabor das conveniências. A troca de casaca, outrora considerada acto de traição, tornou-se agora prática desportiva. O mercado e a partida coincidem em tempo real, como se a política fosse uma feira de vaidades onde cada um tenta vender a sua própria irrelevância ao preço mais alto. A cada mudança de vento, muda-se de camisola, de discurso e de fidelidade. A coerência tornou-se um luxo que ninguém está disposto a pagar. Fora do estádio, bancas improvisadas oferecem camisolas da NATO e da União Europeia, algumas falsificadas, outras apenas ridículas. São objectos de coleccionador, relíquias de uma era em que ainda se acreditava que o Ocidente era uma família, e não uma assembleia de primos afastados que só se reúnem para discutir heranças. A política transformou-se num mercado de símbolos, onde cada bandeira é vendida ao preço da conveniência. Nas bancadas, olhos orientais observam a rixa com uma mistura de curiosidade e satisfação. A China, paciente como um escriba imperial, contempla o caos ocidental com a serenidade de quem sabe que o tempo trabalha sempre a seu favor. Mas também com a preocupação de quem teme que a loucura europeia e americana ultrapasse os limites do razoável. Como lembra Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, «a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar». E Pequim, que domina essa arte com a elegância de um mandarim, receia que o Ocidente, enlouquecido, a arraste para um conflito que destruiria o seu plano de retorno gradual ao primado global. A confusão, quando atinge níveis europeus, deixa de ser excelente e passa a ser perigosa. A loucura ocidental, se não for contida, pode transformar o planeta num tabuleiro de xadrez onde todas as peças se movem ao mesmo tempo, sem regras, lógica, rei e rainha. A Europa, que outrora se imaginava árbitro da história, descobre-se agora peça menor num jogo que não controla. Enquanto isso, os membros da chamada “Maioria Mundial” designação russa para o antigo Sul Global observam a disputa com inquietação. Perguntam-se se o Supremo Norte resolverá os seus conflitos dentro das suas muralhas ou se os descarregará sobre Caoslândia, essa vasta região do planeta onde as potências despejam os seus fracassos. Talvez, pensam alguns, este seja o momento de ascender à primeira divisão. Talvez o colapso ocidental abra espaço para novos protagonistas. Ou talvez o Caos, esse deus pagão que nunca morre, se torne finalmente senhor da Terra. A Europa, entretanto, continua a debater-se com a sua insignificância. A guerra na Ucrânia, que deveria ter sido o momento de reafirmação da unidade europeia, tornou-se o espelho da sua fragmentação. Os Estados Unidos, que durante décadas foram o guarda-chuva estratégico do continente, mostram agora sinais de fadiga, impaciência e, sobretudo, egoísmo. A Rússia, que deveria estar isolada, encontra-se paradoxalmente fortalecida pela desordem ocidental. E a Europa, que deveria liderar, limita-se a reagir mal, tarde e com hesitação. A pergunta proibida ecoa com força crescente: e se o inimigo fosse a América? Não o inimigo militar, mas o inimigo estratégico, o aliado que se tornou demasiado grande, imprevisível e interessado em si próprio. Como escreveu Henry Kissinger em “Diplomacy” (1994), «America has no permanent friends or enemies, only interests». E quando os interesses americanos deixam de coincidir com os europeus, a amizade transforma-se numa formalidade diplomática. Mas o pior cenário não é uma América adversária. O pior cenário é uma América aliada à Rússia, não por afinidade ideológica, mas por conveniência estratégica. Washington e Moscovo como as duas mandíbulas de uma tenaz destinada a arrancar a Europa do seu pedestal, a desmontar a sua arquitectura política, a reduzir o continente a uma península irrelevante do grande continente euro-asiático. Uma Europa comprimida entre duas potências que, apesar das suas diferenças, partilham um interesse comum de redefinir o mundo sem pedir licença ao velho continente. Seria este cenário plausível? Os diplomatas dizem que não. Os analistas dizem que talvez. Os historiadores, mais prudentes, recordam que alianças improváveis já moldaram o mundo. Como escreveu Thucydides na “História da Guerra do Peloponeso”, «the strong do what they can and the weak suffer what they must». E a Europa, neste momento, parece mais fraca do que nunca. O que resta, então, ao velho continente? Resta-lhe a ironia, essa arma subtil que sempre utilizou para disfarçar a sua impotência. Resta-lhe a diplomacia, que foi arte e hoje é apenas protocolo. Resta-lhe a esperança de que o mundo não enlouqueça completamente. E resta-lhe, sobretudo, a consciência de que o futuro será decidido por outros. Se o inimigo for a América, a Europa terá de reinventar-se. Se o inimigo for a dupla russo-americana, a Europa terá de sobreviver. Se o inimigo for o Caos, a Europa terá de rezar. E, enquanto isso, no Kremlin, alguém abre uma garrafa de champanhe.