Tradução de poesia de Lu Xun – 20

#20

哀范君三章·其二

āi fàn jūn sān zhāng · qí èr

海草國門碧

hǎi cǎo guó mén bì

多年老異鄉

duō nián lǎo yì xiāng

狐狸方去穴

hú lí fāng qù xué

桃偶已登場

táo ǒu yǐ dēng chǎng

故里彤雲惡 gù lǐ tóng yún è 炎天凜夜長

yán tiān lǐn yè cháng

獨沉清澈水

dú chén qīng chè shuǐ

能否滌愁腸

néng fǒu dí chóu cháng

Elegia a Fan II

Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria longos anos a envelhecer em terra alheia mal a raposa abandona a toca

já a marioneta sobe ao palco

na terra natal, vejo as nuvens vermelhas e o calor pesa, e a noite alonga-se fria mergulho solitário na água límpida poderá ela lavar a dor que entranha?

Notas

A imagem “Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria” retoma uma alusão a Li Bai, onde o reverdecer das plantas junto ao litoral indica a passagem do tempo e o afastamento do sujeito poético da terra onde nasceu. A expressão guó mén (國門) sugere fronteira e pertença, sendo reinterpretada para indicar a permanência prolongada fora da pátria.

A referência a “envelhecer em terra alheia” corresponde à experiência de exílio prolongado de Fan Ainong no Japão, onde a distância física se associa a um desgaste temporal e afetivo.

O termo 狐狸 (hú lí), “raposa”, é frequentemente interpretado como alusão à

imperatriz Cixi. A imagem da raposa que abandona a toca remete para a queda do poder imperial. A sequência seguinte introduz “a marioneta sobe ao palco”, táo ǒu (桃偶) expressão que se relaciona com o ato de manipular alguém. A justaposição destas imagens traduz a instabilidade política após a queda dos Qing, marcada pela substituição de um poder por outro igualmente precário. Para além disso, as marionetas de madeira possuem uma função exorcística na tradição chinesa, o que acrescenta uma dimensão simbólica à imagem.

彤雲 (tóng yún), “nuvens vermelhas”, surge como metáfora de uma atmosfera

política opressiva. A cor intensifica a perceção de ameaça e densidade.

A oposição entre 炎天 (yán tiān), “calor intenso” ou “calor que pesa”, e lǐn yè 凜夜, “noite glacial” ou “noite que se alonga fria”, constrói uma tensão térmica que traduz a experiência de um tempo hostil. A extensão da noite reforça a ideia de duração e dificuldade.

滌愁腸 (dí chóu cháng), “lavar a dor que entranha”, articula um gesto de purificação

com a impossibilidade de dissolver plenamente o sofrimento.

Comentário

O poema organiza-se em torno de uma progressão que articula deslocação geográfica, transformação política e intensificação afetiva. A abertura, marcada pela imagem das “portas da pátria”, estabelece uma relação entre espaço e memória, situando o sujeito poético numa condição de afastamento prolongado. Esta dimensão espacial prolonga-se no verso “longos anos a envelhecer em terra alheia”, onde o tempo se inscreve diretamente no corpo.

A sequência central introduz imagens de natureza alegórica que traduzem uma mudança de regime. A “raposa” (狐狸) e a “marioneta” (桃偶) configuram uma leitura crítica da transição política, sugerindo substituição e continuidade de mecanismos de poder. A tradução preserva estas figuras sem substituição cultural, garantindo a manutenção da densidade simbólica e permitindo a sua explicitação no aparato crítico.

A imagem “e o calor pesa, e a noite alonga-se fria” traduz a tensão entre extremos climáticos, convertendo-a em expressão da experiência histórica. A escolha lexical privilegia concisão e intensidade, assegurando continuidade com a economia expressiva da poesia portuguesa.

A imagem final concentra o movimento do poema num gesto individual. O verso “mergulho solitário na água límpida” mantém a estrutura do original, onde a ação de mergulho sugere simultaneamente isolamento e tentativa de purificação. A formulação “poderá ela lavar a dor que entranha?” traduz diretamente preserva a dimensão corporal da dor.

A estratégia tradutória deste poema assenta, assim, na manutenção da parataxe, permitindo que as imagens se articulem por justaposição.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários