As tempestades e a falta de cultura meteorológica em Portugal

Já muito se falou e escreveu sobre a tempestade Kristin que afetou Portugal na madrugada do 28 de janeiro de 2026, causando graves prejuízos, em especial nas regiões do centro do país. Começou como núcleo depressionário associado a uma depressão muito mais vasta, designada por Joseph, tendo sofrido uma diminuição brusca da pressão no seu centro, o que se pode classificar como ciclogénese explosiva, visto que a queda da pressão ultrapassou 24 hPa em 24 horas. Este fenómeno meteorológico é também designado por ciclone-bomba.
Note-se que, na Europa, à semelhança do que é prática corrente nas regiões tropicais relativamente aos ciclones tropicais, são atribuídos nomes próprios às depressões sempre que se prevê que poderão ter impactos significativos. Esta prática foi iniciada pela Irlanda e Reino Unido, em 2015. Mais tarde, em 2017, Portugal, Espanha, França, Bélgica e Luxemburgo também passaram a elaborar listas de nomes próprios. Entretanto, outros grupos regionais foram formados, elaborando cada grupo a sua própria lista de nomes, alternadamente femininos e masculinos. O critério principal está relacionado com a severidade que justifique a emissão de avisos meteorológicos de nível laranja ou vermelho. Em Portugal, o principal parâmetro a considerar é o vento, podendo também ser justificação para avisos outras variáveis, como precipitação intensa e agitação marítima.
Durante um período de algumas semanas, entre meados de janeiro e meados de fevereiro de 2026, ocorreu uma sequência inusitada de depressões às quais foram atribuídos nomes. Destacam-se, além de Kristin, as depressões Joseph e Cláudia que, embora tenham provocado estragos, não tiveram consequências tão acentuadas.
Quando as depressões com nomes próprios não têm consequências significativas, os seus nomes permanecem na lista de acontecimentos futuros. Contrariamente, como no caso de Kristin, serão banidos e substituídos por outros.
O facto de se ter formado um bloqueio anticiclónico entre a Gronelândia e a Península Escandinava, e o Anticiclone dos Açores se encontrar bem a sul do paralelo 40º N, fez com que se estabelecesse uma espécie de corredor nas vizinhanças deste paralelo, o que favoreceu o rápido percurso de oeste para leste de uma sequência de depressões em geral associadas a ondulações frontais.
Habituados à amenidade do clima, os portugueses surpreenderam-se com a gravidade das consequências, que se traduziram no derrube de centenas de milhares de árvores, cheias, inundações, deslizamentos de terras, danificação de edifícios, postes de eletricidade, diques e outras infraestruturas. A região centro, que já havia sofrido graves danos com a passagem de uma depressão extratropical resultante do furacão Leslie, em 2018, foi a mais fustigada.
As imagens de satélite da depressão Kristin apresentam uma configuração com o aspeto de gancho ou cauda de escorpião, o que denota a existência de uma forte corrente de ar descendente que se designa por “sting jet” (“sting” em inglês significa ferrão). Este tipo de corrente, ao atingir a superfície, origina ventos extremamente fortes, numa faixa de dezenas de quilómetros, frequentemente superiores ao grau 12 da escala de Beaufort (ventos superiores a 118 km/h). No caso da depressão Kristin, foram registadas rajadas superiores a 150 km/h, nomeadamente na Base Aérea de Monte Real, onde uma rajada atingiu valor superior a 170 km/h.
Vem este texto não só a propósito da tempestade Kristin, mas também sobre a linguagem inadequada que se usa quando se fala do tempo e do clima. Num dos despachos assinados pelo Primeiro-Ministro (despacho n.º 1335-A/2026, de 4 de fevereiro) a tempestade Kristin é classificada como “fenómeno climatérico adverso”. Também no Despacho n.º 1218/2026 de 3 de fevereiro, referente à depressão Cláudia, assinado pelo Ministro da Agricultura e Mar, aquele fenómeno meteorológico foi também classificado da mesma maneira. Mesmo em documentos oficiais da União Europeia, as expressões “phénomenes climatiques défavorables” e “adverse climatic events” são traduzidas para português como “fenómenos climatéricos adversos”, o que se pode considerar, no mínimo, uma tradução inadequada. É o caso, por exemplo, da versão portuguesa do Regulamento (UE) 2021/2115 do Parlamento Europeu, relativo a regras para apoiar planos estratégicos a elaborar pelos Estados-Membros relativos à política agrícola comum.
