Grande Plano MancheteCinema | Casa cheia na Fundação Oriente para estreia de “The Violin Case” Andreia Sofia Silva - 14 Set 2026 “The Violin Case”, a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny, teve a estreia europeia na sexta-feira na Fundação Oriente, em Lisboa. O filme conta a história de um artista que se vê enrolado em múltiplas peripécias enquanto procura um violino perdido. O filme rodado durante a pandemia procurou captar a essência de Macau Quem nunca teve problemas com um taxista em Macau? A questão transversal é o ponto de partida para a história de Theo, um artista que transporta um violino pintado com a figura do Napoleão Bonaparte, obra de arte que é o ponto de ignição para um autêntico incêndio narrativo. A impossibilidade de pagar a totalidade da tarifa de táxi, leva o motorista a vingar-se e simplesmente arrancar com o veículo, levando a que Theo perca o violino que tinha de entregar nessa noite. Este episódio, que se inspira numa história verdadeira, é o mote para a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny. Depois da estreia em Macau, “The Violin Case” teve a sua estreia europeia na última sexta-feira, no Auditório Dr. Stanley Ho da Fundação Oriente (FO). O público pode ver de perto os actores, o realizador e parte da equipa de produção, incluindo António Vale da Conceição, músico macaense responsável pela banda sonora. “The Violin Case” é um filme que retrata a noite de Macau com todos os seus ingredientes: as ruas quentes e desertas, os táxis e carros a deambularem de um lado para o outro, os néons que dão ao território uma essência tão especial. Maxim Bessmertny conseguiu fazer um filme onde o jogo está longe de ser o principal protagonista, nem sequer o Cotai. Há personagens que remetem para as muitas vidas que Macau tem e teve, de pessoas que, não nascendo no território, fizeram dele a sua casa. É o caso da personagem Pauline, interpretada pela designer Clara Brito, que, na trama, foi viver para o território nos anos 80 devido aos negócios do pai, e que vira uma galerista sem escrúpulos. Ao HM, Maxim Bessmertny revelou como esta foi a primeira vez que mostrou um trabalho cinematográfico seu em Lisboa. “É uma sensação incrível porque vim cá com os actores, a Clara [Brito], o Filipe Baptista Tou, que também é músico, actor, empreendedor de Macau. É a primeira vez que vou mostrar qualquer trabalho meu em Portugal. Mostrei as curtas-metragens, mas estávamos na altura da covid-19. Espero que as pessoas gostem do filme, que haja mais exibições e que o cinema independente continue a crescer.” O realizador revela a dificuldade em chegar à programação de festivais de cinema com uma longa-metragem. “É este o nosso trabalho [mostrar o filme]. Eu, com as curtas-metragens, tive a sorte de entrar em festivais, mas com as longas-metragens é muito mais complicado, porque um festival de cinema recebe cerca de quatro mil filmes. É impossível.” Desta forma, salientou, “é preciso ser um pouco mais criativo com as coisas, e não depender apenas de reuniões e convites”, referiu, explicando a presença na FO. Outras organizações de Macau, como a Fundação Macau ou a operadora de jogo Melco, deram também apoio, tal como o Governo da RAEM. Filmar durante a covid Fazer “The Violin Case” implicou enfrentar o período de confinamento em Macau na fase da covid-19. Implicou fazer escolhas e, muitas vezes, esperar até ao último momento para tomar decisões. Maxim Bessmertny é filho do pintor russo Konstantin Bessmertny, há décadas radicado em Macau. Eles próprios perderam um violino há muitos anos, em Hong Kong, e foi esse lado real que o realizador transpôs para a sua primeira longa. “O filme inspira-se num acidente que aconteceu ao meu pai, pintor que nasceu na Rússia e veio para Macau nos anos 90, onde cresci. A minha primeira memória é, portanto, de Macau, e o filme é inspirado nas imagens de Macau, na noite, e também na aventura que tive com o meu