Uma proposta política

O que se escreve só torna presente uma ínfima parte do que se pretende dizer e do que se vaticina ao ler. Todo o mundo é um texto em forma de material circulante e dele voltamos a dizer o detalhe e lemos a insignificância. Voltar a dizer o detalhe é, por exemplo, escrever uma obra de referência (‘A República’ de Platão para muitas pessoas). Ler a insignificância é, por exemplo, desvendar o que pode dar sentido a grande parte de uma vida (‘A Bíblia’ para muitas pessoas). O que sobra não é só o que escapa, pois o que escapa é fruto do acaso e o que sobra é fruto do infinito, ou seja, melhor dito, das infinitas possibilidades de que nos apropriamos apenas de partes ínfimas.

O que está ausente não se torna em acto visível diante de nós, mas persiste: existe por si. O Oceano Pacífico, as últimas palavras de Séneca ou uma das muitas crateras da lua não estão ‘aqui a acontecer’ comigo neste momento, mas é-me admitido registá-los em texto. Tudo o que não disse – e a que não me referi – enquanto levei a cabo este brevíssimo registo é aquilo que sobra; no fundo é quase a existência inteira e plena do mundo. E o que me escapou, por acasos existenciais da cronologia ou das exiguidades do espaço, é o que me impede de estar agora mesmo de pé na lua, em animada conversa com Séneca, e, ao mesmo tempo, a apontar para o maior dos oceanos do nosso planeta.
 
Todas as culturas do planeta se assemelham a filmes, cujas montagens apenas fizeram constar nas imagens alguns aspectos muito bem seleccionados. Poderá pensar-se, sem que venha mal nenhum ao mundo, que o essencial ficou sempre de fora.
 
Aquilo que existe não se cinge, pois, apenas à sequência e à simultaneidade da presença (isto é: do que se apresenta diante de nós como algo concreto e presente). Essa é a ilusão de todas as culturas milenarmente baseadas na ideia de um dogma fixo ou de um livro – que tudo revelaria -, mas também na ideia de uma unidade primordial ou ainda na convicção estrita de finalidade, aliada ou à eficácia, ou então à metáfora do ser (porque todos os seres são mortais). Mas mesmo que nos circunscrevamos a um mundo que se vê a si mesmo como uma série – ou como um imenso vitral – de presenças materiais (onde se inclui o que pensamos), eis que a tentação de as modular com regras de fundo parece ser superior às nossas próprias forças. Caracterizar historicamente a natureza do mundo escatológico ou do mundo ideológico e de todos os seus mapas e itinerários restritivos é vermo-nos numa prisão ou, se se preferir, num aprisionamento total do sentido.
 
A pergunta que se coloca será, pois, a seguinte: como lidar com um mundo em que a presença e a ausência nos mereçam a mesma acuidade e em que a felicidade passe, também, por libertar o sentido (e a fruição da vida) de sistemas que tendem quase sempre a fechar-se? Não haverá respostas definitivas, mas poderão precisar-se alguns caminhos a ter em conta. Por exemplo: valorizar o que não sou, o que (já) não tenho e tudo aquilo de que – em geral – não se fala; ler o mundo como uma pluralidade dispersa que encontrará por si mesma as suas próprias posições e não como uma assunção imediata (aquilo que, logo num primeiro momento, parece dar sentido ao que vivemos); ter na imaginação – e na dimensão inter-maginativa – um aliado e uma autonomia que ampliem a realidade e que resistam a todas as tentativas de a definir e de a delimitar; ou ainda: desvalorizar a agenda, a repetição de slogans e de ideologemas, a provisoriedade da rede, o habitus e a propagação dos fluxos, os modos da moda, as linguagens-tipo, os dogmas, as cartilhas e as hipnoses socialmente dirigidas. 
 
Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma ampla proposta de resistência política no sentido mais nobre do termo. Trata-se, enfim, de uma proposta bem menos utópica do que se possa julgar. Aquilo que é político define-se pelo agir livre de todos numa comunidade (e a comunidade hoje é, também, inevitavelmente, o mundo e não apenas a geografia onde nos demoramos). Infelizmente a ‘coisa política’ do nosso dia-a-dia continua, na sua larguíssima maioria, a seguir o formato dicotómico que é próprio das trincheiras pré-definidas e em que o discurso de ambos os lados é previsível, ou seja, já está escrito e enunciado antes de ser accionado e dito (neste ponto, direitas e esquerdas rivalizam). É óbvio que este modelo esgota, cansa os alicerces da democracia e provoca um niilismo de quem facilmente desiste e se entrega ou à passividade das ‘palavras de ordem’ fáceis (que se repetem na efemeridade da agenda e nas linguagens miméticas em rede) ou ao discurso populista que simula um ‘estar contra tudo e contra nada’, mas que é perigosamente violento e vazio por excelência. 
 
Reatar o político, na sua exigência de fundo, é tarefa que visa conquistar uma autonomia radical (conseguir pensar por si próprio e não por guiões através dos quais somos pensados), estimar a individualidade (e isso implica dar atenção ao que nos realiza já no presente e não numa meta distante, tal como acontece com o amor, com a criação artística ou com o pensamento), interiorizar um renovado culto da liberdade (focado também naquilo que ainda não é presente, por exemplo as decisivas equidades de género) e incentivar um respeito pró-activo, quer pelo ‘outro’ – onde se inclui o que geralmente traduzimos por “natureza” e o que nela habita -, quer pela igualdade de oportunidades de todos sem excepção (ainda que a percepção que nos é dada pelos media sugira que meio mundo à nossa volta é formado por ‘figuras ausentes’, como se parte do ‘todo’ não pertencesse a este planeta e à nossa ‘vidinha’). Reatar o político é ser um outro, sendo – implacavelmente – o próprio.

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