Cheong Kin Man e Marta Sala, artistas: “As nossas obras expandem-se no tempo; vivem connosco”

Ele é natural de Macau e formado em antropologia. Ela é artista visual, natural da Polónia. Com um projecto artístico conjunto, Cheong Kin Man e Marta Sala estão de regresso ao Oriente para participar na mostra colectiva “Between Image and Index”, na Universidade Baptista de Hong Kong, e para dar uma palestra no domingo, integrada na programação da Art Basel de Hong Kong. Mas há também projectos programados para Macau

Até ao dia 12 de Abril está patente na galeria da Academia de Artes Visuais da Universidade Baptista de Hong Kong a exposição colectiva “Between Image and Index”, onde trazem o vosso projecto “Apocalipses”, com novidades. Que conteúdos pode o público ver?

Após uma decisão conjunta com uma das duas curadoras do evento, Tong Yang, que nos convidou a participar [na mostra de Hong Kong], decidimos trazer a nossa instalação em expansão, “Apocalipses”, e que foi originalmente encomendada para a Bienal de Macau de 2023. Trazemos a peça têxtil original, de dois por dois metros de comprimento, e um vídeo experimental original de 19 minutos. Também foi expandido o livro do artista, que originalmente tinha 60 páginas e que agora, graças ao patrocínio da Fundação Oriente, foi alargado para 720 páginas [edição de 2025]. Acrescentámos também mais três peças têxteis, de 70 por 70 centímetros, que ressoam o conceito original de auto-etnografia da nossa história familiar.

De que forma?

Mais concretamente, um século de migração familiar de Vilnius para a Sibéria, perto da Mongólia, antes do fim da I Guerra Mundial; depois de volta à Polónia durante as deslocações em massa no final da II Guerra Mundial até à vida pós-guerra no sul da Polónia, nomeadamente na região da Silésia, em Katowice. Também foram adicionadas, como um complemento conceptual, duas das 12 bandeiras que criámos para a nossa mais recente série de “happenings” em Berlim, intitulada “Neukölln Trans-Lingual”, e que consistiu numa série de acções artísticas ao ar livre de invenção de línguas para as comunidades multilingues de Berlim, com o intuito de quebrar o gelo entre estas, realizada em Outubro passado. Teve também lugar uma exposição pop-up.

Qual o tema desta mostra colectiva, e de que forma o vosso trabalho se conjuga com os restantes?

Marta Stanisława Sala (MSS): A exposição “Between Image and Index” explora como as imagens contemporâneas podem ser traços significativos que moldam a nossa percepção e compreensão do mundo material e imaterial. O nosso trabalho pode assemelhar-se a uma espécie de altar, inspirado na tradição polaca do “canto sagrado”, que é criado a partir de diferentes têxteis e camadas de narrações, mas movendo-se também com o movimento do ar no espaço. O trabalho pretende ser um convite à interacção como um corpo no espaço da exposição, onde se podem explorar posteriormente diferentes histórias de outras obras. Existem alguns pontos comuns, como diferentes línguas, motivos cosmológicos, jogos com diferentes formas e significados ou também arquivos de memória têxtil familiar.

Na palestra deste domingo na Universidade Baptista de Hong Kong [Pictoriality as Mediator], integrada na programação da Art Basel de Hong Kong, o que vão abordar, concretamente? Como se sentem por fazer parte desta importante feira de cariz mundial?

Cheong Kin Man (CKM): Esta palestra faz parte do programa directo da Art Basel Hong Kong denominado “Exchange Circle”. Claro que é uma grande honra fazermos parte deste programa e conectar, ou mesmo reconectar, o círculo artístico de Macau e Hong Kong, [algo que] tem sido o nosso principal objectivo nesta viagem a Hong Kong e Macau. A curadora principal da exposição, Janet Fong, bem como a curadora Tong Yang, têm a visão de ligar Hong Kong, Macau e Shenzhen a Berlim e Francoforte; sendo, portanto, uma honra juntarmo-nos como dupla que liga também Cracóvia e Katowice e, claro, Lisboa. Somos uma dupla [de artistas] que se baseia na investigação, pelo que participar na Art Basel Hong Kong significa também um envolvimento directo no cruzamento entre a academia, a arte e, se assim o categorizar, o mundo comercial, o que é algo novo para mim. Em relação ao tema da palestra é desafiante para mim, mas, como sempre, irei desconstruí-lo etimologicamente. Enquanto dupla dizemos sempre que trabalhamos sobre a linguagem e a sua ficcionalização como uma ferramenta crítica de pensamento, tanto através da arte como da antropologia. Mas, na verdade, trabalhamos na maioria sobre o visual ou a ficcionalização de sistemas de escrita. Portanto, basicamente, do meu lado, partilharei a minha reflexão sobre simbolismos abstractos com o público internacional presente.

