Sexanálise VozesMulheres modernas na profissão mais antiga do mundo Tânia dos Santos - 8 Jul 2026 Na crónica anterior falei das novas formas de monetizar a intimidade. Mas existe uma realidade muito mais antiga: vender sexo. Parte do trabalho sexual no mundo tem evoluído para formas mais independentes, que muito se distancia da visão clássica de um proxeneta que coloca mulheres nas ruas. Existem situações gravíssimas de exploração e tráfico humano, e os mecanismos existentes continuam longe de conseguir preveni-las – mas isso não invalida a experiência de muitas mulheres, principalmente em países da América do Norte e na Europa, que escolhem enveredar pelo trabalho sexual. E fazem-no com uso de uma narrativa rica e diferenciadora, que muito se afasta dos estereótipos que este universo incita. Claro que a escolha nunca é livre de restrições, nomeadamente, da sociedade capitalista, que exige dinheiro para viver, enquanto se mercantiliza toda a experiência humana – mas não é sobre esta questão que me quero debruçar. A reflexão sobre este tópico começou quando passei a acompanhar o trabalho de trabalhadoras do sexo no Instagram, que, apesar dos riscos de verem a sua conta suspensa, trazem as suas vozes e experiências para desmistificar o trabalho sexual que praticam. O que foi mais interessante ver foi a forma como se promovem. Elas têm as suas contas, sites e conteúdos onde explicam as suas preferências e formas de trabalho. Do que eu verifiquei, estamos a falar de 1000 euros por 2 horas de intimidade. Não são os valores praticados pela típica trabalhadora do sexo, mas para quem possui capital cultural, tempo e formas de investimento para um marketing mais cuidado. Nas redes sociais estas mulheres partilham como o trabalho sexual foi uma escolha consciente. Mostram como são independentes nas suas escolhas e na forma como produzem riqueza. E a verdade é que agora vemos disponíveis ferramentas para que estas mulheres possam ter maior emancipação e independência criativa e financeira na forma como trabalham. Não só conseguem promover o seu trabalho em redes sociais – usando o método da influencer que partilha a sua vida – mas também em plataformas específicas, para quem quiser vender conteúdo mais explícito. Na OnlyFans, em especial, uma plataforma amplamente utilizada para conteúdos de entretenimento adulto, através de subscrições mensais, podem serdirectamente recompensadas pelo conteúdo que criam. Para quem fizer sentido, as mulheres podem usar esta plataforma como divulgação do trabalho, enquanto geram algum rendimento. Ou seja, enquanto no passado a vida de uma prostituta era inacessível e obscura, agora existem ferramentas para torná-la uma narrativa, muitas das vezes requintada e complexa. As limitações a esta emancipação são, contudo, reais e contingentes às políticas de gestão online que podem criar alguma precariedade neste trabalho. A “independência” destas mulheres é condicional: não são donas dos meios de produção, apenas utilizadoras de plataformas que podem alterar políticas ou suspender contas sem aviso. Isto pode inverter a narrativa de emancipação — trocam um proxeneta por um algoritmo. Para além de que nem todas têm acesso aos recursos que tornam possível construir este tipo de narrativa – contribuindo para desigualdades acentuadas no mundo das acompanhantes. O que fica claro é que apenas um nicho consegue transformar esta lógica de mercado em vantagem.É este nicho que vende um serviço muito específico construindo uma estética complexa e diferenciada. O cliente é atraído não só pelo físico, mas pela experiência que prometem com narrativas visuais muito distintas. Nada do que vi no Instagram sugeria uma indústria onde todas reproduzem o mesmo modelo – directórios de serviço de acompanhantes, por exemplo, mostram uma realidade mais repetitiva com visuais e corpos mais prototípicos.Do que vi nestas contas de Instagram, as suas personalidades eram alimentadas pelas wishlists de prendas que gostavam de receber (por exemplo, lingerie que custa um salário mínimo em Portugal), as flores de que gostam, ou como e onde gostam de jantar fora em várias cidades da Europa. E apesar de imaginarmos o trabalho sexual como algo impessoal, uma transação íntima sem qualquer contexto, a mulher moderna na profissão mais antiga do mundo enriquece a experiência com aquilo que ela é ou que gosta de representar. As técnicas de branding pessoal tornaram-se centrais neste novo modelo de trabalho. Ao dispensarem intermediários, muitas destas mulheres conseguem apresentar-se ao mercado como um produto complexo, onde a identidade faz parte da experiência que vendem. Talvez a profissão mais antiga do mundo tenha mudado menos do que imaginamos. Ou talvez tenha mudado precisamente onde menos esperávamos: deixou de vender apenas sexo para vender uma narrativa e uma experiência cuidadosamente construída, apanhando a onda das redes sociais e das suas potencialidades. Estas formas de exposição e de liberdade criativa têm um potencial de democratização enorme, e é essa a experiência que este nicho de mulheres partilha — não sem custos e consequências para quem não domina estas técnicas de divulgação pessoal.