Timorense Maria do Céu Lopes protege património de ‘tais’, tecidos tradicionais

A timorense Maria do Céu Lopes descobriu a importância cultural do ‘tais’, panos tecidos por mulheres, em Timor-Leste durante a guerra e a cooperação com a resistência e hoje protege quase 400 exemplares, enquanto espera por um museu.

Apesar de durante a meninice utilizar ‘tais’ em algumas cerimónias, só mais tarde, com a sua cooperação com a resistência e com a sua curiosidade, foi descobrindo o seu profundo valor cultural.

Depois surge o desafio de um colega de infância, António Coelho, especializado em tecidos, para preservar o ‘tais’. É com o colega que inicia estudos para recolher informação sobre aqueles panos associados a todos os momentos importantes da vida de um timorense, mas pelo caminho criou, em 1999, a Timor Aid, uma organização não-governamental para proteger o património cultural timorense.

“A Timor Aid conseguiu fazer, temos uma coleção de quase 400 peças, umas antigas, outras cópias das antigas que vimos no livro que o António nos deu”, disse à Lusa Maria do Céu Lopes.

Além da recolha de informação oral, a Timor Aid também documentou em audiovisual todo o processo tradicional de produção de um ‘tais’, incluindo como se tinge o algodão, a partir de plantas naturais, estabeleceu uma rede de tecedeiras para proteger a tradição da confeção e também uma loja em Díli.

Reconhecimento da UNESCO

O seu esforço, por “fé e convicção”, foi reconhecido quando o ‘tais’ foi inscrito em 2021 na Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). “O reconhecimento, o mérito, não é nosso, é das tecedeiras e dos nossos ancestrais”, afirmou.

Maria do Céu Lopes explicou que aquele têxtil tem um “papel muito importante na vida doméstica timorense”, além de identificar o grupo linguístico de quem o usa e a comunidade a que pertence.

“O ‘tais’ é usado desde a vida até à morte, quando uma criança nasce a primeira coisa que se faz é envolvê-la num ‘tais’ e depois por aí fora: ‘barlaques’ [uma espécide de dote], funerais, as cerimónias rituais de ‘uma lulik’ [casa sagradas]”, disse.

“Uma mulher, nos tempos antigos, a sua dignidade, a sua posição social, era pelo ‘tais’ que tecia, porque hoje em dia o ‘tais’ tem valor em dinheiro, mas antigamente era em búfalos, ‘morten’, os colares tradicionais, ‘belak’ [usado nos colares] e ouro”, salientou.

Questionada pela Lusa sobre se o ‘tais’ pode perder-se, Maria do Céu Lopes considerou que não. “Mas, a qualidade do ‘tais’ moderno, poucos são bons”, lamentou, salientando que é necessário fazer a certificação do produto devido aos preços e para as pessoas terem a garantia do que estão a comprar.

Maria do Céu Lopes lamentou também a falta de um museu para mostrar aquele património timorense, que é visto em museus no exterior, dando o Louvre como exemplo. “Tu queres um museu, eu quero um museu porque tenho o material para pôr, não é para mim é para Timor-Leste, não temos um centro cultural decente, nem em Díli”, lamentou.

“Nós aqui não fazemos nada. Eu não posso construir um museu, não tenho dinheiro”, acrescentou. Enquanto espera pelo museu, a colecção da Timor Aid vai continuar protegida e à espera de dignidade para ser vista pelos turistas, que Timor-Leste pretende atrair.

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