Grande Plano MancheteEstudo | Desporto em Macau incorpora “legados coloniais e integração chinesa” Andreia Sofia Silva - 27 Abr 2026 Qual o papel do desporto em Macau nos últimos anos, tendo em conta a história da região? Um estudo dos académicos Emanuel Leite Júnior e Dongye Zyu responde à questão, descrevendo como o desporto “incorpora a coexistência de legados coloniais e integração chinesa”, revelando ligações a Portugal e mantendo um papel diplomático O desporto em Macau tem funcionado, ao longo dos séculos, como um espelho da multiplicidade de funções do território, que durante séculos teve administração portuguesa. Esta é uma das ideias deixada no estudo “Exploring Sports and Identity in Macau: A Historical Perspective on Portuguese Influence and Contemporary Significance” [Explorando o Desporto e a Identidade em Macau: Uma Perspectiva Histórica sobre a Influência Portuguesa e a Relevância Contemporânea], da autoria de Emanuel Leite Júnior, investigador associado do International College of Football da Tongji University, em Xangai; e Dongye Zyu, leitor do College of Education Sciences da Hong Kong University of Sciences and Technology. O trabalho, publicado na revista académica “The International Journal of the History of Sport”, “argumenta que a experiência desportiva de Macau incorpora a coexistência de legados coloniais e integração chinesa”, e que, ao longo dos anos, “o desporto em Macau funcionou tanto como um instrumento de governação colonial quanto como um espaço de adaptação local”. Desta forma, as diversas práticas desportivas, que incluem futebol, hóquei de campo ou até torneios de cariz regional, revelam “como identidades culturais e políticas foram negociadas num contexto não soberano”, ou seja, em que Portugal apenas administrou o território. No caso do futebol e do hóquei, nomeadamente de campo, reflectiram “a interacção entre as comunidades portuguesa, chinesa e macaense ao longo dos períodos colonial e pós-transferência de soberania”, sendo que, já na fase da RAEM ocorreram “grandes eventos internacionais”, nomeadamente os Jogos do Leste Asiático, em 2005, ou os Jogos da Lusofonia, no ano seguinte. Estas competições vieram mostrar “o papel renovado do desporto na diplomacia e na visibilidade global” no território. Os autores chamam a atenção para o facto de Macau sempre ter sido “um território chinês não soberano administrado por Portugal durante mais de quatro séculos”, ocupando “uma posição distintiva na história global dos impérios”, por ter funcionado como uma colónia na prática, embora “nunca foi formalmente designado como tal pelas Nações Unidas”. Desta forma, o desporto acabou por “reflectir e reformular o sentimento de pertença cultural num espaço suspenso entre império e nação”. Ao longo da sua história, Macau foi lugar de troca de experiências culturais e sociais, nomeadamente no desporto, “que se tornou um dos primeiros espaços de interacção entre tradições ocidentais e chinesas”, indicam os académicos. Como já foi referido, a era da RAEM levou a uma perspectiva mais diplomática do desporto já que, “com o apoio de Pequim”, houve uma “reinvenção”, com Macau a “acolher grandes eventos como os Jogos do Leste Asiático, os Jogos da Lusofonia e os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto, utilizando o desporto como meio de afirmar a sua hibridez cultural e visibilidade internacional”. Desporto desde os jesuítas O estudo de Emanuel Leite Júnior e Dongye Zyu traça uma perspectiva histórica sobre as diversas práticas desportivas em Macau, começando no século XVI, quando os portugueses se começaram a estabelecer no território para fins comerciais, trazendo consigo membros da Companhia de Jesus. “O desporto escolar emergiu como um aspecto significativo desta transformação, tendo as escolas religiosas de Macau desempenhado um papel pioneiro na introdução do conceito de educação física na China”, pode ler-se, nomeadamente “em meados do século XVI”, quando “os jesuítas estabeleceram escolas em Macau, onde actividades físicas como a dança, o teatro, as caminhadas, a natação e o montanhismo reflectiam os programas de educação física escolares predominantes na Europa no mesmo período”. Citando estudos de Carmo Azevedo, entre outros, os autores destacam como havia “pouca interação entre os ocidentais e os chineses”, com as “actividades físicas promovidas pelos portugueses tinham um ‘intenso espírito de propaganda’, enquanto os chineses permaneciam confinados a uma parte da cidade, entretendo-se com actividades tradicionais como o p’ai kau (Paijiu), o uâi-k’ei (weiqi) e jogos proibidos pelos mandarins, como jogos de cartas, de moedas ou de dados, bem como o combate de kung fu (gongfu)”. No início do século XIX deu-se então “a segunda fase do desporto em Macau”, com os ingleses a promover também alguma actividade física, como “o críquete, as corridas de cavalos, as regatas, o croquet e, mais tarde, o ténis de relva”. A partir de 1870 e 1880 surgiram “os primeiros clubes desportivos associativos” que reuniam “elites locais”, nomeadamente o Grémio Militar (1870), Associação Club Y-On (1881), Club China Sang-Li (1881), Club China Tum Vo (1882) e Club União (1887). Só no início do século XX o desporto, “especialmente o futebol e o ténis”, passou a estar “mais integrado na sociedade macaense”, deixando de “estar restrito à elite”. Desta forma, ao longo dos anos o desporto em Macau “desenvolveu as tensões das relações coloniais, atenuando as diferenças entre colonizadores e nativos e estimulando uma maior identificação com a ideia de nação, ‘formando um maior sentido de