Seul restaura estação ferroviária na fronteira com o Norte como gesto de reconciliação

Perto da fronteira fortemente vigiada que divide a península coreana há mais de sete décadas, a renovação da antiga estação ferroviária de Woljeongri é apresentada como símbolo das esperanças sul-coreanas de reconciliação com a Coreia do Norte.

Mas o projecto do Governo sul-coreano de reconectar ao sistema ferroviário a estação mais setentrional da Coreia do Sul surge num momento delicado: Pyongyang ignora a mão estendida de Seul, enquanto Washington, aliado-chave da segurança sulcoreana, conduz uma política unilateral de abertura ao Norte.

Desde que assumiu funções em Junho do ano passado, o presidente sulcoreano Lee Jae Myung enviou sinais conciliatórios a Pyongyang, recebidos com frieza. Entretanto, o Presidente noerte-americano, Donald Trump, decidiu encurtar abruptamente as manobras conjuntas com a Coreia do Sul, considerando que estes exercícios anuais transmitiam “um sinal totalmente inadequado e hostil” ao Norte.

O líder dos Estados Unidos também criticou Seul por recusar apoiar as forças dos EUA na ofensiva contra o Irão. Trump assegurou na quartafeira que se reuniria este ano com Kim Jong Un, procurando relançar a relação que afirma ter estabelecido com o líder nortecoreano em três encontros durante o seu primeiro mandato.

Por seu lado, Pyongyang respondeu na quintafeira com o lançamento de uma dezena de mísseis balísticos de curto alcance. Estes desenvolvimentos eclipsaram a política de mão estendida do governo Lee, ilustrada pela renovação da estação de Woljeongri com vista a uma potencial ligação ferroviária ao Norte.

Gesto simbólico

A modesta estação integrava outrora a linha que ligava Seul ao extremo norte da península, mas foi abandonada durante a guerra da Coreia (19501953). Hoje é uma atracção para visitantes da zona desmilitarizada, enquanto o antigo terminus da linha – Wonsan – se encontra em território nortecoreano.

As autoridades sulcoreanas iniciaram a restauração em 2015, vendo nela uma forma de dinamizar a economia da região fronteiriça e enviar um gesto simbólico a Pyongyang. Os trabalhos foram suspensos após o quarto ensaio nuclear nortecoreano em 2016.

Alguns habitantes de Cheorwon encaram o projecto com cepticismo. “Parece que tentam sempre reconciliarse com a Coreia do Norte através do projecto ferroviário, mas do nosso ponto de vista não é realista”, disse à agência France-Presse Moon Jaeyong, de 70 anos, natural da cidade fronteiriça.

O programa de reconciliação prevê restabelecer ligações ferroviárias entre as duas Coreias. Lee também propôs conversações sem précondições, incluindo para pôr fim oficialmente à guerra da Coreia.

O ministro da Unificação declarou em Julho que Seul dá prioridade a limitar a expansão do programa nuclear existente de Pyongyang, em vez de insistir na desnuclearização. Mas o Norte, que repetidamente afirmou ser “irreversível” a sua capacidade nuclear, não se mostra abalado.

Voltar aos carris

Ao tentar promover novo encontro com Kim Jong Un, Trump parece procurar um êxito de política externa antes das eleições intercalares, após o fracasso da ofensiva contra o Irão, relegando Seul para segundo plano.

“A Coreia do Sul teme ser marginalizada – a China, a Rússia e agora os EUA estão todos envolvidos com Pyongyang de diferentes formas, enquanto Seul não está”, disse à agência France-Presse Vladimir Tikhonov, professor de estudos coreanos na Universidade de Oslo. “Mesmo que pouco possa fazer além de tentar relançar o projecto ferroviário.”

Ao longo da linha desactivada entre Woljeongri e Baengmagoji, a vegetação tomou conta dos carris. Um painel afirma: “O cavalo de ferro quer correr”, acompanhado da frase em “Queremos voltar aos carris”.

O projecto visa também estimular o turismo junto à fronteira. Perto da estação de Woljeongri, permanece uma locomotiva bombardeada da guerra da Coreia, como lembrança persistente da divisão entre Sul e Norte.

Restaurar infraestruturas no Sul poderia poupar tempo caso as ligações intercoreanas sejam um dia retomadas, explicou Lim Eulchul, professor da Universidade Kyungnam. “Mas, na realidade, é praticamente impossível nas circunstâncias actuais, e todos o sabem”, acrescentou.

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