Macau Visto de Hong Kong VozesDe volta ao Titanic (II) David Chan - 21 Abr 2026 A semana passada mencionámos que The History Press, uma editora britânica, tinha publicado a 26 de Março o livro “The Aristocrat and the Able Seaman” (A Aristocrata e o Marinheiro). A protagonista é Noël, Condessa de Rothes, e a autora é a sua bisneta, Angela Young. Quando arrumava os pertences da bisavó, Angela descobriu inesperadamente muitos documentos relacionados com o Titanic, incluindo o testemunho juramentado de Noël em Los Angeles, provas suficientes de ela ter sido uma das sobreviventes do naufrágio. A sua correspondência de décadas com o marinheiro Thomas Jones revelou detalhes desconhecidos e factos sobre os botes salva-vidas durante a noite da tragédia. Thomas, então com 34 anos, tinha sido destacado pelo Capitão Smith para pilotar o salva-vidas nº 8. Devido à falta de experiência e de força das pessoas a bordo (quase todas mulheres e crianças), não conseguiam remar eficazmente. Noël, a sua parente Gladys Cherry e a criada Roberta Maioni, pegaram nos remos. Noel ficou ao leme, porque estava familiarizada com a condução de barcos. No mar frio e escuro, Noël confortou calma e gentilmente as mulheres e crianças aterrorizadas, demonstrando uma coragem notável e uma mente forte. Depois do Titanic ter afundado, Thomas e Noël foram dos poucos a bordo do salva-vidas que quiseram voltar atrás para salvar pessoas caídas na água. No entanto, a maioria dos passageiros estava aterrorizada, temendo que as pessoas que se estavam a afogar virassem o bote ou que este fosse ao fundo devido à sucção provocada pelo afundamento do Titanic e opuseram-se ao regresso. Por fim, os dois ouviram impotentes os pedidos de socorro desvanecidos na escuridão, um arrependimento que Thomas e Noël nunca conseguiram ultrapassar para o resto das suas vidas. Inicialmente, Angela pretendia escrever um romance com este material, mas a sua pesquisa aprofundou-se e ela sentiu que a história da sobrevivência de Noël e de Thomas, e da amizade entre duas pessoas de classes tão diferentes que aí se forjou, não deveria ser ficcionada. A autora espera usar estes relatos para reconstruir a verdade sobre o naufrágio do Titanic e aumentar a segurança marítima e as normas relativas aos botes salva-vidas. Deseja demonstrar como dois sobreviventes oriundos de meios completamente diferentes, colocaram em segurança pessoas aterrorizadas, com a sua coragem e cooperação. Além disso, quer celebrar a amizade de 44 anos entre a bisavó e Thomas, uma amizade que ultrapassou as barreiras de classe. Na sua opinião, esta nobreza de espírito que desabrochou face a uma catástrofe merece ser registada e divulgada. O encontro entre Noël e Thomas é em si mesmo lendário. Na Grã-Bretanha Eduardina de 1912, o sistema de classes era rígido e difícil de ser quebrado. Noël uma aristocrata e Thomas um marinheiro com apenas 1,55 m, nunca se teriam cruzado em circunstâncias normais. No entanto, uma catástrofe juntou-os, fazendo nascer uma amizade e um laço profundo. O destino ligou estas duas almas muito diferentes. Numa época em que se defendia o salvamento de mulheres e crianças em primeiro lugar, via-se frequentemente as mulheres como seres vulneráveis que precisavam de protecção. No entanto, Noël tomou a iniciativa de ir ao leme e de remar com vigor, demonstrando uma independência e uma responsabilidade que transcendiam o seu tempo. Thomas salientou que ela era “muito mais homem do qualquer um dos outros a bordo,” precisamente porque numa situação de vida ou morte, o que verdadeiramente importa não é o género ou o estatuto, mas uma mente calma, vontade inabalável e coragem para assumir essa responsabilidade. A nobreza de Noël não residia no seu título de Condessa, mas na sua determinação de esquecer esta condição e remar durante horas ao lado dos marinheiros plebeus, carregando a responsabilidade com a sua força física e com o poder da sua vontade. Esta é a verdadeira demonstração de que “uma posição alta implica uma grande responsabilidade” face ao infortúnio, a responsabilidade supera sempre o privilégio. Nasceu desta responsabilidade uma amizade profunda que transcendeu a vida. O aspecto mais comovente da relação de Noël e de Thomas foi o contacto nunca se ter perdido ao longo da vida e ter durado 44 anos. A placa de bronze com o número “8” gravado, oferecida por Thomas a Noel e o relógio de bolso em prata que ela lhe deu são símbolos da ligação forjada no oceano gelado. A correspondência que trocaram durante anos não se limitava a formalidades, era sim uma fonte de apoio emocional. Eram dos poucos que podiam compreender os arrependimentos e os traumas um do outro, nascidos naquela noite. Esta amizade transcendeu as barreiras da fortuna, de classe e do estatuto, erguida a partir de um respeito mútuo profundo. No filme “Titanic”, o rico homem de negócios Caledon Hockley e o seu assistente Spicer Lovejoy escondem o colar “Heart of the Ocean” no bolso de Jack, com intenção de o incriminar. Então a tripulação prende Jack num convés inferior, quase provocando o seu afogamento. Rose arrisca a vida para o salvar, mas os dois são perseguidos por Spicer, envolvendo-se numa perseguição feroz no convés inclinado. Se Jack, Rose, Caledon e Spicer tivessem estado mesmo no Titanic, e se a incriminação, a traição e a perseguição mostradas no filme tivessem realmente acontecido, Thomas e Noël tê-los-iam salvado? Isto é apenas um cenário hipotético e, naturalmente, não existe uma resposta. No entanto, temos razões para crer que Thomas e Noël não teriam hesitado em ajudá-los. Não conseguiram voltar atrás para salvar vidas devido à oposição dos outros passageiros, um arrependimento que carregaram toda a vida porque sentiam essa obrigação – a forma mais verdadeira do amor. Não ficariam de braços cruzados por causa das acções de Caledon e Spicer, e isto porque o amor não conhece fronteiras e todo aquele que é amado acaba vir a suportar as consequências das suas acções. O amor é universal, sem preconceitos, género, idade ou rancores – assim é o amor verdadeiro. Thomas e Noël são respeitados devido ao seu enorme amor aos outros. Que este grande amor continue a espalhar-se pelo mundo, trazendo calor e conforto a todos. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo