EL NIÑO OU SUPER EL-NIÑO? 

Desde há alguns meses que estão a ser detetados fortes indícios do surgimento das condições para que ocorraum episódio moderado aforte do El Niño, que poderá atingir o seu pico entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para que este fenómeno possa atingir a categoria de “muito forte” (ou “Super El Niño”) as temperaturas da superfície da região central e oriental do Oceano Pacífico equatorial terão de atingir no mínimo 2,0 °C acima da média. Segundoa NOAA (“NationalOceanic and AtmosphericAdministration”) háa probabilidade de 63% de que tal aconteça. As observações “in loco” e as obtidas com recurso a satélites meteorológicos constatam que as temperaturas da água do mar nessa região do Pacífico já atingiram valores recorde para esta época do ano. Além da elevada temperatura da água, o enfraquecimento e a inversão dos ventos alísios sobre o Pacíficoequatorial sãoindicadoresfortes de que a atmosfera já está a reagir ao sobreaquecimento da superfície do mar.

O fenómeno oceano-atmosférico El Niño consiste no aumento da temperatura da água superficial na região equatorial do Oceano Pacífico Central e Oriental, nas vizinhanças do Peru. Contrariamente, La Niña consiste no arrefecimento anormal dessas mesmas águas. Enquanto o El Niñoprovoca temporariamente, em geral, aumento da temperatura média global, La Niña costuma causar uma diminuição temporária. Os episódios de ambos os fenómenos duram cerca de 9 a 12 meses, separados por períodos neutros, e ocorrem alternadamenteem ciclos irregulares de 2 a 7 anos.

Estes dois fenómenos oceano-atmosféricos inserem-se no que se convencionou designar por “variabilidade climática”, que consiste em flutuações naturais e temporárias dos valores médios dos parâmetros que caracterizam o clima. Por outro lado, quando se mencionam as “alterações climáticas”, está-se a referir a mudanças de longo prazo do estado médio do clima, impulsionadas principalmente por influência humana.A grande diferença entre os dois conceitos consiste na escala de tempo e nas suas causas. Assim, por exemplo, quando mencionamos que um determinado ano foi caracterizado por grande pluviosidade ou por uma sequência fora do normal de ondas de calor, estamos a referir-nos a variabilidade climática.Já quando nos referimos ao aumento lento, mas persistente, da temperatura média global do ar que tem ocorrido desde a revolução industrial, e às suas consequências, estamos a referir-nos a alterações climáticas. Não é fácil, porém, concluir se uma determinada sequência anormal de fenómenos meteorológicos extremos é, ou não, consequência de alterações climáticas. Assim, por exemplo, o facto de ter ocorrido, em 2025, uma sucessão anormal de ciclones tropicais na região em que a região de Macau está inserida, ou uma sequência de depressões extratropicais que causaram graves estragos em Portugal em janeiro/fevereiro de 2026, não nos permite concluir se tal foi resultado das alterações climáticas. No entanto,na realidade, verifica-se a tendência para que esses fenómenos sejam mais intensos e, em alguns casos, mais frequentes, conforme é testemunhado por instituições credíveis como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a NOAA, e os Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais de praticamente todo o mundo.

Há, no entanto, que distinguir entre as variações que o clima tem sofrido ao longo dos aproximadamente 4,6 mil milhões de anos de existência do nosso planeta e as alterações que estão a acontecer desde a revolução industrial. Os negacionistas das alterações climáticas argumentam que o clima sempre sofreu alterações, o que se prova pelas glaciações que, alternando com períodos interglaciários, ocorrem com certa periodicidade. Nesse aspeto têm razão, pois está comprovado, com recurso à paleoclimatologia e outras ciências complementares, que mudanças significativas no clima são uma realidade. Não acreditam (ou fingem não acreditar), porém, que tal aconteça desde a revolução industrial e muito menos que sejam causadas pelo uso dos combustíveis fósseis.

A grande diferença entre o que aconteceu no passado longínquo e as alterações que ocorrem na atualidade consiste no facto de as glaciações e os períodos interglaciários terem a duração de milhares de anos, enquanto o aquecimento global causado pelas atividades humanas e, consequentemente, as alterações climáticas, se tenham concretizado em apenas pouco mais de dois séculos. E isto é devido a uma característica dos gases de efeito de estufa (GEE), com especial ênfase no que se refere ao CO₂. À medida que a concentração destes gases aumenta, mais calor fica retido na atmosfera, o que implica subida de temperatura.

No entanto, apesar dos avisos das organizações que zelam pela sustentabilidade do nosso planeta, a concentração na atmosfera do GEE não deixa de aumentar. Mesmo durante a pandemia COVID19, apesar de ter havido uma queda nas emissões anuais, a concentração dos GEE na atmosfera não diminuiu. Assim, por exemplo, em 2020, devido às restrições nas atividades humanas, houve uma quebra de cerca de 5% das emissões globais de CO₂, mas a sua concentração não diminuiu. Desde 1750 até 2025, passou de 280 partes por milhão (ppm) para 427,35 ppm. Esta última concentração corresponde ao valor anual mais alto até hoje alcançado, segundo a “Statista”1.

Os fenómenos “El Niño” e “La Niña” são exemplos de eventos característicos da variabilidade climática. São também abrangidos pelo conceito designado por “teleconexões”, atendendo a que, tendo tido início numa determinada região, influenciam o tempo em regiões bem afastadas do local onde tiveram origem. Alterando a circulação atmosférica, o El Niño cria condições para a ocorrência de fenómenos extremos, tais como secas em algumas regiões e intensificação de ciclones tropicais noutras.

No caso de se concretizar que o próximo episódio atinja o grau de “Super El Niño”, poder-se-á perguntar: quais as consequências na região de Macau? De acordo com os modelos de previsão climática, é provável que a época dos tufões seja caraterizada por significativamente menos fenómenos deste tipo do que em 2025, mas mais intensos. Haverá, portanto, maior risco de que a RAEM possa ser afetada por tempestades que possam atingir a categoria de “supertufão”, cuja passagem poderá ser acompanhada por fortes inundações causadas por marés de tempestade, em especial se coincidirem com a praia-mar. Será também muito provável que ocorram situações de temperatura mais alta do que o normal e episódios mais frequentes de precipitação muito intensa. As autoridades de Macau de e de Hong Kong estão bem cientes sobre esta possibilidade, atendendo às advertências nesse sentido que têm sido feitas pelas autoridades meteorológicas de ambas as regiões administrativas especiais.

 

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