Mundial 2026 | Manuel Silvério e Duarte Alves analisam as carências do futebol local

Das 211 selecções nacionais registadas na FIFA, a selecção da RAEM ocupa o 194º lugar, não vencendo um único jogo desde 2019. Na radiografia à modalidade, Manuel Silvério e Duarte Alves dizem faltar infra-estruturas de treino, coordenação de calendários, competições e interligação entre escalões

O Mundial 2026 começou hoje e até ao próximo dia 20 de Julho será possível ver 48 selecções nacionais de futebol em competição. Num território pequeno onde o futebol não é profissional, a selecção masculina sénior da RAEM não fica bem na fotografia da modalidade em termos mundiais: está em 194º lugar num total de 211 equipas, não vencendo qualquer jogo desde 6 de Junho de 2019.

O HM falou com Duarte Alves, director administrativo e financeiro do Benfica de Macau, e Manuel Silvério, antigo presidente do Instituto do Desporto e co-fundador do Comité Olímpico de Macau, no sentido de perceber os principais problemas do futebol local que impossibilitam alcançar melhores resultados.

Para Duarte Alves, “o Mundial não é um horizonte realista para Macau”, por se tratar de uma “região muito pequena e com infra-estruturas ainda muito limitadas para desenvolver esta modalidade”.

Em alternativa, o dirigente desportivo destaca que a RAEM poderia ter a “ambição” de “ir um pouco mais longe nas fases de qualificação: competir melhor, somar resultados e subir degraus ao nosso nível”.

Já Manuel Silvério entende que a ausência de vitórias da selecção masculina sénior da RAEM deve “suscitar preocupação e debate público”, mas que é resultado de um “problema estrutural”.

Voltemos às causas: Duarte Alves recorda que já muito antes de 2019 houve bons jogadores em Macau “ainda antes da fase da transição” que acabaram por não ser substituídos. “Faltou aposta na formação, na estrutura que a sustenta, de jovens para os clubes. É essa a falha de base que explica porque a selecção não dá o salto”, disse.

Duarte Alves destaca como, nos últimos anos, a Associação de Futebol de Macau “tentou várias estratégias”, como a vinda de equipas técnicas de Portugal e de outros países e regiões. “Porém, com todo o respeito, não é por aí que se constrói uma selecção”, considerou, pois uma equipa desta natureza “desenvolve-se a partir de uma liga competitiva, em que os jogadores jogam todos os fins-de-semana, evoluem e, ao mesmo tempo, elevam o nível do futebol em Macau”.

Abertura em profundidade

Manuel Silvério também destaca que “a qualificação para uma fase final do campeonato do Mundo é, realisticamente, extremamente difícil para um território com a dimensão populacional de Macau”. A aposta deve fazer-se, assim, na redução “gradual do fosso competitivo” do território, com um foco a “nível local, regional e asiático, particularmente perante territórios e países com características semelhantes”.

O antigo presidente do ID considera que era importante a “articulação entre escolas, academias, clubes e selecção, melhorar a formação de treinadores e proporcionar mais oportunidades de competição internacional aos jovens atletas”. Seria ainda importante “criar percursos claros de desenvolvimento até ao escalão sénior”, acrescenta.

Manuel Silvério defende mesmo a criação “de um fundo específico para o desenvolvimento do futebol e de outras modalidades prioritárias, alimentado por receitas associadas à indústria do jogo e complementado pela participação dos principais patrocinadores privados, sob supervisão do Governo”.

Desta forma, este mecanismo “permitiria assegurar maior estabilidade financeira e apoiar programas de formação, competição externa e desenvolvimento técnico a médio e longo prazo”.

A pés juntos

Manuel Silvério diz que a ausência de resultados futebolísticos por parte da selecção se explica por “questões estruturais e não apenas circunstanciais”. “Uma selecção nacional é, em grande medida, o reflexo do sistema futebolístico existente. Aspectos como a reduzida base de recrutamento, a insuficiente exposição dos jogadores a contextos competitivos mais exigentes, as dificuldades na transição entre os escalões de formação e o futebol sénior, bem como a falta de competição regular de maior nível, podem contribuir para esta realidade”, disse o responsável.

Assim, é essencial, para Manuel Silvério, “um plano de desenvolvimento sustentável para o futebol de Macau, com objectivos claros a curto, médio e longo prazo”. Deve existir “continuidade, estabilidade e capacidade de adaptação”.

E não basta ter dinheiro até porque, para Manuel Silvério, “desde a criação da RAEM que houve investimento relevante em infra-estruturas desportivas, concretamente no futebol”, destacando a existência do Estádio de Macau, o Complexo Desportivo Olímpico (Dome), o Estádio da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau, as instalações desportivas da Universidade de Macau e “outros espaços utilizados para treino e prática informal”.

Porém, “o desenvolvimento económico e a disponibilidade de recursos não se traduzem automaticamente em sucesso desportivo, particularmente numa modalidade tão competitiva e complexa como o futebol”, remata Manuel Silvério.

Modelo que não funciona

Duarte Alves destaca que o capital existe “no Governo e em alguns sectores – mas isso não é a sociedade”. “O dinheiro é essencial para investir nas modalidades. Acontece que, em Macau, o financiamento ao desporto, por parte do Fundo do Desporto, passa pelas associações gerais que representam cada modalidade, que recebem e gerem o seu orçamento à sua maneira.”

Além disso, o dirigente dos encarnados referiu que “a maior parte do sector privado não tem liquidez”, e que “não existem incentivos nem benefícios que o leve a apoiar financeiramente o desporto”. “O ponto central é que o modelo de apoio directo por parte do Governo às associações gerais resulta bem para as modalidades individuais, mais fáceis de gerir porque não dependem de competição entre clubes”, afirma Duarte Alves.

Porém, “no futebol é diferente”, estando em causa “uma modalidade colectiva só se desenvolve com competição regular entre clubes”. “Enquanto financiarmos o futebol com a lógica de uma modalidade individual, o resultado vai continuar a ser este. Não é só uma questão de quanto se investe; é de perceber que o futebol exige uma estratégia própria”, rematou Duarte Alves.

Mais academias sem resultados

É certo que, nos últimos anos, surgiram em Macau várias academias de futebol, mas nem isso melhorou os resultados. Manuel Silvério diz ser “importante reconhecer o grande empenho e dedicação dos responsáveis, treinadores e técnicos das diversas academias de futebol que têm surgido em Macau”, sendo que os resultados deste trabalho “não devem ser avaliados exclusivamente através das vitórias da selecção sénior”.

Para o antigo presidente do ID, “a formação é um processo de longo prazo, cujos efeitos podem demorar vários anos a tornar-se visíveis”. O que acontece é um problema “na transição entre os escalões de formação e o futebol sénior”, pois “muitos jovens entram no sistema, mas poucos conseguem permanecer”, dadas as exigências de estudos ou trabalho, por exemplo. Como não há uma estrutura, muitos atletas deixam de competir, destaca. “’Muitos entram, poucos permanecem’ talvez resuma um dos principais desafios do futebol de Macau”, disse Manuel Silvério.

Duarte Alves realça o aumento de academias “nos últimos 10 a 15 anos”, mas destacando cinco problemáticas que explicam a falta de resultados. Em causa está a regulação, estrutura, espaços de treino, o calendário e a transição para uma posição sénior.

Duarte Alves explica que as academias “não são obrigadas a registar-se na Associação de Futebol de Macau, nem a cumprir requisitos de qualidade ou de certificação dos treinadores para operarem”, logo não há “garantia do nível da formação”.

Depois, “a maioria não está ligada a clubes de primeira ou divisão”, não existindo “ponte directa para subir ao futebol federado”, além de que “os clubes não têm campos próprios”, dependendo “sempre do aluguer de instalações privadas, o que encarece e limita tudo”.

O responsável indicou também que, apesar de o futebol escolar ser muito popular, não está “articulado com os escalões jovens da Associação”. “Campeonatos que deviam durar três ou quatro meses arrastam-se nove ou dez. Faltam campos, faltam datas, entram as férias, os miúdos saem de Macau, e quando a prova acaba há jogadores que já mudaram de escalão. Não é falta de comunicação; é falta de ligação entre o pólo escolar e o futebol de formação”, frisou.

Gonçalo Lobo pinheiro

Aos 18 anos é hora de o jogador “sair para estudar fora”. “Perdemo-los precisamente quando deviam dar o salto, e isso esvazia a continuidade no escalão sénior. No conjunto, é isto que torna tão difícil elevar o nível do futebol local com jogadores locais — e não a falta de vontade de quem trabalha na formação”, rematou Duarte Alves.

As dificuldades dos jogadores locais na profissionalização

Tendo em conta o panorama específico do futebol de Macau, não só no tocante ao baixo lugar que a selecção ocupa no ranking mundial da FIFA, como na pouca profissionalização das equipas, é difícil um jovem local ter uma carreira futebolística.

Quem o diz é Duarte Alves, director financeiro e administrativo do Benfica de Macau: “para um residente de Macau, chegar à elite é muito difícil, por um conjunto de condições que se acumulam contra ele”. O responsável aponta, desde logo, falhas no acesso a boas instalações, já que “um clube tem, muitas vezes, acesso a uma hora de treino por semana, num campo ou meio campo de futebol de onze”. Assim, “sem espaço para treinar e formar, não há resultados nem desenvolvimento possíveis”, além de que é necessário “ter um ambiente profissional que Macau não tem”.

“O futebol sénior não é competitivo e apoia-se sobretudo em jogadores estrangeiros para ter qualidade; o campeonato de formação é confuso e sem calendário consistente”, declarou.

Duarte Alves recorda ainda que um potencial jogador que queira sair do território “esbarra noutras barreiras”, pois “a nível regional o caminho é estreito e instável”. “As regras da China para jogadores de Macau mudaram várias vezes ao longo dos anos”, sendo que “mesmo quando contam com jogadores locais, cada clube só pode inscrever um”.

A nível europeu, tudo depende da família. “Pelas regras da FIFA, um clube só pode receber um jogador menor de 18 anos se os pais se mudarem para esse país por motivos não ligados ao futebol. Sem a família inteira a emigrar, a porta está praticamente fechada.”

Desta forma, Duarte Alves diz que “não é talento que falta a Macau, mas o ambiente e condições à volta do jogador”.

Um caminho difícil

Manuel Silvério diz que não é “impossível” a que um jogador local atinja a profissionalização, mas espera-o “um percurso muito exigente”, dadas as “limitações objectivas” do território. É o caso da “reduzida dimensão populacional, a inexistência de uma liga profissional e um contexto competitivo menos exigente quando comparado com outros países e regiões”. Para Manuel Silvério, persiste o “verdadeiro desafio” de “criar condições para que esses jovens possam permanecer no sistema e continuar a evoluir”.

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