pertença à ‘comunidade imaginada’ portuguesa'”. O estudo revela mesmo que o desporto “desafiou o paradigma colonial, cujas dinâmicas sociais ora promoviam a segregação racial e implicavam heterogeneidade cultural, ora ajudavam a estabelecer uma imagem de solidariedade entre Portugal e as suas colónias, reforçando a ideia de nação”. Uma vida melhor Só a partir da revolução republicana portuguesa de 1910 começa a regularização da prática desportiva em Macau, já que as autoridades locais perceberam “a importância do desporto para a qualidade de vida da população e para o desenvolvimento social”. Um dos exemplos dessa regularização ocorreu em Janeiro de 1911, quando foi fundada a Associação Desportiva de Macau, “o primeiro organismo administrativo criado pelo Governo para supervisionar o desporto no território, embora continuasse a excluir a população nativa”, ou seja, os chineses. O estudo refere ainda a existência de um “período áureo do desporto moderno em Macau ocorreu entre 1925 e 1936, quando as relações entre portugueses e chineses se estabilizaram após o Incidente de 29 de Maio de 1922”. Em 1928 seria assinado o Tratado de Amizade e Comércio entre Portugal e China, o que contribuiu para a estabilidade. Um dos exemplos descritos é a criação do hóquei em campo, graças ao estabelecimento do Hóquei em Campo Clube de Macau. Aqui o desporto “deixou de ser um monopólio português, passando a reflectir uma sinergia sino-portuguesa”. Nesta fase, “equipas macaenses começaram a competir em torneios intermunicipais e até internacionais”, nomeadamente os Jogos Provinciais de Guangdong, os Jogos Provinciais Aquáticos e até os Jogos Nacionais, como o realizado em 1935 em Xangai, “no qual a equipa de ténis de mesa de Macau conquistou o campeonato”. No caso concreto do futebol, “desde o início do século XX” que Macau o adoptou “como prática cultural simbólica e desportiva popular profundamente enraizado na sua ligação histórica a Portugal”. Segundo Emanuel Leite Júnior e Dongye Zyu, “o futebol português desempenhou um papel relevante na formação da cultura popular nas cidades coloniais”. Destaca-se que “os primeiros registos de clubes de futebol em Macau datam de 1919, como o Colégio de S. José, o Macao Chinese Football Club, o Fantasma, o Macau Football Club e a South China Athletic Association”, enquanto que em 1923 e 1926 “surgiram outros clubes, como Almirante, Associação Desportiva Macaense ou “República A”. Havia também clubes a representar a comunidade chinesa, e nos anos 20 já eram tantos que se fez “primeira tentativa de organizar uma competição, criando-se uma liga com duas divisões”, mas “não há registos da continuidade desse campeonato macaense”. “A Associação de Futebol de Macau foi criada em 1939, tornando-se membro da FIFA e da Confederação Asiática de Futebol a partir de 1978”, é ainda indicado. Actualmente, ainda existem associações que representam os grandes clubes portugueses, nomeadamente o Benfica, Sporting e FC Porto. O trabalho destaca também a importância do hóquei em campo e em patins no território, que “desempenhou um papel central na formação da cultura desportiva de Macau, reflectindo as particularidades do seu contexto colonial e da sua identidade híbrida”. Trata-se de desportos que foram “introduzidos pelos portugueses”, tendo sido “rapidamente apropriados e reinterpretados pela população local, tornando-se símbolos de prestígio e excelência atlética”. No caso do hóquei em campo, “destacou-se desde meados do século XX pela sua intensidade competitiva e frequência de torneios internacionais realizados em Macau, que acolheram equipas da Europa, Ásia e Oceânia — muitas vezes derrotadas por equipas locais, demonstrando elevado nível técnico”. A questão olímpica O estudo de Emanuel Leite Júnior e Dongye Zyu chama também a atenção para o “paradoxo do reconhecimento olímpico de Macau”, por não ser reconhecido pelo Comité Olímpico Internacional (COI), não obstante “o crescente papel internacional de Macau”. Os autores destacam que, “apesar da frustração por ainda não ver o seu comité olímpico reconhecido pelo COI, a Associação de Futebol de Macau é membro da FIFA desde 1978, ou seja, desde o período em que o território era dependente de Portugal, tendo mantido esse estatuto após a transferência de soberania para a China em 1999”. Numa fase mais contemporânea, os académicos referem como o “desporto tem também funcionado como instrumento de diplomacia e soft power”, já que desde o início do século XXI “Macau tem vindo a integrar-se cada vez mais com a China continental no âmbito do conceito da Grande Baía Guangdong–Hong Kong–Macau”. O estudo destaca a realização da 15.ª edição dos Jogos Nacionais da China, tendo sido a “primeira vez na história deste evento que várias regiões administrativas de nível provincial o organizam em conjunto”. Em suma, “a experiência desportiva de Macau sintetiza a sua identidade paradoxal”, ou seja, num território que funciona como “um espaço onde os legados coloniais coexistem com a integração nacional e a aspiração global”. Por um lado, “os traços culturais portugueses permanecem visíveis em instituições, práticas e ligações ao mundo lusófono”, mas “a diplomacia desportiva e a orientação política da cidade afirmam a sua posição como Região Administrativa Especial da República Popular da China, dependente do apoio de Pequim para a sua projecção internacional”. Verifica-se, portanto, uma “dualidade entre heranças coloniais e dependência política contemporânea”, o que faz “do desporto um espelho poderoso da identidade complexa e em constante evolução de Macau”.