Terceiro Acto – Cena 4

Valério pega num cigarro e vai à lareira. Pega num toro de azinho com uma tenaz e junta-o às brasas incandescentes.

Valério
Ainda sonho acordado…

Traz de volta uma brasa e acende o seu cigarro com ela. Deixa-se ficar a olhar para a madeira a pegar fogo.

Valério
Acho que nunca tinha dito isto a ninguém.

Gonçalo
Porquê?

Valério
Porque é que sonho acordado?

Gonçalo
Não, porque é que nunca disseste a ninguém?

Valério
Sei lá… [pausa] Vergonha, talvez.

Gonçalo
[imitando uma mãezinha]
Já não tens vinte anos, filho…!

Valério
Pois não, mas ainda assim…

Gonçalo
Sonhas com o quê?

Valério
Coisas parvas…

Gonçalo
Isso já percebemos. [pausa] Dá-me um exemplo.

Valério
É difícil… [pausa longa] Se estiver a ouvir música, fico a imaginar que sou eu que a estou a tocar, ou a cantar… ou as duas coisas. [pausa] Acho que acontece o mesmo quando vejo um quadro… ou se vejo um jogo de ténis na televisão…

Gonçalo
Imaginas-te o tenista?

Valério
Sim… [pausa] A questão é… se calhar não é questão nenhuma…

Gonçalo
Desembucha, jovem!

Valério
A questão é a duração… e a quantidade que vezes que me acontece o mesmo

Gonçalo
O sonhar acordado?

Valério
Sim… e o facto de me acontecer com esta idade. [imitando uma mãezinha] Já não tens vinte anos, filho…!

Gonçalo
Pois não.

Valério
Pois não… mas a verdade é que acho que já não há remédio. [pausa] Mas não me acontece o mesmo quando leio um livro.

Gonçalo
Não?

Valério
Não. E olha que leio cada vez mais… deve ser da velhice.

Gonçalo
Ou seja, queres brilhar como músico, pintor ou tenista, mas não como escritor.

Valério
Já não vou brilhar em nada.

Gonçalo
No entanto, já escreveste algumas coisas brilhantes.

Valério
Que ninguém leu. [pausa] Mas é qualquer coisa mais profunda do que isso…

Gonçalo
Do que quê?

Valério
Do que o querer brilhar…

Gonçalo
Senta-te no divã e aprofunda lá isso.

Valério regressa à sua cadeira, perto de Gonçalo, e leva o seu milionésimo copo de vinho à boca.

Valério
Escapismo?

Gonçalo
Estás perguntar?

Valério
Estou a falar para o ar.

Gonçalo
Pronto…

Valério
[pausa]
Ou então é uma maneira de me manter activo, com vontade de fazer coisas… [pausa] se não desisto.

Gonçalo
Estás a conjecturar ou é já uma sentença?

Valério
Não estás a ajudar.

Gonçalo
Desculpa, continua…

Valério
A verdade é que é coisa de adolescente, o resto é conversa.

Gonçalo
Julgas que não há outros quarentões a sonhar acordados?

Valério
Não deve haver muitos.

Gonçalo
Se te ajuda achares que és único, tal como te ajuda sonhares acordado, ainda bem para ti.

Valério
Certo. O que não deve faltar por aí é quarentões adolescentes…

Gonçalo
[imitando uma mãezinha]
Já não tens vinte anos, filho…!

Valério
Pois não… [pausa] Mas é uma coisa que eu procuro… é parecido com a depressão.

Gonçalo
Depressão?

Valério
Não falo de depressão profunda, nunca padeci de tal coisa, felizmente… [pausa] Mas há qualquer coisa naquela depressãozinha ligeira… [pausa] Um prazer qualquer quando me deito no sofá e começo a descer na horizontal… pelo poço abaixo… tudo a escurecer à minha volta e a luz a ficar lá em cima… [pausa] Até acho que as duas coisas estão ligadas.

Gonçalo
A depressão…?

Valério
[abrupto]
Zinha!

Gonçalo
A depressãozinha e o sonhar acordado?

Valério
Sim…

Gonçalo
E é qualquer coisa que buscas, tu próprio?

Valério
Activamente, sim… se estiver em casa, então, é o meu desporto preferido. [pausa] Felizmente, já não me masturbo tanto como dantes. [imitando uma mãezinha] Já não tens vinte anos, filho…!

Gonçalo
Pois não.

Valério
Posso até ter à disposição um manancial de coisas para me entreter… filmes, livros… A verdade é que, a maior parte das vezes, ponho música e me deito a olhar para o tecto… [pausa] E… ou aguardo a descida ao poço, activamente, deixo o corpo relaxar, começam as lágrimas a correr… [com uma ponta de vergonha] Mas não me comovo, atenção, não tem nada que ver com comoção… é uma espécie de abandono…

Gonçalo
Isso é quase erótico.

Valério olha para Gonçalo, desagradado com o comentário aparentemente despropositado.

Gonçalo
Falo a sério! Parece que…

Valério
Eu percebo, sim… Sim, é esse abandono. [pausa] Ou então a música eleva-me e eu imagino que sou eu o músico…

Gonçalo
Para fora do poço…

Valério
Não é que estivesse no poço quando me deitei, mas sim… eleva-me… [pausa] para fora do poço, sim.

Gonçalo
[pausa]
E também procuras isso… essa elevação?

Valério
[inabalável]
Bem como a descida.

Gonçalo
[pausa]
Parece-me que tens isso tudo já muito bem dominado… parece a tua hora do ginásio.

Valério
Pois parece.

Gonçalo
E gostas.

Valério parece não saber o que responder, mas também não parece abalado com a afirmação que acabou de ser proferida.

Gonçalo
Cada um com o seu desporto…

Valério
[acanhado]
Já vivo com isto há tanto tempo que já nem penso muito no assunto, confesso.

Gonçalo
O desporto em si não tem nada de errado, se é isso que estás a pensar. Mas é uma droga, mais do que um desporto… sabe-lo bem. Uma droga pesada. [pausa] Há que saber dominá-la… um deslize e já foste.

Valério
Sim… [pausa longa] Se calhar está na hora de terminarmos a consulta, não?

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