pai, em Hong Kong, quando ele perdeu o violino.” “Passámos a noite inteira à procura da peça de arte, e no final não o conseguimos encontrar. Fomos à polícia, fizeram-se umas investigações, e não aconteceu nada nessa noite. Só o facto de eu estar à frente de um polícia de Hong Kong a fingir que era advogado do meu pai…”, recordou Maxim Bessmertny na apresentação do filme, para divertimento da plateia. “Tentei escrever vários guiões, mas nada era muito real. Era tudo mais ligado aos anos 40, ao período da II Guerra Mundial, sempre passado em Macau, com o Casino Lisboa. Era difícil financiar isso. Lembrei-me da história do violino, estava a ver ‘After Hours’, do Martin Scorsese, e foi uma explosão de ideias”, explicou Maxim sobre o momento em que teve a ideia sobre aquilo que ia filmar. Questionado pelo HM sobre os principais desafios do projecto, o realizador destacou a rodagem do filme, que coincidiu com os tempos da pandemia. “Quase não filmámos, porque havia um confinamento todos os dias, testes. Não sabíamos se íamos realmente filmar, então foi sentir pânico até ao último minuto.” E nesta história não falta, sequer, o ingrediente da superstição. “No dia 1 de Setembro fizemos a cerimónia do Pai San, e não houve chuva durante as nossas noites de filmagens. Tivemos quase um mês inteiro sem chuva, e percebi que talvez os ventos estivessem do nosso lado.” Maxim Bessmertny destaca como teve “sorte, e muita sorte com as pessoas, que entenderam que estávamos a fazer uma coisa maluca num tempo maluco, com ideias malucas: várias localizações, quase 42, em 24 noites. Muitas personagens. Esse foi o grande desafio, o de conseguir chegar ao final”. O realizador transformou a história que viveu com o pai fazendo-lhe adaptações. Theo, interpretado pelo jornalista e músico Kelsey Wilhem, é, por exemplo, “um artista mais novo”. “The Violin Case” foi também feito à imagem de “The After Hours”, película de 1985 com assinatura de Scorsese. “Escrevi o argumento numa semana”, confessou Maxim Bessmertny. E tudo se compôs depois disso. O malvado motorista Filipe Baptista Tou tem um dos papéis mais importantes da trama: é motorista de táxi e responsável por levar o violino para bem longe de Theo. Ao HM, Filipe recorda a experiência. “Para começar filmámos este filme durante a pandemia e todos nós estávamos em confinamento, não tínhamos nada para fazer. Conheci o Maxim num podcast, conversámos, e ele disse-me que ia fazer um filme. Um ano depois perguntou-me se queria entrar. Ele deu-me a escolher entre dois personagens, um deles o de motorista de táxi. Fiz os dois, e tinha a ideia de que conseguiria fazer este papel na vida real. Quando fiz o teste, eles disseram: ‘Ok, temos o nosso condutor de táxi'”. Filipe Baptista Tou destaca a importância de apresentar “The Violin Case” na Europa já que, em Macau, “não são feitos muitos filmes”. “Na maioria, são feitas curtas-metragens e eis que o Maxim decidiu fazer este filme, trabalhando com pessoas de diferentes nacionalidades. É um privilégio para mim estar no filme”, acrescentou. “Precisamos de mais tempo [para desenvolver a indústria do cinema], porque de facto não temos uma grande indústria de entretenimento em Macau, com compositores, músicos, actores… Macau é muito pequeno, e estamos ainda a tentar mostrar-nos lá fora e conectarmo-nos com mais pessoas e países. O facto de estarmos aqui constitui uma grande oportunidade.” Por sua vez, Clara Brito confessou que a possibilidade de interpretar Pauline surgiu quando buscava novos desafios. “Foi uma fase em que estava particularmente aberta a novos desafios, e não tinha grandes expectativas. Para mim, era entusiasmante fazer parte do projecto, e estávamos naquele contexto fechado, com Macau parada, e sendo eu da área criativa, interessava-me.” A apresentação do filme contou com a presença do pintor e artista Manuel San-Payo, que viveu em Macau e partilhou a sua vivência com Konstantin Bessmertny.