Eterno retorno

Erguemos a nossa fronte com o suor dos trabalhos.
Que sempre escorrega farto dos nossos dias operários.
Em cada sujeição esperamos derrotar o que nos subtrai à vida a serva condição.
Que ela se atira a nós como fera em cio, e não perecer é nosso inteiro destino.
Se gritássemos? – Nem mesmo assim louvariam nossas vozes.
Dos males, só cantos para gentios.
Que nossa salvação é ainda o resultado de um pranto que se adentra.
Quando na labuta o corpo dele se deleita.
Suor marejado… estamos sós, as estrelas brilham, e no fogo fechado afagamos as feridas.
Tudo é pranto, brilho e suor, delírio vasto…. Estamos em terreno ósseo, longe, ossificados…
Subir este Gólgota divino onde os braços que se estendem se volvem mesmo assim em garras e espinhos.
Suamos! Estamos a andar, e quem és tu que não me vês em sangue e brasa
Sem que me tragas água?
Quem me tornei no topo, longe da gleba, curvada ao peso da mágoa?
Alguém que te sonhou! E tão longe se encontrava.
Que nós suamos ao subir a escarpa, e das frontes alagadas deixamos na terra rios.
Toma-nos então para teu esquecimento que brandimos neste transe
Sem nunca te ter ao lado.
Que assim calado, esqueças também a dor que nos deste como hábito.
Que tamanho anátema feriu a pressa das nossas asas, que voam do pavor da morte, ressuscitadas.
Na carne transportamos todas as ossadas -que o minério também arde- ao sol quente da Terra.
E se misturarmos as lágrimas – apenas eu ainda te amava- enquanto luz e caminho.
Na tua criação deixaste-nos órfãos, que o amante transforma no amado, a dor da exclusão.

E quem nos quer?
Quem, depois de suados, crucificados, brandindo por teu amor na última expiação?
Ninguém.
E com nossos braços abertos, plangentes, suados, não encontraremos mais dor.
Compunção. Mas chegados em entrega memorável, que os espinhos são agora um campo de trigo.
E neste abandono, o cálice de um eterno vinho.
Que tão grande amor, tão fresco e de seda, dessa sede nova composta em ti,
É ainda abraçar-te, e não mais ter medo desta antiga ordem, deste primeiro martírio, desta epifania.
Salva-nos, que somos divinos.
Que os castigos são dos tempos idos, percursos também de liberdade que nos deste a conhecer.
Só para tornarmos a Ti.

Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser…
Tortuoso é o caminho da eternidade.
Nietzsche

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