Sexanálise VozesQuando o amor é o certo, mas o lugar não Tânia dos Santos - 29 Abr 2026 Os casais tornaram-se cada vez mais culturalmente diversos e, ao mesmo tempo, mais móveis. Hoje, escolher com quem estar está frequentemente relacionado com decidir onde viver. Para muitos, o amor já não se constrói apenas dentro de uma geografia fixa, e, paradoxalmente, é essa liberdade que traz novos dilemas. Para privilegiar relações íntimas, muitos casais tomam decisões migratórias: mudam de país, de cidade e de língua. Procuram um lugar onde a vida em comum faça sentido — seja uma metrópole cosmopolita, seja um refúgio mais isolado. Mas esta procura raramente é desprovida de questões importantes. Nos casais interculturais, esta questão torna-se particularmente evidente. A investigação tem mostrado que estes casais não são necessariamente mais frágeis, mas são mais sensíveis ao contexto. Isto significa que o sucesso ou dificuldade da relação pode depender do ambiente em que vivem. O lugar onde assentam as suas vidas influencia profundamente perceções de pertença, suporte e integração. Um país pode oferecer acolhimento e oportunidades — ou, pelo contrário, reforçar sentimentos de exclusão e tensão identitária. Para um dos parceiros, pode ser “casa”; para o outro, um território de constante adaptação. E essa assimetria, quando prolongada no tempo, influência a relação, ou seja, o mesmo casal pode florescer num contexto e definhar noutro. Recentemente, um artigo do The Guardian explorava precisamente histórias de relações que terminaram não por falta de amor, nem por incompatibilidades emocionais evidentes, mas por aquilo que se poderia chamar uma incompatibilidade geográfica. Casais que funcionavam bem no plano íntimo, mas que não conseguiam encontrar um lugar onde ambos pudessem viver com sentido. Um queria regressar, o outro precisava de ficar. Estas histórias são surpreendentes porque desafiam uma ideia muito enraizada: a de que o amor supera tudo. Mas talvez esta seja uma das ilusões mais persistentes das narrativas românticas. O amor não existe no vazio. Ele é vivido em contextos concretos e ignorar isso é reduzir a complexidade da vida a uma dimensão emocional. O amor sobrevive num contexto de relações sociais e vida profissional satisfatórias. Também depende de predisposições sensoriais de conforto e bem-estar: imaginem alguém que viveu sempre num país tropical a emigrar para um país frio e escuro como a Islândia. Há pessoas que podem estar desejosas por viver em climas frios, outras que simplesmente vão reagir mal. Já para não falar das desigualdades que surgem quando um dos parceiros está mais à vontade com a língua do local do que outro. Quem fala melhor tem mais autonomia, mais voz, mais acesso. Quem não fala cria uma relação de dependência — e essa dependência pode, com o tempo, desgastar a relação. Não é apenas o casal que tem de trabalhar a relação, é também o lugar que tem de permitir que a relação exista, com membros autónomos e felizes. Talvez o desafio seja abandonar a ideia de que existe um lugar perfeito — ou uma solução ideal — e aceitar que cada escolha implica perdas. Ficar pode significar abdicar de uma parte de si; partir pode significar perder raízes. O que estes casais mostram, muitas vezes, é que amar alguém de outra cultura é também aprender a viver com essa tensão, sem garantias de um final feliz. A pergunta não é apenas “somos certos um para o outro?”, mas também “há um lugar onde possamos ser certos juntos?”. E, por vezes, a resposta mais difícil — e mais honesta — é que não.