SMG | El Niño poderá provocar anomalias climáticas

O El Niño deste ano pode desenvolver-se para uma intensidade forte a superforte. Os SMG alertam para a probabilidade de “anomalias climáticas à escala global”. Entretanto, um ciclone tropical que se move em direcção ao Japão irá trazer sol e temperaturas altas este fim-de-semana em Macau

Estamos a viver a época de crescimento do El Niño deste ano, que poderá rivalizar em impetuosidade com “os anos de super El Niño clássicos, como os de 1997/1998 e 2015/2016”, apontam os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) em comunicado.

As autoridades indicam que o “Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental entrou no estado de El Niño em Maio”, “de acordo com as mais recentes monitorizações e avaliações da Organização Meteorológica Mundial e do Centro Nacional de Clima da China”, mas que é esperado que o fenómeno de intensifique “gradualmente do Verão ao Outono, existindo a possibilidade de evoluir para um evento de El Niño de intensidade ‘forte a superforte’”.

O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental tornou-se um “um dos interruptores climáticos mais importantes a influenciar a tendência do clima anual a nível global”, destacam os SMG.

De acordo com os dados de previsão mais recentes, os SMG apontam que é provável que o pico do presente El Niño ocorra no final deste ano, provocando chuvas intensas e frequentes, acompanhadas de inundações urbanas nalgumas regiões, enquanto outras vão sofrer com a falta prolongada de chuva e secas severas.

Mercúrio ao alto

Enquanto o El Niño ganha intensidade, com uma projecção temporal de médio-prazo, Macau vai estar nos próximos dias sob a influência decrescente de um vale depressionário que tem afectado a costa de Guangdong e que, à medida que vai enfraquecendo, com o sol e as temperaturas elevadas a regressarem no fim da semana.

A juntar-se ao enfraquecimento do vale depressionário, Macau irá estar “sob a influência da subsidência externa de um ciclone tropical”, que trará à região do Sul da China “tempo soalheiro e muito quente durante o dia, sendo que as elevadas temperaturas poderão desencadear aguaceiros acompanhados de trovoadas no período da tarde”.

As previsões dos SMG apontam para períodos dispersos trovoadas ao longo do dia de hoje, céu muito nublado intervalado de abertas e aguaceiros ocasionais.

A partir de amanhã, os SMG estimam que a chuva dará lugar ao sol e as temperaturas vão subir progressivamente até chegarem aos 34 graus no sábado e domingo.

Julho recordista

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos indicaram ontem que “precipitação total em Julho” atingiu os 962,0 milímetros, 2,3 vezes superior ao valor climático, constituindo o valor mais elevado registado no mês de Julho desde 1952”, ou seja, desde que começaram a ser registados estes dados em Macau.

As autoridades acrescentam que, “simultaneamente, devido ao número elevado de dias de chuva, a temperatura média mínima mensal, a temperatura mínima mensal e o total de horas de insolação também atingiram novos mínimos históricos para o mesmo período”.

É especificado que “a temperatura média mensal” empatou com os valores de 1955, 2001 e 2013 como a mais baixa de sempre para o mês de Julho. Já a humidade relativa média mensal, empatou com os valores de 1959 e 1997 como a mais elevada de sempre para o mês de Julho”. A sucessão de recordes batidos no mês passado deveu-se à influência de uma depressão, correntes de ar do sudoeste e um ciclone tropical.

5 Ago 2026

EL NIÑO OU SUPER EL-NIÑO? 

Desde há alguns meses que estão a ser detetados fortes indícios do surgimento das condições para que ocorraum episódio moderado aforte do El Niño, que poderá atingir o seu pico entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para que este fenómeno possa atingir a categoria de “muito forte” (ou “Super El Niño”) as temperaturas da superfície da região central e oriental do Oceano Pacífico equatorial terão de atingir no mínimo 2,0 °C acima da média. Segundoa NOAA (“NationalOceanic and AtmosphericAdministration”) háa probabilidade de 63% de que tal aconteça. As observações “in loco” e as obtidas com recurso a satélites meteorológicos constatam que as temperaturas da água do mar nessa região do Pacífico já atingiram valores recorde para esta época do ano. Além da elevada temperatura da água, o enfraquecimento e a inversão dos ventos alísios sobre o Pacíficoequatorial sãoindicadoresfortes de que a atmosfera já está a reagir ao sobreaquecimento da superfície do mar.

O fenómeno oceano-atmosférico El Niño consiste no aumento da temperatura da água superficial na região equatorial do Oceano Pacífico Central e Oriental, nas vizinhanças do Peru. Contrariamente, La Niña consiste no arrefecimento anormal dessas mesmas águas. Enquanto o El Niñoprovoca temporariamente, em geral, aumento da temperatura média global, La Niña costuma causar uma diminuição temporária. Os episódios de ambos os fenómenos duram cerca de 9 a 12 meses, separados por períodos neutros, e ocorrem alternadamenteem ciclos irregulares de 2 a 7 anos.

Estes dois fenómenos oceano-atmosféricos inserem-se no que se convencionou designar por “variabilidade climática”, que consiste em flutuações naturais e temporárias dos valores médios dos parâmetros que caracterizam o clima. Por outro lado, quando se mencionam as “alterações climáticas”, está-se a referir a mudanças de longo prazo do estado médio do clima, impulsionadas principalmente por influência humana.A grande diferença entre os dois conceitos consiste na escala de tempo e nas suas causas. Assim, por exemplo, quando mencionamos que um determinado ano foi caracterizado por grande pluviosidade ou por uma sequência fora do normal de ondas de calor, estamos a referir-nos a variabilidade climática.Já quando nos referimos ao aumento lento, mas persistente, da temperatura média global do ar que tem ocorrido desde a revolução industrial, e às suas consequências, estamos a referir-nos a alterações climáticas. Não é fácil, porém, concluir se uma determinada sequência anormal de fenómenos meteorológicos extremos é, ou não, consequência de alterações climáticas. Assim, por exemplo, o facto de ter ocorrido, em 2025, uma sucessão anormal de ciclones tropicais na região em que a região de Macau está inserida, ou uma sequência de depressões extratropicais que causaram graves estragos em Portugal em janeiro/fevereiro de 2026, não nos permite concluir se tal foi resultado das alterações climáticas. No entanto,na realidade, verifica-se a tendência para que esses fenómenos sejam mais intensos e, em alguns casos, mais frequentes, conforme é testemunhado por instituições credíveis como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a NOAA, e os Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais de praticamente todo o mundo.

Há, no entanto, que distinguir entre as variações que o clima tem sofrido ao longo dos aproximadamente 4,6 mil milhões de anos de existência do nosso planeta e as alterações que estão a acontecer desde a revolução industrial. Os negacionistas das alterações climáticas argumentam que o clima sempre sofreu alterações, o que se prova pelas glaciações que, alternando com períodos interglaciários, ocorrem com certa periodicidade. Nesse aspeto têm razão, pois está comprovado, com recurso à paleoclimatologia e outras ciências complementares, que mudanças significativas no clima são uma realidade. Não acreditam (ou fingem não acreditar), porém, que tal aconteça desde a revolução industrial e muito menos que sejam causadas pelo uso dos combustíveis fósseis.

A grande diferença entre o que aconteceu no passado longínquo e as alterações que ocorrem na atualidade consiste no facto de as glaciações e os períodos interglaciários terem a duração de milhares de anos, enquanto o aquecimento global causado pelas atividades humanas e, consequentemente, as alterações climáticas, se tenham concretizado em apenas pouco mais de dois séculos. E isto é devido a uma característica dos gases de efeito de estufa (GEE), com especial ênfase no que se refere ao CO₂. À medida que a concentração destes gases aumenta, mais calor fica retido na atmosfera, o que implica subida de temperatura.

No entanto, apesar dos avisos das organizações que zelam pela sustentabilidade do nosso planeta, a concentração na atmosfera do GEE não deixa de aumentar. Mesmo durante a pandemia COVID19, apesar de ter havido uma queda nas emissões anuais, a concentração dos GEE na atmosfera não diminuiu. Assim, por exemplo, em 2020, devido às restrições nas atividades humanas, houve uma quebra de cerca de 5% das emissões globais de CO₂, mas a sua concentração não diminuiu. Desde 1750 até 2025, passou de 280 partes por milhão (ppm) para 427,35 ppm. Esta última concentração corresponde ao valor anual mais alto até hoje alcançado, segundo a “Statista”1.

