Lisboa | Ana Jacinto Nunes apresenta nova exposição

É na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, ligada ao Museu da Água, que a artista portuguesa Ana Jacinto Nunes, com ligações a Macau, apresenta a sua mais recente exposição. “Seres d’Água” tem animais que não são bem isso, a mulher e muitas reflexões interiores em forma de pintura, escultura e desenho

Ana Jacinto Nunes, artista plástica que já viveu e expôs em Macau, apresenta até ao dia 12 de Agosto a sua nova exposição, “Seres D’Água”, patente na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, ligada ao Museu da Água. A curadoria está a cargo de Ricardo Barbosa Vicente, podendo ser vistos trabalhos mais antigos e actuais, alguns deles já apresentados em Macau. Aqui, a água é tema central num conjunto de obras que também acarretam consigo introspecções e reflexões.

Como se lê na descrição da exposição, “a água atravessa tudo: está nos corpos, nas paisagens, nas memórias e nas formas que habitam a nossa imaginação”, sem esquecer “o movimento constante da transformação”.

Apresenta-se, assim, “um conjunto de obras em cerâmica, desenho sobre têxtil, pintura e objectos que nos convidam a explorar um universo onde o humano, o animal, o vegetal e o imaginado se encontram”. Estabelece-se ainda “um diálogo entre arte contemporânea e património, propondo uma reflexão sobre a água enquanto força criadora, transformadora e agregadora”.

rpt

Ao HM, a artista revela um pouco sobre aquilo que pode ser visto no Museu da Água. “O meu trabalho tem muitos animais, muitas pessoas, normalmente mulheres. Aliás, tem quase sempre mulheres. É muito raro haver um homem na minha obra, talvez porque se transforma em metáforas e bichos. Ou porque, simplesmente, já é difícil saber de mim.”

As obras onde a mulher surge em maior evidência são “Escultura ser de água + plinto”, em grês; ou “Anjo”, com 73 azulejos montados sem plástico com uma chapa de metal. Estas obras datam deste ano. Já na pintura, “Vertigo (Flamingo)”, a mulher também está em destaque, por entre tons brancos e rosa, numa instalação deste ano com o desenho de uma mulher feita num pedaço de cambraia de algodão.

O lugar do feminino

Ana Jacinto Nunes tem hoje uma relação mais próxima com o jardim de sua casa do que antes, estando presente no seu processo de criação. Assume ter “preocupações que, provavelmente, são comuns a muitas mulheres”, e que passa por “saber o que é que estamos aqui a fazer”, por exemplo.

“Só me tenho a mim como modelo, e a pergunta e resposta é sempre dentro de mim e não com os outros, portanto, estas perguntas essenciais que se fazem são comigo. De masculino tenho muito pouco”, responde a artista quando questionada sobre a forte presença da mulher na sua obra.

O feminino é, portanto, “a sua vida”, enquanto que os animais dos seus projectos não são sempre isso, podendo ser “metáforas”. “Não são necessariamente animais. Alguns serão, na sua maioria, ou não existem. Os pássaros podem não existir – não são os pássaros do meu jardim. Se calhar, são uma metáfora para a liberdade, para os voos, para o sair, para a evasão. Outros bichos serão o meu filho, a minha filha, o meu namorado, o meu pai, a minha mãe”, acrescenta.

Sobre “Into Slumber”, um desenho de acrílico feito em pano cru, de 2014, retrata-se uma espécie de sonho. “Os sonhos, bichos, plantas, pessoas podem ser todas uma amálgama, o que, no fundo, somos. Achamos que somos todos separados, mas não. Não há como se dizer isto de outra forma, a água é vida.”

Ana Jacinto Nunes recorda uma mostra feita em 2008, intitulada “O Vestido Azul e Outros Banhos”, para mostrar a importância fulcral da água. “Quando vestes um vestido azul, estás de volta de azul, quando tomas um banho de banheira, estás imersa, e quando tens filhos, és parte de uma família. Quando te pões num jardim, és parte dele. Sem água, não cresce nada, e se as plantas não crescerem, se não derem refúgio aos pássaros e aos roedores… Se eu não regar, nada cresce, e nada vai aparecer. Tal como na nossa vida: se não pensarmos, não lermos, não procurarmos, não vamos colher nada”, rematou.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado