Sexanálise VozesA falta de líbido não se resolve (só) com suplementos Tânia dos Santos - 1 Abr 2026 Hoje há um suplemento para quase tudo: para dormir melhor, para melhorar a memória, para reduzir o stress. Não surpreende, por isso, que haja também suplementos que prometem melhorar o desejo sexual. Basta uma rápida pesquisa online para encontrar dezenas de produtos que garantem dar um reforço sexual — seja lá o que isso signifique: mais desejo, erecções mais firmes ou orgasmos mais intensos. Ginseng, maca, tribulus, ashwagandha, zinco, fórmulas ancestrais criadas fora de um laboratório: todas fazem parte de um catálogo promissor. Estes suplementos dizem resolver algo tão complexo como a sexualidade. A literatura científica sobre suplementos para a função sexual é, em geral, não muito optimista. Existem alguns ingredientes com evidência preliminar — por exemplo, o ginseng ou a maca — que parecem ter efeitos ligeiros sobre o desejo ou sobre a função eréctil em alguns estudos. Contudo, a maior parte destes estudos envolve amostras pequenas, períodos de observação curtos ou resultados inconsistentes. Não é raro que um estudo mostre algum benefício e o seguinte não consiga replicá-lo. Isto não significa que todos os suplementos sejam inúteis. Significa apenas que a evidência científica e as promessas publicitárias não estão alinhadas. Parte da explicação reside no facto de a sexualidade humana ser um fenómeno extraordinariamente complexo – um tema sobre o qual já escrevi várias vezes. O desejo sexual não depende apenas de um mecanismo biológico isolado. É influenciado por factores hormonais, sim, mas também pelo contexto ou a situação, como o estado emocional ou dinâmica relacional. Por não estarem conscientes desta complexidade, muitas pessoas identificam como “falta de libido” outras questões secundárias, como ansiedade, cansaço crónico, efeitos secundários de medicamentos ou simplesmente as exigências de uma vida cada vez mais acelerada. A investigação científica sobre sexualidade mostra, aliás, algo que raramente é discutido neste âmbito: factores básicos de saúde têm frequentemente mais impacto no desejo sexual do que qualquer suplemento. A qualidade do sono, o exercício físico regular, a redução do stress, bem-estar emocional estão associados a melhor função sexual. A sexualidade depende profundamente do estado geral do corpo e da mente. Em muitos casos, melhorar o contexto de vida, e até fazer psicoterapia, pode ser mais eficaz do que procurar o suplemento certo. Exactamente porque a sexualidade humana é um fenómeno multi-factorial, uma parte dos efeitos positivos relatados em estudos sobre suplementos pode ser explicada pelo efeito placebo. Quando acreditamos que estamos a tomar algo que irá melhorar a nossa vida sexual, essa expectativa pode alterar a forma como interpretamos as nossas próprias sensações. A confiança aumenta, a ansiedade diminui e, em alguns casos, o desejo reaparece. Isto não significa que o suplemento “funcione” no sentido farmacológico, mas também não significa que a experiência do utilizador seja uma fantasia. A mente humana tem influência sobre o corpo. Os suplementos podem ter, por isso, um lugar na conversa. Em alguns casos específicos podem ter um papel auxiliar. Mas dificilmente serão a solução universal que o marketing promete. Num tempo marcado por relações cada vez mais pressionadas por expectativas irrealistas, a promessa de uma solução simples torna-se irresistível. Um suplemento é sempre mais fácil do que confrontar a complexidade da vida íntima. E é precisamente por isso que continua a vender tão bem.