Os fenómenos “El Niño” e “La Niña” são exemplos de eventos característicos da variabilidade climática. São também abrangidos pelo conceito designado por “teleconexões”, atendendo a que, tendo tido início numa determinada região, influenciam o tempo em regiões bem afastadas do local onde tiveram origem. Alterando a circulação atmosférica, o El Niño cria condições para a ocorrência de fenómenos extremos, tais como secas em algumas regiões e intensificação de ciclones tropicais noutras.

No caso de se concretizar que o próximo episódio atinja o grau de “Super El Niño”, poder-se-á perguntar: quais as consequências na região de Macau? De acordo com os modelos de previsão climática, é provável que a época dos tufões seja caraterizada por significativamente menos fenómenos deste tipo do que em 2025, mas mais intensos. Haverá, portanto, maior risco de que a RAEM possa ser afetada por tempestades que possam atingir a categoria de “supertufão”, cuja passagem poderá ser acompanhada por fortes inundações causadas por marés de tempestade, em especial se coincidirem com a praia-mar. Será também muito provável que ocorram situações de temperatura mais alta do que o normal e episódios mais frequentes de precipitação muito intensa. As autoridades de Macau de e de Hong Kong estão bem cientes sobre esta possibilidade, atendendo às advertências nesse sentido que têm sido feitas pelas autoridades meteorológicas de ambas as regiões administrativas especiais.

 

9 Jul 2026

Adeus La Niña, El Niño está a chegar

Desde há cerca de dois meses que os serviços meteorológicos e oceanográficos observam a tendência para o aumento da temperatura das águas superficiais na parte central e leste da região tropical do Oceano Pacífico.

Baseado em observações e modelos, os meteorologistas estão a prever que este aquecimento se vai acentuar dentro de alguns meses, o que muito provavelmente dará origem a mais um episódio do El Niño. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, este fenómeno poderá induzir um aumento da temperatura média global, reforçando a tendência geral para o aquecimento inerente às alterações climáticas.

Atualmente a temperatura da superfície dessa região do Pacífico está próxima dos valores médios, o que indica que está na fase neutra que se seguiu a um episódio de La Niña extraordinariamente longo, que teve início em setembro de 2020 e terminou em março de 2023. Este é o segundo episódio de La Niña mais longo, desde 1950, apenas ultrapassado pelo que ocorreu entre a primavera de 1970 e a primavera de 1973 (37 meses).

Como é do conhecimento público mais atento, o El Niño é um fenómeno oceano-atmosférico que consiste no aquecimento da água superficial, em relação aos valores médios, na parte central e leste da região tropical do Oceano Pacífico. É assim designado porque a sua máxima intensidade ocorre estatisticamente próximo do Natal, referido nos países de língua espanhola por El Niño. Apesar desta denominação, que poderia gerar bons augúrios, este fenómeno tem como consequências, entre outras, a fuga de cardumes para águas mais frias, principalmente de anchovas, o que traz graves prejuízos aos pescadores peruanos. Contrariamente, La Niña corresponde a um período em que a temperatura superficial do oceano nessas mesmas regiões apresenta valores de alguns graus abaixo da média.

O conjunto destes dois fenómenos e da fase neutra é designado nos meios científicos por “El Niño-Oscilação Sul” (El Niño-Southern Oscillation – ENSO), na medida em que, simultaneamente às variações da temperatura da água, ocorrem flutuações da pressão atmosférica à superfície entre as regiões leste e oeste do Pacífico Sul. Para caracterizar este fenómeno, foi criado o chamado “Índice de Oscilação Sul” (Southern Oscillation Index – SOI), que se obtém com base na comparação de anomalias da pressão atmosférica (desvios em relação aos valores médios) no Taiti e Darwin, respetivamente na Polinésia Francesa e Austrália.

As três fases do ENSO afetam a circulação geral da atmosfera de maneira diferente, principalmente no que se refere à chamada célula de Walker, conforme se ilustra de maneira esquemática, segundo interpretação da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration dos Estado Unidos da América).