MSS – Da minha parte irei discutir [o conceito de] “pictorialidade” através da vida física dos têxteis. Trabalho com restos de têxteis usados, como retalhos de algodão ou seda, que carregam histórias de produção, exploração e trabalho, mas também traços familiares íntimos. Alguns tecidos no nosso trabalho provêm do meu arquivo familiar; foram cosidos pela minha bisavó, pela minha avó ou pela minha mãe em diferentes épocas e nos vários locais onde viveram. A seda veio da China? Foi comprada noutro lugar? Estes materiais encerram múltiplas possibilidades e histórias orais. Nas nossas instalações, reunimos diferentes tempos e contextos. Procuro os vestígios de uso, como buracos, farrapos, as partes que se desmoronam. Para mim, a pictorialidade não é uma imagem perfeita e acabada, é uma sinfonia de memórias fragmentadas. Encontro beleza no toque imperfeito do trabalho feito à mão, mostrando pontos e remendos visíveis. Aliás, a nossa peça principal e o livro de artista ostentam uma dedicatória numa língua fictícia a “todos os seres que cometem erros”. A minha mediação foca-se na sustentabilidade e na impermanência, na imperfeição e na vulnerabilidade, mas também na força encontrada na pluralidade.

“Apocalipses” já foi mostrada na edição de 2023 da Bienal de Macau. Como se sentem por apresentá-la novamente a Oriente?

CKM – Tem sido uma surpresa ver como tanto Hong Kong como Macau são diferentes da minha imaginação diaspórica, sobretudo Macau, que tem sido totalmente bilingue na minha cabeça [português e chinês], sendo também falante de alemão e francês. O regresso com “Apocalipses” trouxe-me a oportunidade de perscrutar a passagem intermédia entre o que imagino de Macau entre Berlim e Lisboa, bem como aquilo em que Macau se tornou. Isto é algo essencial para a minha investigação de doutoramento sobre o cruzamento entre translingualismo, memória afectiva, arte e diáspora.

MSS – “Apocalipses” também cresceu física e conceptualmente. Esta peça é uma parte viva da nossa prática auto-etnográfica conjunta. Acreditamos na “reciclagem artística”, adicionando constantemente novos elementos das nossas diferentes actividades e viagens. As nossas obras expandem-se no tempo; vivem connosco. Esta apresentação em Hong Kong já é diferente das anteriores, e também devido aos novos diálogos que temos tido com o público. Por exemplo, um artista de Hong Kong que nos visitou, Ken Kan, apresentou-nos recentemente a tradição chinesa do “pak ka pei”, ou seja, “poupão das cem famílias” ou “manta da memória”. Esta ligação entre a minha tradição têxtil polaca e esta tradição local de preservação da memória é exactamente o tipo de “criação de significado” que o nosso trabalho pretende.

CKM – O Consulado Polaco, bem como o Instituto Goethe, ambos sediados em Hong Kong, mostraram entusiasmo pela nossa participação na exposição colectiva, bem como pelas nossas próximas iniciativas em Macau. Isso tem um significado muito especial para nós, pois queremos realmente partilhar a nossa experiência europeia com Macau, uma vez que agora partilhamos a vida entre Berlim, Lisboa, Cracóvia, Katowice e Macau, juntamente com algumas línguas de trabalho (português, alemão, inglês, cantonense, polaco, francês e mandarim). Um Berlim e uma Europa multilingues e translingues como formas de viver têm sido algo muito querido para mim. Isto não só moldou a minha identidade como alguém de Macau que passa um terço da sua vida no velho continente, mas também inspirou a minha prática de criar línguas ficcionais.

“As Espantosas e Curiosas Viagens”, mostra que já fizeram em Lisboa, apresenta-se em Macau em Julho, na Fundação Rui Cunha (FRC). O que trazem de novo?

CKM – Será, na FRC, a nossa primeira exposição em dupla na Ásia e será ajustada com as obras passadas, sendo também expandida com novas obras. Iremos explorar a forma como podemos transformar a nossa exposição e prática comunitária, especialmente a invenção colectiva de línguas, em algo teoricamente útil tanto para a antropologia como para os estudos de Macau. Planeamos alguns “happenings” [acontecimentos ou eventos], que esperamos muito conseguir organizar com participantes de grupos.

MSS – A exposição em Macau será bastante diferente da nossa recente mostra no CCCM [Centro Científico e Cultural de Macau] em Lisboa, feita no Verão passado. Estamos a produzir uma instalação central completamente nova baseada na nossa investigação mais recente. Sinto-me honrada por ter o patrocínio do Consulado Geral da Polónia em Hong Kong e Macau para a nossa participação na exposição “Between Image and Index” e o entusiasmo no apoio da nossa exposição em Macau. Para nós, tal significa mais do que um apoio formal, mas sim um intercâmbio de investigação significativo. As nossas discussões com o Consulado revelaram quão pouca presença cultural polaca existe actualmente em Macau, e sentimos uma forte missão de mudar isso. Ao tecer histórias e materiais polacos no nosso trabalho, estamos a estabelecer um novo caminho artístico entre a Polónia e Macau. Trabalhando intensamente com a nossa curadora, Sara Neves, e recolhendo roupas descartadas e histórias locais durante a nossa estadia, estamos a integrar todas estas novas experiências na mostra. A exposição já está montada, mas está a crescer para se tornar num ambiente artístico e antropológico imersivo.

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