Ai Portugal VozesO Futebol é Q’Induca André Namora - 15 Jun 2026 Gostar de futebol é quase natural na maioria dos povos. Em Portugal, o futebol é fidelidade, amor e até doença pelo seu clube, seja o Benfica, FC Porto, Sporting, Chaves ou Farense. As mulheres têm aderido ao futebol progressivamente e os campeonatos femininos já arrastam muita gente aos estádios. Nos próximos tempos temos outra paixão: o Mundial com a presença da selecção nacional. Quase todos os adeptos de futebol são treinadores de bancada ou de sofá. A escolha dos jogadores para a selecção tem dado água pela barba. É na televisão, na rádio, nos cafés e no seio familiar. “É pá, o espanhol não percebe nada de táctica!”; “Oh pá, tu já viste aquele tonto que não seleccionou o Palhinha e vai para o Mundial com quatro guarda-redes?”; “Não percebo este treinador, o Bernardo anda a fazer de Palhinha e ainda tem dúvidas se o Leão joga na extrema esquerda”; “Mas aquela espécie de treinador ainda não viu que o Gonçalo Inácio não está em forma?”; “O que eu sei é que assim que o Ronaldo sai a malta ganha!”; “Andam todos para aí a falar que ganhamos a taça, que vamos ser campeões e ainda não viram que as chances são muito poucas”. Enfim, as opiniões dos treinadores de bancada e sofá são infinitas. Na verdade, alguns “opinadores” até podem ter a sua razão, porque as experiências com o Chile e Nigéria não foram nada animadoras no que concerne a coordenação de estratégia futebolística em que possamos ter uma equipa a rolar sobre rodas, como se vê nas seleções da Alemanha, Espanha e Brasil. Mas ainda há quem dê alento aos jogadores e equipa técnica. O Presidente da República deslocou-se à cidade do futebol e esteve com todos os membros da selecção nacional tendo palavras que caíram bem no seio dos jogadores. António José Seguro salientou que temos uma equipa de alto gabarito, com elementos de nível mundial e apelou que trouxessem o caneco para Portugal. Vamos ver como tudo começa contra o Congo, porque temos no nosso grupo um osso duro de roer que é a congénere da Colômbia. No entanto, ao mesmo tempo que os amantes de futebol vão estar umas semanas agarrados ao televisor e aos boletins de apostas existe outro relvado onde a bola custa a girar. É o relvado plantado à beira-mar chamado Portugal, onde a economia definha, o aumento do custo de vida é mensal, onde há reformados a receber 300 euros mensais, famílias vítimas das tempestades de Janeiro que ainda não viram as suas casas reconstruídas, terrenos repletos de árvores derrubadas com a época dos incêndios à porta, aliás, que já começaram, e uma política governamental que teima em aprovar uma lei laboral que tem revoltado quem trabalha. A criminalidade está a passar das marcas. A falta de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica é uma realidade incontornável e os salários são dos piores da Europa. Já temos quatro milhões de portugueses a viver ao nível da pobreza e a exploração na indústria hoteleira é um escândalo. Os hotéis, especialmente no Algarve, pagam mal e apenas dão trabalho durante três meses e os contratados a recibos verdes ainda têm de alugar um quarto. Os hotéis chegam a pagar o salário mínimo a um jovem que durante quatro anos pagou um curso de gestão de hotelaria e que exerce a função de director-adjunto durante a noite sem que lhe sejam pagas a dobrar as horas nocturnas ou o trabalho aos feriados e domingos. Ninguém no Governo se preocupa com esta nódoa existente na tal indústria que se farta de apregoar que é o sustento do grande turismo existente no país do bom sol e boas praias. Quando referimos a chegada dos incêndios é justo que se saliente as queixas apresentadas pelas corporações de bombeiros. Provam que os meios não são suficientes, que as ambulâncias não podem acudir a tudo e, muito menos, ficarem estacionadas horas e horas à porta das urgências hospitalares porque as macas ficam retidas com os doentes nos corredores. Isto, é outro futebol, onde o árbitro tem passado entre os pingos da chuva no caso grave da Spinumviva. Vamos esperar por aquilo que vai prender o povinho durante umas semanas: o campeonato mundial de 2026 tendo como palco um país que não o merecia, onde um presidente autocrático proíbe cidadãos com bilhetes e hotéis pagos de entrar na América. De qualquer das formas, temos que também enviar um voto de confiança à equipa das quinas e como disse o Presidente Seguro, que tragam a taça para nosso orgulho. Contra os canhões, jogar! jogar!