VozesEmboscada Amélia Vieira - 28 Mar 2025 Quando o perigo espreita é o corpo que fala. Somos capazes de decifrar em tempo recorde nossos poderosos transmissores que nunca saberemos exactamente de onde vêm. A impressionante capacidade de precisão é talvez a marca do pensamento para se ajustar ao improvável, uma rede genial de componentes que se agregam antes de qualquer análise: podemos designar como presciência, ângulo forte, talento inato para sobreviver. No entanto será sempre sobrenatural, pois que a natureza não necessita em sua constância de tais rasgos, que viver, afinal nem constitui um grande perigo, só que há momentos. Assim como as comportas da vida se nos abrem, também em nosso favor se agregam recursos, e a esta sucessão chamamos milagre, essa aritmética que devemos não indagar demasiado para que constitua sempre a sua própria atmosfera. Há muito que a Europa cultural de ramificações constantes e quase lendárias não reúne os seus papéis no quotidiano na vida das Nações, e passou a um embalo de entretenimento ofensivo nessas hostes, muitas vezes de um pretensiosismo difícil de interpretar, e não se revê a Leste e a Oeste, ao Centro, ou nos limites da sua periferia. Os dogmas lançados adormeceram o seu encanto cultural que nenhuma clarividência já pode despertar, que um certo hedonismo de base atravessou tudo para que mais ninguém sinta tempos vazios nas muitas entusiastas existências, e isto, começa como estamos vendo, a ruir de modos vários. Olhando melhor (longe para sempre qualquer teoria da conspiração, modelo enfático, superficial, delirante…) quando só nos resta uma certa e incisiva observação dos acontecimentos, sabemos que há muito mais de não revelado. Não há agora nenhuma análise que supere a grande conclusão de René Char: «os perigos vêm sempre de um ângulo de que não estávamos à espera». Para quem se entretém nesta amálgama de mudanças súbitas, para aqueles que se abrigam no chapéu-de-chuva das Nações, o que desconhecem do propósito inicial é tão grande, que correm o perigo de uma emboscada. É como a Rota da Seda, a China trazia um produto que chegando ao Mediterrânio, povos do deserto e de outras estradas de Damasco, encontravam, sem nunca se ver os verdadeiros rostos que fizeram da pilhagem uma arte maior. A Mongólia subia lá para cima com algumas afinidades com estas tribos nómadas, e ninguém concluiu ainda que toda esta região mais cá para baixo não tivesse estado no domínio do grande bicho-da-seda. Mais: que fora dela pioneira. E que fazem agora os nossos superlativos amigos que desdenham a Europa como quem esconde um escravo? Isso, ninguém sabe. Mas afinal, para que quereriam a Europa? Para nada. O facto de estarmos a ser reduzidos desta maneira é já extrema perfídia só mesmo comparada àquela majestosa frase romana «os deuses enlouquecem antes aqueles que querem perder». Se estivermos pensando que somos de uma atratividade inquestionável, o problema para além de patético, será ainda neste momento trágico, risível. Em última instância, e para não saturar ainda mais o mundo das estratégias, quem nos diz que são humanos os que representam os factores destas abruptas mudanças? A Inteligência Artificial pode estar bem mais adiantada, e nunca excluir participação extraterrestre nos domínios do agora. Nas nossas lides pessoais as coisas também não são melhores; estamos repletos de emboscadas, complexidades viciantes, delírios, que um continente tão velho de gentes, e tão atónito face à sua presunção, é agora incapaz de reagir com as prerrogativas que façam qualquer organismo defensivo. Estamos paralisados. Vamos e vimos na hora do chá, apertamos as mãos, esqueletos futuros, e sorrimos como se não quiséssemos entender mais nada. No entanto, fomos somente um Mercado Comum. A nossa moderna condição não chegou a ser mais nada, e como devemos calcular, o Mercado é sempre muito pouco. Partilhámos os bens comuns, iludimos a guerra, fizemos do desporto armações de antigos exércitos, só que nada disto agora importa, nem o atómico incentivo francês, que estas defensivas devemos entendê-las somente como a um perigo acrescido. Zelensky é um judeu em luta fora de uma terra já não prometida, mas tempo houve em que a Crimeia poderia ter sido o seu Estado. Tudo isto acabou e já passou do tempo, mas todos nos comportamos como se fosse uma realidade. A China suavemente não diz nada até cairmos todos inanimados em nossos dizeres. Há qualquer coisa muito mais vasta que todas estas tomadas de posição. Quando tudo nos começar a fugir como destino, devemos ter a circunspeção que nos possa fazer entender este novo mundo modificado.