Como se pode constatar, nas zonas mais quentes da superfície oceânica em que o ar húmido converge, ocorre movimento ascendente (convecção) e consequente formação de fortes camadas nebulosas e consequente pluviosidade. Por outro lado, nas zonas em que há movimento descendente (subsidência) o céu apresenta-se praticamente limpo. Esta interpretação da NOAA ajuda a compreender como o tempo se comporta conforme as fases do ENSO. Estas alterações propagam-se temporal e espacialmente, afetando regiões longínquas. O fenómeno ENSO enquadra-se num mecanismo designado por “teleconexões”, que consiste no facto de certos fenómenos que ocorrem na atmosfera ou no sistema atmosfera-oceanos provocarem alterações na circulação atmosférica, não só nas regiões em que ocorrem, mas também em regiões longínquas, causando fenómenos meteorológicos significativos como, por exemplo, precipitação severa em algumas regiões e secas noutras.

Na fase neutra, os ventos alísios que sopram de leste para oeste (representados pela seta inferior da célula de Walker) arrastam a água superficial, aquecida pela radiação solar, para a parte oeste do Pacífico, provocando convergência à superfície nesta região, o que por sua vez causa movimentos verticais do ar húmido cujo vapor de água condensa dando origem a fortes camadas nebulosas.

Durante os episódios El Niño verifica-se um enfraquecimento dos ventos alísios sobre a região, passando a componente predominante do vento a soprar de oeste para leste, muito mais fraca, o que reforça o aquecimento da superfície do mar, atendendo a que não há arrastamento da água superficial pelo vento, o que impede a sua substituição por água mais fria vinda de zonas mais profundas. A convergência à superfície, agora mais para leste, origina forte convecção no parte central e leste da região tropical do Pacífico.

Durante La Niña, os ventos alísios intensificam provocando arrastamento da água superficial e consequente subida de águas profundas mais frias para a superfície, o que provoca transporte de nutrientes, dos quais se alimentam os peixes. Este fenómeno (substituição da água superficial, arrastada pelo vento, por água mais fria vinda de zonas mais profundas) designa-se por afloramento ou ressurgência (upwelling, em inglês).

Pode-se considerar La Niña, que consiste no arrefecimento de alguns graus em relação à média, como o fenómeno inverso ao El Niño.

Enquanto o El Niño dura cerca de 9 a 12 meses, os episódios de La Niña têm uma duração maior, entre de 1 e 3 anos. Ambos ocorrem alternadamente com periodicidade aproximada de 3 a 5 anos, separados pelas fases neutras.

No Peru o El Niño é classificado como “moderado” quando a temperatura da água à superfície sofre um incremento até 1,7 °C, “forte” quando o aumento é entre 1,7 a 3 °C, e “extraordinário” quando é superior a 3 °C. No Brasil, entre outras consequências, provoca redução da pluviosidade no norte e leste da Amazónia, o que cria condições propícias à ocorrência de incêndios florestais, seca no sertão nordestino, e pluviosidade intensa no sul. Também por influência deste fenómeno climático ocorrem secas, por vezes severas, na Índia, Indonésia, África e Austrália. No Peru, Equador, oeste dos EUA e litoral da Colômbia ocorre forte precipitação dando frequentemente origem a inundações e deslizamentos de terras nas regiões montanhosas. Na Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e interior da Colômbia as chuvas são escassas.

Ainda por influência do El Niño, nos meses de dezembro a maio, na parte da Ásia onde a região de Macau está inserida, ocorre maior precipitação do que nas fases neutra e La Niña, e a probabilidade de ocorrência de ciclones tropicais em abril e maio é menor.

Em anos de La Niña é provável a ocorrência de mais ciclones tropicais a afetar Macau do que em período neutro, e a monção de nordeste é em geral mais intensa de setembro a fevereiro, o que provoca tempo mais frio e menos chuvoso do que o normal.

Quando ocorrem fenómenos atmosféricos gravosos como ciclones tropicais severos, secas, marés de tempestade, etc., há uma certa tendência para imputar as suas causas às alterações climáticas, o que frequentemente não corresponde à realidade. Os fenómenos ENSO têm causas naturais e integram-se no que se convencionou designar por “variabilidade climática”, que consiste em variações do estado médio do clima em períodos relativamente curtos como um mês, uma estação, um ou poucos anos. As alterações climáticas, cujas causas são atribuídas aos gases de efeito de estufa, resultam da atividade humana e consistem em variações estatisticamente significativas do estado médio do clima, que persistem durante muito mais tempo e abrangem regiões mais vastas.

Meteorologista

1 Jun 2023