Via do MeioPor onde dançou o pincel de Zou Zhilin Paulo Maia e Carmo - 13 Jan 2026 Huang Gongwang (1269-1354), o mestre da dinastia Yuan que viveu como um andarilho daoísta, um «convidado dos lagos e das montanhas», foi viver durante três anos entre 1347 e 1350, para junto do rio Fuchun (actual Qiantang) a Oeste de Hangzhou onde, com total desprendimento, sem contar com elogios, comentários ou críticas, foi criando um dos rolos horizontais mais prezados pela posteridade. Tinha setenta e oito anos quando começou a pintura conhecida como Retiro nas montanhas Fuchun, da «Primavera abundante», que respondia à urgência do seu método de capturar o espanto, apreço e admiração que sentia perante a natureza visível: “O pintor deve levar sempre consigo alguns pincéis numa sacola para que quando se lhe deparem árvores surpreendentes num belo cenário, ela possa de imediato fazer esboços delas para preservar as suas características naturais. Deve subir a altos edifícios, contemplar o qiyun, «o movimento do espírito», e diante das vistas abertas olhar as nuvens. Essas vistas chamam-se paisagens de cumes de montanhas. Tanto Guo Xi como Li Cheng praticaram este método e Guo Xi pintou mesmo pedras como nuvens.” Mas após Huang Gongwang terminar a sua pintura, ela própria se tornaria um objecto de intensa estima e assombro por aqueles que a possuíram. Um letrado no fim da dinastia Ming que teve o privilégio de a contemplar escreveu no rolo um comentário: «O seu proprietário vive com o rolo há dezenas de anos, coloca-o na mesa-de-cabeceira quando vai dormir, junto da sua cadeira quando vai comer, dia e noite, onde quer que vá a pintura vai com ele.» E justificou «A pintura de Huang é como as caligafias do grande Wang Xizhi – uma verdadeira obra-prima. Nesta pintura o pincel dança com vida, tal como a caligrafia do Prefácio do Pavilhão das orquídeas – divino e sublime.» Quem era esse conhecedor a quem foi concedida a honra de pousar o seu pincel sobre o inestimável rolo? Zou Zhilin (c.1585-c.1654) era amigo da família de Wu Zhiju que possuiu a pintura, depois de ela pertencer a egrégios pintores como Shen Zhou ou Dong Qichang, e era isso que lhe permitia a intimidade com o rolo. E a pintura era para ele também um modo de expressão. Passado o exame jinshi em 1606 por pouco tempo serviu a administração imperial, retirando-se para aquela peculiar forma de habitar solitário entre a gente, designado por vezes como yinshi, que era a via de tantos literatos insubmissos. Fazia parte dessa forma de relacionamento com os outros a troca de pinturas como uma, à venda na Sotheby’s, com caligrafias e pinturas contendo um leque montado num álbum de onze folhas a tinta e cor sobre papel dourado, onde numa das folhas escreve: «Para onde escapar? Suspeito que para lado nenhum senão para montanhas profundas ou florestas densas. E onde encontrar essas montanhas e florestas densas senão sob o meu pincel?»