Pintura | Fernando Madruga Gomes estreia-se com exposição no Beco dos Artilheiros

Mais de 100 quadros do artista de Macau estão em exibição na “Arkorigin Exposição a Solo”, até 12 de Junho, na escadaria de acesso à Fortaleza do Monte. A figura feminina é o principal tema da mostra

Até 12 de Junho, mais de uma centena de pinturas de Fernando Madruga Gomes estão em exposição no Beco dos Artilheiros, na escadaria de acesso à Fortaleza do Monte, no evento denominado “Arkorigin Exposição a Solo”. A exibição marca a estreia do artista nascido em Macau. Entre os quadros com traços impressionistas, destacam-se os vários retratos femininos, muitos imaginados pelo artista, mas também de pessoas como a Princesa Diana ou Anita Mui, a actriz e cantora de Hong Kong.

“Eu gosto de pintar retratos porque são as pinturas mais difíceis, e quando pinto gosto desse desafio, de nunca saber se vou conseguir fazer a pintura como quero ou se vou deixar o retrato por fazer, porque já não vou conseguir obter o resultado pretendido”, explicou Fernando Madruga Gomes, ontem, em declarações ao HM.

Sobre a predominância da figura feminina, Gomes explica que a escolha se prende com o sentido estético: “Eu não vejo muita beleza nos homens para se traduzir em pinturas. Mas, nas expressões femininas acho que há ali muita beleza, que eu gosto de imaginar e de pintar, e também nas várias roupas que podem ser pintadas nos retratos, e que também são difíceis de desenhar. É uma beleza que se alia ao desafio de pintar elementos mais difíceis”, reconheceu.

Os “modelos” utilizados nos retratos são provenientes de diferentes culturas exibindo roupas diversas. Em alguns casos a inspiração provém mesmo da animação, como o caso de um dos retratos em que surge uma mulher vestida como Navegante da Lua, uma inspiração da série de desenhos animados japoneses altamente popular.

“No início utilizava modelos para as pinturas, só que nem sempre conseguia que as pessoas que estavam comigo fizessem as expressões que eu procurava. Por isso, com o tempo comecei a recorrer mais a imagens online para me inspirar e pintar”, admite o pintor.

Os retratos surgem para Fernando também como uma forma de canalizar as suas emoções: “Quando estou a pintar as caras dos retratos, transmito algumas das minhas emoções, estou a lidar também com aquilo que sinto ou senti e que quero levar para a tela”, revelou.

Pintar como cura

Além de retratos femininos a exposição apresenta outros dois temas: gatos e flores. E os motivos destas temáticas na obra de Fernando Madruga Gomes têm propósitos opostos.

“Pintar flores é algo mais fácil, algo que me sai de forma muito natural, e que tecnicamente não é assim difícil. É uma pintura quase de recuperação”, afirmou. “Não leva muito tempo, mas depois de pensar em como quero pintar as flores é fácil conseguir os resultados que pretendo, é uma pintura mais de recuperação, para relaxar”, reconheceu.

No entanto, as obras com os gatos são mais pessoais, têm uma carga emocional maior, ligada à infância e ao crescimento, dividido entre Macau e o Pico, nos Açores. Os retratos de gatos são assim alguns dos animais com quem o artista partilhou parte da vida e dos quais guarda memórias.

Filho do proprietário do restaurante Fernando, o pintor de 43 anos afirmou ao HM que a pintura surgiu na sua vida por acaso, depois de um acidente doméstico, por altura da covid-19.

Quando fazia exercícios numa barra fixa, durante os confinamentos, Fernando caiu e partiu uma perna, depois da barra ter cedido. Internado no hospital, a pintura tornou-se uma forma de passar o tempo. “Antes de começar a pintar, uns 10 anos antes, tive alguma experiência, muito breve, no desenho de tatuagens. Só que não gostava da forma como desenhava, pelo que acabei por parar. Depois no hospital, para passar o tempo, comecei a desenhar, e percebi que era capaz de pintar”, confessou.

Entre experiências e ímpetos, Fernando Gomes admite que em quase três anos pintou mais de 200 retratos. E muitos deles por impulso como aconteceu com o quadro da Princesa Diana. “Foi um quadro que resultou de um dia em que acordei e senti que queria pintá-la, não foi nada planeado. E durante dois dias estive à volta do quadro, sem dormir”, indicou. A exposição apresenta três pinturas de Diana, embora Gomes considere que não tem grande admiração pela figura. “Foram obras feitas por impulso, embora confesse que não são pinturas que me façam feliz, até me senti algo mal, devido à história trágica que a envolve”, contou.

No entanto, um dos quadros, com o nome a Última Rosa, valeu Fernando Gomes um “Prémio de Ouro” na categoria de pinturas com óleo nos FADA – Future Art & Design Awards de 2025.

Olhos no futuro

A exposição “Arkorigin Exposição a Solo” marca a estreia do artista em Macau, e Fernando Madruga Gomes mostrou-se satisfeito por ter oportunidade de mostrar o seu trabalho, tão perto de uma das zonas mais icónicas da cidade, a Fortaleza do Monte.

“Surgiu a oportunidade de mostrar os meus trabalhos neste espaço e achei que devia aproveitar a oportunidade. Tenho quadros mais do que suficientes para exibir, por isso, depois tive de fazer a escolha com base no local e no facto de saber que passam muitas pessoas aqui”, explicou sobre os trabalhos em exibição. “Acho que as pinturas em exposição são as mais interessantes para as muitas pessoas que passam por aqui, e foi esse o meu critério”, vincou.

Em relação ao futuro, o pintor espera ter oportunidade de ter mais exposições, em diferentes locais, embora o foco esteja em pintar e fazer retratos. A exposição está disponível até 12 de Junho, entre as 7h e as 19h, com entrada livre.

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