A Geopolítica do Ponto de Ignição

“Power is never silent; when diplomacy fails, it speaks in the language of escalation.”

Robert D. Kaplan

 

A relação triangular entre os Estados Unidos, Israel e a República Islâmica do Irão constitui, desde o final da década de 1970, um dos eixos estruturantes da política internacional no Médio Oriente. A sua evolução ao longo de quase meio século revela um padrão de antagonismo persistente, moldado por factores ideológicos, estratégicos, securitários e civilizacionais que se reforçam mutuamente. A partir de 2020, e com maior intensidade após 2022, este antagonismo adquiriu uma dimensão sistémica, na medida em que passou a intersectar rivalidades globais mais amplas nomeadamente a competição estratégica entre os Estados Unidos, a China e a Rússia e a influenciar directamente a estabilidade dos mercados energéticos, a arquitectura de segurança regional e a própria credibilidade das normas internacionais relativas à proliferação nuclear.

A génese deste conflito remonta à Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado central de Washington, e instaurou uma república teocrática baseada numa ideologia revolucionária xiita. A crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerão, que se prolongou por 444 dias, cristalizou uma percepção de hostilidade irreconciliável entre os dois Estados. A crise dos reféns deixou uma marca indelével na percepção mútua, consolidando a imagem dos Estados Unidos como o “Grande Satã” na doutrina revolucionária iraniana. Esta ruptura não foi apenas diplomática, pois representou uma reconfiguração profunda da ordem regional, ao substituir um pilar próocidental por um regime que se via como vanguarda de uma revolução antiimperialista e antisionista.

Para Israel, a ascensão da República Islâmica constituiu uma ameaça existencial. Até então, o Irão do Xá funcionava como um contrapeso estratégico ao nacionalismo árabe e às ambições regionais do Iraque. A partir de 1979, Israel passou a enfrentar um Estado que não apenas rejeitava a sua legitimidade, mas que se comprometia ideologicamente com a sua eliminação. O surgimento de uma República Islâmica abertamente antisionista representou uma ameaça existencial, alterando de forma permanente os cálculos de segurança israelitas. Esta percepção tornouse ainda mais aguda com o apoio iraniano a actores não estatais como o Hezbollah no Líbano e, mais tarde, a grupos palestinianos como o Hamas e a Jihad Islâmica.

A política externa iraniana, especialmente sob lideranças de linha dura, assenta numa visão ideológica que considera ilegítima a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Esta visão sustenta a construção do chamado “Eixo da Resistência”, uma rede de actores estatais e não estatais que inclui o Hezbollah, milícias xiitas no Iraque, grupos armados na Síria, os Houthis no Iémen e facções palestinianas. O objectivo desta rede é projectar influência, criar profundidade estratégica e aumentar os custos de qualquer acção militar contra o Irão. A lógica subjacente é clara pois ao dispersar o campo de batalha por múltiplos teatros, Teerão procura compensar a sua inferioridade convencional face aos Estados Unidos e a Israel.

Do lado israelita, a estratégia de segurança nacional assenta em três pilares com a manutenção de uma vantagem militar qualitativa, a prevenção de que qualquer rival regional adquira armas nucleares e a capacidade de realizar operações preventivas para neutralizar ameaças emergentes. Esta doutrina, desenvolvida desde a década de 1960, foi reforçada após a guerra de 1973 e consolidada com o ataque preventivo ao reactor nuclear iraquiano em Osirak, em 1981. A partir dos anos 2000, com o avanço do programa nuclear iraniano, Israel passou a considerar o Irão como a principal ameaça estratégica, e a possibilidade de Teerão atingir capacidade nuclear latente tornouse a derradeira linha vermelha.

Os Estados Unidos, por sua vez, desempenham um papel ambivalente. Enquanto potência global, Washington procura garantir a estabilidade das rotas energéticas, conter a proliferação nuclear e preservar a sua credibilidade como garante de segurança dos seus aliados regionais. Contudo, desde a invasão do Iraque em 2003, a política americana no Médio Oriente tem sido marcada por tensões internas entre tendências intervencionistas e isolacionistas. A retirada do acordo nuclear (JCPOA) em 2018, seguida de anos de sanções económicas e confrontos indirectos, contribuiu para um ambiente de desconfiança profunda entre Washington e Teerão.

Entre 2020 e 2025, a região assistiu a uma intensificação da chamada “guerra na zona cinzenta”, caracterizada por ataques cibernéticos, sabotagem industrial, operações clandestinas e confrontos através de proxies. Esta fase pode ser considerada como um período em que o conflito permanece sobretudo na sombra, com ambos os lados a procurarem infligir custos sem ultrapassar o limiar de um confronto directo. Esta dinâmica reflecte uma lógica de dissuasão mútua, pois cada actor procura evitar uma guerra aberta, mas também evitar parecer fraco perante os seus adversários e as suas audiências internas.

A partir de 2024, vários factores contribuíram para aumentar o risco de escalada. Em primeiro lugar, o programa nuclear iraniano avançou significativamente, aproximandose de níveis de enriquecimento e de capacidade técnica que, segundo avaliações ocidentais, poderiam permitir um breakout rápido. Em segundo lugar, a crescente assertividade do Hezbollah e das milícias iraquianas aumentou a pressão sobre Israel e sobre as forças americanas na região.

A partir de meados de 2025, sinais de deterioração acelerada tornaramse evidentes. Israel intensificou operações clandestinas contra cientistas e instalações iranianas; o Irão respondeu com ataques cibernéticos e com o reforço das capacidades militares do Hezbollah. No Golfo, incidentes envolvendo navios comerciais e drones aumentaram a tensão entre Teerão e Washington. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, apesar de esforços de aproximação diplomática ao Irão, continuaram profundamente preocupados com o expansionismo iraniano e com a possibilidade de uma corrida armamentista regional.

Neste contexto, o final de Fevereiro de 2026 surgiu como um ponto de inflexão. A combinação de avanços no programa nuclear iraniano, ataques de proxies contra interesses americanos e receios israelitas de que a janela para uma acção preventiva estivesse a fecharse criou um ambiente em que a dissuasão começou a falhar. A teoria da dissuasão ensina que esta falha ocorre quando a ameaça de punição deixa de superar o benefício percebido da acção agressiva. No caso iraniano, a percepção de que a obtenção de capacidade nuclear latente poderia garantir a sobrevivência do regime tornouse um incentivo poderoso para resistir à pressão ocidental.

 

(Continua)

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