O Tempo Que Passou na Montanha Lanke

Wang Zhi, um lenhador que vivia junto do poço Taibai na cidade Qu em Zhejiang, saíu um dia para cortar lenha quando, já na montanha Lanke para onde se dirigiu, escutou um estranho som na floresta. Quando se aproximou viu dois homens velhos, as barbas brancas, sentados em rochas, um de cada lado de uma mesa de pedra sobre a qual num tabuleiro estavam dispostas peças que eles iam lentamente movimentando.

Naturalmente distraído pelo inédito acontecimento ficou junto deles observando, esquecido da passagem do tempo. Lembrou-se que tinha fome mas um dos jogadores deu-lhe um caroço de jujuba, que ao colocá-lo na boca lhe saciou totalmente a fome.

No fim de um tempo que não saberia quantificar, pensou que tinha que voltar para casa e por isso levantou a mão para segurar o seu machado (fu) mas notou com espanto que a pega de madeira estava completamente desfeita. Regressou então a casa mas chegando à aldeia não reconheceu nenhum dos seus vizinhos. Perguntando-lhes se não sabiam quem ele era, disse-lhes o nome. Os mais velhos lembravam-se vagamente de um certo Wang Zhi que há muitos anos desaparecera na floresta.

O relato, ilustrando a possibilidade de o tempo se desdobrar subitamente até ao infinito está presente, com pequenas variações, em muitos outros lugares até ao longínquo Japão. Deste também existem outras versões descrevendo o que estavam a jogar como weiqi, o jogo de estratégia praticado pelos literatos ou o que identifica os velhos como dois dos «Oito imortais», Baxian, Li Tieguai e Lu Dongbin ou a que está no livro Zhi Lin de Yuxi, que viveu na dinastia Jin (345-356) que diz que não eram dois velhos mas dois rapazes que, cantando, chamaram a atenção do lenhador.

O nome da montanha, Lanke, onde o episódio decorre traduz-se como «Pega de madeira do machado apodrecida» aludindo ao relato. E o lugar do encontro, a «Caverna das flores de pessegueiro», antigo simbolo da longevidade e a povoação próxima é Longyou, dois caracteres que se lêem como «passeio do dragão» parecendo aludir a algo muito antigo que ali se passara. Em 1992, com efeito ali foi redescoberto um misterioso labirinto de cavernas.

Jiang Zai, um pintor com actividade conhecida nos primeiros anos da dinastia Qing, originário de Longyou, é autor de uma pintura de 1682, intitulada Encontro de literatos sob um pinheiro (rolo vertical, tinta e cor sobre papel, 153 x 82 cm, à venda na Sothebys). Numa composição equilibrada pela sábia disposição das «veias de dragão», longmo, um conceito da pintura de paisagens, shanshui, que permitem o fluxo natural do qi, a energia vital que determina o seu dinamismo interior. Nela se notam dois literatos sentados, escutando o marulho incessante de uma cascata, como quem ouve o muito antigo som da natureza. Um dos nomes de pincel que o pintor Jiang Zai usava era «o lenhador da montanha Lanke».

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