h | Artes, Letras e IdeiasNada está perdido – Terceiro Acto | Cena 3 Gonçalo Waddington - 28 Jan 2022 Terceiro Acto | Cena 3 Gonçalo tira uma mancheia de tremoços e apaga o cigarro com a outra mão. Lá fora o vento começou a soprar de mansinho, indiferente à galhofa dos pássaros que se ouve através da janela. Valério volta a folhear o texto do amigo. Valério Devias acabar o livro… Gonçalo Já tinhas dito isso… Ou não? Valério Acho que não. Gonçalo Se dissesses história… Valério História? Gonçalo Em vez de livro. Valério [sorrindo] Por amor de Deus… Gonçalo É verdade… [pausa] Se dissesses história, não me fazia comichão nenhuma. “Sim, vou acabá-la em breve”… Mas livro… Já pesa na consciência. Valério acende novo cigarro e levanta-se. Vai até à janela e perscruta a escuridão sonora que acontece lá fora. Dobra-se e pousa os cotovelos no parapeito. Dá uma longa passa no cigarro. Valério Chega uma altura que tens de assumir… Gonçalo O livro? Valério [agastado] O que quiseres… livro ou não-livro. [exalando o fumo] Assume, toma uma decisão. Gonçalo olha-o, estranhando aquela súbita mudança de humor. Depois pega na garrafa de vinho e deita-o no copo. Valério fecha a janela e vem sentar-se outra vez ao pé do amigo. Valério [procurando as palavras] Talvez não sejas escritor. Gonçalo Ó diacho… Valério Vais escrevendo umas coisas… coisas boas, claro… mas não és um escritor. [pausa] Daqui a nada tornas-te um “poderia ter sido”… Gonçalo [curioso] Como é isso? Valério Aquele de quem toda a gente falava… o que poderia ter sido um grande escritor. [pausa] Há tantos assim, cheios de talento… escreveram uns contos, umas críticas, publicaram alguns poemas numa revista qualquer… e depois, quando chega a hora H, “ah e tal… morreu a minha mãezinha”… “a tecla A no computador saltou…”, “ando inseguro”… “tenho tido muitas traduções”… ou “ainda estou a pesquisar”… tudo serve para fugir do “não consigo, ponto final”. Gonçalo [melindrado] Mas eu começo sempre assim, caramba! Valério [divertido] Assim como? Gonçalo A achar que não consigo. Valério Mas uma coisa é um textículo de umas páginas, outra é um livro. Se te serve a manigância, ainda bem… mas para coisas de fôlego não podes ser tão infantil. Gonçalo [irritado] Mas qual infantil… estás a falar de quê! Valério [sorrindo] É um truque infantil, desculpa… vou dizer à mamã que não consigo andar de triciclo, a mamã vai dizer que o menino consegue, o filho, com a lágrima no olho, diz que não consegue de todo, a mamã insiste… Gonçalo [interrompendo] Que estupidez! Valério [continuando] O menino tenta, anda três metros… Ena, vês, a mamã não tinha razão?! Toma um miminho, meu amor… Gonçalo Já percebi. Valério Mas com o Paris-Dakar já não resulta. Gonçalo [interrompendo] Já tinha percebido! Valério Tens de arranjar truques mais adultos… ou então, fazes-te homenzinho e acabas já com o assunto: ou escreves, ou não escreves. Gonçalo [imitando uma mãezinha] Já não tens vinte anos, filho…! Valério Pois não… nem eu tenho pachorra para putos. Gonçalo De onde é que veio esse azedume todo? Valério [sorrindo] Dos trinta copos de vinho? Gonçalo aquiesce e os dois deixam-se mais uma vez ficar em silêncio. Valério começa a sorrir. Gonçalo [curioso] O que foi? Valério Já viste que temos sempre o mesmo intervalo de tempo entre os tópicos… [serve-se de mais vinho] Há aqui um padrão, meu caro. Há aqui uma tese a caminho, vais ver! [emborca o copo e serve-se outra vez] Se gravássemos as nossas conversas e as botássemos num software de edição de som, ias ver que as ondas sonoras das nossas vozes, as pausas, os isqueiros, os cigarros, o vinho a ser servido, o gargalo a bater no copo… ias ver… Aliás, ainda melhor…! Mandávamos imprimir o gráfico sonoro… ias ver… um padrão perfeitamente descodificável. Gonçalo Somos previsíveis. Valério De certa maneira, sim. Mas para nós próprios… Já temos o nosso ritmo. [pausa] Deve ter a ver com o espaço, também. [pausa] Agora não tenho bem presentes as nossas conversas noutros lugares, mas parece-me que esta casa [faz um círculo com o indicador], o sítio onde está, a montanha onde foi edificada, o material com que foi construída e blá, blá, blá influencia o ritmo… o padrão. Gonçalo Também não tenho presentes as nossas conversas. Mas reconheço o padrão, sim. E reconheço o padrão nos meus hábitos de escrita, agora que falaste disso. [pausa] A procrastinação… se bem que a domino bem. E sim, há sempre um muro qualquer que aparece à minha frente quando começo qualquer coisa… aliás, esse muro está sempre presente, mesmo quando não estou a escrever. Sobretudo quando não estou a escrever! Antes de dormir, lá estou eu “Não sou capaz! Não sou capaz!” [pausa] Mas ao contrário do que disseste, que eu uso esse muro imaginário como desculpa para justificar a minha incapacidade, talvez eu o use como combustível… [pausa] E olha que é altamente inflamável, deixa-me que te diga. Alimenta-me. Faz parte. Agora… será que eu alimento este hábito? Não sei, confesso. Mas resulta. Tenho é de fazê-lo resultar em coisas mais ambiciosas, para te poder esfregar na cara e mostrar que resulta. Valério “It ain’t bragging if you can back it up!”