Ainda no âmbito das consequências da depressão Kristin, numa entrevista à CNN Portugal, em 4 de fevereiro de 2026, a Ministra do Ambiente e Energia referiu-se à tempestade declarando explicitamente “isto foi um furacão” e afirmando que se tratava de um “evento como não há memória”. Claro que se trata de afirmações feitas por alguém que não é especialista nas áreas da meteorologia e do clima. Seria conveniente, no entanto, um mínimo de coerência nas afirmações sobre eventos que caem no âmbito do seu ministério, que tutela o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e que, por sua vez, é a autoridade meteorológica nacional. Kristin não se pode classificar como furacão, pois trata-se de uma depressão extratropical. Na realidade, os furacões formam-se nas regiões tropicais e os processos de formação são distintos.
Infelizmente a legislação portuguesa adotou a designação “fenómenos climatéricos adversos” para se referir a eventos meteorológicos com consequências devastadoras, evidenciando uma falta de cooperação entre os legisladores e o IPMA. Provavelmente este Instituto nem terá sido consultado sobre a tradução do documento da União Europeia atrás referido.
Sobre a afirmação “evento como não há memória”, foi de facto um dos mais gravosos nas últimas dezenas de anos, mas ainda há cidadãos portugueses que se lembram do “Ciclone de 1941”, considerado a tempestade mais mortífera que afetou Portugal desde que se fazem observações regulares. Causou graves danos em todo o país, tendo provocado uma quantidade elevada de mortos, que se estima ter sido entre 150 e 200, não se sabendo o número exato devido à censura que caracterizava o regime então vigente.
Outras imprecisões de linguagem ocorrem com alguma frequência. Por exemplo, não é raro ouvir e ver escrito “metereologia”, “metereologista”, “metereológicas”, etc., em vez de “meteorologia”, “meteorologista” e “meteorológicas”. Trata-se de uma falta de conhecimento da etimologia da palavra “meteorologia”, termo que designa a ciência que estuda a atmosfera terrestre. Entre outros assuntos, esta ciência estuda os meteorosi, os quais, segundo a Organização Meteorológica Mundial, se definem como sendo todos fenómenos observados na atmosfera que resultam da existência de partículas líquidas ou sólidas, ou de processos óticos ou elétricos. Provavelmente, devido a haver uma certa dificuldade em articular corretamente as sílabas da palavra “meteorologia” e seus derivados, e à tendência natural de simplificar a fala, alguns profissionais da comunicação social preferem recorrer à expressão “condições climatéricas” em vez de “condições meteorológicas”. Cometem, no entanto, um outro erro, atendendo a que pretendem relacionar a palavra “climatéricas” com o tempo que faz, ou fez, num determinado momento ou durante um período relativamente curto. São frequentes frases como esta: “o espetáculo foi interrompido devido às condições climatéricas”. Ora o termo “climatérico” poderá estar relacionado com o clima ou com o tempo, como mencionam alguns dicionários, mas esta expressão não é adequada para referirmos às condições meteorológicas num determinado momento, visto que “tempo” e “clima” têm significados diferentes. Quando pretendemos referir-nos ao tempo devem ser usadas as expressões “condições meteorológicas”, “condições atmosféricas”, “estado do tempo” ou simplesmente “tempo”. Quando falamos do clima de uma determinada região estamos a referir-nos às condições meteorológicas médias durante um vasto período, no mínimo de 30 anos.
Ao escrever “metereologia” estamos a cometer um erro ortográfico, enquanto chamar “clima” ao “tempo” incorremos num erro semântico.
O termo “climático” (e não “climatérico”) é mais adequado, quando nos queremos referir ao clima. Mais uma razão para não usar o termo “climatérico” consiste no facto de, no âmbito da medicina e da botânica, se referir, respetivamente, ao “período de transição fisiológica e psicológica que antecede e sucede a menopausa ou a andropausa” e ao “processo de maturação de certos frutos” (segundo os Dicionários Infopédia da Porto Editora).
Em resumo, é de evitar termos, como “metereologia” (erro ortográfico) e seus derivados, e “climatérico” (erro semântico) sobre fenómenos meteorológicos como o que infelizmente é frequente em reportagens e em documentos oficiais. Por respeito à língua portuguesa e ao público em geral é fundamental que se recorra a termos precisos para evitar equívocos.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários