Futebol: um jogo de origem chinesa

Por Miguel Lenoir

Há cerca de 2500 anos, os chineses criaram um desporto em que uma bola é jogada com os pés e se quer dentro de uma baliza. Chamaram-lhe CUJU.

Cuju (tsu-dju, em português), pontapear uma bola, foi a forma mais antiga de um desporto a que hoje se chama futebol. A sua origem remonta ao final do Período Primavera e Outono (770-481 a.E.C), início dos Reinos Combatentes, quando foram estabelecidas regras e a bola do jogo se tornou algo semelhante às que hoje rolam pelos estádios. Inicialmente, essa bola era recheada com penas ou palha de grãos, sendo mais rija do que as bolas modernas.

O cuju foi mencionado pela primeira vez nos textos históricos Anais dos Reinos Combatentes (Zhan Guo Ce) e Registos da História (Shi Ji), de Sima Qian, nos quais o desporto foi claramente referido como uma forma de treino físico para tropas militares. “Cu” significa literalmente chutar e “ju” significa bola. De acordo com outro texto antigo, Taiping Qing Hua, a bola na dinastia Han passou a ser recheada de penas e envolta em couro. Na dinastia Tang, seria substituída por uma bola cheia de ar com uma camada dupla de pele.

A Origem do Jogo

O estabelecimento do cuju, com regras e objectivos, ocorreu em Linzi, a capital do poderoso reino de Qi, um dos estados dominantes durante esse período, uma cidade extremamente rica e populosa, talvez pela mão de um homem famoso dessa época, Guan Zhong, primeiro-ministro do reino de Qi. Essa prosperidade económica permitia que os seus habitantes, para além das classes militares, tivessem tempo e recursos para se dedicarem a actividades de lazer e entretenimento.

Contudo, acredita-se que a forma mais competitiva do cuju foi desenvolvida como um método de treino militar para os soldados e cavaleiros do exército do reino de Qi. O objectivo era melhorar a condição física, a agilidade e o trabalho de equipa dos guerreiros. Esta prática remonta a cerca de 685 a.E.C., quando o primeiro-ministro Guan Zhong, ao serviço do Duque Huan de Qi, a terá implementado para fortalecer as forças armadas. Portanto, Linzi ofereceu o cenário perfeito: uma cidade rica com uma cultura de lazer florescente e um estado poderoso com necessidade de treinar um exército forte. Esta combinação única fez com que o cuju, que já existia como uns simples pontapés numa bola, evoluísse para um desporto com regras e objectivos claros.

Devido ao seu valor militar, o cuju era muito apreciado na dinastia Han. Além de ser usado como um meio formal de treino físico, os jogos de cuju foram padronizados e regras estabelecidas para ajudar a aumentar a resistência e a disciplina militar.

Um livro de regras e preceitos

Uma discussão aprofundada sobre o jogo cuju foi escrita pela primeira vez por Li You, (李尤), um poeta e funcionário da corte da Dinastia Han Oriental (25-220), que descreve o jogo de cuju com um detalhe notável. Trata-se do “Ju Cheng Ming” (鞠城铭) , que pode ser traduzido como “Inscrição no Muro do Campo de Jogo” ou “Ode ao Campo de Futebol”. No livro, lê-se o seguinte poema:

Esta obra é considerada a primeira descrição detalhada das regras e da filosofia de um jogo desportivo na história mundial. Ali se detalham o local e as regras do jogo — o campo era um rectângulo (fāng qiáng -muro quadrado), cercado por muros, o que lhe valia o nome de Ju Cheng (Cidade do Jogo), construído especialmente para partidas de cuju, com traves em forma de crescente em cada extremidade e com seis jogadores de cada lado. A bola deveria redonda (yuán jū). Havia duas equipas com seis jogadores cada (èr liù xiāng dāng), num total de doze jogadores, que se opunham e procuravam marcar golos. O jogo era dirigido por um árbitro principal e um assistente (zhǎng), que existiam para garantir a equidade (lì píng) e o cumprimento de regras fixas e imutáveis (qí lì yǒu cháng) que todos deveriam seguir.

Mas o aspecto mais notável do texto de Li You é a sua ênfase na moralidade e na justiça, tanto dentro como fora de campo. O autor não fornece apenas detalhes sobre o local e as regras do jogo: Li You menciona especialmente os requisitos morais para o árbitro e os jogadores: “Como árbitro, não deve haver favoritismo ou parcialidade (bù yǐ qīn shū, bù yǒu ā sī)”. Este é um dos primeiros códigos de conduta para árbitros na história do desporto. “Como jogador, é importante jogar de forma justa, sem reclamações ou acusações. Os jogadores devem manter uma atitude correcta e calma, aceitando as decisões sem se queixarem dos erros (duān xīn píng yì, mò yuàn qí fēi).”

Finalmente, Li You vai mais longe e termina com uma poderosa mensagem política e filosófica. Se um simples jogo exige regras justas, árbitros imparciais e jogadores disciplinados, quanto mais a arte de governar um país (kuàng hū zhí jī)? O cuju tornava-se, assim, uma metáfora para a harmonia social e a boa governação, reflectindo a visão confucionista de que a ordem e a rectidão em pequenas coisas são o fundamento para a ordem no mundo.

Enquanto os textos do Zhan Guo Ce e do Shi Ji nos mostram a popularidade do jogo, a inscrição de Li You revela a sua sofisticação e organização durante a dinastia Han, consolidando a importância do cuju na cultura chinesa antiga.

Ainda durante a dinastia Han, a popularidade do cuju espalhou-se do exército para as cortes reais e as classes altas. Diz-se que o imperador Wu gostava muito deste desporto. De acordo com o Livro de Han, o imperador frequentemente organizava lutas de galos e partidas de cuju no palácio imperial, a que assistia com grande prazer.

O cuju melhorou muito durante as dinastias Tang e Song. A bola cheia de ar era muito mais leve e saltitante, o que significava usar um conjunto diferente de técnicas e estratégias nas partidas. Os Tang tornaram o jogo mais divertido e ele espalhou-se para o Japão naquela época.

Os ministros fundadores da dinastia Song eram em grande parte oficiais militares. A sua preferência por desporto como forma de entretenimento ajudou a impulsionar o avanço técnico, o nível de diversão e a popularidade do cuju. O jogo floresceu durante a dinastia Song como resultado do desenvolvimento social e económico da nação, e a sua popularidade estendeu-se a todas as classes da sociedade.

Como marcar golos

Durante a Dinastia Han, o período em que o jogo foi padronizado, marcar um golo era um desafio de pontaria e precisão completamente diferente do futebol moderno. De acordo com as descrições, o campo tinha nas suas extremidades estruturas de golo muito particulares: seis postes em forma de meia-lua, com uma pequena rede era amarrada, a cerca de 10 a 20 metros do chão.

A abertura por onde a bola tinha de passar era surpreendentemente pequena, com apenas 30 a 40 centímetros de largura. O objectivo, portanto, era chutar a bola para que ela passasse por aquela pequena abertura e ficasse presa na rede elevada. Mais do que potência, este tipo de golo exigia uma enorme precisão e técnica apurada. A forma de lua crescente dos postes e a bola redonda eram vistas como uma representação do equilíbrio cósmico entre o yin e o yang.

Com o passar dos séculos, o jogo evoluiu. Na dinastia Tang (618-907), surgiram mudanças significativas: a bola passou a ser oca e cheia de ar, com um invólucro de duas camadas, o que permitia um melhor controlo e mais dinamismo no jogo. As balizas também foram modificadas. Ao lado do modelo com postes em meia-lua, surgiram dois novos tipos: balizas com rede, ou seja, postes com uma rede esticada entre eles, semelhantes às balizas do futebol moderno; ou um único poste colocado ao centro do campo, que parecia ser o alvo a acertar.

Na Dinastia Song marcar golos torna-se opcional. O jogo dividiu-se em duas modalidades principais :

— o Zhuqiu (Jogo Competitivo): Esta era a variante que mais se assemelhava ao futebol de equipas. Realizava-se em ocasiões especiais, como banquetes imperiais, com duas equipas de 12 a 16 jogadores de cada lado. O objectivo principal continuava a ser marcar golos na baliza adversária. Quando um golo era marcado, era celebrado com redobrar de tambores e bandeirinhas.

— o Baida (Jogo de Habilidades): Esta tornou-se a forma dominante de jogar cuju na dinastia Song e representou uma ruptura total com a ideia de golo. Sem Balizas, os golos tornaram-se obsoletos. O campo de jogo era simplesmente delimitado por uma corda. Os jogadores, em número variável (de 2 a 10), revezavam-se para manter a bola no ar, dentro dos limites da corda, usando qualquer parte do corpo excepto as mãos. O vencedor não era quem marcava mais golos, mas sim o jogador com menos faltas ou com a melhor performance técnica. Perdia pontos quem, por exemplo, não passasse a bola com a distância ou precisão suficiente para alcançar outro jogador, chutasse a bola para fora dos limites da corda ou chutasse a bola demasiado baixa. Portanto, numa partida de Baida, a “marcação” não existia no sentido de colocar a bola numa baliza, mas sim na acumulação de pontos positivos através de um controlo de bola hábil e esteticamente agradável. Ganhava quem demonstrasse maior domínio técnico e cometesse menos erros.

A história do cuju mostra-nos como um jogo pode evoluir de uma simples atividade de treino militar para um desporto complexo com regras variadas, onde o acto de “marcar” podia ser um pontapé preciso a uma rede a 10 metros de altura ou uma demonstração de equilíbrio e técnica individual.

Aliás, ao longo dos séculos, foram escritos vários manuais sobre o cuju, alguns dos quais sobreviveram até aos dias de hoje. Estes manuais oferecem uma visão fascinante sobre a vasta gama de pontapés que podiam ser utilizados, bem como sobre os vários movimentos e posturas corporais envolvidos. Havia pelo menos 16 tipos básicos de «pontapé», embora o significado de alguns ainda não tenha sido decifrado:

1 – O lian (com a parte superior do pé)

2 – O xi (com o joelho)

3 – O guai (com o tornozelo)

4 – O da (com a ponta do pé)

5 – O bazi (com o pé aberto)

6 – O banlou

7 – O deng (com o calcanhar)

8 – O chao

9 – O nie/nian (com o peito do pé)

10 – O jian (com o ombro)

11 – O zhuang (com a ponta do sapato)

12 – O xiudai

13 – O zuwo/zugan

14 – O pai (com o peito)

15 – Zati (pontapés mistos)

16 – O kong (bloqueador)

Havia também regras e regulamentos relativos ao movimento do corpo e às posturas permitidas. Por exemplo, um manual de cuju dizia:

“O corpo erecto como um pincel,

como se carregasse uma pedra nas mãos,

o coração livre e à vontade,

os pés numa postura móvel.

O corpo erecto, e não curvado,

as mãos pendentes, e não voando,

os pés baixos, e não altos,

os pontapés lentos, não apressados.”

Os primeiros profissionais

Havia muitos bons jogadores de cuju na dinastia Song e até associações formadas para o desporto, como o famoso Clube Qi Yun, também conhecido como Clube Yuan, o clube de futebol mais antigo da China e o primeiro do mundo. Esses clubes tinham como objectivo promover o cuju, oferecendo aulas de treino de habilidades e organizando competições para equipas masculinas e femininas. As partidas eram tão espectaculares e calorosamente recebidas quanto as que assistimos hoje. Os seus membros eram como os jogadores de hoje, também podiam ser transferidos para outro clube, mas não era fácil, pois tinham de preencher formulários com os seus dados básicos, tais como nome, local de origem, nome do seu professor e carreira anterior.

E tinham de passar em exames de aptidão. Por exemplo, era-lhes pedido que chutassem a bola para cima pelo menos 100 vezes com cada pé sem que ela caísse no chão. A obra “Os Esplendores da Capital Oriental” (Dongjing Meng Hua Lu) descreve a vida em Kaifeng por volta de 1120 e menciona a existência de clubes profissionais de cuju, com patrocinadores, treinadores e capitães.

Os clubes de cuju viam-se como uma força para a harmonia social, reunindo jovens de várias origens e adoptando um estilo de vida comunitário, com os membros a partilharem roupas, dinheiro e comida. Não há evidências de que as mulheres fossem autorizadas a participar. As sociedades também produziam manuais de instruções que não só explicavam as técnicas do desporto, mas também o promoviam como benéfico para a saúde física e mental. A sua crença de que o jogo ajudava a construir músculos, reduzir o peso e retardar o envelhecimento não pareceria fora de lugar num manual de futebol actual.

A importância do cuju, durante a dinastia Song, também levou alguns jogadores a tornarem-se famosos pelas suas habilidades com a bola. Meng Xian e Lu Bao são dois jogadores que alcançaram proeminência nacional e cujos nomes foram registados para a posteridade. Um campeonato nacional conhecido como Shan Yue Zheng Sai também era realizado, embora não se saiba como era organizado ou quem podia participar.

A crescente popularidade do cuju também ficou evidente com a contratação de instrutores pelos clubes para ensinar o jogo e com o surgimento de jogadores profissionais. Assim como outros artistas profissionais, tais como músicos, actores e dançarinos, os profissionais do cuju viajavam pelo país fazendo exibições das suas habilidades e ensinando-as a outras pessoas. O nível de organização do desporto era tal que os jogadores só podiam se qualificar como profissionais após passar por exames, nos quais tinham que demonstrar o domínio de uma ampla variedade de chutos sem cometer erros.

O treino era intensivo e árduo, ocorrendo ao longo de muitos anos. Essa não era a única maneira pela qual os jogadores podiam ganhar a vida com as suas habilidades. Os membros da nobreza também mantinham os seus próprios jogadores profissionais. O cuju era associado ao prazer e à felicidade. O jogador de cuju «não aspira à fama e ao lucro, mas deleita-se em passear à vontade», segundo um escritor do período Song. Outro afirma que o desporto «liberta a tensão, eleva o ânimo e ajuda a esquecer as dores e os problemas do mundo agitado. Dissolve o qi endurecido e faz com que o coração virtuoso se torne gentil e belo».

O cuju parece ter sido considerado uma espécie de panaceia para todos os tipos de males, com um impacto profundamente positivo a nível físico, mental e até espiritual. O jogo também parece ter tido um aspecto moral e ético. A maioria das sociedades de cuju promovia as principais virtudes confucionistas de benevolência, decoro, cortesia, sabedoria e sinceridade.

No entanto, um manual de cuju aponta para os perigos de «conversas, jogos de azar, brigas e lutas, arrogância, grosseria, falsidade, mau humor, litigiosidade, devassidão, álcool e sexo», o que sugere que esses podem ter sido problemas associados ao jogo. Há também exemplos de cuju associado a entretenimento e bebida, e a literatura revela que havia muitos jogos informais, que talvez fossem mais parecidos com uma partida de futebol, entre amigos no parque.

O cuju continuou a ser popular na China durante a dinastia Ming. Funcionários públicos e membros da realeza ficaram obcecados pelo jogo, a tal ponto que o imperador Hongwu ordenou que fosse proibido, pois era uma distração do trabalho e do treino militar. Aqueles que fossem apanhados a jogar podia-lhes ser aplicada uma pesada pena: ter um pé cortado.

No entanto, certos estabelecimentos continuaram a ter jogadoras femininas que realizavam proezas de cuju para atrair clientes. O governo Qing aprendeu com o erro do governo anterior, decidiu proibir o cuju de uma vez por todas, e esse foi o fim do futebol, outrora muito popular na China.

Reconhecimento internacional

Na Europa existem desde o século XVIII relatos de um jogo de rua em que duas equipas andavam atrás de uma bola pontapeando-a e que, sem regras claras, acabava invariavelmente em confronto com todos os elementos aos murros e pontapés. No final, todos recolhiam a casa esmurrados e a sangrar, mas satisfeitos e bem-dispostos pois tinham libertado as energias condensadas de um dia de trabalhos. Terá sido esta a origem do moderno jogo de futebol, desporto como hoje o conhecemos, que em meados do século XIX, em Inglaterra, passou a ser mais disciplinado e com regras, tendo-se formado clubes.

Quando nos anos 70 do século XX, a Inglaterra se proclamou como o país onde se iniciara o desporto-rei, a FIFA achou necessário criar um grupo de investigadores para recolher informações arqueológicas e apreciar os registos históricos. Assim, foram encontrados muitos locais com possibilidade para serem declarados como a pátria do futebol. Só entre 9 e 11 de Julho de 2004, foi feita uma votação entre os 36 estudiosos investigadores que, por unanimidade, declararam Linzi, como o local da origem do Futebol.

Na comemoração dos 100 anos da Federation International de Football Association (FIFA), em 2004, o presidente Joseph S. Blatter reconheceu, finalmente, ter sido na China, mais propriamente em Linzi, pertencente a Zibo, actual província de Shandong, que se iniciou o jogo com bola usando os pés. 完

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