Rir em tempos de cólera

Escuso então de dar-vos as boas vindas a esta escuridão partilhada. Sabemos pelo que estamos a passar, sabemos que o tecto é o mesmo, que o que nos atinge e ao mesmo tempo nos une não respeita nada: nem fronteiras, nem juízos e por enquanto, nem a nós.

A nossa função enquanto espécie tem sido fazer com que a última parte da oração anterior seja invertida. E sabemos, oh como sabemos: já aqui estivemos antes e de muitas formas. Sempre resistimos, de uma maneira ou de outra, mesmo que os custos disso tenham sido trágicos.

No instante em que escrevo chega-me a notícia de mais uma vítima famosa do vírus, minha paixão adolescente e primeira musa de Antonioni: Lucia Bosé. Logo a seguir a televisão reporta que só em Madrid morreram já 1200 pessoas. Não há outra maneira de dizê-lo: dias terríveis e incertos.

E como podemos responder? Já se sabe das várias solidariedades que do maior ao mais pequeno gesto atravessam o mundo. É bonito e deveria ser praticado mesmo quando o quotidiano regressar a uma suposta normalidade. Mas de todas as formas de reacções que vêm de todo o globo a minha preferida e atrevo-me, a mais humana, é a do riso.

Já o devem saber, amigos. Terão recebido memes, vídeos, relatos de gente que de uma forma ou de outra ri da tragédia, de nós todos e de si próprio. Agora mesmo vejo um cidadão espanhol dizer que a sua agenda ficou sobrecarregada com as diversas manifestações e grupos que nasceram desta pandemia. E queixa-se, com graça, que isolamento é isolamento e suplica que o deixem estar sossegado.

A misantropia é fácil mas responder humanamente às crises é o mais difícil. O riso é um mecanismo de defesa exclusivo da humanidade que quando utilizado faz exactamente isso: humaniza. Aqui e agora estamos distantes da função purgativa do riso que Bergson defendeu no seu triplo ensaio de 1899. Não: estamos no território do famoso risus purus de Beckett, a defesa última do condenado, boca aberta em vírgula perante a desgraça e a infelicidade. Sempre existiu e por vezes em circunstâncias muito mais extremas do que vivemos: basta lembrar as anedotas que os prisioneiros dos campos de extermínio nazi ou dos gulags inventaram e trocaram entre eles.

Porque rir é isto: é desafiar a morte, trocar-lhe as voltas, driblá-la. É a vingança possível sobre a nossa pobre condição finita. Não se trata de romantizar esta situação concreta nem sequer um acto de alienação. Pelo contrário: é pegar o bicho pela cara, estar rosto a rosto com ele e seja qual for o desfecho, ganhar. E à medida em que me chegam provas sortidas deste riso de combate fico confortado e com a certeza que mesmo perdendo no fim dos fins, esta batalha assim já está ganha.

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