GP | Rui Valente questiona permanência no automobilismo

Rui Valente viveu um 72.º Grande Prémio de Macau para esquecer. A tal ponto que o piloto com mais anos de actividade no automobilismo do território admite seriamente a hipótese de pendurar o capacete e arrumar as luvas, ou, pelo menos, deixar de alinhar na prova rainha de Macau, seja na Macau Roadsport Challenge ou mesmo em todo o evento

 

 

“Há um conjunto de factores que me levam a questionar se faz sentido continuar”, afirmou Rui Valente ao HM. O experiente piloto de carros de Turismo aponta várias razões para essa reflexão, nomeadamente “o facto de as corridas do Grande Prémio terem hoje muito menos interesse, por serem disputadas quase sempre atrás do Safety-Car, o actual sistema de pontuação para a qualificação de Macau e a atitude de alguns pilotos em pista”.

A mais recente edição do Grande Prémio não deixou boas recordações a quem se estreou no Circuito da Guia em 1988. O fim de semana da Macau Roadsport Challenge começou de forma negativa para o piloto português, que não evitou um toque nos rails na zona do Paiol durante o treino livre de quinta-feira, um incidente que condicionou toda a sua prestação. Depois de alcançar o 25.º tempo na sessão de qualificação, o infortúnio voltou a manifestar-se na corrida, quando a tentativa de recuperação aos comandos do Subaru BRZ n.º 16 terminou prematuramente na abordagem à Curva de São Francisco. No recomeço após o primeiro Safety-Car, Rui Valente foi abalroado por Li Kwok Chuen, numa manobra em que o piloto de Hong Kong tentou uma ultrapassagem pelo interior, num local onde não existia espaço disponível.

“Ainda hoje não consigo perceber o que lhe passou pela cabeça. Não sei como é que viu um espaço que simplesmente não existia. Talvez tenha pensado que eu iria levantar o pé para o deixar passar”, recordou o piloto, que soma trinta e seis participações no Grande Prémio de Macau e foi um dos nove representantes da RAEM na edição de 2025 da Macau Roadsport Challenge.

 

Lotaria do apuramento

Rui Valente tem sido uma das vozes mais críticas do actual modelo de qualificação para o Grande Prémio, que beneficia sobretudo quem termina uma das corridas entre os dez primeiros classificados. A utilização de viaturas idênticas por todos os concorrentes, Toyota GR86 (ZN8) ou Subaru BRZ (ZD8), acentua o equilíbrio de andamento em pista. A este factor junta-se o facto de apenas quatro provas contarem para o apuramento e de as grelhas ultrapassarem frequentemente as três dezenas de participantes, transformando cada corrida numa autêntica “batalha campal”, em que o objectivo passa por alcançar um resultado de topo numa única prova para garantir os pontos necessários à presença na grelha de partida do evento do mês de Novembro.

“Com tantos carros em pista ao mesmo tempo, há muitos pilotos sob enorme pressão para pontuar, o que acaba por provocar um número elevado de incidentes”, admite o piloto português. “Desta forma, o apuramento aproxima-se mais de uma lotaria do que de um processo verdadeiramente assente no mérito”, acrescenta o representante da Premium Racing Team.

Por outro lado, Rui Valente reconhece que os mais jovens são os principais prejudicados. Com uma experiência claramente superior à dos estreantes, que dispõem de menos quilómetros de pista e menor bagagem competitiva, o piloto sublinha, ainda assim, que a dificuldade não se restringe aos novatos. “Mesmo para quem tem muitos anos de corridas, como eu, a qualificação é extremamente complicada. Se assim é para os mais experientes, torna-se evidente que os jovens acabam por ser os mais penalizados por este modelo”, concluiu.

 

Próximo passo

Quanto ao futuro, Rui Valente – que recebeu o prémio de terceiro classificado entre os pilotos de Macau no Grupo A do MTCS Macau Roadsport Challenge, na Cerimónia de Entrega de Prémios de 2025 da Associação Geral Automóvel de Macau-China – ainda não tomou uma decisão definitiva. As alternativas em cima da mesa passam por manter-se em competição nos mesmos moldes, equacionar uma mudança de categoria, opção condicionada por limitações orçamentais, ou, em última instância, colocar um ponto final nas suas participações no Grande Prémio, ou mesmo na carreira.

O segundo piloto com mais participações na história do Grande Prémio de Macau, apenas atrás de Albert Poon, confessa que não perdeu o gosto pelo automobilismo, actividade que o mantém em excelente forma física aos 64 anos. No entanto, admite que “se calhar está a chegar a altura de deixar Macau. É uma pena, porque gosto mesmo muito disto. Aliás, o problema é que gosto muito disto”.

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